Ele acha o ritmo em qualquer pedaço, tambor ou sucata. Ele escreve música e canta poesia. Sem deixar nada disso de lado, investiga temáticas sociais e polÃticas em seu trabalho. Babilak Bah, artista paraibano que vive em Belo Horizonte, fala do ritmo como entidade sagrada e do tambor como um grande mestre. Sentada num café, escuto-o narrar suas histórias com a destreza de quem é Ãntimo da palavra.
Gilson César da Silva, que mais tarde ganharia o apelido de Babilak, ainda criança já cantava e batucava pelos cantos de seu bairro. No bar da esquina ele tirava sons dos copos cheirando a cerveja e pinga e voltava para casa com os bolsos cheios de moedas. O músico viveu sua infância e adolescência em João Pessoa, criado pela mãe, Iracema Gomes da Silva. Mesmo sendo analfabeta, foi dela que Babilak herdou o interesse pela palavra. “Cresci ouvindo seus cânticos e rimasâ€, conta.
Dona Iracema, empregada doméstica, levava o menino todos dias para o trabalho na casa de uma famÃlia da classe alta. Na biblioteca dessa casa ele olhava os livros admirando a quantidade de letras e cores. Um dia, conta, num acesso literário, roubou da estante o livro “Euâ€, de Augusto dos Anjos. “Esse livro marcou muito a minha vida. Foi ali que descobri a literatura. Além do que, foi meu primeiro delitoâ€. Naquela casa, Babilak teve contato com outros livros, revistas e jornais e conviveu com polÃticos da sociedade paraibana que sempre passavam por ali. “Ir da minha casa para a casa deles era um transitar entre dois mundosâ€, explica.
Talvez tenha sido essa convivência com polÃticos na adolescência, ou fato de ter nascido na véspera da data de inÃcio da ditadura, 1º de Janeiro de 1964, ou apenas a vontade de se envolver com as questões polÃticas no paÃs. O fato é que a polÃtica foi uma parte importante da vida de Babilak. Ele conta que tudo começou com um grupo da igreja local, do qual ele fez parte no inÃcio dos anos 80. O grupo discutia a situação atual do paÃs e lá Babilak se envolveu com teatro, música e poesia. Foi também nessa época que o adolescente encontrou pessoas que o despertaram para o valor da cultura popular e da negritude. Ele passou a conhecer Nietzsche, Gramsci, Naná Vasconcelos, Paulinho da Viola, e Pierre Verger, além dos emboladores de coco e todo o cenário musical Nordestino, especialmente o Movimento Jaguaribe Carne.
Depois vieram os movimentos negros, e mais tarde a militância do PT. Como poeta do partido, viajou o Brasil inteiro, recitou versos em um comÃcio do Lula e até vira garoto-propaganda do PT. “Eu não sei muito bem como isso aconteceu, um dia tiraram minha foto e no outro eu estava estampado em camisetas e bótons do partidoâ€, conta com um sorriso discreto e uma pontinha de orgulho. “Ver minha imagem projetada foi importante para me ajudar a me assumir como artistaâ€, acrescenta.
“Eu era músico e não sabiaâ€
Mesmo durante suas atividades ligadas à performance no grupo da igreja e mais tarde suas viagens pelo paÃs como o poeta do PT, Babilak explica que não se imaginava como artista. “Eu era desencontrado com minhas vontadesâ€. O encontro aconteceu em 1988, quando ele estava em BrasÃlia se preparando para mais um comÃcio do PT. Na sala onde aguardava havia um atabaque, e o artista começou a tocar o instrumento, até que um homem que passava na porta entrou atraÃdo pelo som. “Ele disse que eu tocava bem e perguntou se eu não queria substituir um percussionista num barzinho naquela noite. Eu não ia fazer nada mesmo, então aceiteiâ€. E assim, meio que por acaso, Babilak subiu no palco e algo mudou. “Eu me acheiâ€, conta.
