De: saulofrauches@xxx
Para: jufigale@xxx
Data: 31/10/2007
Assunto: proposta indecente
Oi meu amor, como você está? O motivo desse mail é pra te fazer uma proposta indecente - pensei agora e acho que deve curtir. É pra escrever junto comigo uma matéria pro Overmundo - ou, se preferir, escrever sozinha. Qual o tema? Rola semana que vem um festival de filme etnográfico (siiiim). Já que você tem planos de fazer seu próprio filme etnografico para conclusão do mestrado, acho que seria ótimo para você manter um contato com o que tem sido produzido hoje em dia.
Se vc topar eu dou meu jeito pra te acompanhar hehehe. Me dá um retorno assim que puder.
bjao
De: jufigale@xxx
Para: saulofrauches@xxx
Data: 31/10/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Tô contigo! Tem um site com a programação pra ver o melhor horário? Manda aê e te ligo pra conversarmos! Pra mim tb vai ser super legal!
Bj grande!
De: saulofrauches@xxx
Para: jufigale@xxx
Data: 4/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Ju, te repassei aquele e-mail com a programação em anexo. Vamos na sessão de quarta-feira mesmo? Eu te dou outra ligada para confirmar, mas já tô preparado pra irmos no último dia da mostra.
De: saulofrauches@xxx
Para: jufigale@xxx
Data: 14/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Adorei ter ido contigo na mostra. Pena que a sessão que nós escolhemos não teve debate no final. Deve ter sido porque foi a última sessão do úlimo dia, sei lá... Agora a gente podia escrever pro Overmundo sobre os filmes que vimos ou até fazer uma reflexão mais ampla, botar em palavras nossas impressões sobre filme etnográfico ou que tipo de olhar nós aguçamos ao ir no festival – acho que só de retratar os efeitos de uma mostra de filmes etnográficos em uma galera que não é etnógrafa (a gente hehe) já vale a pena pra mostrar a importância desta iniciativa. Será que isso rende? Me manda por e-mail o que passou pela sua cabeça. A gente pode associar nossa ida à mostra com seu projeto de filme – quem sabe eu não fui a uma sessão com uma futura participante das próximas edições? :)
De: jufigale@xxx
Para: saulofrauches@xxx
Data: 19/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Alô!
Também adorei! Pena mesmo não ter tido o debate. Renderia idéias interessantes pra matéria... mas gostei dessa possibilidade de botar impressões como "curiosa". Quem sabe não estimulamos outros igualmente curiosos?!
hmm... sobre a etnografia, tô aqui pensando que o interessante – em especial numa videoetnografia - é reconhecer seus limites e possibilidades. No meu caso, que pretendo estudar construção de subjetividade dos cegos, acredito que o recurso da etnografia tem barreiras importantíssimas quanto às reais possibilidades de conhecimento do outro. Como falamos depois dos filmes, não basta 'botar uma venda nos olhos' para se reconhecer cego. Ou seja, a história do não visual filtrada pelos olhos quem vê (ou pensa que vê) versa tanto sobre o 'estudado' quanto sobre o 'estudioso'. Mas nem de longe acho que uma etnografia pode ser desqualificada por esta limitação. Porque é justamente por aí que se desvenda o próprio objetivo da metodologia, que é, em última instância, experimentar o outro, se inserindo até onde possível em um grupo ao qual você não pertence. Pra mim, é sim uma questão de (re)conhecer a si mesmo. E o uso do vídeo, além de ser um bom recurso de veiculação do produto final, é uma alternativa criativa a essa forma tradicional de se fazer pesquisa.
De: saulofrauches@xxx
Para: jufigale@xxx
Data: 19/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Acho que os filmes vistos por nós, apesar de só falarem de tribos indígenas – por mais que tenha uma proposta de realizar um filme urbano -, valeram a pena pra pensar nesse sentido que você está falando mesmo. Eu vi aqueles índios aqui do lado, no quintal da minha casa – caso ela tivesse tal área de lazer hehe. Foi difícil não imaginar uma tia-avó reaça que nem aquela índia de idade avançada no filme Pen Cahoc, sobre o ritual de inicialização que tem o mesmo nome. Sempre tem uma figura pra reclamar da dessacralização das boas e velhas tradições, de acusar uma juventude de valores frágeis se vender pra quem vem de fora e estes outros papos de quem acredita (coitado) num mundo imutável. Só que lá ela trocou a coca-cola, videogames e músicas gringas pelo homem branco. Tudo que era o erro pra velhinha era coisa de homem branco imitada pelos indiozinhos – que, aliás, usavam umas bermudas fluorescentes de taquitel super 'estaile'.
