O TEATREIRO IV: Da arte de manter a expressão

Thiago Benedetti
Fernanda Tsuji me desferiu o tapa e Kéroly Gritti assiste à cena
1
Valmir Junior · São Paulo, SP
31/7/2007 · 110 · 3
 

Publicado no blog Ator Desmensurado

Estava eu, esperando que a atriz Kéroly Gritti se sentasse calmamente em sua cadeira. Ela se sentou. Passou a olhar sensualmente a todos os homens da platéia e algumas moças apertaram os braços de seus cônjuges/namorados. Black-out. Eu comecei:

- Você é uma louca!

O grito na escuridão inicia uma profusão de palavras, uma discussão acalorada entre a minha personagem, o homem que reclama das atitudes de sua namorada, e a personagem da Fernanda Tsuji, a namorada que vai justificando tudo. Os dois, em meio a ironias e acusações, começam em alto tom e terminam gritando. E a luz não volta. Fica a discussão acontecendo em meio ao escuro e a curva dramática dá uma guinada. Ela diz que ele sabia que ela era assim, desde quando começaram. E ele admite, incrédulo de que sabia, se auto-punindo e querendo que aquilo tudo acabe. A platéia se identifica. Todas as discussões de casais, em geral, são assim. Gritos, acusações, ironias e coisas como "você sabia disso desde quando a gente começou!". Até certo ponto que os dois gritam demais. As paixões não podem ser contidas. Pelo contrário, elas explodem.

Ao final, depois de muita gritaria, a luz se acende e capta o momento em que a namorada mete um belo de um tabefe na cara do namorado. Também, pra quê ele foi dizer que não a amava mais... O tabefe seria um desfecho triste de um relacionamento duradouro. A imagem de uma baixaria em sua acepção menos pejorativa e popular - o desnivelamento de dois seres humanos, a redução de seu respeito mútuo a um nada e a constatação de que, sim, aquele é o fim.

O tabefe, cenicamente, por se tratar de uma peça que é encenada muito próxima da platéia, não pode ser truque. Não pode ser uma batida de palmas dada fora das vistas da platéia, nem um constrangedor tapinha que não dói em ninguém. Mas existe truque. Este consiste em mirar bem a maçã do rosto e espalmar bem as mãos, para que o som saia. A platéia exulta com o som. Se a mira não está certa, o som não sai, quase sempre. Não se trata de força, mas de jeito. A força, entretanto, tem que aparecer de alguma forma. Por causa disso, a Fernanda Tsuji mete a mão. E eu deixo. Faz parte do jogo. Mas nem sempre ela acerta direito. E certas partes do corpo produzem sons diferentes.

Em Pindamonhangaba, em um festival de teatro no ano passado, Tsuji me desferiu um golpe violento. E produziu um enorme som. O golpe se deu perto do meu ouvido. Sabe-se que ali fica a cóclea, o nosso labirinto. E que vários fluídos correm por ali, para afetar a audição e o equilíbrio do corpo. Também se sabe que a cóclea está ligada intimamente ao humor humano. Então, não foi por acaso que eu dei um passo para trás, tal foi a força do tapa. Cerrei os punhos, senti tudo se misturar, o mundo, eu, a minha raiva crescente, o esquecimento do espetáculo. Me perdi. Subiu à cabeça uma completa vontade de sentar a mão na cara daquela japonesa. Não era mais minha colega de cena. Não era mais um espetáculo. Eu fora atacado e, como qualquer besta, queria contra-atacar. Por uns três segundos, cogitei pular em cima da Tsuji e enchê-la de porrada.

Mais tarde, fiquei sabendo que ela sentira que foi forte. E que percebera que eu havia saído de mim e estava temendo que eu realmente a atingisse. Não foi só ela. Meus outros colegas de cena ficaram despertos e atentos o suficiente, na ponta de suas cadeiras, prontos para me segurar caso algo acontecesse. Mas eu respirei. E a respiração é tudo para o ator. Expirei tudo, deixei a besta se ir e me coloquei de volta ao meu lugar. Soltei os punhos, abri os olhos, tonto, firmei os pés e dirigi o olhar para ela. "Use a favor", é aquela famosa lei. E usei toda a minha raiva para mirá-la no olho com o ar mais gélido deste mundo. E a cena foi tudo-de-bom. A platéia ama quando eu levo o tapa, mas a platéia masculina delira quando eu a meço da cabeça aos pés e dou um pequeno e discreto meio-sorriso, zombando, e vou-me embora. Ela fica. Solitária.

Tsuji ganhou Melhor Atriz nesse festival. A gente brinca que foi o tapa-soco.

No último domingo, Tsuji novamente me desferiu um golpe violento. Mas não perdi a cabeça. Não tive como. Meus olhos se encheram de água, não houve estralo, a platéia achou que foi um tapinha mais ou menos, mas a verdade é que cortou. O tapa deve ter feito a pele se dilacerar contra os dentes. Sangrei, engoli o sangue, engoli o choro, tremi. Era dor. Muito intensa. E uma dor-de-cabeça sobreveio. Passei o resto do espetáculo mal. Mudei marcações, gestos, intenções, fiz de tudo para não sair de cena, não cristalizar, trazer um frescor de volta. Tive que resolver o problema ali, na hora. E depois curti bem a dor-de-cabeça, fiquei bem mal.

Mesmo assim, amo essa cena. Quero repetí-la. Sempre que der.

P.S.: Este último final-de-semana será (ou na publicação, se for publicado, já terá sido) o último do Amores Dissecados nos Satyros II. Que dor.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

E depois falam que mulher é que gosta de apanhar! rsrsr

Ilhandarilha · Vitória, ES 30/7/2007 10:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Jan Moura
 

Muito bom o seu relato. Adorei, delicioso... você define de forma belissima a arte do ator.

Jan Moura · Cuiabá, MT 1/8/2007 09:20
sua opinião: subir
Remisson Aniceto
 

Leitura saborosa, verdadeiro manjar!

Remisson Aniceto · São Paulo, SP 1/8/2007 15:31
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados