O varejo do preconceito

Foto: Marcela Aline
Nós, patinadores, posando para foto após campeonato da nossa Associação jun/06
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Capoeira Cambará · Ananindeua, PA
14/8/2007 · 105 · 9
 

Outro dia um filho meu, jovem de 25 anos, foi chamado de senhor por uns garotinhos. Ele levou um susto, pois nunca houvera sido chamado daquela maneira: senhor. Justo ele, um patinador radical. Bem, ele achou que talvez fosse pela barba, sem fazer havia 20 dias ou mais, e se apressou em cortar. Fiquei na minha, ouvindo e observando, deixo que ele mesmo vá descobrindo que nesse campo as coisas só vão piorar.

Pois é. Estou falando do preconceito contra as pessoas idosas. Todo mundo acha que sabe o que é uma pessoa idosa só de olhar para ela. Cabelos brancos, muitas rugas na face e por aí vai. Ninguém tem dúvidas sobre o que é um velho ou uma velha, não é mesmo?

Aconteceu, porém, que eu fiquei com os cabelos brancos e tenho uns, digamos, sulcos faciais bem definidos. Meio excêntrico, curto muito meu carrinho branco, um Voiage/83. Vez por outra ele vai para um spa de carros, a oficina de lanternagem do Adilton, para remoção de ferrugens, pintura nova, etc. Acho até que já estão chamando isso de revitalização.

Numa dessas estadias dele lá na revitalização experimentei três tipos de transporte para o percurso casa-trabalho-casa: a pé, bicicleta e ônibus circular. Conclusão: por razões diversas, nenhum deles atende as necessidades de uma pessoa, idosa ou não idosa.

Detenho-me um pouco hoje no caso do ônibus circular. De cara qualquer um vê que não existem abrigos verdadeiros para uma pessoa esperar. Os abrigos são uma farsa. Isto todo mundo sabe que é assim mesmo e ninguém liga. Mas está errado. É preciso fazer um movimento de caras pintadas aí para gente ter abrigo nas paradas? Quando eu me aposentar vou encher as caixas postais dos políticos.

Aí eu entro no ônibus, escalo um degrau cuja altura enorme é inversamente proporcional à largura, me agarro nuns ferros, o motor ronca e o bicho vai andando comigo meio pendurado. Segui o conselho do Indiana Jones, não olhei para baixo. Ufa! Escapei daquela.

Consegui chegar na roleta e aqui é que a coisa fedeu. A cobradora, amável, sugeriu que eu ficasse por ali mesmo, não precisava passar a roleta, nem pagar a passagem. Fiz questão de pagar e passar, agradeci, sentei já perto da porta de saída e fiquei pensando no porque daquilo. Aquela área sugerida por ela é onde teve ou tem ainda uma placa horrorosa dizendo ser reservada a “idosos, grávidas e deficientes” – esqueceram as crianças, pensei. Tudo bem, a existência dessas placas e locais já constitui aberração, mas comigo não, ainda não assumi qualquer das duas condições possíveis a mim. Nem um sujeito velho nem pessoa portadora de necessidades especiais, apesar do que resta de meus cabelos brancos e rugas, com muitos e horrorosos erros e erres.

Dia seguinte outro cobrador tenta me envolver numa operação financeira em que me devolvia R$0,35 e ele ficava com R$1,00. A passagem de circular custava R$1,35. Recusei a oferta, afetei uma classe que nem tenho, mas consegui pagar e passar sem grosserias. Fui de novo filosofar lá perto da porta de saída. Puxa vida, o cara quer que eu me passe por velho. Ele fica com um Real e eu com trinta e cinco centavos pela tramóia contra o dono da empresa, patrão dele? As empresas de ônibus merecem um boicote mas, não, isso é uma ofensa à velhice.

Meu carrinho está há cerca de 30 dias na revitalização e durante esse tempo vários cobradores tentaram corromper minha juventude. Não aceitei nem aceito. Quando me aposentar vou encher as caixas postais dos políticos com e-mails caras pintadas exigindo leis e cumprimento delas quanto ao respeito às pessoas, idosas ou não.

