Para muitos o dinheiro é sinônimo de felicidade.
Aos 48 anos, Sebastiana Rosália Bispo, todos os dias acorda às 4h40 da manhã. Dois ônibus separam sua casa, na Estrada Velha do Aeroporto do seu trabalho, no centro de Lauro de Freitas. Sebastiana, ou Ana, como muitos a chamam, é agente de limpeza da Secretaria de Serviços Públicos - Sesp e diariamente varre a Praça da Matriz e toda extensão da Rua Ibicaraí. Ela não mostra problemas em se assumir como agente de limpeza. “Eu sempre coloco amor no que faço. Isso ajuda a me adaptar e superar as dificuldades”.
O chapéu de palha com duas conchinhas contrasta com o boné e o fardamento amarelo-ouro com lista vermelha que abriga o nome SESP em letras brancas. Negra, baixinha, cerca de 1.6m, e de olhar carismático, Ana não aparenta a idade que tem. As mãos, que todos os dias abraçam a vassoura e o apanhador, parecem bem cuidadas, sempre hidratadas e não mostram os 48 anos vividos por Ana. Seu rosto sim, parece que vai além da idade, marcado por um passado sofrido e que só perde a visibilidade para o sorriso tímido, espontâneo e sincero. Sua voz é pacata, tímida.
Natural de Jacobina, no interior do Estado, Ana parou de estudar na sétima série e começou a trabalhar cedo, junto com o pai, Edson Bispo Carlos, vendendo roupas e calçados. Depois da falência dos negócios do pai, casou e teve três filhos. Mais tarde, com parte dos filhos criados, ela mostrou coragem e resolveu voltar a estudar. Com 26 anos, dividia a sala de aula com garotos de 16 e 17 anos.
Seu sorriso desde sempre foi marcante e a diferença de idade não pesava em seus ombros. “Sempre me dei bem com os mais jovens. E minha alegria os contagiava tanto, que me chamavam de Dona Felicidade”. Sempre a mais velha das turmas por onde passou, Ana concluiu o segundo grau em 1989, mas não pode dar prosseguimento aos estudos. A vida lhe impôs o trabalho para criar os filhos, na casa alugada de sala, quarto, cozinha e banheiro, onde mora com um filho, nora e neto, paga com o salário pouco acima do mínimo que recebe como varredora.
O brilho do sorriso de Dona Felicidade só é ofuscado quando conta que já perdeu um de seus filhos. “É a pior dor que uma mãe pode sentir”. Dona Felicidade aprendeu a superar as dificuldades da vida, mesmo já tendo perdido um filho e com outro deles desempregado e com filho. Ela não desanima. Neste domingo (26), Ana fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem.
Ela quer cursar a faculdade de administração, no futuro poder cuidar do próprio negócio, melhorar de vida. Dona Felicidade, por causa do bom coração que tem, também poderia ser chamada de Dona Solidariedade. Apesar de sua vida difícil, abastecida com o pouco que ganha, ela tem consciência de que muitos estão em situação piores que a dela. “Sinto não ter condições de ajudar estas pessoas. Se pudesse, com certeza ajudaria”.
A sua vontade de ingressar na faculdade é superior ao receio de enfrentar o preconceito, seja pela profissão, pela derme negra que a envolve ou simplesmente de ingressar na faculdade aos 48 anos. Dona Felicidade é daquelas que ganha a simpatia de que a conhece. Ela diz que muitas pessoas que conheceu na área onde trabalha a ajudaram. “Rlick, Nice, Regina, e o povo que me vê aqui todos dias não me deixaram desistir”.
Dona Felicidade gosta de estudar. Prefere as ciências humanas do que as exatas. Para as colegas de varrição, ela diz que nunca é tarde para continuar, ou mesmo começar com os estudos. “Não importa a idade. O que importa é aprender, aumentar o conhecimento, estudar”. Para os preconceituosos, ela diz que “o preconceito não leva a gente a lugar algum. Só nos destrói, nos torna amargos”.
As mãos grossas, porém hidratadas, reencontram o cabo da vassoura. Até às 13h, Dona Felicidade continua a varrição das folhas de flamboyant que insistem em deitar sobre o chão vermelho da Praça da Matriz. Às 14h30, quando chega em casa, ela ainda enfrenta as tarefas domésticas que divide com a nora. Seu descanso começa quando ela repousa o corpo sobre a cama e inicia a leitura de “Senhora”, de José de Alencar. Questionada se é feliz, ela diz com uma voz mais firme: “Eu sou muito feliz, mesmo sem muito dinheiro”.
Prazer em conhecer Dona Felicidade! Tocante reportagem!
Roberta Tum · Palmas, TO 28/8/2007 16:10
Valeu! Dona Flicidade é realmente uma pessoa ótima e muito interessante!
Marvin Kennedy · Lauro de Freitas, BA 31/8/2007 17:22
Marvin,
legal a apresentação dessas pessoas que fazem o Brasil,
fazem de fazer e fazem de compor tomar parte, um abraço, andre
Marvin,
Grande felicidade foi a minha, por ser apresentada à uma pessoa tão rica. Bela história! Abraço
Dona felicidade...
ahhh
ainda tenho esperança de ser feliz assim!
parabens!
muito boa! parabéns..
depois dá uma olhadinha no meu artigo
http://www.overmundo.com.br/overblog/por-que-a-publicidade-esta-em-todos-os-lugares
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