OFERENDA DE GONGOBA
autor: Prof. João Felicio dos Santos.
Oferenda da morte
Aos pés que pisaram na terra sem chão,
nas luas sem tempo,
nas horas sem guerra da caça ao n´farsa,
ao lumba dos olhos de sangue vertido na terra,
nas horas da pesca ao zu-jalodê
Nas horas de luta... Poeira depois!
Ansim foi esse causo... "(idéia maneira repica nos longes passados doídos):
O cerco, na mata, aos negros libertos,
a troca de negros por rolos de fumo,
A venda dos negros, a peia, os libambos,
o mar, o tumbeiro, o porto-malanga....
A chibata zampando gulosa nos lombos lanhados
de sangue, lavados na história sumida...
Maranduva do banzo! Dormidos silêncios,
silêncios sumidos... (Gongoba? Te alembra?)
O pango, o tajá,
o olobó cheirosinho,
a diamba... - que bom!
O marafo bingundo que faz esquecer...
- Canjerê! a matanga! - Oferenda da morte
na terra sem chão,
no céu sem estrela (- E a estrela Pastora?),
a muanga do sague vertido no chão,
no pó sem mais nada... sem panos nem nada...
Os ossos de fora, alvinhos, alvinhos....
Alvinhos de lua...
Os dentes se rindo nos alvos da terra,
no pó sem mais nada... sem ferros...
(- Sem ferros? Gongoba?)
( - Gongoba, tá ouvindo?)
"Assim foi esse causo:
Zumbi... já faz tempo... já faz muito tempo,
um reis se findou!"....
Poeira da terra,
poeira da guerra,
poeira da morte,
poeira
depois...
GANGA ZUMBA, romance escrito pelo Prof. João Felicio dos Santos, em 1962, chega nas livrarias em 1964. A História romance, ou vice versa, trás esta oferenda, e outras. No desenrolar vai trançando um perfil dos guerreiros de Palmares, (da guerra conta pouco); no entanto vai descrevendo a paisagem; situando a geografia das terras local e próximas; revelações do convívio familiar; dissertando por dentro o conjunto social numa Palmares a ser esmagada. Derrotada no bojo da constatação terrível:
"NOS CONFLITOS ÉTNICOS, QUASE NUNCA HÁ SOLIDARIEDADE" -
sem solidariedade, assim foi para com o índio das Américas, assim foi para com Palmares - a Guerra de 100 anos.
Na Revolução do Haiti, entretanto, (1792) 1804-1808, houve alianças e aliados: Ora a Espanha; ora a Inglaterra; ora os EUA, a grande nação americana.
O negro do Haiti venceu a Napoleão Bonaparte, (fato omisso em todos os compêndios escolares). A aliança, primeiro e continuada entre os nacionais, numa questão étnica - um punhado de pessoas, derrota o maior exército da Terra.
1965, foi um ano atípico para o Brasil:
a) 1° aniversário de um regime de excessão;
b) o SENAI, fundado em 1942, completava duas décadas de franca atividade;
c) os cursos dos SENAIs levados a cabo sem discrinar o negro dava-nos resultados grandiosos: O negro sobe um degrau na grande escada social.
A estes fatos (para um grupo de intelectuais jovens) soma-se o entusiasmo com OFERENDA DE GONGOBA, somatória que entusiasmou aos intelectuais jovens do Brasil; apaixonou o estudantado. Apaixonou o jovem da classe média. A mocidade da classe alta, também.
Em 1965 sabia-se pouco sobre Palmares, muito pouco.
1947, o Prof. Edson Carneiro lança uma cronologia possível, à época, de Palmares, quase somente um roteiro de datas e nomes das expedições. Soube-se que a primeira expedição datou de 1605.
Em 1958 a segunda edição, nela Edson Carneiro enriquece bastante a cronologia da Guerra de Palmares.
Espremida entre aquelas duas edições, 1954, o Exército lança "O REINO NEGRO DE PALMARES", encomendado ao Professor, Cel. Mário Martins de Freitas. Ali o pensamento preconceituso racial do Exército Brasileiro escancarado:
"A África é uma terra triste"....
Mas, o Cel. Mário Martins, dribla seus superiores e fora dos textos da apresentação, pesquisa o que pode e deixa ao Brasil compêndio com informações valiosas.
Assim, DE GONGABA NASCE - ARENA CONTA ZUMBI
Encabeçado por Jeanfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, o intelectual nascente, na época, 1965, escreve, bola, pensa pare (de parir) ARENA CONTA ZUMBI, (a peça teatral brasileira de maior sucesso de públíco e de bilheteria). Um misto de romance, teatro, espetáculo, musical, sarau e serão; um caldeirão de História, histórias, causos; uma confluência de desejos, de propósitos.
