O venhevai do turismo e o sobidesce da favela

Palloma Menezes
O turista fotografa a favela (ou a favela fotografa o turista)
1
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
28/10/2006 · 256 · 11
 

Come√ßo a entrevista fazendo propositadamente uma pergunta ampla e gen√©rica, quase uma daquelas perguntas com que os candidatos mutuamente se digladiam nos debates eleitorais: √Č poss√≠vel fazer turismo na favela? Bianca Freire-Medeiros, a entrevistada, s√≥ vai me responder essa pergunta plenamente nos minutos finais da nossa conversa. N√£o porque ela tenha se esquivado naquele momento de me responder, ou porque a pergunta tenha soado besta para iniciar mecanicamente uma entrevista jornal√≠stica. S√≥ foi respondida no fim, porque a quest√£o √© complexa demais para ser trabalhada de chofre. E foi isso que toda a nossa conversa demonstrou.

Digo conversa, porque foi assim que me referi quando travei o contato inicial. E digo contato inicial querendo dizer o segundo contato que tive com Bianca, talvez o primeiro mais personificado, j√° que o outro havia sido em sala de aula, numa palestra ministrada por ela em uma disciplina eletiva oferecida pela professora Rosane Prado do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Ci√™ncias Sociais (ppcis) da uerj. Nossa conversa n√£o se limitou √† pesquisa que Bianca nesse momento desenvolve sobre as possibilidades de implementa√ß√£o do turismo na favela, falamos tamb√©m sobre a mudan√ßa de institui√ß√£o (ela √© pesquisadora do cpdoc da Funda√ß√£o Get√ļlio Vargas h√° cerca de seis meses), sobre o Overmundo, sobre o novo filme de L√ļcia Murat (a tese de ph.d. de Bianca, na Binghantom University, de Nova Iorque, tamb√©m fala da representa√ß√£o do Rio de Janeiro no cinema hollywoodiano), e sobre a pr√≥xima miniss√©rie da Globo ‚Äď Amaz√īnia, de Galvez a Chico Mendes ‚Äď em cuja produ√ß√£o trabalha como pesquisadora junto √† Giovana Manfredi, Sandra Regina e a autora Gl√≥ria Perez.

Pouco antes de eu abrir a entrevista com a fat√≠dica pergunta, Bianca me conta que, em outro trabalho para a tev√™ Globo, p√īde experimentar o drama da pesquisa para a televis√£o. Acompanhando todo o processo de produ√ß√£o real√≠stico da novela Am√©rica e fornecendo material sobre a situa√ß√£o dos imigrantes em Miami, ela estranhou quando uma cena se distanciou da verosimilhan√ßa prezada em outros casos. Tentou argumentar, mas recebeu de Gl√≥ria Perez a resposta, Mas isso √© novela.... E fecha aspas.

Foi assim que começamos a entrevista, ou melhor, assim demos prosseguimento à conversa. Separando a ficção da realidade. Entramos de cabeça na pesquisa que Bianca coordena, com mais oito assistentes, sobre o turismo na favela.

Com a fala marcada por anacolutos, coisa de quem tem a cabe√ßa fervilhando de id√©ias, a entrevistada responde sem pestanejar todas as minhas interven√ß√Ķes. Deixo o gravador ligado, porque sei que n√£o vou conseguir acompanhar tudo na minha pobre escrita infinitamente lenta e minha mem√≥ria defasadamente lapsa. No fim do bate-papo, com a fita j√° esgotada, lembro de Bianca mencionar que experi√™ncias tur√≠sticas como essas provavelmente tiveram in√≠cio na √Āfrica do Sul, com o caso das peregrina√ß√Ķes √† cela de Mandela. No Brasil, o registro mais pr√≥ximo de um caso como o do Rio √© um tour realizado na Bahia, para onde uma de suas assistentes se dirige a fim de conhecer melhor o projeto.

