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Obrigada, Porto da Estrela

Tetê Oliveira
Em sua sala, o professor Ney Alberto cata milho numa velha Olivetti.
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Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ
25/6/2007 · 256 · 19
 

Não há um museu sequer em Nova Iguaçu. Não por falta de histórias para contar – e resgatar. Se alguém duvida do potencial histórico desse município da Baixada Fluminense, que possui mais de 800 mil habitantes e originou outras seis cidades, emancipadas ao longo do século passado - Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Queimados, Japeri e Mesquita -, certamente não conhece o professor Ney Alberto Gonçalves de Barros.

Tive o prazer de encontrá-lo por acaso. Em uma rara tarde sem muita correria, vi um banner no Espaço Cultural Sylvio Monteiro sobre a exposição fotográfica “De Iguassú a Iguaçu”, da qual ele foi curador, e entrei. Moradora de Nova Iguaçu desde os primeiros dias de vida, olhando aquelas fotografias, eu descobri um lado da cidade com o qual nunca tivera contato. E, atrás de mais informações para divulgar aqui no Overmundo, acabei na sala que o professor Ney ocupa no Espaço Cultural. Ele se prontificou a percorrer a mostra comigo e contar as histórias por trás das fotos.

Essa aula inicial durou cerca de meia hora. E abordou desde o surgimento da Vila de Iguassú até episódios pitorescos como um protagonizado por Antônio Joaquim Machado. Vice-prefeito que assumiu a prefeitura após a cassação do titular, Machado mandou derrubar o imponente prédio da Câmara-Prefeitura, após receber um pedido para tombar aquele patrimônio (pra quem leu a nota que postei em Agenda, esse fato já é conhecido. Aliás, a exposição foi prorrogada e ficará em cartaz, pelo menos, até 1º de julho).

Também soube da estratégia adotada pelo coronel Alberto Melo, para assegurar sua posse como prefeito, em 1929. Segundo o professor, o pessoal da família Soares, adversária política do coronel, o havia ameaçado, caso insistisse em vir a Nova Iguaçu para assumir a prefeitura. Numa foto, após desembarcar na Estação de Nova Iguaçu e a caminho do prédio da prefeitura, na Av. Marechal Floriano, aparece o coronel Melo cercado por capangas, utilizando chapéus Palheta. “Quando o entrevistei em 1960 (o professor escreveu para jornais na Baixada, como o Hoje e O Correio da Lavoura), ele contou que debaixo dos chapéus havia garruchas”, diz Ney, chamando minha atenção também para um certo volume sob o terno dos capangas – provavelmente, mais armas escondidas.

As histórias aguçaram minha curiosidade. E, dias depois, decidi explorar mais os conhecimentos do professor – e conhecer sua própria história. Nascido no Hospital Iguaçu, em 1940, ele reúne fotos, documentos, mapas e livros desde 1954. Adolescente, alguns de seus programas preferidos eram acampar no meio do mato com amigos para explorar ruínas e pesquisar em bibliotecas e no Arquivo Público. O aprendizado se dava até mesmo nos castigos impostos por seu pai, Newton, um professor de Filosofia. Se quisesse ir ao Maracanã num domingo, por exemplo, tinha de cumprir uma tarefa ao longo da semana. “Ele me trancava na biblioteca e me dava um livro para ler. No dia do jogo, eu tinha de responder a diferentes perguntas sobre a obra. Tinha de saber tudo, da primeira à última página. Se acertasse, podia ir ao estádio”, lembra.

Ao concluir o curso ginasial (atual ensino fundamental), aos 18 anos, Ney obteve autorização temporária do MEC para dar aulas de História. No início dos anos 60, se submeteu a um curso de aperfeiçoamento de ensino secundário e conquistou o status definitivo de professor registrado pelo MEC. A carteirinha que lhe garantiu esse direito, ele ainda traz no bolso e exibe com orgulho. Já o título de arqueólogo recebeu após fazer um curso no Museu Histórico Nacional: “Naquele tempo, não existia faculdade de Arqueologia”. Tempos depois, graduou-se em História e Direito.