ARENA CONTA ZUMBI, falou de Zumbi, e seus guerreiros; mas, ARENA CONTA ZUMBI não chegaria ao povo de Zumbi, não chegaria ao conhecimento da grande parcela negra do Brasil. Era preciso um meio, uma canção. Uma canção o negro canta, o negro houve..
Edu Lobo faz, compõe, prepara uma canção, uma canção que certamente teria sido cantada em Palmares. Assim foi feita
"PARA VOCÊ QUE CHORA (CANÇÃO PARA GONGOBA)"
Em meio ao burburim, (sim a peça é um burburim): moças de um lado, rapazes de outro, os dois grupos bem divididos - entoam - cantam, a canção de Edu Lobo ( gravada por Odete Lara). Cantam para Gongoba, cantam para a mulher do Brasil. Cantam para Palmares, cantam para Abdias Nascimento.
- O OURO DERROTA PALMARES
1944 - Um sonho, também a quatro mãos, amparado pelo intelectual brasileiro - O TEN, Teatro Experimental do Negro - é inaugurado. Abdias Nascimento e os demais projetam inaugura-lo com a peça PALMARES, também feita a quatro mãos. O Estado proíbe...
O TEN não encenou Palmares.
O TEN, não apresentou, porém falou de Palmares;
O Regime imperante em 1965 deu de ombros para ARENA CONTA ZUMBI, desde que não tocasse no ouro de Palmares.
ARENA CONTA ZUMBI, não encenou Palmares, mas falou de Palmares,
argumentou pediu solidariedade para mais séria questão do Brasil - o agasalhar da questão étnica;
GANGA ZUMBA, (o Prof. João Felício), não apresentou os fatos de Palmares, não os tinha, mas fez o Brasil sentir Palmares.
Por fim, o Prof. Décio Freitas, do exílio, 1971 lança no Uruguai o seu
PALMARES A GUERRA DOS ESCRAVOS, editado no Brasil, 2a. Edição em 1974, e a 3a. edição, completa, 1978. Na falta de dados oficiais, talvez, Décio não revela a questão do Ouro. O ouro de enfeitar os cabelos de Gongoba, ornar o tornozelo; realçar o brilho do colo...O ouro que brilhou em Palmares, movimentou-lhe o comércio... O ouro que esmagou Palmares.....
E Décio Freitas - revela o mecanismo do fim de Palmares.
"Quando por fim no dia 3 de fevereiro chegaram à
serra da Barriga seis canhões conduzidos por duzentos
homens...." pág. 173.
- E a coruja piou no longe, choro de viuvez...."
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Vou m'embora, eu não posso demorar;
eu não posso demorar, eu não posso demorar;
Vou m'embora, eu não posso demorar,
meu recado está dado - a vocês cabem melhorar.
Eu não posso demorar, eu não posso demorar....
cantiga de Roda de Capoeira.
andré pessego é colaborador do www.portalcapoeira.com
integrante do Grupo de Capoeira Berimbau Brasil
"de" Mestre João Coquinho SP/SP
apessego@ig.com.br
Desculpem os possíveis leitores: Ia botar um vocabulário, mas não deu tempo.
Mano,
'Gongoba' é o intrumento do meio que é um lamelofone (uma 'Kalimba' ou 'Sanza') de lâminas de aço distendidas. O maior é a famosa Kora, uma sensacional harpa-cítara (21 cordas) típica dos mandingas, povo que habita o Senegal e a Guiné Bissau (onde, penso, a foto foi tirada).
'Gongoba não é um termo mandinga, é uma palavra bantu, presumo. As sanzas (muito comuns no Brasil colonial) são mais comuns entre os bantu (angolanos, zirenses, moçambicanos, zimbabuanos, etc.) que habitam uma região mais abaixo do Senegal ou seja, o nome parece indicar a origem remota do instrumento.
O João Felício dos Santos foi um esforçado ficcionista que tentou realizar romances históricos sobre ídolos de nossa negritude (Chica da Silva, Zumbi de Palmares...). Infelizmente faltou mais rigor na pesquisa etnológica dele e os resultado foi lançar mais mistificações do que luz sobre o assunto. Contudo, a culpa não foi só dele, coitado. A culpa deve ser creditada muito mais aos 'etnólogos' de verdade' (inclusive os que você cita) que o antecederam e nos quais ele, honestamente interessado no assunto, se baseou.
