O útil e o fútil

roberta alves ramos 2006
ferramenta de trabalho
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Roberta AR · Brasília, DF
28/11/2006 · 95 · 9
 

Fui treinada para contar coisas para os outros. Basicamente fatos cotidianos bobos. Todos eles. O atropelamento de um cachorro numa via em que não podia passar carros, o escândalo de uma socialite numa festa, a corrupção de um grande órgão do governo. Todo esse tipo de banalidade.

A futilidade nem está no fato em si, mas no de que a notícia tem que ser descartável e incompleta. Uma matéria definitiva sobre qualquer coisa é o fim do interesse sobre o assunto (e o fim do ganha pão de muita gente). Análises supérfluas são sempre bem-vindas nesse cenário. O jornalismo nunca atinge a raiz do problema porque se perde nos efeitos, fica cego relatando dia-hora-lugar-quem-o-que-como-porquê. Numa análise política dificilmente se chega muito longe, os limites estão sempre nos últimos dez anos, mais ou menos.

Isso se deve também aos interesses dos veículos de comunicação. Assessoria de imprensa, ou não, há sempre um chefe que dita o que pode e o que não pode ser publicado. A regra se aplica a todos, reclamem ou não os profissionais que atuam neles. Não podemos ser ingênuos nisso também. Isso não deve se aplicar apenas nos veículos independentes, em que todos os que escrevem seguem a mesma linha editorial por acreditarem nas mesmas coisas.

Em busca da objetividade perdida, os jornalistas acreditam realmente ser os porta-vozes da verdade, ao relatar fatos importantes para a sociedade. Nós sofremos de uma crise de raciocínio primária, pois o que nos ensinam nas escolas e nas redações é ir contra tudo o que nos falavam sobre bom e ruim, certo e errado.

Vi uma entrevista com o Gilberto Dimenstein num programa que gosto muito, Saca-Rolha, que passa no PlayTV. Dimenstein enumerou três coisas que os jornalistas aprendem na faculdade que vão contra o pensamento lógico: 1) o tempo é nosso inimigo; 2) notícia ruim é notícia boa; e 3) o importante é o efêmero. Está aí, só entrando em crise existencial mesmo. Todo o stress, a ansiedade do mundo vem de onde?

De tanto dizer que o jornal é o porta-voz da verdade, a sociedade acredita. O simples formato do jornal já dá o tom realístico dos fatos. Qualquer coisa que se diga neste formato será confundido com a verdade.

E sobre a objetividade jornalística, fico com a definição do Manual da Folha:
"Não existe objetividade em jornalismo. Ao redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma uma série de decisões que são em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções.
Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível. Para retratar os fatos com fidelidade, reproduzindo a forma em que ocorreram, bem como suas circunstâncias e repercussões, o jornalista deve procurar vê-los com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse".
Manual Geral da Redação. Verbete Objetividade. Folha de S. Paulo, 1987.

Entrei em crise de identidade depois de ler isso. Não existe objetividade, mas preciso buscar ser o mais objetiva possível. Ser fria, sem ser apática. Ou seja, ser falsa para dizer a verdade. Por isso que decidi estudar Filosofia. Um pouco de sanidade neste mundo insano. Ah, e a verdade não existe.

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Juliano Drummond
 

Ótimo texto Roberta, concordo e acrescento, uma vez ouvi que tudo é dividido em 3 verdades, um lado, o outro lado, e a verdade. Acredito muito nisso, o jornalista tem a função de se aproximar ao máximo da terceira, mas o jornalista é corruptível, é ser humano, isento de culpa. Triste pensar que talvez o unico conhecedor da verdade verdadeira, seja o cachorro atropelado.
Parabéns pelo texto, um abraço.

Juliano Drummond · Amapá, AP 26/11/2006 06:24
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RonaldAugusto
 

no mundo da mídia não há assuntos, de fato, relevantes - aliás, para iniciar ou acabar com o debate, basta examinar os exemplos a disposição em qualquer banca de revista -, ou melhor, digamos que haja “assuntos relevantes”, mas, apenas, para os interesses desses meios. mas, é revelador o fato lingüístico de que o que separa o "útil" do "fútil" seja apenas um / f /. num mundo onde o relativismo virou uma outra espécie de fundamentalismo, a verdade do trocadilho é intolerável. curti muito o seu texto. abraços.

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 26/11/2006 22:52
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Roberta AR
 

É preciso repensar essa história de sermos porta-vozes da verdade, já que ela nunca possui um único lado. Muito obrigada pelos comentários gentis.