Em 1962, fundou o Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu, junto com amigos dos tempos de exploração histórica em Tinguá e adjacências. Nomes como Ruy Afrânio Peixoto e Zanon Paula Barros. Hoje o acervo do instituto tem mais de duas mil fotografias históricas – e serviu de base para a exposição “De Iguassú a Iguaçu”.

Sem muitos registros documentais da história iguaçuana, o professor Ney sempre investiu nos depoimentos de moradores da região, num resgate da memória oral da cidade. E ele mesmo é um exemplo dessa memória.

Atual diretor do Setor de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, deixou de exercer o magistério em 1980 (a família é proprietária do tradicional Colégio Leopoldo), após sofrer um acidente grave ao saltar de pára-quedas na Amazônia. Apesar do nome pomposo do cargo público, o professor ocupa uma sala modesta à entrada do Espaço Cultural. Na decoração, o destaque fica com as inúmeras caixas de papelão com documentos, espalhadas pelo chão, uma máquina de escrever antiga e um pequeno aparelho de som sobre a mesa lotada de papéis. Nada de computador, nem telefone.

Ali, o entra-e-sai de pessoas quase não pára. Pode ser um amigo que viu a exposição e vai cumprimentá-lo. Ou uma estudante de Turismo, em busca de informações para uma pesquisa sobre a existência de quilombos em Nova Iguaçu. Ou compositores da Baixada, que participam de um levantamento musical para apresentação de suas obras a uma gravadora. E assim descubro que, além de historiador, professor, arqueólogo, advogado e escritor, Ney Alberto também é compositor: já teve músicas gravadas por Bezerra da Silva e Agepê, entre outros cantores. Isso explica o equipamento de som sobre a mesa de trabalho.

Entre uma visita e outra, insisto em perguntar mais sobre os causos de Nova Iguaçu - e o professor Ney demonstra prazer em compartilhar seus conhecimentos. Na seqüência da aula, ele fala sobre Arruda Negreiros – que dá nome a um colégio perto de minha casa e sobre quem não sabia nada mais.

Prefeito da cidade, por três vezes, Negreiros fundou a Escola Municipal Monteiro Lobato, uma das mais tradicionais de Nova Iguaçu. Mas o professor me contou passagens corriqueiras protagonizadas pelo político. “Arruda Negreiros costumava chegar cedinho à prefeitura. Certo dia, um vigia quis agradar e disse que havia sonhado com ele. Ele mandou o homem direto pra Divisão de Infração e o exonerou. Afinal, se tinha sonhado é porque havia dormido em serviço”, ri o professor. De outra feita, um cavalo foi atropelado por um trem, e criou uma polêmica, envolvendo dois órgãos municipais, sobre quem tinha a responsabilidade de retirar o animal de lá. O professor diz que Negreiros resolveu a pendenga com uma decisão meio surreal: “Ele mandou serrar o cavalo ao meio”.

Causos à parte, o professor Ney revela que havia mais de 160 aldeias indígenas nas Baixadas Fluminense e de Sepetiba. “Os indígenas se associaram aos franceses protestantes e foram massacrados por empenho de José de Anchieta”, fala. Em Mesquita, havia um cemitério indígena. “No período de terraplanagem do Morro da Jacutinga, para a construção da Rodovia Presidente Dutra, destruíram muitas peças indígenas. Lá ficava a aldeia Jacutinga.” Todo um patrimônio arqueológico perdido.