Mais uma vez, muito boa a tua matéria.
Grande abraço
Meu querido André: embora eu não conheça o romance escrito pelo Prof. João Felicio dos Santos, quero registrar minha admiração pela "Oferenda" que ele escreveu. São versos fortes:
A chibata zampando gulosa nos lombos lanhados
de sangue, lavados na história sumida...
... não tenho dúvidas que o Prof. João Felicio procuraou nos aproximar da história da negritude que em geral os livros não contam. Quero também parabenizar o esforçou que ele fez para nos mostrar a sua ansia de conhecimento e a você também, meu querido André, pela oportunidade que nos dá a conhecer a veia poética do Professor e pesquisador Felício. Bjos.
Importante resenha. Vou procurar ler mais e aprender mais. Acabo fazendo isso quando recebo convites ou me defronto com importantes textos como o teu, do amigo spírito, adro e ilha - com certeza.
Bem mais explicado do que os didáticos (livros).
Obrigado.
OFERENDA DE GONGOBA
Andre Pessego · São Paulo (SP
Verdadeiro Curso de Consciência e de Resgate dos Conhecimentos da História do Povo Negro Brasileiro.
Na sua trajetória toda dificultada, mas que tem sido de avanços contínuos, tendo valido a pena todas as duras lutas enfrentadas.
Estamos numa Realidade de Avanço, da Consciência e do engajamento da Comunidade, no Construir e ampliar o lutar.
parabéns.
Goatei Muito.
Há muito o que fazer.
Mais ou menos, o seu Trabalho, é uma convocação e um conclamo para todos Brasileiros entrarem na luta Social que esta fazendo evoluir o nosso amado Brasil.
Vamos Precisar de todo mundo.
Cada um tem a sua parte a cotribuir.
Abração Amigo.
Querido André,
Excelente matéria. Parabéns pelo teu esforço em resgatar e trazer até nós estes fatos. Também não conheço o romance escrito pelo Prof. João Felício dos Santos mas gostaria de lê-lo ( e vou me esforçar nesse sentido) para conhecer novas versões dos fatos relativo a Palmares...
Volto daqui a pouco
Abraços
Obrigado ao
Mano Spírito Santo, o objetivo é este - que voces tornem o texto melhor, que completem, no que for possível, as informações.
abração
andre
Obrigado a:
- Minha querida Graça Graúna;
- ao meu querido Prof. Azuir filho;
- ao meu mano Agenor;
- ao meu admirável Higor Assis
abraço a todos
andre.
Mano,
Esqueci de acrescentar reafirmando o que também dissestes:
O Livro do Cel. Mário Martins é, pelo menos para mim, o melhor trabalho (do ponto de vista etnológico) sobre Palmares. O fato dele ser um 'milico' e do livro ter sido publicado pela Bibliex carreou muito preconceito para a sua obra que é irrepreensível, na maioria dos aspectos e essencial para quem quiser começar a entender o tema que é mais falado do que compreendido no Brasil.
Abs
André.
Belo trabalho meu amigo.
Resgatar um pouquinho das memórias edificadoras da resistência edo pensamento humanitário é fazer história também, meu caro. Parabéns
Andre Belo trabalho
E ainda com comentarios de quem entende e nos dá a visão
de um assunto brasileiro e de imortancia
ao brasileiro leigo.Prarabens Andre.
Anotado.
Andre Pessego · São Paulo (SP
OFERENDA DE GONGOBA
Com todo carinho de volta deixando uma louvação ao trabalho e a todos amigos que nesse encontro comungam entendimento e que ele se materialize em melhoria de vida para todos humanos.
Queremos ver todos povos e suas culturas respeitadas, pela beleza , alegria e realização que proporcionam e fazem o viver ser melhor.
Parabéns.
Abração Amigo.
Versos forte, nobres
Nossos passos marcados no chão contam nossa história dizem de onde viemos e o que possivelmente estamos a construir. Quem e quazntos de nós os examina? Há mais louca, burra preocupação em apagá-los. Oh! merda de ignorância que teima.
Parabéns Mestre André
Abs
levantamento precioso, André. Fiquei com vontade de ver a letra do Edu Lobo, vc não tem não?
abraços!
Letra do Edu Lobo? Notícia boa: Eu tenho uma fita k7 com a peça Arena Conta Zumbi inteirinha! Notícia ruim: Um dia destes, quando eu achar a fita nos meus alfarrábios...
..."Se a mão livre do negro
tocar na onça
o que é vai nascer?
Vai nascer pele
pra cobrir nossas vergonhas...