No mesmo ano Babilak fez sua primeira visita à Belo Horizonte, atraÃdo pelo movimento musical do Clube da Esquina e pela produção literária da cidade. Dois anos depois voltou para a ParaÃba, e em 1990 conheceu uma belo-horizontina com quem se casou. “Não tinha jeito, BH tava no meu destinoâ€, ele fala sorrindo. Depois de voltar para a cidade mineira, começou a desenvolver seu trabalho como percussionista partindo de um instrumento inusitado: a enxada. O músico conta que a idéia também surgiu de repente, enquanto assistia a um show. Durante uma das músicas, um dos percussionistas pegou uma enxada e tirou um som fino dela, tocando sua parte metálica. “Aquele som ficou guardado comigoâ€.
A terra e a loucura
Em 1998, Babilak criou o projeto “Enxadárioâ€, a partir de uma oficina chamada “Saque Sonoroâ€, em que o artista experimenta com o som de enxadas e outros instrumentos inusitados. Em 2003 ele teve o projeto de um cd aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Três anos depois, ele lançou o álbum “Enxadário - Orquestra de Enxadasâ€, com a presença de outros quatro músicos. Nas músicas, a temática da reforma agrária é forte, coisa que carrega consigo nas lembranças de infância. “A questão da terra no nordeste é muito forte. Lembro dos grandes acampamentos do Movimento Sem-Terra que ocupavam a Praça dos Três Poderes de João Pessoa. Outra coisa que me marcou demais foi o massacre de Eldorado de Carajás ( no episódio, ocorrido no sul do Pará, 19 sem-terra foram mortos pela PolÃcia Militar durante um protesto do MST em 17 de abril de 1996)â€.
Babilak realiza também um trabalho com portadores de sofrimento mental do Centro de Convivência de Venda Nova, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O artista desenvolve uma oficina de ritmo, musicalidade, expressão e criatividade. Em 2002, a experiência rendeu um cd, com participação de 37 dos 70 pacientes. O álbum “Trem Tan-Tan†registra as experiências musicais do grupo e conta com direção musical de Babilak Bah e participação de vários outros músicos mineiros. Em parceira com a prefeitura de BH, o cd foi lançado no mesmo ano e atualmente está esgotado.
O futuro e o nome
Além de realizar shows do Enxadário e do Trem Tan-Tan, de ter lançado três livros de poesia e composto trilhas para espetáculos da dança (a música Haga-Mangue foi feita para a Companhia de Dança Cisne Negro de São Paulo no espetáculo “C/Cordasâ€) e para o cinema (ano passado uma de suas músicas fez parte da trilha sonora do filme brasileiro “Mão Armadaâ€), Babilak Bah ainda quer muito mais. Ele conta que seu maior sonho é compor mais para o cinema, mas enquanto isso não acontece, ele planeja para novembro desse ano um espetáculo que envolve poesia, performance, instalação e filme. E para o ano que vem já está compondo um disco que, segundo Babilak, vai ser seu “reencontro com a ParaÃbaâ€, com uma releitura contemporânea da tradição cancioneira do estado.
E se até agora a origem do nome “Babilak Bah†não foi explicada, é porque ele guardou a revelação para o final, e aqui resolvi fazer o mesmo. O nome, o artista explica, surgiu durante um acampamento com amigos, enquanto Babilak “batia†num atabaque. Um de seus amigos disse “quando você toca esse atabaque sai um tanto de babilakâ€. O nome pegou, e mais tarde, sua primeira esposa (que era numeróloga) adicionou o “Bahâ€, para uma harmonização do nome. Mas para cada pessoa que pergunta o porquê do nome ele inventa uma resposta. “É um personagem que foge da ignorânciaâ€, ele também me disse...
Para conhecer: www.babilakbah.mus.br
Para ouvir: www.myspace.com/babilakbah
Para ver: www.youtube.com/babilakbah
estou achando o texto grande, mas preciso de sugestões de edição! rsrs
Marina Maria · Belo Horizonte, MG 7/5/2007 01:03
Legal, Marina!
Aproveita e dá uma olhada num subtÃtulo que ficou grudado.
Talvez seja o caso até de deixar uma linha em branco também depois deles...
Abraço!
