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Ocupação: espaço e trocas de experiências poética.

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Rodrigo Barros · Belém, PA
26/9/2008 · 49 · 4
 

Comecei a desenvolver as práticas circenses há seis anos, em uma oficina de confecção e manipulação de bastão chinês (um tipo de malabares que é um bastão de mais ou menos 50 cm, com pesos distribuídos nas pontas, manipula-se com duas baquetas de 40 cm). A oficina foi ministrada pelo artista Anderson Dias, integrante da Cia. ANTA de teatro, de Belo Horizonte. Em seguida a Cia. ministrou outras oficinas do gênero: confecção e manipulação de bolinhas, pernas- de – pau, teatro de rua, entre outras.

O local onde aconteciam as oficinas era uma Casa na Rua Arciprestes Manoel Teodoro no bairro Batista Campos, um bairro nobre no centro da grande Belém. Ocupada por grupos artísticos e produtores culturais, a associação cultural chamada “Namorada da arte” cuidava da manutenção do espaço e a usava coletivamente para promover reuniões, palestras e oficinas. Na casa, funcionava na época, uma usina de reciclagem que produzia desde papel reciclado até objetos de garrafa pet, uma biblioteca, um ateliê de serigrafia e um bazar, aberto ao público, que funcionava para expor a produção dos grupos nas oficinas (pinturas, escultura de material reutilizado, bonecos). A casa, neste período (entre 2002 e 2004), Era ocupada pela Cia. ANTA de teatro, o Centro de cultura libertária (CCL), a Federação Anarquista Cabocla (FACA), O grupo Churume literário, formado na maioria por artistas (músicos, poetas, grafiteiros, atores) do bairro da terra-firme, um grupo feminista (Rosas Negras), um grupo de anarco-puncks, além da associação dos artesãos da praça da república que neste período já se organizava para mudar de espaço. A casa tinha, na parte de baixo, um hall de entrada, onde funcionava o bazar, uma sala e um porão usados pela associação de artesão da praça da república, uma cozinha, um banheiro, e um quarto pequeno (4x2 m), improvisado com compensados, onde morava um senhor que era funcionário da Fundação Tancredo Neves e não mantinha vínculos nenhum com os grupos que ocupavam a casa. No segundo andar, funcionava a biblioteca , e mais três salas ocupadas pelos grupos, além do espaço externo que tinha um pátio e uma garagem que foi transformado em teatro de bolso.

A casa, até o início de 2002, tinha suas contas básicas (água e luz) divididas entre os grupos e pessoas ocupantes da casa. Mas segundo conversas informais que tive com André Miranda, sociólogo e compositor, nos anos entre 99 e 2002, a casafoi ocupada com atividades de comércio e isso gerou um grande consumo de energia conseqüentemente uma conta alta, que os grupos não conseguiram quitar, passando a utilizar “gatos” (ligações clandestinas de energia e água). O próprio André nos contou que montou um Bar na casa que funcionava durante os eventos culturais. Binho integrante do C.C. L tinha um carrinho de cachorro-quente que funcionava no pátio da casa.

Segundo entrevista com Binho integrante do C.C. L, a casa era, até 1994, subsidiada pelo governo do senhor Hélio Gueiros, que tinha o Professor João de Jesus Paes Loureiro como secretário de cultura. Com a mudança de governo, onde assumiram Almir Gabriel e Paulo Chaves, a casa teve seus subsídios cortados. Em uma entrevista com Jacinei, que integrava o C.C. L neste período, ele nos conta que chegaram a ter alguns encontros com a esposa do Dr. Almir para discutir regulamentação do espaço, o que não passou de uma série de promessas não cumpridas. A partir de então, começa um fluxo intenso de grupos e artistas com diferentes perspectivas, mas com objetivos em comum: ter um espaço de convivência. O objetivo era manter um espaço para desenvolverem suas atividades, já que a maioria dos grupos não tinha espaços para se reunirem. Esse era o maior objetivo em comum. Não eram só grupos artísticos que ocupavam a casa, mas neste período (entre 2002 e 2004) as atividades artísticas tomaram maiores proporções,ocupando mais espaço na casa. Acho que a principal característica da produção de arte naquele espaço era o questionamento, a materialização dos anseios de uma juventude encurralada entre a violência do Estado e a violência urbana. Sem muitas oportunidades, não produziam arte pra vender, mas para se expressar, fazendo disto seu momento de liberdade. Estes grupos ocupavam a casa para produzirem e se organizavam através de assembléias onde, os grupos que já estavam na casa, decidiam quem poderia entrar. Muitos grupos ocuparam a casa pela perda ou falta de espaços em seus bairros. Com o passa do tempo alguns integrantes passaram a morar no espaço transformando-se em albergue para artista e militantes que passavam pela cidade. As vivências variavam, às vezes eram programadas e divulgadas na forma de oficinas, outras se davam informalmente por pessoas que (temporariamente) moravam na casa, com pessoas que passavam a freqüentá-la. Neste período foram estipulados em assembléia horários de funcionamento. A casa passou por vários momentos. Pelo caráter passageiro da ocupação de alguns grupos, coexistiram gerações distintas, como o Grupo de Poetas Folhas e Ervas que ocupou a casa no final dos anos 90, e saiu logo após o C.C. L ocupar um espaço.