Por aí
Parabéns Andre!
Muito boa a sua referência ... Muito bem fundamentada ... Devidamente anotado.
Beijos_Meus*
*
Ilha, bem lembrado, na verdade a falta de tempo, em face ao trampo remunerado, ainda nem me deu tempo colocar um vocabulário possível. e A canção me esqueceu mesmo.
olha ela.
PRA VOCE QUE CHORA, (CANÇÃO PARA CONGOBA)
Edu Lobo.
Pra você que chora
e sofre tanto tempo amor
vou contar baixinho
um sonho, que nasce de nós dois
Um sonho lindo de nós dois
Você vai ver, aí você vai ver
surgir de nós
Alguém que vai
Ser bem mais que nós
Ser o que não posso ser
Enxuga os olhos
Não chore mais meu triste amor
Uma paliçada eu vou fazer
e bem dura eu vou construir
fure um fosso bem fundo irmão
Peque nos paus de penta em montão
espete no fosso de ponto pro ar
pra que fure quem queira chegar
Meu mano Spirito Santo,
Na verdade Arena Conta Zumbi, no que restou para apresentaçao, o que foi o possível, eu creio. Foi uma negociação intensa com a censura etc.
Mas o que eu me lembro mesmo de azedo, de contraditório,foi
do dialogo de NICO com os demais.
Que vai depois surgir na mesma linha de CALABAR de Chico
Buarque. que pretendo escrever algo que na época não pude.
Como também não pude na epóca de Zumbi, AREna. bem melhor porque tinha o discurso falado, não escrito, foi o grande trunfo.
abraço
andre
Eh Camará...
Parabéns André!
::votado::
Beijos de luz... Liz
Nossa!!!
um texto que inflamou minh´alma aqui.
chorei de OFERENDA DE GONGOBA
e sorri....lembrando a realeza da raça negra;
forte, punjante e linnnnnda.
valeu essa minha descoberta. Voce.
bjssssssss;)
Booommm Diaaa menino André capoeiranT!
Sabe... eu morava em Sampa nesse tempo do Arena Conta Zumbi... do Boal, Guarnieri, Edu Lobo...
Mas... era muito mais menino que agora, e embora amante de Teatros - especialmente os que tratam de temas vivenciados, sofridos e lutados... não valorizei tanto quanto agora faço...
Revivendo, isso tudo (tenho as 16 Musicas = Trilha completa da Peça)... de repente, me vejo de rosto lavado pelas lagrimas que escorrem livremente (ah lagrimas que sempre souberam o que é LIBERDADE!) - especialmente, ouvindo o "Upa Neguinho" que tive o prazer de ver e ouvir ao vivo com nosSaudosa Elis, mas...
Me digam - que SER sensível não chora ao ouvir este trechinho da musica que diz:
(...) upa neguinho na estrada
upa pra lá e pra cá
vigi que coiza mais linda,
upa neguinho começanu a andá...
começanu a andaá... começanu a andá....
i já começa a apanhá!
(...)
mas liberdade... só posso issssssperáááá!!!
Ah - se alguém desejar a Trilha completa e 'free", basta clicar no link que deixo abaixo, sem medo (é site educativo/cultural) e fazer Download das 17 musicas da Peça em MP3 (imperdível)!!!
ARENA CONTA ZUMBI
...
abraço choroZeca...
gaDs!
ola andre
Muito boa mesmo sua Resenha! Isso é o que chamamos mesmo de Cultura, não apenas no sentido de mostrar costumes e tradições, mas principalmente, por falar de ideais de Liberdade, de expressão, de arte, e principalmente de Gente como a Gente - assim tão diferentemente!
Abração
GaMitto
André
abrangente e elucidativo texto
embora de modos diferentes a história se repete... e se repete!
bjs
Olá André,
Beleza de texto!
Viva Zumbi! Viva Ganga Zumba!!
Que os orixás nos protejam sempre!
Axé
Mais uma vez apreciando bela contribuição.
Vida plena amigo!
Olá Mestre André!
Saudadesssssssssssssssss
Agraciada estou com esse belo postado.
Beijos_Meus*
*
Oie!!!
Que belo texto. Sempre me surpreendendo.
Beijussssss
SÓ RELENDO.
ESSE POEMA FEITO ARTIGO...ESSA ARTE SUA DE ESCREVER
É TOCANTE!
ADORO.
BJSSSSSSSS;
Adorei saber mais um pouquinho da história dos quilombos !
Obrigada André !
abração fraterno .
...e de novo!!!
relendo....forte como a raça!
bjssssss;
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