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O toalete do teatro teria sido melhor

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Maurício Alcântara · São Paulo, SP
20/7/2007 · 125 · 8
 

O cartaz de Toalete prometia que eu faria xixi de tanto rir. Se eu tivesse pago pelos ingressos, teria pedido meu dinheiro de volta alegando propaganda enganosa. Melhor, teria dado cabeçadas na parede por ter gasto algum dinheiro com um espetáculo tão ruim. Felizmente me sentei longe do palco, pois a vontade era a de arrancar o tênis e arremessá-lo com a esperança de atingir algum dos atores. Fiquei frustrado por não haver motivos para carregar um tomate ou leguminosa na mochila (não até este dia), senão teria arriscado o arremesso lá do fundão mesmo.

Pois bem. Como o título já sugere, o texto de Walcyr Carrasco propõe uma bisbilhotagem em um banheiro feminino de um hotel de luxo, por onde passam todos os estereótipos-padrão presentes nas piores comédias comerciais (que apostam na mesma fórmula de sucesso): nordestinos, evangélicos, secretárias-amantes, cariocas, louras burras, patricinhas e socialites fúteis, góticas lésbicas, prostitutas, pobres, muçulmanos, e, claro, homossexuais, invariavelmente afetados e espalhafatosos (e que invariavelmente se travestem e adoram uma peruca loira).

Todos eles desfilam em um verdadeiro circo de aberrações: são personagens e situações tão sem profundidade que até mesmo o humorístico Zorra Total consegue ter uma construção de personagens mais elaborada. O espetáculo aposta no mau gosto e no preconceito para tirar risadas gratuitas o tempo todo, duvidando da capacidade mental da platéia. Deste jeito fica fácil de se fazer teatro, pegando uma forte carona no formato do extinto Sai de Baixo, de cujas piores temporadas participou a atriz Márcia Cabrita, também presente neste elenco.

Além do universo do toalete, não existe nenhum fio condutor de todas as histórias, sendo que muitas delas nem sequer se caracterizam como histórias, de tão pobres que são. Se assemelham, em todos os sentidos, aos quadros de A Praça é Nossa, em que o personagem aparece, gorfa algumas piadas prontas e em seguida desaparece para todo o sempre. Para que se tenha uma idéia do quão grotescas são estas esquetes, em uma delas uma personagem conta: "Eu estava vindo para cá e no carro eu decidi fazer um boquete no Arnaldo. Veio um carro e bateu atrás, e eu engoli o pau do Arnaldo." Uma fineza só.

Mas a platéia, quase lotada, não se incomoda com uma peça que menospreza sua inteligência. Pelo contrário, delira com a chuva de bocetas, putaqueparius e vaitomarnocus vociferados aos montes, e ao final aplaudem com a mesma satisfação com que aplaudiriam o show de piadas de Ari Toledo (que está em cartaz a poucas quadras dali). É graças a espetáculos como estes que o teatro não é levado a sério: qualquer estratégia de formação de público desce pelo ralo (ou melhor, pela privada) quando não existe padrão algum de qualidade no que é oferecido. E o pior: este desserviço à cena teatral é beneficiado pela lei Rouanet.

Enfim, depois de pouco mais de uma hora e meia (que pareceram uma eternidade), um desfecho terrivelmente ruim, como já era esperado. Como eu espero que depois desse texto os leitores da Bacante queiram passar longe do teatro Gazeta, não vejo problemas em contar o que acontece: com um rapidíssimo monólogo sentimentalóide no momento "solidariedade, a gente vê por aqui", a única personagem presente em todas as cenas - uma faxineira evangélica - conta que quanto mais ela trabalha no toalete, mais ela acredita que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Enquanto William Shakespeare se revira em seu túmulo, ela se masturba com um vibrador. E viva o requinte e a nobreza da arte teatral.

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Maurício Alcântara
 

Publicado originalmente na Revista Bacante.

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 16/7/2007 23:25
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Marcos Paulo
 

Oi Maurício: no primeiro parágrafo, não seria "se eu não tivesse pago..."?

Senti falta de uma fotografia do espetáculo. Você tem?

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 17/7/2007 08:55
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Maurício Alcântara
 

Oi Marcos,
Que coisa... quando escrevi o texto entrei num dilema sobre o que era mais correto, pago ou pagado. Se não me engano, as duas formas são corretas. E sei lá porque quando escrevi achei que pagado soava melhor. Agora concordo com você...

Com relação à foto, a peça era tão ruim que eu nem fiz questão de pedir foto de divulgação... hehehe...

Abraço!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 18/7/2007 09:31
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Rafaela Luzzi
 

Só pra contribuir com a dúvida de português, embora eu tenha escrito dando uma dica outro dia aqui no overmundo que está super mal escrita, curta e com pequenos erros/ tudo depende do dia. Eu me lembro da seguinte regra. Quando o verbo tem as duas formas possíveis e este é o caso de pagar deve ser usado com o verbo estar a forma mais curta "Já estava pago" e com o verbo ter a mais longa " se eu tivesse pagado". Se essa regra estiver correta o Maurício estava certo desde o início. Adorei o texto. Valeu pela contribuição.

Rafaela Luzzi · Rio de Janeiro, RJ 19/7/2007 20:26
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Spírito Santo
 

Pois é, Maurício. São só estas as coisas que 'a gente vê por aqui'. Lamentável (com ou sem erro de português).

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2007 11:30
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Maurício Alcântara
 

Rafaela valeu pela dica!
Spirito, lamentável mesmo... hehehe

Abraços!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 20/7/2007 17:59
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SHUMAKER
 

FUI ASSISTIR A PEÇA DIA 05/10, INFELIZMENTE NÃO HAVIA LIDO AS CRITICAS, E JOGUEI R$ 80,00 NO LIXO, A PEÇA É EXTREMAMENTE PRECONCEITUOSA, FÚTIL E SEM GRAÇA, TENHO FACILIDADE EM RIR E NEM ASSIM CONSEGUI ACHAR GRAÇA DESTE TEXTO, AS PESSOAS FICARAM CONSTRANGIDAS COM OS PALAVRÕES E PRECONCEITOS NELA APRESENTADAS, COM CERTEZA DEVERIAM SER PROCESSADOS POR PROPAGANDA ENGANOSA. ERA MEU ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO E ESTRAGUEI O QUE ERA PARA SER NOSSO PASSEIO INESQUECÍVEL.

SHUMAKER · São Paulo, SP 9/10/2007 19:43
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Maurício Alcântara
 

Shumaker, é triste mesmo. E oitenta reais é muito dinheiro, essa peça é tão ruim, mas tão ruim, que devia ser proibida até de pagar pras pessoas assistirem... quanto mais cobrar ingresso.

Se me permite, tenho uma sugestão ótima pra fazer de conta que essa ida ao teatro (justo no aniversário de casamento) não existiu. Já assistiu "Aldeotas", em cartaz no Tucarena? Eu arriscaria dizer que é o melhor espetáculo em cartaz no momento. Daqueles de sair do teatro com um sorriso de orelha a orelha, de tão bonito que é.

Abraços.

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 9/10/2007 23:15
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