O sorriso de Dona Felicidade (Revisado)

Marvin Kennedy
Dona Felicidade: a única tinta que mancha seus dedos é dos livros que coleciona
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Marvin Kennedy · Lauro de Freitas, BA
13/11/2007 · 86 · 4
 

Em Lauro de Freitas, município da Região Metropolitana de Salvador, existem cerca de 300 agentes de limpeza. Destes, 115 trabalham na varrição de ruas asfaltadas. Muitos são analfabetos funcionais, apenas assinam o nome e mal entendem o que lêem ou escrevem. Outros tantos usam os polegares para assinar, porque não sabem sequer ler ou escrever. A única tinta que mancha as digitais de Dona Felicidade é dos livros que ela coleciona.

O despertador toca todos os dias às 4h40 da manhã. Este é o horário que Sebastiana Rosália Bispo levanta. Uma xícara de café, nem muito forte nem fraco e dois ônibus separam sua casa, em Vila Mar, na Estrada Velha do Aeroporto do seu trabalho, no centro de Lauro de Freitas. Sebastiana, ou Ana, como muitos a chamam, é agente de limpeza da Secretaria de Serviços Públicos - Sesp e diariamente varre a Praça da Igreja Matriz de Santo Amaro de Ipitanga, com seu chão vermelho, fonte desativada ao centro e bancos de concreto que a rodeia. Além da praça, Ana varre toda extensão da Rua Ibicaraí. Tranqüila, ela não mostra problemas em se assumir como agente de limpeza:

- Eu sempre coloco amor no que faço. Isso ajuda a me adaptar e superar as dificuldades. Não tenho vergonha de assumir o que eu sou porque considero que todo trabalho tem a sua dignidade.

Só às 7h30 Ana dá uma pausa para tomar café de verdade. Quando o dinheiro dá, ela compra um pão com queijo e meia xícara de café na padaria. O leite líquido de saco e o pão cedidos pela Prefeitura ela prefere levar para casa ou vende na rua mesmo para comprar o café que ela gosta. Encosta a pá, o apanhador, a vassoura e os braços no contenedor laranja, que tem seu nome escrito em letrinhas negras, e degusta seu café como princesa. Sua popularidade a interrompe.

- Oi Dona Ana – fala a mocinha enquanto leva a irmã para a escola que fica em frente a praça.

- Tudo bem minha filha. Deus te dê um bom dia – Com seu sorriso sincero e espontâneo, ela sempre deseja algo de bom para as pessoas que passam e a cumprimenta.

Dona Ana é daquelas pessoas que cativam quem conhece. Entre uma varrida e outra, sempre aparece alguém que a deseja palavras doces, crianças que a chamam de tia, outras que oferecem um gole d´água. A praça onde Ana trabalha também é palco de moradores de rua bêbados, casais adolescentes apaixonados, estudantes tocadores de violão e outros trabalhadores, como Nice, a guarda municipal que toma conta dos carros estacionados. Ela diz que Ana é amorosa e conquista as pessoas com bom-humor constante e o sorriso receptivo.

O chapéu de palha com duas conchinhas contrasta com o boné e o fardamento amarelo-ouro com lista vermelha que abriga o nome SESP em letras brancas. Por baixo do fardamento, Ana revela a derme negra e abaixo do chapéu, um lenço daqueles distribuídos no carnaval protege o cabelo escovado de alguns fios brancos e as orelhas que sustentam um par de brincos do Bob Esponja. Baixinha, cerca de 1.60m, e de olhar carismático, ela muitas vezes não aparenta a idade que tem. As mãos, que todos os dias abraçam a vassoura e o apanhador, parecem bem cuidadas, sempre hidratadas e não mostram os 48 anos vividos por Ana. Seu rosto, sim, parece que vai além da idade, num olhar mais cuidadoso é possível ver, além do sinal na bochecha direita, as marcas de um passado sofrido, que só perde a visibilidade para o sorriso tímido, espontâneo e sincero. Sua voz é pacata, tímida.

Natural de Jacobina, no interior do Estado, Ana é a terceira de cinco filhos do casal Edson Carlos Bispo e Rosália Barbosa. São quatro mulheres e um homem. O primogênito e viril filho de Edson, Ana não vê há mais de 30 anos. Ele desapareceu enquanto trabalhava em São Paulo, na década de 60, logo após o golpe militar.

- Ainda tenho esperança de que ele esteja vivo e que algum dia ele vai aparecer. Minha mãe até espera o dia dele

Quando sua família retornou de São Paulo para Jacobina, Ana já tinha cinco anos e iniciou os estudos. Mas como muitas pessoas de família pobre e do interior, ela parou de estudar e começou a trabalhar cedo. Em vez da sala da aula na turma de sétima série, ela encontrava, todos os dias, o trabalho junto com o pai, vendendo roupas e calçados. Depois da falência dos negócios, veio para Salvador, onde se casou com Davi dos Santos França, ajudante de cargas da antiga fábrica da Brahma, com quem teve cinco filhos. Assim como o trabalho, a profissão materna também veio cedo. O primeiro filho de Ana nasceu quando ela tinha 14 anos. A casa no São Gonçalo do Retiro foi testemunha dos quase oito anos de casamento, e também do fim do matrimônio de Ana. Com os filhos já maiores, ela mostrou coragem e resolveu voltar a estudar. Aos 26 anos, dividia a sala de aula com garotos de 16 e 17 anos na sétima série, em sua terra natal. Além de estudar, ela foi convidada para ser professora numa turma que ela chama de “multiserial”.

- Na mesma sala eu dava aula para alunos da alfabetização até a quarta série. A escola ficava no quilômetro sete da rodovia que liga Jacobina à Miguel Calmon. Eu não tirava a farda e a calça jeans do corpo, vivia entre uma turma e outra, o dia inteiro na escola.

Apesar de todas as dificuldades encontradas, seu sorriso desde sempre foi marcante e a diferença de idade com seus colegas de turma não pesava em seus ombros.

-Sempre me dei bem com os mais jovens. Minha alegria os contagiava tanto, que me chamavam de Dona Felicidade.

Sempre a mais velha das turmas por onde passou, Ana concluiu o segundo grau em 1989, mas não pôde dar prosseguimento aos estudos. A vida lhe impôs o trabalho para continuar a criar os filhos e agora neto, na casa alugada de sala, quarto, cozinha e banheiro, construída sobre a laje da proprietária. O aluguel da casa que Ana divide com um filho, nora e neto custa R$ 120, quase um terço do que ela recebe como varredora. Um varredor, em Lauro de Freitas, ganha R$360,00 + 10% de insalubridade.

- Ainda tenho que pagar as contas de água, luz, comprar comida, gás... Tudo sozinha.

Ana divide o quarto e a cama com o neto Samuel Levi. O filho e a nora, desempregados, dormem na sala. Para completar a renda, ela revende os produtos da revista Quatro Estações. De calcinhas a biscuit, enfeites de geladeira e panos de cozinha, Dona Felicidade vende de tudo que está disponível na revista. Ganha 20% do que vende. Ela também faz faxinas e lava roupas.

- Tenho que correr atrás, parada é que não posso ficar. Tenho meus sonhos e não desisto deles, num abro mão mesmo. Seu eu não fizer, quem vai fazer por mim, por meus filhos, meus netos.

A família é o que Dona Felicidade tem de mais importante. O brilho do seu sorriso só é ofuscado quando conta que já perdeu dois de seus filhos. O mais velho morreu em 97, aos 19 anos, deixou uma neta, Laís, de 12 anos e que Ana não vê porque mora com a mãe. Ela também não gosta de comentar a morte de sua filha aos seis meses de idade.

- Os doutores disseram que ela morreu de desidratação, mas tenho para mim que ela deve ter morrido do coração, porque ela era gordinha, corada, forte. Perder um filho é a pior dor que uma mãe pode sentir.

Além dos filhos perdidos Dona Felicidade não vê a filha, Cristina há 10 anos. Cristina Mora em São Paulo e tem dois filhos, Edson Teodoro e Danilo que não conhecem a avó.

- Só conheço de voz. Sempre que ela liga, eu peço para falar com meus netos. Eu choro daqui e eles, com a mãe, choram de lá.

Ana conta ainda tem outra neta, Raíssa, que mora em Pojuca e sente ciúmes do primo Samuel Levi, que enquanto a avó estuda fingi ler e escrever, num dialeto que só ele e Ana entendem. Dona Felicidade também é muito ligada aos pais, que ainda moram em Jacobina.

- Sempre que posso vou para lá visitar meus pais que graças a Deus ainda estão vivos. Este ano mesmo quero ver se tiro minhas férias em novembro para poder ir até lá.

Quanto ao coração, Dona Felicidade não pretende se casar de novo. Prefere os romances dos livros aos relacionamentos sérios.

- Dou minhas namoradinhas, mas nada muito sério, certinho, porque já vi que não dá certo.

Sebastiana tornou-se Dona Felicidade aprendendo a superar as dificuldades da vida. Apesar de toda dificuldade com os trabalhos braçais, pesados e as obrigações de vó e dona-de-casa, ela nunca desanimou. Ana fez a última prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Boa aluna e professora, ela fez mais de 65% da prova e está esperançosa em poder cursar o nível superior.

Quer cursar a faculdade de administração, no futuro poder cuidar do próprio negócio, melhorar de vida. A aptidão é explícita na forma como administra o pouco que ganha. Dona Felicidade, por causa do bom coração que tem, também poderia ser chamada de Dona Solidariedade. Apesar de sua vida difícil, abastecida com o salário da varrição e o dinheirinho dos bicos, ela tem consciência de que muitos estão em situação piores que a dela.