Já vestígios da história dos escravos e seus quilombos são encontrados em Tinguá. “Lá tem um lugar chamado aldeia da pedra. O Ribeirão das Galinhas, na verdade, é Ribeirão dos Galinhas. Os Galinhas eram escravos vindos da África Oriental, e fizeram um quilombo na região”. O professor fala ainda sobre a possibilidade de ter havido outro quilombo nas proximidades da cratera do vulcão, na Serra de Madureira, Maciço de Gericinó (em Guia, Descobrindo a Serra do Vulcão). A suspeita tem a ver com o bairro K-11, próximo ao centro de Nova Iguaçu e ao pé da serra. Segundo documentos, o nome do lugar em 1799 era Quanza e, em 1909, mudou para Cuanza. Coincidentemente ou não, a moeda de Angola é kwanza e aquele país tem uma província chamada Kuanza Norte. De lá teriam vindos os escravos que viveram naquela região iguaçuana.

A aula prossegue. “A Avenida Niemeyer foi construída pelo iguaçuano Conrado Jacob de Niemeyer, com dinheiro do próprio bolso. Você sabia?” Não, não sabia. E duvido que fosse a única a desconhecer esse detalhe sobre um dos cartões-postais da Zona Sul carioca. O comendador Conrado Jacob Niemeyer (neto) nasceu em Tinguá, fundou o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e era um apaixonado pela Praia da Gávea. Segundo o professor, Niemeyer construiu uma igreja dedicada a São Conrado naquela região e financiou, anos depois, a construção da avenida – que havia sido iniciada pelo poder público e abandonada (prática comum até nossos dias, vide as pontes que ficam pelo meio do caminho).

É difícil absorver tanta informação em um só encontro: Maxambomba, antigo nome da cidade, significa carro de boi; Francisco Soares de Melo, um rico fazendeiro, amigo e fã de D. Pedro II, se auto-exilou na França e doou quatro fazendas à Santa Casa de Misericórdia, desiludido porque o imperador não foi nomeado o primeiro presidente do país; o cemitério da cidade foi transferido de lugar duas vezes, com direito a remoção de “seus moradores”; três caminhos do ouro, no tempo do Império, passavam por Nova Iguaçu; e por aí vai.

Numa pesquisa na Internet, após essa aula especial, descobri que um desses caminhos do ouro, Porto da Estrela (atual Inhomirim, em Magé), foi decisivo para que a História conquistasse de forma definitiva o professor Ney.

“Em 1954, eu vou explicar agora, de certa forma, como eu comecei a me interessar por geo-história. Nós formamos um grupo (de amigos) para reunir as melhores poesias de amor. Eu estava no curso ginasial, peguei uma série de poemas e um me chamou a atenção de maneira muito interessante. Era um poema de Tomás Antônio Gonzaga (...), e ele dizia o seguinte, num dos trechos: ´Meu sonoro passarinho / Sabes do meu tormento / E queres dar-me cantando / Um doce contentamento / Procuro o Porto da Estrela...` Eu já tinha ouvido falar no Porto da Estrela, mas nunca tinha feito uma excursão até esse local e resolvi visitar o Porto da Estrela. (...) ainda estava com as ruínas visíveis e eu fiz umas escavações no pé de um monte, que tinha uma parte de pedra e cal, e achei uma chave muito grande. Nesse instante, eu passei a me interessar, ao mesmo tempo por geografia, por história e por arquitetura”, contou o professor, em 2003, em depoimento ao Centro de Memória Oral da Baixada Fluminense (leia aqui a íntegra do depoimento).

Para finalizar, gostaria de corrigir uma informação dada nesse texto: o professor Ney Alberto não abandonou o magistério em 1980. Na verdade, suas aulas de História só não estão mais restritas aos colégios. E eu tive o prazer de ser uma de suas alunas mais recentes.

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Egeu Laus
 

Belo texto, Tetê!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 22/6/2007 11:41
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CCorrales
 

Tetê,
"Não há um museu sequer em Nova Iguaçu. Não por falta de histórias para contar – e resgatar." Essa frase chamou-me a atenção e a promessa foi cumprida.
Parabéns pela contribuição.
Abs

CCorrales · São Paulo, SP 22/6/2007 22:17
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Tetê Oliveira
 

Muito obrigada, Cecília e Egeu.
Abraços.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 23/6/2007 20:21
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Tetê Oliveira
 

Cíntia, perdão!!! :-)

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 24/6/2007 12:03
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Ystatille Gondim
 

Muito interessante o texto e a forma que escreve. Parabéns!