Roberta AR · Brasília, DF 27/11/2006 16:52
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dMart
 

ah... muito bom... eu tenho este manual e nunca tinha me ligado nisto. total crise de identidade... ehehehe... um pouco de new journalism, crônica, ficção... mas não peraí ficção não pode... é o real... o objetivo... como se tudo não fosse somente uma faceta do assunto baita abraço!

dMart · Porto Alegre, RS 28/11/2006 01:39
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Bernardo Biagioni
 

você colocou nesse texto o medo que eu carrego da carreira jornalistica. Primeiro o fato de ter de reportar futilidades cotidianas, e segundo por fazê-lo de forma subjetiva. Adorei o texto.
Abraços

Bernardo Biagioni · Belo Horizonte, MG 29/11/2006 11:02
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Fernando Mafra
 

Sobre verdade gosto da definição que vi em um filme do John Carpenter: "A verdade é o que dizemos uns aos outros.", não sei se é uma citação de outra fonte, mas gosto.

Seus questionamentos tem grande relação com um fenômeno que vivi, e testemunhei em outros: A Crise da Formatura. Ou Crise do Diploma. ;)

Fernando Mafra · São Paulo, SP 30/11/2006 12:47
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Jornalista81
 

Discordo!
É muito mais difícil esgotar um assunto do que parece ser.
E todo jornalista (todo bom jornalista pelo menos) se pudesse, faria uma reportagem com todos os lados que ele pudesse "fotografar" do assunto em pauta, e nem só por isso o assunto estaria esgotado, pelo contrario, geraria mais interesse, pois isso se chama APROFUNDAMENTO. Discordo fortemente de você. Leia um livro chamado A SANGUE FRIO, de Truman Capote.
Ele vai a uma cidade onde ocorreu um crime, dois assassinos mataram uma família sem motivo aparente. Ele vai, a princípio, para fazer uma reportagem para o jornal sobre qual foi o efeito dos assassinatos sobre a população da cidade. Mas ele percebe que uma reportagem não seria suficiente, e então ele escreve um livro.
O livro é um clássico do jornalismo literário, é um livro enorme. Monstruoso. E acredite, o assunto não está esgotado. Quem lê o livro quer saber mais e mais sobre o que se passou na cidade, os motivos, conhecer as pessoas.
Investigar, é como cavar um buraco, quanto mais você cava, maior fica.

E sobre a efemeridade do jornalismo, eu também não gosto de fazer matérias desse tipo, mas elas são necessárias. Por mais efêmeras que sejam, por menor que seja a sua vida, são elas que movimentam a roda da democracia, as pessoas precisam saber dos fatos (alguém tem interesse neles) mesmo que no instante seguinte ele perca a sua importância, mas se naquele momento a notícia foi importante, então ela cumpriu sua missão. Existem inúmeros exemplos de pequenas notícias, de notas até, que mudam pontos de vista, que mudam situações. O jornalista deve interessar-se por aprofundar, claro, mas a efemeridade faz parte de seu trabalho, e isso não é triste nem feio, é natural, a vida é assim, fazemos atos e no instante seguinte eles estarão esquecidos. Não lute contra isso.


Leia meu texto quando puder
http://www.overmundo.com.br/_overblog/noticia.php?titulo=um-pequeno-exemplo-cosmico-do-caos

Jornalista81 · Brasília, DF 2/11/2007 11:46
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Jornalista81
 

A propósito.
Você entrou em filosofia para sair da crise?

Rsss. Se conversarmos mais um pouco creio que eu posso bota-la num cheque matte em cima da filosofia. Rsss

Jornalista81 · Brasília, DF 2/11/2007 11:48
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Roberta AR
 

Bem, jornalista. Primeira coisa, quantos "lados" uma única pessoa é capaz de ter? Vejo que você é apaixonado pela profissão que escolheu, mas é bom termos senso crítico sobre o que fazemos. O jornalismo comercial só dá conta dos interesses do veículo. Interessante você citar Capote, que, a propósito já li, e não só ele como outros do new jornalism. Eles propunham um novo jornalismo, que expusesse o jornalista na construção do texto. É fácil ver o quanto tem de Capote em A Sangue Frio, escrever o livro foi um grande impacto em sua vida, tanto quanto em sua carreira. Norman Mailer se coloca como personagem no livro A Luta, que narra a luta de George Foreman com Muhammad Ali, mas isso não é o que encontramos no jornalismo cotidiano. Sobre minhas escolhas pessoais de aprofundamento, creio que cada um deva escolher o seu caminho e, creia, não é tão simples assim colocar alguém em cheque matte, principalmente quando se pretende impor algo como verdade. Essa é a minha principal crítica aos que se dizem porta vozes do "real".

Roberta AR · Brasília, DF 2/11/2007 14:33
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