A pesquisa de Bianca se desenvolve em tr√™s fronts ‚Äď entrevistas com os agentes fomentadores, entrevistas com os turistas e entrevistas com os moradores das comunidades (as duas √ļltimas s√£o as pr√≥ximas etapas) ‚Äď e abrange quatro largos territ√≥rios ‚Äď a Rocinha, o Morro da Babil√īnia, o Morro dos Prazeres e o Morro da Provid√™ncia, cada qual com uma caracter√≠stica que lhe √© peculiar.

Pode parecer que foi o in√≠cio da nossa conversa (e, por isso mesmo, essa entrevista √© cheia de venhevais e de sobidesces), mas o insight e o porqu√™ de toda essa investiga√ß√£o sociol√≥gica ela s√≥ me contou no mei√£o do bate-papo: porque quando eu comecei a pesquisa, estava muito mobilizada para a id√©ia de que aquilo era um zool√≥gico de pobres, aquela id√©ia do jipe, entendeu? Eu nem sabia que havia outros tipos de passeios, que n√£o eram feitos por jipe, que tem passeio a p√©, tem de van, tem de moto, enfim... Achava que era o fim do mundo, um absurdo aquilo. Bianca diz que, da G√°vea, via volta e meia subir um, dois, seis, dez jipes, um atr√°s do outro, com a carroceria aberta e turistas fotografando tudo. Na semana que antecedeu a entrevista, eu mesmo avistei um desses jipes. Coisa que chama a aten√ß√£o. J√° ouvi muita gente a respeito disso condenando o formato do passeio, exatamente lembrando a imagem que Bianca prop√Ķe sobre o zool√≥gico de pobres. Ela, no entanto, relativiza a exposi√ß√£o. O que eu acho que √© legal nessa pesquisa √© que ela desconstr√≥i v√°rias impress√Ķes iniciais. Nem todo turista vai l√° com o esp√≠rito de humilhar ou ser invasivo. Nem todos os moradores se sentem invadidos ou ofendidos. Pode ser que haja gente profundamente ofendida, mas n√£o √© esse o clima. Voc√™ √© muito bem recebido. Os moradores n√£o s√£o passivos em rela√ß√£o a esse olhar. Claro, √© uma rela√ß√£o de poder desigual, os turistas v√£o l√°, eles t√™m as c√Ęmeras, eles fotografam e escolhem o que fotografar, mas √© muito interessante como os moradores tamb√©m se aproveitam dessa situa√ß√£o para lan√ßar o seu olhar, para serem sujeitos do olhar. Foi a hora em que eu fiquei pensando sobre o jipe novamente, e perguntei se a met√°fora do zool√≥gico n√£o servia tamb√©m para o morador, que v√™ chegar, numa jaulazinha, o seu circo. E ela: os moradores fazem muita piada. E... a√≠... a roupinha dela! Eles falam muita coisa. Enfim. Nos momentos em que pudemos acompanhar, as pessoas eram super-I-love-you, n√£o tem clima ruim. Mas eu tenho certeza tamb√©m de que quando a gente come√ßar a entrevistar as pessoas, elas v√£o falar alguma coisa... A id√©ia √© perguntar E se voc√™ tivesse que escolher? Se voc√™ pudesse mostrar a Rocinha pro turista, que lugares voc√™ mostraria? Quando voc√™ viaja, que lugares voc√™ visita? ‚Äď porque o morador da Rocinha tamb√©m viaja, nem que seja para Paquet√°. Quer dizer, ele tamb√©m se coloca no lugar de turista, mesmo que isso seja uma coisa pontual. Talvez seja muito duro pra gente aceitar que talvez as pessoas queiram mesmo mostrar seus barracos e sua favela. Na Provid√™ncia, quando a gente come√ßou a conversar, as pessoas diziam Tem que vir mesmo. Tem que mostrar que a prefeitura n√£o t√° nem a√≠, entendeu? Enquanto a prefeitura est√° achando que vai capitalizar um puta-Favela-Bairro maneiro, o cara acha que tem que mostrar que continua tendo lixo n√£o recolhido... √Č muita ingenuidade ou muita pretens√£o ‚Äď alguma coisa entre esses dois extremos ‚Äď do cientista social, da intelectualidade de maneira geral, achar que espertos somos n√≥s, que ningu√©m tem capacidade cr√≠tica a n√£o ser aquele sujeito que estudou, que vem da academia. O sujeito que estudou e o que vem da academia eu reconstitu√≠ com base na minha parca lembran√ßa, j√° que foi precisamente aqui que a fita parou. Antes disso, Bianca j√° havia me explicado cada um dos quatro casos.