Ystatille Gondim · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2007 15:06
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ignis liberati
 

Tetê, bela história de Nova Iguaçu.

ignis liberati · Porto Velho, RO 26/6/2007 00:48
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Roberto Maxwell
 

Excelente, quando mora no Brasil fiz alguns trabalhos com a professora Marlucia Santos de Souza, do Centro de Memoria da FEUDUC, uma faculdade particular local. Juntos produzimos dois videos: Terra de Muitas Aguas e Igreja do Pilar - Patrimonio Em Risco. Este segundo, vou tentar disponibilizar aqui no Overmundo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 26/6/2007 02:36
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Tetê Oliveira
 

Obrigada, Ystatille, Ignis e Roberto.
Roberto, tomara que consiga colocar o vídeo aqui. Se o fizer, por favor, me avise. Vou querer assistir, com certeza.
Abs.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 26/6/2007 09:58
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Roberto Maxwell
 

Nao consegui uploadar aqui, mas esta na internet. Mas, o filme esta no YouTube

http://www.youtube.com/watch?v=nl1OOZUpO2A

Roberto Maxwell · Japão , WW 26/6/2007 10:10
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Tetê Oliveira
 

Ok, vou procurar por lá. Beijo.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 26/6/2007 10:14
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Roberto Maxwell
 

Brigadao. Acho q eu botei o link certo. hehehe

Roberto Maxwell · Japão , WW 26/6/2007 10:17
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Viktor Chagas
 

Grande matéria, Tetê. E gostei especialmente de descobrir o Centro de Memória Oral da Baixada. Excelente indicação...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 26/6/2007 10:29
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crispinga
 

Cada vez melhor Tetê, mostrando o que a Baixada Fluminense, tão temida pelos turistas e pelos próprios cariocas , seu lado bom e belo!
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 26/6/2007 13:30
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente matéria Tetê. Bela história.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 27/6/2007 08:28
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FILIPE MAMEDE
 

Ah, essas fotos ilustraram muito bem o seu texto. Parabéns.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 27/6/2007 08:30
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Tetê Oliveira
 

Valeu, Cris, Viktor e Filipe!
Viktor, eu tb desconhecia o Centro de Memória. Quando puder, vou tentar fazer uma visitinha por lá.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 27/6/2007 10:21
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Benny Franklin
 

Tetê, Salve!
Seu texto é muito já parte da História, é denunciativo (rs.) e reflexivo. Parabéns!
Ah! Estou com o poema "Tema de Ângelus" em edição no banco de cultura, quando houver tempo, tardinha dessas dá um pulo lá, analize-o e deixe seu comentário; e se gostar aguardo voto. O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/tema-de-angelus-1
Bjs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 1/7/2007 10:54
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principe
 

Gostei muito dessa materia.
Eu tive o privilegio de conhecer o professor ney...e gostei muito ele me ajuda em diversas pesquisas que faço.
Quem estiver interessado no poema que incentivou o professor ney a gostar denhistoria pode encontra-lo na seguinte pagina: http://principepoesia.blogspot.com/2007/10/lira-xxxvii-pormarlia-de-dirceu-de.html

principe · Belford Roxo, RJ 10/10/2007 17:09
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Aepan
 

História linda...
Airton
Estrela-RS

Aepan · Estrela, RS 26/8/2008 20:08
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Prédio da Câmara-Prefeitura derrubado por engano. zoom
Prédio da Câmara-Prefeitura derrubado por engano.
O prefeito Alberto Melo (à frente, de terno escuro e chapéu) e seus escudeiros. zoom
O prefeito Alberto Melo (à frente, de terno escuro e chapéu) e seus escudeiros.
A antiga carteirinha de professor emitida pelo MEC. zoom
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