Não tá grande, não. Tá de bom tamanho... : ))
Mas falta um crédito na foto...
Abraço!
Acabei de perceber Egeu... Muito obrigado pela observação! abs!
Marina Maria · Belo Horizonte, MG 7/5/2007 01:06
ué eu podia jurar que tinha posto o crédito...
a madrugada tá me afetando
obrigada de novo pelo toque!
ficou legal o texto!
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 7/5/2007 08:22
Gostei muito do som, épico! Já que estamos na temporada de sugestões, você não quer conferir se o porquê da pergunta não é separado? Sendo uma pergunta...
E viva a enxada percussiva!
Salve Marina!
Excelente Maravilha como diria meu conterrâneo Pereira da Viola... muito bom este texto, bom que fiquei sabendo um pouco da história do Gilson César da Silva... sempre achei que ele se chamava Babilak. O trabalho deste cabra é maravilhoso... que bom que vc está fazendo a assessoria para ele. Dá o toque no Capileh Charbel , ele faz o Programa de Rádio do Overmundo.
No mais... tamo junto nessa missão sonora.
Yuga
Ei Helena, obrigada pelo comentário. Eu não sei se você tá falando do primeiro "porque" (E se até agora a origem do nome “Babilak Bah†não foi explicada, é porque ele guardou a revelação ..) ou do segundo ( Mas para cada pessoa que pergunta o porquê do nome ele inventa uma resposta...). Bom, é aquela velha confusão né =P. Mas pelo que eu sei, o primeiro é "porque" junto porque indica causa, motivo, e o segundo é "porquê" porque é um substantivo, que vem seguido do artigo "o". eu acho que é isso...
yuga, obrigada pela visita, pelo comentário e pela força!
Olá Marina.
Que legal o trabalho do Babilak. Visitei o site do cara, muito bom.
E se eu não tenho nenhuma sugestão de edição é porque eu acho que não precisa mudar nada :)
Ih, não, Marina, acho que não me expliquei bem então, era o "porquê" do tÃtulo da música, que é uma pergunta! Aliás, agora reparei que você colocou uma segunda música, vou lá ouvir!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/5/2007 18:21
Salve Marina!
Agora só falta uma dobradinha Babilak Bah e Black Sonora.
E que a FORÇA esteja conosco...
ah, agora entendi Helena... rsrsrs... então, essa "por que" é separado mesmo, mas no cd do Babilak tá escrito junto, daà fiquei com medo de mudar... vai saber essas coisas de liberdade artÃsitca. =P
ah mas resolvi arriscar e mudar assim mesmo! dá um nervoso ver esse porque junto na pergunta mesmo... rsrsrsrs
marina,
adorei o texto! embora seja um pouco mais extenso, a leitura não foi nem um pouco cansativa. aliás, a leitura fluiu tal como a música deve fluir, né?
em relação ao uso do "por que", quem se interessar pode dar uma olhadinha nesse link: http://www.mapasmentais.com.br/modelos/portugues/mm_port_porque.htm
=D
bjos
Muito legal o texto Nina!!!! Me motivou a escutar...
Beijoss
Gostei do texto e das músicas... Bem bacana...
Tranquera · São Paulo, SP 9/5/2007 18:43
Nina. Gostei muito da matéria.
Nossa, assim vc vai longe!
Obrigada Nian, Rafa, Flá e Tranquera! Fico muito feliz de saber que vocês gostaram...
Marina Maria · Belo Horizonte, MG 10/5/2007 10:56
Nossa adorei mesmo o som.
De uma densidade melódica épica.
Parabéns pelo texto.
http://textormento.blogspot.com/
Marina, que texto lindo! Que riqueza de palavras e que figura maravilhosa essa pessoa de nome Babilak!! parabéns mesmo, e não vou te dar nenhuma sugestão por que o texto está ótimo na minha opnião!
beijão!