Na Rocinha, caso, segundo ela, paradigm√°tico, os passeios acontecem desde 1992. A √ļltima contagem, divulgada pelo jornal O Globo, estimava uma m√©dia de quatro mil turistas por m√™s na localidade. Mas eu acho que √© muito, sabe? O que as ag√™ncias me falavam ‚Äď e eu j√° achava impressionante ‚Äď era algo em torno de dois mil, dois e quinhentos. Se voc√™ contar que cada um paga entre 35 e 40 d√≥lares, voc√™ v√™ a√≠ uma movimenta√ß√£o de dinheiro significativa. E, na Rocinha, s√£o sete ag√™ncias atuando regularmente. E elas fazem tamb√©m outros tipos de passeio ‚Äď s√≥ uma delas, a Favela Tour, faz exclusivamente o passeio na Rocinha mas as outras fazem Corcovado, ecoturismo e tal. √Č um caso extremo, de agentes externos promovendo o turismo, e isso acaba gerando um mercado de produ√ß√£o interna ‚Äď inclusive, por exemplo, de suvenires. No artigo que Bianca apresentar√° na anpocs esta semana, ela cita alguns produtos by Rocinha: camisetas, quadros, bordados, esculturas, cds e uma linha grande de reciclados. Um produto em particular me chamou aten√ß√£o: uma placa com os dizeres 'ROCINHA: A PEACEFUL AND BEATIFUL PLACE ‚Äď COPACABANA ‚Äď RIO DE JANEIRO'. √Č , segundo Bianca, a incorpora√ß√£o da Rocinha ao cen√°rio tur√≠stico mais amplo da cidade. (Algu√©m a√≠ precisa de um mapa para localizar a favela?)

Al√©m da experi√™ncia da Rocinha, Bianca cita, no outro extremo da pesquisa, o caso do Morro da Babil√īnia, cuja tentativa de promover o turismo est√° baseada em inicitivas locais e mobiliza√ß√£o dos pr√≥prios moradores. Na Babil√īnia, os passeios acontecem cerca de duas vezes por ano, com quase cem pessoas guiadas por jovens da comunidade. S√£o passeios gratuitos, com o apoio da prefeitura e do shopping Rio Sul, divulgados geralmente por meio de uma lista de emails. O diferencial, al√©m dos agentes internos explorando o turismo, √© que a procura pelo roteiro da Babil√īnia √© essencialmente de cariocas, alguns ex-moradores, gente interessada em ecoturismo. O drama, aqui, √© que eles n√£o t√™m estrutura. N√£o t√™m um carro que v√° buscar os turistas no hotel, os guias ‚Äď que s√£o jovens do Babil√īnia, do Chap√©u-Mangueira etc. n√£o falam ingl√™s, n√£o falam outras l√≠nguas. E isso √© um impedimento.

