Oeiras, Capital Brasileira da Fé

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Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI
29/7/2007 · 139 · 17
 

Queridos amigos:

Os que me conhecem sabem de minhas convicções ateistas e devem até achar graça em que eu me disponha a discutir a natureza “Capital” da Fé que, considero, é vivenciada na minha amada Oeiras. Certamente muitos vão pensar que a minha peroração possui natureza puramente laudatória sem nenhuma base na realidade. Estaria, talvez, tentando retribuir todo o carinho e energia que esta cidade me transmite diariamente. Há, no entanto, nesses julgamentos, um erro que eu espero poder demonstrar até o final deste artigo.

Fique claro que não conheço todas as cidades brasileiras que tem na religiosidade a sua maior referência. Fique claro também, que não passei a vida procurando conhecer este tipo de cidades e fazendo comparações

Mas cidades como Aparecida do Norte, em São Paulo, e inúmeras outras em todo o Brasil e, em especial, no Nordeste brasileiro, em algumas já estive lá, e, em outras, ouvi muito falar de suas manifestações religiosas: estas, também chamadas Cidades-Santuários, constituem o padrão das cidades religiosas no país (exemplo piauiense: Santa Cruz dos Milagres).

Nada com isto. Oeiras nada tem a ver com Santa Cruz dos Milagres ou, mesmo, Aparecida do Norte. Não há peregrinos em Oeiras, ninguém faz Romaria a esta cidade. Trata-se, aqui, não de um santuário, onde se acorre em busca de algum milagre, não! A fé, em Oeiras, é autóctone, aquela vivenciada pelo seu povo, a cada dia, a cada evento do calendário religioso, em cada visita à casa do Divino Espírito Santo, em cada presépio montado por ocasião das festas natalinas

Anos atrás, passeando em Salvador com minha filha, então pré-adolescente, fomos visitar, na Sagrada Colina, a igreja do Nosso Senhor do Bonfim. A quantidade de pessoas que, nos arredores, e até dentro da igreja nos assediou, tentando vender pulserinhas, chegou a deixar-me traumatizado, a ponto de sair corrido de lá.

Na mais impressionante manifestação religiosa de Oeiras, a procissão de Bom Jesus dos Passos (na verdade, a única solenidade religiosa em que acorrem pessoas vindas de fora do município), onde mais de trinta mil fiéis participam, alguns, inclusive, pagando promessas, não se encontra um único santinho para vender. Para o bem ou para o mal, Oeiras não comercializa a sua fé, o que, para mim, lhe confere autoridade sobre os tais santuários para os quais há um preço para cada um dos objetos “santificados” ali largamente comercializados e objeto de uma enorme propaganda a respeito dos milagres e das graças concedidas aos peregrinos.

Liturgia levada a Sério

O que, desde o primeiro contato, me encantou, nas cerimônias religiosas de Oeiras, é a pompa e circunstância com que, cada um dos eventos, é tratado, o que inclui até, em algumas delas, a indumentária do povo. Na procissão dos passos, os fieis se vestem de roxo, o que chega a repercutir, nos dias que a antecedem, nos estoques de tecidos daquela cor expostos nas lojas.

Branco e Vermelho, pureza e ardor, são as cores predominantes – muito interessante, e cheia de detalhes, é a festa do Divino Espírito Santo (Pentecostes) que ocorre 50 dias após a Semana Santa. O Divino, representado por uma pomba trazida de Portugal no final do século XIX, juntamente com uma coroa e um cetro permaneceu, durante todo ano anterior à festa, em uma casa, escolhida por sorteio. Nesse período a Casa do Divino recebeu visitas diárias de devotos cujas presenças foram anotadas num livro. No ano passado o livro de presenças recebeu mais de 35 mil assinaturas, mais ou menos o mesmo número de habitantes de Oeiras. Anos atrás, a casa escolhida para abrigar o Divino foi a da família do atual Secretário de Cultura de Oeiras, Stefano Ferreira (aliás, também overmano). Quando perguntei a ele se não achava um tanto invasiva a presença diária de devotos, a partir das seis horas da manhã, em sua casa ele não apenas negou, como afirmou que, quando o Divino saiu de lá, a família vivenciou um sentimento de perda, de vazio.