De: jufigale@xxx
Para: saulofrauches@xxx
Data: 21/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Ahahaha
É isso mesmo! E as nossas idéias são apenas efeitos do produto final da relação "relator-relatado" que, de fato, não nos pertence. Você levou pra casa uma índia travestida de tia-avó reaça. E eu acabei ficando com o problema da venda nos olhos pra solucionar.
De: saulofrauches@xxx
Para: jufigale@xxx
Data: 22/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Ju, já passou mó tempão que a mostra acabou e a gente ainda não fechou um texto. Mas foi tão bacana que não queria que o registro passasse em branco. Até porque toda essa nossa conversa pode interessar a alguém, por que não? Aí pensei: o que você acha de a gente publicar nossa troca de e-mails? Até pq chega a ser um contra-senso escrever um texto num formato mais caretinha sobre uma mostra de filmes q buscam justamente mostrar uma faceta de uma realidade diferente. É a revolução, vamos ser os índios de bermuda de taquitel :)
De: jufigale@xxx
Para: saulofrauches@xxx
Data: 22/11/2007
Assunto: Re: proposta indecente
Acho ótima a idéia! Vamos subverter a forma e torcer para que isso já seja um atrativo na matéria. Se tivermos adesões, quem sabe não formamos uma nova tribo de índios de bermuda de taquitel?! hehehe
Adoro! Beijo grande!
inusitado! mas gostei do diálogo. abraços
Ilhandarilha · Vitória, ES 28/11/2007 22:59
hehe. só li agora - anos depois.
A Ju tem perfil aqui no Overmundo tb? Seria legal trocar idéias com ela sobre o lance dos cegos e da venda nos olhos. Depois de escrever sobre a audiodescrição fiquei meio balançado pelo tema.
O formato da apresentação para mim foi dez: um diálogo que revela conteúdos partilhados, presenciados por ambos.
A conversa em si me dá uma certa curiosidade histórica.
Spartacus talvez devesse ter ficado quieto no canto de escravo dele; Jesus, Maria e José no Egito; Zumbi no cativeiro; Anastácia calado a boca, os vietnamitas felizes com a ocupação francesa, bem como argelinos, nem necessitariam os vietcongues ter expulso os estadunidenses de lá, aí eles não teriam trauma algum redivivo com derrota no Iraque, então meia-dúzia de famílias chinesas poderiam ser ainda, como parece que eram, os maiores exportadores de ópio do planeta, tuteladas pelas sete potências européias que transformaram o país da ásia no maior puteiro do mundo até 1949. Em 1959 Batista poderia ter tilintado taças com os proxenetas de Havana e Fidel ter ficado em Miami, curtindo umas férias pessoais tri-legal e, hoje, desfilaria ancião de bermudão taquitel e eu estaria de carona de motocicleta escrevendo no diário do Chê, ele ainda baforando aquele charutão.
E milhões de pessoas não teriam sido escravizadas em África, mortas a caminho dqui ou mesmo já aqui chegadas ou em lavouras, pelouros ou chibatadas, nem defendendo os ingleses pelo Brasil no Paraguai solano-guarini na súcia triple com os castelhanos.
E milhões de habitantes de aqui não teriam sido passados no sabre ou submetidos à pólvora das canhoneiras lusas, espanholas, francesas, holandesas (sempre a Europa...) as culturas (e as pessoas delas) astecas, maias, incas, guaranis, tupis...
Pensamento coroca esse meu.
A juventude, no entanto, ainda passa com o tempo, alguns valores da rebledia ou da submissão podem até mudar.
A língua portuguesa tem resistido aos modismos de redação.
Saulo, só chego aqui agora, e só poderia ser agora mesmo, senão seria outro momento... assim como o momento (falo do estalo, do clic!) só se dá num papo mais informal, troca de mensagens entre pessoas íntimas. Gostei de ler isso tudo assim exposto "ao público".
Bom... era isso.
Abraço,
Felipe
Muito maneiro, Saulo!
Como muita gente eu só vi agora (o mais atrasado de todos)
É sempre bom encontrar uma forma nova de se narrar uma história. Refresco de linguagem. Novidade de 2007, super nova pra mim em 2009
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