O impedimento talvez n√£o fosse t√£o grande se agentes internos e externos unissem for√ßa, √© o que voc√™ deve estar pensando. A√≠ √© que entra a terceira experi√™ncia, o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, em que uma ong oferecia cursos profissionalizantes para os jovens. Mas, infelizmente, l√°, um agente meio-externo-meio-interno n√£o deixou a coisa vingar a contento ‚Äď o tr√°fico. Bianca lembra que conflitos existem, mas n√£o s√£o a t√īnica dos empreendimentos. Ela diz que confia nas ag√™ncias, quando lhes explicam que n√£o h√° qualquer rela√ß√£o com o tr√°fico, e diz tamb√©m que j√° teve situa√ß√£o do turista ter que dar a c√Ęmera fotogr√°fica porque bateu foto do cara armado. Algumas ag√™ncias evitam passar por onde est√£o as bocas. Mas em outras isso √© usado como fator de excita√ß√£o. Falam Olha, vai ter um homem armado, mas voc√™ n√£o fotografa. √Č uma linha totalmente adventure tour. E prova de que numa mesma localidade voc√™ tem possibilidades de passeios diferentes. Mas, em todas as situa√ß√Ķes em que a favela est√° envolvida, voc√™ tem essa dimens√£o do risco como um fator. Uma tens√£o entre risco e seguran√ßa. Agora, o que acho incr√≠vel √© que em todos esses anos n√£o tenha acontecido nada. Se voc√™ pensar bem, nunca acontece nada! Quantas coisas ruins a gente n√£o ouviu falar com turistas em Copacabana?

Outro caso rico em discuss√£o, o √ļltimo dos quatro que Bianca estuda, √© o do Morro da Provid√™ncia. E a√≠, o mais curioso √© que √© o poder p√ļblico promovendo o turismo. O poder p√ļblico como agente, o que √© bem interessante, porque h√° muito tempo voc√™ tem o discurso da remo√ß√£o das favelas, que se tentou realizar, a constru√ß√£o de um muro, aquelas coisas loucas do Conde, e corre em paralelo um discurso como esse, de que n√£o apenas a favela √© parte da cidade, como ela √© patrim√īnio e deve ser exaltada como tal. Bianca tem cerca de nove horas de entrevista com Lu Petersen, uma das idealizadoras do Projeto Favela-Bairro e quem criou o Museu Aberto da Provid√™ncia, que disputa com o Museu da Mar√© o t√≠tulo de primeiro museu em favela. S√≥ essa discuss√£o j√° era legal. Eu at√© escrevi um artigo comparando essas duas experi√™ncias. Acontece que logo depois, n√£o fazia muito que o Museu da Provid√™ncia havia sido aberto, teve aquele conflito do Ex√©rcito em busca das armas perdidas, e v√°rias das coisas que foram recuperadas como bens culturais da favela, como a Capela, o Museu do Samba do Dod√ī ficaram furados de bala. √Č de uma ironia absurda.

Ironia, que fica evidente quando se p√°ra para pensar no fen√īmeno dos reality tours, um fen√īmeno mundial, um turismo com esse car√°ter de envolvimento social, um passeio sombrio, violento, tr√°gico. Bianca tem planos de realizar um estudo conjunto, com uma amiga soci√≥loga de Nova Iorque, comparando as experi√™ncias de turismo nas favelas, no Ground Zero, e em Nova Orleans ‚Äď o mais recente desses reality tours, que atende pelo slogan On the eye of the storm √© o Katrina Tours, Entendeu? S√≥ falta um ventinho... A quest√£o, para a pesquisadora, √© essencialmente moral. Diz-se Money and Morality. Quando h√° dinheiro e moral envolvidos, como essas coisas operam juntas? O que voc√™ est√° vendendo, o que est√° sendo comercializado no turismo √© a economia de sensa√ß√Ķes, n√£o s√£o coisas exatamente palp√°veis, mas experi√™ncias. √Č a coisa da mis√©ria humana, n√£o no sentido exclusivamente da pobreza, mas da condi√ß√£o. E como voc√™ transforma isso numa mercadoria? Ela conta que, quando come√ßou as entrevistas com os agentes promotores, perguntava O que voc√™ precisa para vender a favela como atra√ß√£o? O que voc√™ precisa fazer para convencer o turista?, e eles diziam: N√£o, voc√™ n√£o tem que convencer ningu√©m. Todo dia tem gente querendo ir √† favela.