No dia da festa o povo veste branco e vermelho e bandeirolas nestas cores, mandadas confeccionar pela família em cuja casa o Divino se encontra, enfeitam as ruas por onde passa a procissão. Para conhecer mais sobre ela, leia a Festa do Divino em Oeiras

Fogaréu

O evento religioso talvez mais fotografado de Oeiras, a Procissão do Fogaréu, quando apenas homens, carregando lamparinas acesas, percorrem o centro histórico da cidade (tradição que também existe na cidade de Goiás) na Quinta-feira Santa permite, por suas próprias características, um pequeno comércio de lamparinas levado a efeito, em geral, por meninos. Mas isto, é claro, nada tem a ver com aquilo que chamei de mercantilização da Fé.

Aliás, é interessante notar como duas cerimônias religiosas – a de Goiás e a de Oeiras – teoricamente as mesmas, podem ter interpretação tão diferenciada. O Fogaréu de Goiás, vi na TV, tem a participação de homens vestidos de soldados romanos e caminhando em ritmo marcial; representa a busca noturna (daí as lamparinas) com o objetivo de localizar e prender Jesus Cristo. Em Oeiras, perde todo esse caráter repressivo sendo bons cristãos os participantes que entoam cânticos em louvor a Jesus Cristo. Sem ter nenhuma certeza maior, considero mais plausível a interpretação goiana do evento religioso.

Importante lembrar que os oeirenses, espalhados por todo o Brasil, sempre que podem, visitam Oeiras, preferencialmente, durante a Semana Santa (que começa uma semana antes, na quinta-feira da fugida, que antecede os Passos do Bom Jesus, como disse, o principal evento do vasto calendário religioso de Oeiras). Nesse período, aproveitando a presença maciça dos oeirenses nostálgicos, ocorrem importantes eventos culturais paralelamente aos de natureza religiosa. Revendo muitos de seus filhos, Oeiras se renova.

Há outras efemérides importantes, como a procissão em louvor a Nossa Senhora da Vitória, Padroeira de Oeiras e do Piauí (15 de agosto) e a de Nossa Senhora da Conceição (8 de Dezembro), que, nos últimos anos, tem sido a data utilizada para a realização dos Festivais de Cultura de Oeiras. Esta simbiose entre eventos religiosos e culturais é outro dos motivos pelos quais esta cidade, Capital Brasileira da Fé, me encanta.

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FILIPE MAMEDE
 

Se não for a 'Capital' querido Joca, é, pelo menos uma 'cidade polo'... Um abraço cheio de fé.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 26/7/2007 10:29
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crispinga
 

A Ize me falou uma frase muito bonita sobre a fé: "...a fé é uma utopia, caminho dois passos e ela avança, caminho mais dois, e ela ainda não está lá. Mas é ela que nos faz caminhar..."
BJOCA

crispinga · Nova Friburgo, RJ 27/7/2007 13:56
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Ize
 

Joca, esses seus relatos sobre Oeiras me dão uma vontade insuportável de ir aí. Mesmo não podendo, Oeiras hj vive em mim, como se com dois passos eu pudesse cair no meio daquele mundaréu alí da sua foto que me hipnotiza. Era ali naquele meinho que eu queria estar agora pra renovar a fé que tenho de que o encontro com meu semelhante é que é o meu céu.
Às vezes, qdo estou mto carente de abraço, passo na igreja e fico aguardando ansiosa o momento do Pai Nosso, qdo todo mundo se dá as mãos pra rezar. As minhas mãos nas mãos dos estranhos que me ladeiam me devolve sempre a inteireza. E na hora da saudação sou invariavelmente levada aos céus. Essa é a fé que pra mim não falha: a de que sem o outro não sou nada.
O que eu queria dizer, então, é que com seu texto e suas fotos (aquela última do link com as senhorinhas tocando bandolim com o sorriso mais enlevado que pode haver é qualquer coisa) vc investiu minha fé profana de tudo o que há de mais sagrado no mundo.
A proposito Cris, aquela frase do Eduardo Galeano não é sobre fé, mas sobre utopia que pensando bem é fé só que no sentido profano: "A utopia está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para eu caminhar".

Ize · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2007 18:11
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Verdes Trigos
 

Ize, utopia serave para caminhar e fé? Vc já respondeu: para me confortar, aconchegar, não me sentir só no mundo.
Joca, gostei da matéria, aprecio lugares carregados desta esperança de um mundo diferente, mas não gosto de lugares mercenários, onde se prostitui a fé. Quando estive em Jerusalém, no interior da cidade velha, sempre lembrava da atitude de Jesus expulsando os vendilhões... ele teria enorme trabalho poois são tantos.
Henrique

Verdes Trigos · Presidente Prudente, SP 27/7/2007 19:11
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BETHA
 

JOCA,
que bom, independente de suas convicções, que você divulgue esses eventos. Realmente, é até difícil de acreditar que em algum lugar desses, quando acontecem esses eventos, não se comercialize com a fé.
Abraços de Betha e obrigada pelo convite.

BETHA · Carnaíba, PE 27/7/2007 19:22
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Saramar
 

Joca, é mesmo uma lindeza essa sua cidade.
Eu não tenho religião (e nem gosto delas), mas os ritos católicos são, sem dúvida, importantes para a identidade do povo brasileiro.
Agora, como você mostrou neste belo texto, os ritos só têm o sentido apaixonado e apaixonante do credo, se nascidos da alma do povo que os integra e que a eles se entrega de maneira tão espiritual e, ao mesmo tempo, regada de pictorismos, cores simbólicas, fé, amor.
Sendo goiana, já assisti várias vezes a paixão de Cristo na Cidade de Goiás a que você se refere e concordo quando diz que "esta paixão" é mais próxima das histórias evangélicas. É também uma linda e emocionante manifestação que sempre me leva às lágrimas.
Aqui em Goiás, temos uma romaria famosa, na cidade de Trindade, considerada "a capital da fé" do Estado de Goiás.
Porém, meu amigo Anjo, eu a visitei uma vez e também saí corrida sem querer voltar. Ao lado de manifestações culturais ligadas à religiosidade católica (inclusive com belíssima romaria de carros de boi) a "festa de Trindade", para mim, é o mais deprimente espetáculo da comercialização da miséria humana que nem cabe misturar à sua história tão bonita.
A fé, eu creio, é algo digno do maior respeito. E vi, porque você mostrou, que nesta cidade encantada de Oeiras, esse respeito é puro amor.
Obrigada por mostrar.

beijos

P.S. Joca, fiquei quase uma hora tentando ler por meio do link que me enviou e não deu certo.

Saramar · Goiânia, GO 27/7/2007 21:18
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Andre Pessego
 

Joca, meu velho batalhador, se afé for uma utopia, tu és um ateu utopista, utópico. Recebi o teu recado no momento que acabava de ver pela terceira vez. Coisas do Piauí eu leio melhor vendo as imagens, me vejo em cada um daqueles rostos - tão misturados tão puros... um abraço.

Andre Pessego · São Paulo, SP 28/7/2007 04:45
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crispinga
 

Valeu, Ize , querida, adorei a frase!No final fé ou utopia parecem ser a força motriz que nos impulsiona. Gostei do sentido que deu para mim, particularmente...
Joca, desculpa a confusão, mas acabei interpretando assim a frase, ela já consertou, o Verdes Trigos complementou e assim caminha o Overmundo!
Pessego, a interpretação de fé como utopia foi minha, o que não deixa de ser...Mas a Ize, belamente, já me corrigiu.
Beijos , queridos...

crispinga · Nova Friburgo, RJ 28/7/2007 13:13
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Rynaldo Papoy
 

São Paulo, onde nasci, é um local parecido, pela quantidade de igrejas que os paulistanos frequentam, cada uma com sua especialidade... Temos até um santo agora, Frei Galvão, que não nasceu em São Paulo, mas construiu o Mosteiro da Luz. E tem o Mosteiro de São Bento, famoso pelos... doces!
Você precisa escrever e publicar dois livros: um com a história de sua cidade e seus personagens e outro de sua vida, uma autobiografia.
Abração!

Rynaldo Papoy · Guarulhos, SP 28/7/2007 19:54
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crispinga
 

Apoio a idéia da autobiografia...Quantos "causos" esse Joca deve ter para contar...
Votado!
BJK
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 28/7/2007 20:29
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Rynaldo:
Saiba que as minhas pretensões vão mais ou menos por aí. Apenas um detalhe, claro que por desconhecimento, faltou na sua avaliação: paulistanos somos, eu e você. Eu, por exemplo, nasci a menos de cem metros do Parque da Água Branca. Acontece que, em Sampa, eu estava muito mais interesado em reforçar MINHAS CONVICÇÕES ATEISTAS e não em observar as igrejas e seus fieis. Hoje, significativamente menos sectario, e muito mais humanista, posso desfrutar muito melhor a cultura do noso povo. E Cris, obrigado pela força!

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 30/7/2007 10:47
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Rynaldo Papoy
 

Vou além. Ando espiritualizado. Gosto de ver o mundo em mais do que quatro dimensões. Abraço!

Rynaldo Papoy · Guarulhos, SP 30/7/2007 16:45
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Nivaldo Lemos
 

Joca, meu querido anjo andarilho,
impressionam-me seus relatos não pelo inusitado dos temas (digo inusitado para nós aqui do Sudeste industrializado), mas também pelo estilo, o poder de síntese e a expressividade de sua narrativa. Sempre é um prazer renovado visitar seus textos, mergulhar nas suas descrições, percorrer quase extático parágrafo após parágrafo até, por fim, restar aquele gosto de quero-mais no olhar.

E o bom nisso tudo, Joca - creio que foi Ize quem o disse primeiro -, é que também acabo ficando íntimo de Oeiras, como se em suas ruas a qualquer momento pudesse caminhar, sentir-lhe os cheiros e sabores, ouvir-lhe os barulhos, os silêncios e as vozes dos personagens que você nos apresenta com tanta autoridade e mestria. Simplesmente, como sempre, um texto maravilhosamente escrito. E gostoso de ler. Parabéns, amigo, e que inveja...

Um forte abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 30/7/2007 18:43
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Natacha Maranhão
 

lindo relato, Joca...
beijo

Natacha Maranhão · Teresina, PI 30/7/2007 20:11
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ZEZIM MINEIRO
 

ô minino
pare c'esse negoço de ateu ou ateneu
cê é fio de deus
vei do bucho da mãe
sofrendo qui nem véi em carro de boi
acridite no pai
sua cabeça sabe pensá
foi tutano dado do céu
pense nisso minino
vortei em cê
votim simprezinho
unzim
abs

ZEZIM MINEIRO · Sete Lagoas, MG 30/7/2007 21:10
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stefano ferreira
 

Joca,
o texto é verdadeira demonstração de oeirensidade.
Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

stefano ferreira · Oeiras, PI 30/7/2007 21:34
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Lígia Saavedra
 

Joca, amigo,
Já fui andarilha e adorei o texto, senti-me visitando Oeiras.
Visitado e votado.
Um monte de abraços com cheiro do |Pará.

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 31/7/2007 20:45
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