-Sinto não ter condições de ajudar estas pessoas. Se pudesse, com certeza ajudaria, porque não gosto de ver ninguém passando necessidade. Não gosto nem de ver esses meninos na rua, pedindo, passando fome. Para mim, isso é muito triste. Imagino se fosse um filho meu chega dá uma coisa no peito.

A sua vontade de ingressar na faculdade é superior ao receio de enfrentar o preconceito, seja pela profissão, pela derme negra que a envolve ou simplesmente de ingressar na faculdade aos 48 anos. A vontade é tanta, que Dona Felicidade, depois de todo o trabalho na Prefeitura e em casa, continua freqüentando as salas de aula, só que desta vez não é a mais velha da turma. Apesar de já ter feito a prova do Enem, ela faz um cursinho pré-vestibular no bairro onde mora.

-Gosto muito de estudar, de ler, de escrever. É uma coisa que meus pais passaram para mim e meus irmãos. Eles não tiveram uma boa educação, mas buscaram dar isso pra gente. Enquanto muitos pais do interior tiravam seus filhos da escola na quarta série, eles deixaram a gente ir onde conseguisse chegar. Veja só, minha mãe só aprendeu a ler quando eu já estava na quarta série.

Além de estudar Ana gosta de boa música, cinema, teatro e literatura. Romancista, seus filmes preferidos são Ghost – Do outro lado da vida e o Mistério da Libélula. Dona Felicidade começou a se interessar pelas artes cênicas aos seis anos, quando sua mãe à levou num circo que passou pela cidade de Jacobina.

- Era um daqueles circos que no final encenavam uma pecinha de teatro. Era muito engraçado. Depois disso tomei gosto pela coisa e todos os domingos minha mãe me levava para a matinê no cinema de jacobina. Quando ela não podia levar, pagava alguém para fazer isso.

A varredora gosta tanto de leitura que possui a própria “mini biblioteca”. Uma de suas diversões é buscar nas livrarias ou sebos os clássicos da literatura brasileira. Na sua lista já passaram Capitães de Areia, Senhora, Clara dos Anjos, A hora da estrela, O triste fim de Policarpo Quaresma e agora está em busca de Tenda dos Milagres.

- Ahh, minha alegria foi descobrir uma livraria na rodoviária. Eu compro logo os livros que estão na lista do vestibular. Gosto dos clássicos e dos mais baratinhos, de três, cinco, até dez reais. No shopping eu vi na livraria o Tenda dos Milagres, mas tava muito caro, quase oitenta reais. Aí é demais. Livro deveria ser barato, pra todo mundo ler.

Apesar de não parecer, Dona Felicidade prefere as ciências exatas às humanas. Para as colegas de varrição, ela diz que nunca é tarde para continuar, ou mesmo começar com os estudos. Para ela, a idade não é empecilho para nada, o que atrapalha o crescimento e a felicidade das pessoas é o preconceito e a inveja.

-Não importa a idade. O que importa é aprender, aumentar o conhecimento, estudar. O preconceito não leva a gente a lugar algum. Só nos destrói, nos torna amargos.

As mãos grossas, bem hidratadas e de unhas rubras e curtas, reencontram o cabo da vassoura. Até às 13h, Dona Felicidade continua a varrição das folhas de flamboyant que insistem em deitar sobre o chão vermelho da Praça da Matriz. Às 14h30, quando chega em casa, ela ainda enfrenta as tarefas domésticas que divide com a nora. Seu descanso começa quando ela repousa o corpo sobre a cama e inicia a leitura de um de seus livros, clássicos da literatura brasileira. Sua mente viaja nos romances que lhe roubam o ar e enchem os pulmões de Ana de felicidade, enquanto a tinta volta a sujar suas digitais como faz todas as tardes. Questionada se é feliz, ela diz com uma voz mais firme:

- Eu sou muito feliz, mesmo sem muito dinheiro.

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Paulo Apolonio
 

Muito bom seu texto sua maneira de ver as coisas.

Paulo Apolonio · Salvador, BA 12/11/2007 15:30
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MakacoKósmico
 

Poucas as pessoas que possuem o dom do relato poético. Sincero, conciso (talves pudesse ser mais) e informativo. Ingredientes essenciais para um bom texto. Muito bom, tem meu voto.

MakacoKósmico · Porto Velho, RO 13/11/2007 01:32
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Saramar
 

Um ótimo texto sobre um apessoa exemplar. Gosteimuito.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 13/11/2007 10:58
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Marcos Paulo
 

Impressionante como em cada lugarzinho do país existe alguém que, apesar das dificuldades, não se deixa vencer pelo preconceito e tem sempre um sorriso pra dar.

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 13/11/2007 13:30
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