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O universo paralelo do moto clube

Foto: Kanda Produções
Invasão das motos em Maceió
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
16/9/2006 · 124 · 4
 

Roncam os motores. E toda uma multidão de pessoas sobre duas rodas sai viajando pelo país, carregando no bagageiro sua própria cultura, seus códigos, produtos, moda, música, tudo. Mais ou menos como se o irmão Peter e o irmão Dennis (Fonda e Hopper), em seus papeis no filme Easy Rider (1969) fossem eternizados e multiplicados por toda uma rede de pessoas, que cruza oceanos até, uma comunidade sólida, conectados pela paixão por suas motocicletas.

São os eventos de moto clubes, que acontecem em todo o País, em cidades pequenas e grandes, nos lugares mais distantes, lá vão eles, com suas jaquetas de couro e motos custom, e aquela trilha sonora inevitável de “born to be wild” do Steppenwolf ao fundo.

Pelo sexto ano consecutivo, aconteceu um evento bem estabelecido por aqui chamado Maceió Cycle, um encontro de centenas de motociclistas de moto clubes do Brasil Inteiro e do exterior. O evento é um sucesso, todo ano.

O Maceió Cycle envolve não somente os admiradores dessas máquinas, mas gera um movimento na cidade, contemplando sempre os admiradores do bom e velho rock’n’roll, todas as noites o evento apresentou shows com bandas locais, sobretudo o pessoal da cena mais classic rock, como o Som de Vinil, o Alma de Borracha e o Barba de Gato Blues Band. Legal demais, combinam com a festa, e tudo de graça, pro povo ver.

No evento, pude satisfazer minha curiosidade em conhecer um pouco aquela cultura do moto clube, que adquiri depois de conviver há mais ou menos um ano com três sujeitos de moto clubes aqui em Maceió, com seus códigos e conversas para “iniciados”.

O moto clube denominado Abutres estava com sua tenda armada lá no evento, todos os anos marcam presença, foram os que mais despertaram meu interesse, tentei entender eles durante esses dias de Maceió Cycle..

“Abutres. Raça em extinção” é o que diz o brasão em suas jaquetas pretas, aliás, a cor domina o guarda roupa dos caras, bandanas, metais, típico visual Hell’s Angels, fui conversar com eles...

O Abutre, que logo vai saber por que não digo o nome, me disse o seguinte, “Os Abutres são mais que um moto clube, é uma irmandade, não importa em que lugar do país ou do mundo, nem posição social, um abutre é um abutre, e vale por dez abutres, sempre terá o apoio dos seus irmãos”.

Pelo que eu entendi, apesar de haver certa hierarquia, essa coisa da igualdade é muito forte entre eles, segundo ele não faz diferença se você é juiz, pedreiro, médico, mecânico, se sua moto é um modelo modesto ou uma Harley Davidson. E isso, convenhamos, é um ideal louvável em qualquer comunidade civilizada.

E é por isso, e porque o entrevistado me pediu, que esta vai ser uma história sem nomes, o personagem é o coletivo. Eles são os Abutres, e isso basta.

O abutre com quem eu mais conversei me contou que está na estrada desde janeiro (o Maceió Cycle foi em agosto) e já tinha rodado 60 mil km desde o sul do país até Alagoas, com o ônibus dos Abutres, entre um evento como este e outro. E são tantos que simultaneamente ao Maceió Cycle rolava outra moto-festa como essa em Caruaru/PE.

Além de uma irmandade, Os Abutres são também uma empresa, que se mantém financeiramente. Nas suas tendas em eventos de moto clubes, vendem de tudo, chapéus, luvas, capacetes, jaquetas, miniaturas de motos, caveiras, anéis, camisetas, muito couro, moto wear total! Além de acessórios para motos.

O moto clube dos Abutres conta também com as contribuições mensais dos seus 1273 homens (nem tão em extinção, bastante gente) com facções espalhadas por todo o Brasil, além de Argentina, África do Sul, Espanha, Estados Unidos, Japão e Portugal!

Os abutres surgiram em 1989, em São Paulo, possuem um hino tão importante pra eles quanto o hino nacional, mantém uma creche-escola onde as crianças entram pequenas e saem com 18 anos, com curso profissionalizante, além de duas casas de repouso para anciãos. Realizam também campanhas educativas de transito, em um país com tristes estatísticas de acidentes nas estradas.

Não se espante, com aquele visual Mad Max, os preconceitos são muito facilmente incutidos nas nossas cabecinhas, e temos a desagradável tendência de julgarmos o diferente, o cara que se veste de outro jeito, ou pensa de outro jeito.

Particularmente, tenho certa aversão a agremiações desse tipo, cheias de regras de conduta e disciplinas quase militares, o que é um tanto contraditório, se a idéia central do motociclismo é o ideal de liberdade, mas é justamente por estar em uma posição distante e de diferença, que me intriga tanto esse fenômeno de organização social movida ao amor pela moto.

E não é muito difícil que seus sentidos sejam completamente capturados e seduzidos por aquelas máquinas, não sei, pode ser coisa de “menino”, mas me dá um frio na barriga o ronco dos motores, o design daquelas motos, tem algo de sedutor mesmo, desperta algo...

Pelo que vi nos meus dias de Maceió Cycle, nesse ano e nos anteriores, os moto clubes me pareceram ser formados por pessoas apaixonadas, entre eles observei que há muitas famílias, marido, mulher e filhos estrada afora, com o ideal da liberdade na cabeça, e duas rodas comendo chão pelo meio do mundo.

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sônia maria piatti
 

eu fui!
foi bem legal esse evento.

um bjo dotô =*

sônia maria piatti · Maceió, AL 16/9/2006 13:52
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Tânia Brito
 

Eu tinha uma certa resistência a esse grupo...os motoqueiros?...ou motociclistas? Mas conhecendo melhor alguns deles, percebe-se que é bem isso mesmo: família, mulheres, namoradas, filhos...São em sua maioria mto simpáticos e animados! Só a cara de mau...Alguns nem isso... ;) Acho bacana essa questão de irmandade entre eles...

Tânia Brito · Campo Grande, MS 19/9/2006 08:49
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eduardo ferreira
 

fizemos show para os motomans em pleno cerrado matogrossense: um show das máquinas e seus incríveis homens: alucinantes lances no tabuleiro de asfalto e adrenalina: alguns amigos daqui são militantes desses movimentos: pessoas maravilhosas que amam o vento na cara a mais de mil!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 19/9/2006 12:38
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Pedro Rocha
 

Cara, me impressiona essa história de campanhas de educação no trânsito. Realmente pensando nos Hell´s Angels do Hunter S. Thompson que adoravam fazer um curvas a 200 por hora (talvez um pouco mais, talvez um pouco menos) e uma queda era apenas um rito de iniciação... A gente chega a conclusão que as coisas mudam, a gente que tem a mania de enfiar tudo dentro de algum esteriótipo qualquer, formado em sei lá que época em alguma parte de nosso cérebro.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 19/9/2006 14:04
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