Babilak, cara, não li e Gostei muito - só senti através dos comentários, - passei a vista rápido - mas daqui a pouco leio - o visual está demais. Meu, esta foto deveria ser capa de disco. Falo disco sim, pois não abandonei o vinil...hehehe!!! Gostaria de ouvir teu som no vinil cara! Já ouviu um bom jazz em um vinil arranhadinho? Demais
Manda tua matéria pra gente publicar aqui no www.vetorcultural.com com som e tudo - Como disse - daqui a pouco leio.
Pedro Rodrigues
www.vetorcultural.com - Um Estado de Arte
Gostei do texto. O teor me faz lembrar de umas matérias que tenho lido na revista Vida Simples.
Parabéns pela iniciativa. Mas aproveitando a oportunidade que o overmundo proporciona, quero dar algumas dicas de edição.
O texto tem alguns erros, principalmente quanto aos tempos verbais. Mas isso a gente aprende com o tempo e com a revisão.
Espero ter ajudado.
Continue escrevendo que continuarei lendo, ok?
ABS
Meu irmão, e que lugar é aquele? Sou artista plástico, e adorei o lugar - o visual, a foto, e Babilak - tá demais - Babilak, acabo de baixar teu som - é demais - puro metal - é claro, é épico mesmo - sem querer ser repetitivo.
abraços a você e a todos,
pedro rodrigues
www.vetorcultural.com
Pedro Vianna, José e Isabela, muito obrigada pelo comentário do vocês! Pedro Rodrigues, pode deixar que vou entrar em contato com você para mandar a matéria sim... E Bruna, obrigada pelo toque a respeito dos tempos verbais, talvez você me ajudasse mais apontando quais erros você encontrou! E olha que eu revisei umas dez vezes o texto... mas tem umas coisas que passam despercebidas mesmo.
Abraços à todos!
Cada dia fico mais impressionado com as ricas descobertas Brasil adentro. Nesse caso, orgulhoso também por ser conterrâneo Gilson. Bonita história de luta e talento. Parabéns !
Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 10/5/2007 13:21Legal, Marina. Sabe a minha filha mais velha ja ali prestes à entrada na Faculdade andou muito fantasiada com broches estampando o Babilack. Camisetas, etc. Pensava´se de que fosse gente da Jamaica, sabe aquelas coisas de moda. um abraço andre.
Andre Pessego · São Paulo, SP 10/5/2007 13:55gostei de tudo, inclusive do babilak bah. podemos até acrescentar ao nome algo mais: babilah bah batuque bom bebé.
André Gonçalves · Teresina, PI 10/5/2007 13:58Excelente texto. Conteúdo muito bacana e a foto ilustra muito bem a matéria. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/5/2007 14:15
Fico emocionada com gente que busca tantos recursos diferentes para produzir arte! demais!
jujuba · Santo André, SP 10/5/2007 14:49Edmundo, Filipe, Jujuba, fico feliz de receber o apoio de vocês. André, adorei o jogo com as palavras. E A. Pessego, que história mais engraçada! O Babilak vai morrer de rir com isso...
Marina Maria · Belo Horizonte, MG 10/5/2007 15:32
Marina,
a reportagem ficou muito boa. Escutei a música dele no link e achei interessante. Ele é um grande personagem para qualquer matéria sobre música. Como você ficou conhecendo ele?
Marina,
gostei do cara e das suas enxadas. Parabéns!
As idéias simples têm a força primal que move e emociona. Grande sujeito. Muito bom tb o texto.
NÃvio de Souza · São Paulo, SP 10/5/2007 17:55Ei Carlão, vc por aqui... obrigada pelo comentário. Eu estou fazendo assessoria de divulgação dele e quando fiquei sabendo da sua história senti que rendia uma matéria legal. Roberta e NÃvio, que bom que vocês gostaram.
Marina Maria · Belo Horizonte, MG 11/5/2007 08:54Parabéns pelo texto e pelo Babilak. Nem conhecia o rapaz.
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 11/5/2007 15:31
Babilak, que vive laborando a apatia do impassÃvel na ''necrópole dos intolerantes'', é um vitorioso da linguagem sonora que, com muita criatividade, produziu dois primorosos discos. Senta a Pua, velhinho!
www.iandury.com
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