Não me levem a mal, amantes do Axé Music e ritmos afins. É que nesta semana o descontentamento bateu à minha porta e, infelizmente, eu deixei entrar. A verdade é que, fora a de Todos os Santos e a de Nossa Senhora, não sou muito chegado a ladainhas.
Mas vamos direto ao assunto. Trata-se da musicalidade soteropolitana, especificamente. Estava reparando que, ao se falar de música baiana, a cabeça do povo é assediada logo por, pelo menos, duas palavrinhas: Axé e Pagode, ritmos que imperam a cidade de Salvador o ano inteiro e, principalmente, neste período de carnaval. Os ritmos são realmente muito ricos, não tenho nem como negar. Os atabaques, tambores, afoxés, agogôs e quaisquer outros intrumentos de percussão, juntos e bem tocados, fazem o coração acompanhar junto as batidas. É incrível.
Só que tem uma coisa: quando alguns músicos inventam de abrir a boca para cantar... é um Deus nos acuda para quem tem um pouco de senso lírico (e ainda não está embriagado na avenida). As vozes são esplêndidas (na maioria dos casos). O problema está, na maioria das vezes, nas letras das músicas que são cantadas em alta e viva voz, além de serem também coreografadas. Se calassem as vozes, a festa até seria mais bonita, sabe? Mas aquelas letras...
A única coisa boa que me fazem recordar são as peças do grupo Los Catedrásticos (como "Novíssimo recital da poesia baiana"), onde aqueles brilhantes atores recitavam, de maneira satírica e ultra-cômica, as "poesias" baianas cantadas nos trios elétricos. Uma crítica bem elaborada pelo espetacular teatro baiano.
Pois bem. Quando eu disse que, nessa semana, o descontentamento entrou pela porta, é porque vi na tevê alguns artistas que mudaram sua proposta musical e submeteram seu potencial às canções do Axé (basicamente àquelas isentas de qualquer beleza lírica, como já disse).
Um dos casos que vi foi o do Adelmo Casé, ex-Fama (da Globo), um cabra que gosto muito. Antes de entrar no programa, ele tinha um grupo chamado Funk Machine (uma musicalidade excepcional). Misturava Black Music, um pouco de samba e uns toques de baianidade. Aí entrou no Fama, fez sua cama e, ao sair, formou a banda Negra Cor, que na minha cabeça tinha a mesma proposta do antigo Funk Machine. Até fui em um show deles e vi que o negócio era bom! Depois de um tempo, passei a ouvir falar mais e mais da banda. Mas, geralmente, quando se ouve falar muito de uma banda aqui na Bahia (entenda-se falar muito como sendo "estar na mídia") é porque pode ter toque de Axé ou pagode baiano no meio... e foi isso que eu vi. Os caras do Black swingado tocando Axé... e não é só tocando Axé (como até faz muito bem o Armandinho, do Dodô e Osmar)... mas os caras cantando Axé!
Aí, não preciso dizer mais nada pra não ir além daquilo que posso, né... só espero que eles se curem o mais rápido. Quanto à esperança de ver estourar aquelas bandas que só se apresentam nos pontos alternativos da cidade, minguou mais uma vez. E voltaram a tocar aquelas velhas ladainhas... que não eram nem de Nossa Senhora, nem de Todos os Santos. Ah, minha Bahia!
Carlos, gostei muito do texto. Quero alcançar uma escrita despretensiosa assim, qualquer hora...
Um abraço.
Obrigado pelas palavra, Felipe!
Carlos ETC · Salvador, BA 3/2/2007 18:04
Carlos, eu AMO, ADORO a Bahia e seu caldeirão cultural de cores, sons, religiosidade, esta brasilidade autêntica!
Tenho que concordar com você que esta massificação do Axé Music e banalização das letras atenta contra a riqueza da música baiana. Vc tem razão, e coragem. Não é fácil criticar de dentro.
Valeu!
Abraços!
Pois é... não é nada fácil mesmo!
Muito obrigado por seu comentário!
Abração!
sem falar que todas as "bandas"baianas andam tocando a "mesma"música.
abraço!
Sim, sim... outra constatação importante.
Obrigado por seu comentário, André!
Grande abraço!
Oi Carlos,
Adoro a Bahia e, principalmente, o Recôncavo e sua musicalidade sem igual, mas devo dizer que se criou uma antipatia geral no pais essa invasão axé-pagode-forróbrega-sertanejodearaque, e infelizmente, com uma boa contribuição da Bahia. Como bom pernambucano e orgulhoso da nossa cultura que lutamos por ela com unhas e dentes, concordo em gênero, número e grau com você. Parabéns pelo texto.
Um grande abraço
Obrigado pela opinião, Josué!
Grande abraço!
Carlos Etc,
Quero acrescentar um pouquinho o que foi dito por André, além das bandas tocarem a "mesma" música, com as vozes acontece o mesmo, coloque uma mesma música com várias cantoras baianas cantando, se você identificar "quem é quem", sua audição é aguçadíssima...
Parabéns!
Marluce
Ainda tem isso, né Marluce?
Obrigado pelo comentário!
Abração!
vim aqui pra concordar.
eu também tinha reparado nisso mas... qd comentava com alguém, simplesmente diziam que o legal é a suingueira e que a letra não importa.
só que sabemos que importa e muito! é até meio constrangedor ver crianças cantando algumas pagodes , por exemplo. e elas, algumas vezes nem sabem o que estão falando...
parabéns pelo texto. se eu tivesse no over em janeiro, com certeza teria votado
bjO
Valeu, Tinah!
Fico feliz com suas palavras e sua opinião!
Grande abraço
http://interludios.blogspot.com
Carlos,
Mais um ano se passou e tudo continua do mesmo jeito.
Não tem mais uma arte musical e sim um popularismo (entendeu) tão brega!
Você é craque nos textos.
Um abraço mineiro.
Publica novamente.
Até...
Oi, Ana!
Acho que a galera se acomodou e deixou de lado a capacidade criativa de inovar, de sempre quebrar paradigmas... assim, do jeito que está, é mais fácil... fazer o que, né?
Obrigado pelo comentário!
Abraço
http://interludios.blogspot.com
Olá podendo confira PAGODEESIA - recital do pagode baiano em http://www.youtube.com/watch?v=qqITf8khURg
Infeto · Salvador, BA 7/3/2011 01:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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