A motiva√ß√£o que impele esse enorme contingente de turistas para a favela √© o pr√≥ximo passo a ser investigado na pesquisa. E, para explic√°-la, conforme lembra Bianca, √© preciso levar em conta o processo e os produtos midi√°ticos. Saber que o tour existe n√£o √© t√£o complicado. Nos pr√≥prios hot√©is h√° flyers e material de propaganda de diferentes ag√™ncias. Alguns turistas j√° v√™m do exterior, ou porque viram em sites, ou porque algu√©m comentou, ou porque v√°rios guias indicam, como √© o caso do London in Planet, e recentemente, do pr√≥prio guia da Riotur. As pessoas ficam sabendo, mas em ficar sabendo n√£o seriam obrigadas a fazer. O que h√° √© uma invers√£o da l√≥gica. √Č quase que uma sugest√£o de que, para entender e de fato conhecer o que √© o Rio ‚Äď e n√£o apenas o Rio de Janeiro mas o Brasil ‚Äď √© preciso visitar a favela. N√£o √© entendendo o Brasil que voc√™ compreende a favela, √© ao contr√°rio. O turismo na favela √© uma experi√™ncia que garante a voc√™ uma compreens√£o do que √© a cultura brasileira, porque est√° tudo ali, diz Bianca. Vendidos como uma experi√™ncia microssociol√≥gica, os roteiros tamb√©m d√£o ao turista a sensa√ß√£o de realizar um trabalho social, uma esp√©cie de a√ß√£o altru√≠stica. A maioria dos estrangeiros que v√£o e v√™m nos jipes, nas motos, nas vans s√£o pessoas que j√° fizeram Calcut√°, j√° fizeram Indon√©sia, China, e comparam essas experi√™ncias. Mas a favela carioca, diz Bianca, oferece uma coisa √ļnica. N√£o √© √† toa que tem que ser na Zona Sul, ou pelo menos em lugares que n√£o sejam planos. As pessoas v√™m motivadas por Cidade de Deus, todas as ag√™ncias diziam isso sobre o fen√īmeno Cidade-de-Deus: deu um aquecimento violent√≠ssimo ao mercado. Mas se as pessoas v√™m interessadas pelo que viram no filme, por que afinal de contas n√£o fazem o tour em Cidade de Deus? E a resposta √≥bvia era que √© muito longe da Zona Sul e n√£o tem uma boa vista. N√£o corresponde a essa id√©ia, j√° completamente internalizada na audi√™ncia internacional, de que favela √© sin√īnimo de morro com vista para o mar. Cidade de Deus n√£o √© isso. Outro caso bem ilustrativo √© o do document√°rio Favela Rising, sobre o Afroreggae. V√°rias cenas, que supostamente se passariam em Vig√°rio Geral, foram filmadas no Vidigal. A pessoa est√° falando Eu nasci e fui criada em Vig√°rio Geral ‚Äď e vem uma cena mostrando o Vidigal... E √© muito bom esse caso do Favela Rising, porque n√£o tem nada do estrangeiro-ludibriando-o-pobre-brasileiro, √© uma co-produ√ß√£o com o Afroreggae, uma constru√ß√£o amarrada e acordada entre as partes.

Nessa hora, aparece a imagem transl√ļcida e reluzente de um clone et√©reo de Gl√≥ria Perez pairando sobre a entrevista, Mas isso √© s√≥ um filme ‚Äď ela diz. E Bianca responde √† pergunta imagin√°ria com um sorriso que para bom entendedor meia palavra basta: S√≥ que esse √© um document√°rio, n√©? Outra ironia? Para Bianca, o exemplo aponta que dificilmente outras favelas teriam a oportunidade de entrar no mercado.

Voc√™ tem que ter algumas prerrogativas est√©ticas que nem todas as favelas t√™m. √Č claro que o que hoje o turismo faz mundo afora √© criar novos predicados tur√≠sticos em localidades inesperadas, mas essa tradi√ß√£o, que associa a pobreza brasileira a essa est√©tica que √© muito particular, que √© a est√©tica do samba, do colorido, a est√©tica de Cidade de Deus, vem de longa data. N√£o √© a pobreza coberta de moscas de Calcut√°, n√£o √© uma pobreza desdentada, √© uma gente bonita, alegre, estruturalmente feliz. E isso corre pelo mundo. Compare isso com o que Bianca dizia j√° no in√≠cio da entrevista ‚Äď A Rocinha √© uma experi√™ncia de contato com a pobreza. Houve uma vez em que eu fazia o passeio com os turistas e o cara disse assim: Ah, mas eu esperava coisa pior. Ent√£o voc√™ pensa: A Rocinha n√£o √© pobre o suficiente ‚Äď e voc√™ v√™ que √© realmente uma l√≥gica invertida.