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anamineira
 

Com as próprias experiências é que vamos alertando as pessoas de todas as idades. Seu texto é prova disto. Na falta do carro, que aprendizado significante voce obteve e estou aqui para aprender, manda mais. Um abração mineiro.

anamineira · Alvinópolis, MG 11/8/2007 16:06
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Andre Pessego
 

Meu camará velho, e "velho" - Pois é este país é assim mesmo.
Eu pessoalmente sou contra os assentos "obrigatórios" para velho. Por mil razões, mas aqui em São Paulo, pouco ando de ônibus, vez por outra. Só que no final do dia vem nos tais coletivos a rapaziada, ofice-bois muito mais cansados que os diabos dos velhos. Acho até que devia haver uma capanha neste sentido "olhe os velhinhos, cuidado com os vovôs..." aquela coisa. Não impor mais sacrifício ao moleque que trabalha e chega em casa ainda vai pra escola, enquanto o diabo do velho vai roncar no sofá, ...
Mas legal, sua intervenção, axé, meu camará, andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/8/2007 16:35
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Roberta AR
 

A gente sempre fala de velho como se fosse uma coisa distante, mas daqui a pouco seremos nós a sermos velhos. A experiência do seu filho deixa isso bem claro, ser chamado de senhor aos 25 parece estranho para quem é chamado, mas crianças de 6 anos acham velho até quem tem 17. Eu tive uma experiência parecida, que relatei aqui no Overmundo. E acho que envelhecer é uma das coisas mais importantes que vivemos, pois corpo e mente respondem de forma diferente em cada fase da vida e isso deve ter lá o seu motivo.

Roberta AR · Brasília, DF 13/8/2007 17:41
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Andre Pessego
 

vim pra votar, pelo carro, um abraço, andre

(brincadeira pelo texto)

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/8/2007 23:11
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Saramar
 

Cambará, por coincidência, estou lendo "Velhice" da Simone de Beuvoir, e aprendendo cada coisa sobre preconceito em relação aos idosos, pode imaginar.
Essa divisão entre pessoas é uma tragédia em nossa sociedade porque estimula a beligerência entre grupos, eu acho.
Porém, o que estimula mesmo é a existência de vantagens para uns e outros.
E, cá entre nós, se o transporte público tivesse qualidade, não haveria necessidade de privilegiar ninguém, não acha?

beijos

Saramar · Goiânia, GO 14/8/2007 15:39
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Ora, ora,,, Vossa Excelência nem me avisa que escreve no OverM.! E escreve bem, para quem só pensa em Capoeira. Mas Belém já foi pior em matéria de criança nos coletivos. Cansei de escrever nos jornais locais que tratar a criança daquela forma era um absurdo. Agarotada, mesmo com roupa de domingo era obrigada pelos pais/trocadores a se "esgueirar" por baixo da roleta, esfrgando-se no chão imundo dos ônibus. Felizmente, isso acabou, demorou anos mas acabou.
Quanto a ser velho... já nascí velho, não consigo ver muita diferença nestes meus atuais 54 outonos e o tempo anterior.
Já leu meu texto A MULHER-MARAVILHA, verme! Então, leia!

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 14/8/2007 15:54
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Capoeira Cambará
 

Axé, pessoal, foi muito acolhedor o apoio de vocês.
-x-x-x-x-
Nato, amigo velho, abração. Vou ler seu texto "A MULHER MARAVILHA' já já... e nem precisava me chamar de verme.

Capoeira Cambará · Ananindeua, PA 14/8/2007 23:37
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Esso A.
 

coloquial, simples, bom.
muito bom, seu texto e a reflexão contida nele.
continue a escrever, pois haveremos de aprender ainda mais com você.

www.sítiodoesso.com

Esso A. · Natal, RN 15/8/2007 19:02
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Sergiomirandinha
 

Opa, não sei se você soube, houve uma manifestação que aconteceu agora dia 1 de Janeiro em São Paulo na posse do prefeito. Saiu no 'Va de Bike': http://goo.gl/ebwn3 E no Diario de S. Paulo: http://goo.gl/hZVja Eis aqui fotos da Manifestação: http://goo.gl/VUTQN - Acho que a Bicicletada deve se movimentar em eventos estratégicos assim, para chamar bem atenção, e pedir pontos concretos, como é o caso do plano de 2008 engavetado. Para saber mais sobre o plano de 2008, acesse este artigo do "Va de Bike" http://goo.gl/OCXlJ .

Sergiomirandinha · São Paulo, SP 6/1/2013 11:30
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