A Cia. ANTA foi levada para trabalhar na casa nos meados de 2002 pela FACA, grupo formado na sua maioria por estudantes da UFPA ligados ao NUARU (Núcleo de Assistência e Reforma Urbana), que ocupavam a casa promovendo ações (cursos, palestras) para difundir ideais anarquistas. A Cia (que na verdade era uma dupla) era formada pela artista plástica e bonequeira Taís Scaff e pelo ator e bonequeiro Anderson Dias. Eles vieram da cidade de Belo Horizonte – MG, passando pelo nordeste até a Amazônia, desenvolvendo pesquisas e vivências com a cultura popular destas regiões e apresentando seus espetáculos multimídias com teatro de bonecos, manipulação de objetos, música, performances, capoeira e práticas circenses. Um destes espetáculos foi apresentado na cozinha da casa: “varal da vida cotidiana”, que abordava a condição das mulheres nas famílias pobres das periferias. Neste período o grupo Churume literário também passa a ocupar a casa.

A Cia. ANTA propõe em assembléia, aos grupos, uma nova estratégia de ocupação: ativar os espaços inutilizados da casa e promover atividades para interagir com a vizinhança, já que se tratava de uma área residencial. Os grupos dão início a uma usina de reciclagem para produção de papel e massa de papel marche para produção de bonecos, porta retratos, e máscaras. Propunham a construção de recipientes (que ficassem na frente da casa) para recolher o lixo da vizinhança e dos transeuntes de maneira seletiva (plástico, garrafa, metal) a fim de transformá-los e reutiliza-los, para depois, retorná-los para a sociedade através do bazar. Propunham também, oficinas internas e abertas a públicos afins, alem de reuniões internas pra tratar do funcionamento da casa. O que não teve 100% de aceitação pelos grupos integrantes. Percebi que antes da ocupação da Cia. ANTA e do Grupo churume, os grupos tinham o anonimato como estratégia. Não queriam tornar públicos os ideais que fundamentavam a convivência dos grupos. Uma visão crítica da relação estado /individuo, práticas de contracultura, valores libertários, autonomia. A meu ver, estas atitudes eram resquícios da ditadura militar, onde os jovens tinham que viver clandestinamente pelos seus ideais, e por se tratar de uma ocupação que promovia discussões e questionamentos sobre o sistema de governo e as instituições da sociedade, onde tinha uma biblioteca com mais de 200 livros considerados subversivos no período da ditadura e um processo judicial que já estava em andamento, esta idéia era reforçada. A estratégia dos novos grupos era a de inserção da sociedade, pra discutir estes temas nas dinâmicas de produção e nas atividades, trocar experiências e ampliar estas discursões para além dos nossos círculos de convivência. Leila Leite, antropóloga, que na época fazia parte da FACA junto com seu irmão, o poeta André Leite (que também freqüentava as reuniões do grupo anarco-punk), são os responsáveis por levar o Churume literário a ocupar um espaço na casa. Ela comenta sobre um plano de ação no bairro da Terra- Firme, onde a FACA ocupou uma casa para desenvolver atividades na comunidade, mas não queriam suas verdadeiras identidades reveladas por se tratarem de anarquistas. Ela pergunta “como você quer obter a confiança das pessoas, ou intervir na vida delas, sem dizer quem é você, ou de onde você veio?”. E mais, Sobre o receio dos integrantes com o aparato do Estado ela dizia que “a policia não quer nem saber de anarquistas, muitos nem sabem o que significa, a não ser o significado do senso comum: baderneiros”. Leila de certa forma critica esta pseudodemocracia e discorda da condição de não podermos expor idéias, vivências e anseios para os outros. O churume, segundo Leila, era uma representação artística na casa. Surgido no bairro da Terra Firme, o grupo formou-se por amigos que resolveram transformar o tempo que passavam juntos em vivências artísticas, produzindo de poesia e “grafiti” até bolsas de material reciclado. Antes de ocupar a casa no centro da cidade, o grupo desenvolvia suas atividades nas praças da Terra Firme. Estas atividades eram chamadas de Varais de poesia, e consistiam práticas como, pintura com as crianças e exposição da produção do grupo, até liberar a pequena estrutura de som e microfone para a população se expressar (cantar, falar sobre os problemas do bairro, declamar poesia). O bairro da Terra firme é o típico exemplo de crescimento desordenado nas periferias das grandes cidades. Não há espaço pra mais nada. Os centros comunitários funcionando precariamente, dificilmente conseguem articular atividades ou oferecer estrutura. O Churume não tinha sede ou qualquer outro espaço disponível, utilizavam um quartinho na casa do André e da Leila para guardar seus materiais e fazer reuniões. O grupo desenvolve suas ações nas praças do bairro. De preferência as praças que pudessem fugir da burocracia do estado e da igreja. A praça principal do bairro, Praça Olavo Bilac, que é cercada, e seus portões são controlados pela igreja, necessita de aviso prévio e autorização da mesma para qualquer atividade. Sendo assim, os varais acabavam tendo um caráter de intervenção, reunindo e convocando a comunidade a participar. Como recursos para uma divulgação não existiam, a maioria das vezes era feito no “boca-a-boca”.O grupo deixa bem explicito sua perspectiva critica nas suas ações dentro da comunidade. Leila nos conta que a praça onde articulariam o primeiro varal tinha o nome de um militar: Tenente Souza. O grupo decide então mudar o nome da Praça para Augusto dos Anjos, poeta que o grupo lia naquele momento. Então no “boca-a-boca”, a programação foi divulgada e o local da ação era a praça Augusto dos Anjos.O intento não se concretiza juridicamente. Mas o efeito da ação se expande de tal forma, que eu, que participei de alguns varais, não sabia do o verdadeiro nome da praça (se é que é o verdadeiro). Com esta ação, parece-me que o público se torna público. E o público descaracteriza as denominações do estado. A comunidade assume e transforma o espaço, exercendo sua função vital de criador. Logo depois, o grupo começa a ter problemas com a violência e criminalidade desenfreada, comum nos bairros periféricos da grande Belém. O medo acaba estancando este movimento.
Na "Namorada da arte", o grupo churume participava ativamente das reuniões, e logo se identificaram com o trabalho da Cia. ANTA. Dessas vivências, surgem novos grupos, como a banda Fumacê dos Nelsons e a Cia. LAMA, que se formaram durantes as oficinas, por artistas com experiências diversas: Música, poesia, teatro, circo, grafiti. A Cia LAMA, escolhe este nome por todos participantes se identificarem ou designarem-se artistas marginais, como a lama que nos causa asco, e é mole, quase fluída, mas cheia de matéria orgânica e no sentido figurado do dicionário significa: sordidez, miséria, e era sobre o que nos queríamos falar, da sordidez e misérias humanas. A Cia prioriza a rua e os espaços públicos para suas intervenções. O primeiro processo deste grupo foi a intervenção “Quatro poemas”, articulada nos bares da Cidade Velha, centro histórico de Belém. Consistia numa apresentação com teatro de bonecos, mais especificamente, bonecos de manipulação direta. Baseada nos poemas de André Leite, a intervenção (chamo de intervenção, porque não tinha divulgação e horários marcados.) abordava o cotidiano de pessoas marginalizadas na sociedade: um menino de rua, um sertanejo e um poeta, em contra ponto com um dos maiores símbolos de opressão na atualidade (aos nossos olhos): o tio Sam. Os “assaltos ciganos”, intervenções nos bares da cidade com teatro, poesia, malabares e pirofagia, foi o segundo processo vivenciado por este grupo. O percurso era definido de ultima hora e os encontros em praça pública, reunindo artistas e muitas vezes pessoas que aderiam ao processo na hora (sem nenhum tipo de ensaio). Este foi, para a maioria deste novo grupo, o primeiro contato com a rua e intervenções em espaços públicos. Cleiton Caminha, morador da Terra Firme, que integrava o grupo churume com produção de poesia, foi um dos participantes da Cia. lama. Ele diz que teve contato com várias práticas artísticas na casa. Cleiton, que hoje em dia trabalha com teatro, teatro de bonecos, circo, diz que “a casa foi o inicio de tudo”.