Na verdade, a maior parte dos roteiros na pr√≥pria Rocinha acontece quando as pessoas est√£o trabalhando, ent√£o, h√° pouco contato com os moradores. Pouco contato com os adultos... As crian√ßas fazem o maior sucesso, sabe? E √© um contato muito visual, muito intermediado pela experi√™ncia da fotografia e daquele impacto visual que a favela oferece. Tem a barreira da l√≠ngua. Mas as crian√ßas interagem. Elas ficam atr√°s, querem ser fotografadas, se voc√™ entrar nos sites das ag√™ncias, tem pelo menos uma foto de crian√ßa se olhando na c√Ęmera. E tem toda uma din√Ęmica, as ag√™ncias n√£o gostam que as crian√ßas fiquem pedindo, ent√£o elas come√ßam a vender pulseirinhas, artesanato... E a coisa se transforma de fato num atrativo.

Uma das ag√™ncias que exploram o turismo na Rocinha ‚Äď a Favela Tour ‚Äď mant√©m um projeto social em Vila Canoas. Mas, Bianca conta que essa √© uma exce√ß√£o. Todos acham que est√£o contribuindo para uma melhoria da localidade na medida em que o turismo desconstr√≥i estere√≥tipos e as pessoas se sentem... ela hesita, prestigiadas. Al√©m disso, h√° esse tema da auto-estima dos moradores, muito marcado. √Č como se a simples presen√ßa do turismo j√° fosse a√ß√£o social suficiente.

Mas a impress√£o que fica, palavras da pr√≥pria Bianca, √© que, na vis√£o dos moradores, n√£o √© a presen√ßa do turismo o problema. Quer dizer, o problema n√£o s√£o os turistas, ou a id√©ia de que as pessoas v√£o l√° para ver os pobres, o problema √©: quem √© que lucra com isso? ‚Äď o que complexifica muito a quest√£o, porque n√£o √© a pobreza transformada em mercadoria que √© o drama, talvez seja o nosso drama, mas n√£o o deles. H√° uma fala de uma das lideran√ßas nas entrevistas que fizemos bem ilustrativa. Eu pergunto, Mas voc√™ n√£o acha que √© uma coisa complicada as pessoas fotografarem os barracos mais pobres, mais prec√°rios? E o cara diz, N√£o. O que est√° a√≠ √© pra ser visto, a realidade t√° a√≠ pra ser encarada. Eu quero √© saber de quem √© o direito autoral. √Č meio que uma invers√£o do que a gente acha que √© direito autoral. √Č como se ele dissesse, Eu quero saber com quem fica o direito de ser e de vender a pobreza... Mas eu acho que essa √© uma quest√£o para a gente tamb√©m, porque essa √© uma discuss√£o nossa ‚Äď eu digo, da intelectualidade, da academia, mesmo da classe m√©dia.

E, então, só então, Bianca responde a minha primeira pergunta: Eu acho que a favela tem tudo para dar certo como atração. Já dá, e vai continuar dando. Agora, você ter uma experiência de turismo onde os moradores sejam os maiores beneficiados, aí já é outra história. E são essas dificuldades que as experiências têm demonstrado. Respondida?

