O TEATREIRO: II - Estréia sempre dói

Alberto Cataldi
Eu, Valmir Junior, na cena que abre o espetáculo
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Valmir Junior · São Paulo, SP
6/6/2007 · 90 · 3
 

Deparado com um lugar que você vai se acostumando, mas que, a alguns minutos da apresentação, se torna inóspito e aterrador. Adicione aí uma pitada de estréia e uma cena que se passa longe do espaço cênico onde quase todo o espetáculo se passa. Pronto. Estão postos no caldeirão todos os ingredientes que fazem uma estréia de um espetáculo teatral ser bem emocionante. Ao menos pro ator.

Ouvindo vozes, um tec-tec de quem desce de escada, algumas pessoas se dirigindo ao local errado e -zás- elas levam aquele susto e encontram o ator. Esse, bem do medroso, começa a tremer e suar frio. Ele deve esperar que todo o público esteja naquela ante-sala, espremido, para poder iniciar. A mão pesa e crispa, envolve o objeto de cena num formigamento. O lábio seca automaticamente e os braços retesam ao lado do corpo. A perna estanca, afunda quase, magnetizada feito um ímã contra um metal. E a laringe, ai, a laringe, fecha.

Desastre total. Todo o público está à espera. É preciso proferir a primeira fala. Nada que uma boa inspiração (de ar) não cure. Os pulmões se enchem, a laringe abre e a mente clareia. E é dada a largada.

Foi assim no primeiro dia do final-de-semana de estréia nos Satyros, com o "Amores Dissecados". Estreei, na verdade, reestreei, porém eu travei legal no primeiro dia, sei lá o porquê. Crise de ansiedade, talvez, algum mal da Modernidade aí... E tive que usar da ginga. Afinal, sou brasileiro e não desisto nunca. Passado o susto, sei bem como vai ser daqui até o final de julho. Nos outros dias eu já vou estar bem melhor. Melhor acostumado na primeira cena. Daí é só aparar arestas. No domingo foi (fui) mais tranqüilo.

Essa cena inicial do espetáculo sempre muda de lugar quando mudamos de teatro. Às vezes ela é feita no espaço cênico de toda a apresentação, às vezes é no hall, outras na porta do teatro, no corredor de acesso, no bar, e assim vai. Nesta ante-sala nos Satyros, tem um gostinho legal de suspense, de ver as pessoas descendo a escada do Espaço Dois e chegando ali, na minha frente, se perguntando: "Que raio de peça é essa que vai ser feita aqui na ante-sala?", "E eu, onde vou sentar?", "Ai, nesse frio, vou pegar pneumonia nesse chão" ou "Que menino estranho!". Quietinho no meu lugar, na espera por todo o público, eu fico ouvindo cada uma... E depois enceno o amor etéreo, divino, digamos, religioso...

Foram 28 pessoas no total nesse sábado de estréia (02/06) e 34 no domingo (03/06). 34 no domingo!!! Isso porque saiu pouco na mídia. Ótimo. E o domingo superando o sábado! Ainda bem que muita gente não tem saco pro Faustão. Que bom... Mas a verdade mesmo é que os Satyros formou público. Tem sempre alguém chegando ali, bem desavisado, querendo assistir alguma coisa. Daí, cabe aos grupos fisgar...

Beeeeeeeeeeeeeeeeem gostoso. Ser ator é beeeeeeeeeeeem gostoso.

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Pedro Monteiro
 

É verdade verdadeira, meu caro Valmir!
E ainda bem que existe alternativa inteligente aos Faustões de todas as TVs; são praças e muitas praças, e maravilhosos espaços de difusão da verdadeira ARTE.
Um grande Abraço.

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 5/6/2007 22:45
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Ilhandarilha
 

Legal ver seu relato da experiência do ator, Valmir. A gente vê vocês tão seguros no palco, com texto e gestos na ponta da língua, e nem imagina o frio na barriga que você descreve.

Ilhandarilha · Vitória, ES 6/6/2007 09:41
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Valmir Junior
 

Texto publicado no blog Ator Desmensurado

Valmir Junior · São Paulo, SP 7/6/2007 00:00
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