As diferenças ideológicas, as de postura e estratégia, e os conflitos internos, foram paulatinamente afastando os grupos da casa, e no final do ano de 2004 restavam apenas o CCL e o Sr. Fernando ocupando o espaço. Mas era a presença e a produção dos coletivos que dava força ao movimento, e na situação em que se encontrava, já não havia como resistir ao despejo. Assim, o integrante do CCL, Binho, o único integrante do movimento na casa na hora do despejo, pacificamente entregou a posse do espaço à dona da casa que vinha acompanhada de um oficial de Justiça e quarenta soldados da policia militar.

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etetuba
 

nao consegui ver o video, que formato é esse e qual programa se usa?

etetuba · Belém, PA 26/9/2008 00:28
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Andre Pessego
 

Muito bom saber que há luta por manutenção de culturas e espaços culturais em Belém. Lamentavelmente este drama da manutenção sem dotações públicas acontece por toda parte. Em SP não é diferente. Mas é animador saber que há resistência.
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 28/9/2008 17:48
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Não consegui abrir o vídeo. Adoro estas coisas de com o fogo. Me remete ao meu interior do Piauí, onde passava anualmente sempre o mesmo circo com tres artistas.
Vou ver se a filha consegue.

Andre Pessego · São Paulo, SP 28/9/2008 17:51
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Rodrigo Barros
 

Este vídeo é bem isso mesmo!

Rodrigo Barros · Belém, PA 29/9/2008 10:00
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