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ronaldo lemos
 

Viktor, muito legal o seu texto.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 26/10/2006 00:33
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Thiago Camelo
 

Muito legal mesmo. Algumas quest√Ķes me iluminaram id√©ias. Uma delas √© esse debate de que o turista √© visto/observado /admirado/criticado tanto quanto ele v√™/observa/admira/critica. As vias s√£o sempre de m√£o dupla, e me parece que negar isso (ou n√£o reparar isso, o que acontece assim quase sem querer) j√° √© ter uma vis√£o unilateral.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 26/10/2006 20:24
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
F√°bio Fernandes
 

Excelente texto.
Isto √© o que eu costumo chamar de experi√™ncia cyberpunk de primeiro grau: situa√ß√Ķes que em outras √©pocas seriam chamadas de surreais mas que hoje est√£o come√ßando a ficar comuns (e viram objeto de tese e document√°rio).

F√°bio Fernandes · S√£o Paulo, SP 30/10/2006 10:07
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Claudiocareca
 

Muito legal o txt. A entrevista/conversa com uma pessoa extraordinária. Parabéns Viktor! Os links são ótimos. Abraço.

Claudiocareca · Cuiab√°, MT 30/10/2006 12:01
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Luisa Pitanga
 

Viktor, obrigada por divulgar uma pesquisa t√£o relevante. A parte sobre os requisitos est√©ticos que a favela deve possuir para se tornar atra√ß√£o tur√≠stica √© genial. Fica a pergunta: √© poss√≠vel um efetivo retorno econ√īmico e social para as comunidades envolvidas? Vamos esperar a Bianca descobrir...

Luisa Pitanga · Rio de Janeiro, RJ 30/10/2006 21:59
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Guilherme Mattoso
 

parabéns pelo texto, muito bom. achei meio longo pra ser lido na telinha, mas mesmo assim está legal.

Guilherme Mattoso · Niter√≥i, RJ 31/10/2006 10:28
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Texto e entrevista muito bons, Viktor. Mas sinceramente, continuo achando esses safaris de gringo pelas favelas cariocas uma coisa muito esquisita!

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 28/11/2006 12:13
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Fabinca
 

Muito boa a reportagem! Parabéns!
Não está longa, não. Envolveu-me tanto que, ao chegar ao fim fiquei com a sensação: "Puxa, queria continuar lendo mais a respeito..."

Fabinca · Bento Gon√ßalves, RS 16/12/2006 18:40
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Luciana Maia
 

sou formada em Turismo, preciso dizer que fiquei muito impressionada com essa visão sociológica na questão de como a comunidade pode ser vista pelos "outros" (zoológico de pobres), assim como os outros podem ser vistos pelas mesmas (o circo). O Turismo nas favelas sempre foi assunto polêmico, em virtude da violência do tráfico mas tb a pergunta "O que é que o turista vai querer ver lá? Eles querem beleza...". Mas na visão social dos agentes esse novo e arrojado serviço turístico pode ser um "fomento à atividade turística da sociedade local". Mas e a comunidade? Como é que fica? Esse desenvolvimento precisa ser válido para eles tb, de alguma forma. Fantástico texto.

Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2007 22:52
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Viktor Chagas
 

Ol√° a todos. Finalmente dando as caras por aqui. Obrigado.
Luciana, Talvez possa te interessar, sobretudo em rela√ß√£o a tua √ļltima pergunta e n√£o tanto √† perspectiva do turismo em si, uma outra materinha experimental que acabo de deixar na Edi√ß√£o do Overmundo. √Č um texto sobre minha primeira visita ao Museu da Mar√©.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2007 10:20
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Leonardo André
 

Parab√©ns pela mat√©ria! Esse lance de turismo na favela sempre me deixou encafifado. Sempre vem a imagem do Zoo, dos jipes e tal. Vale lembrar que o neg√≥cio faz tanto sucesso que at√© artistas gringos como Michael Jackson e Snoop Dogg vieram gravar video-clipes por aqui. Mas o que mais chamou aten√ß√£o foi o fato de que os moradores n√£o lucram diretamente com esse turismo, a n√£o ser vendendo souvenirs . √Č a trag√©dia social brasileira trasformada em mera mercadoria ou cen√°rio. Sinistro.

Leonardo Andr√© · S√£o Paulo, SP 26/7/2007 16:46
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