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OLHA O CAMINHO DA ROÇA!

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Pedro Vianna · Belém, PA
17/6/2007 · 325 · 18
 

A dança de quadrilha teve origem na Inglaterra, por volta dos séculos XIII e XIV. A guerra dos Cem Anos serviu para promover uma certa troca cultural entre Inglaterra e França. Com isso França adotou a quadrilha e levou-a para os palácios, tornando-a assim uma dança nobre. Rapidamente a quadrilha se espalhou por toda a Europa, tornando-se uma dança presente em todas as festividades da nobreza. Originalmente, em sua forma francesa, a quadrilha era dançada em cinco partes, em compassos que variavam de 6/8 a 2/4, dependendo da parte que estava sendo dançada, terminando sempre em um galope, que normalmente atravessava-se o salão.

A quadrilha não só se popularizou, como apareceram várias derivações suas no interior. Assim a Quadrilha Caipira, no interior paulista (e Minas), o baile sifilítico na Bahia e Goiás, a saruê (deturpação de soirée) no Brasil Central e, porventura a mais interessante dentre todas elas, a mana chica e suas variantes. Várias danças do fandango usam-se com marcação de quadrilha, da mesma forma que o pericón e outros bailes guascas da campanha no Rio Grande do Sul.

É intrigante o fato de uma dança nascida no meio do povo seis ou sete séculos atrás, voltar ao povo, em outro país, mas conservando a mesma função antropológica, social e cultural. A Guerrra dos Cem Anos acabaria levando a "country dance para a França. Lá, a palavra se afrancesou, transformou-se em contredance , uma dança em que os pares executam a coreografia, frente à frente, ou "vis-a-vis". A "contredance" se aportuguesou como "contradança" e quadrilha, mas com a formação de pares em alas apostas; a palavra é provavelmente derivada da "country dance" inglesa.

Em dois séculos, a contradança perdeu aquela característica camponesa para tornar-se uma dança nobre, conquistando a corte francesa etodas as cortes européias, incluindo a portuguesa. Chegou-se ao ponto de, no século 18, ela ter sido a grande dança protocolar, de abertura dos bailes da corte. A medida que foi se popularizando, principalmente no Brasil e Portugal, o nome quadrilha' foi começando a ser usado, seguindo, aliás,uma terminologia utilizada na Espanha e na Itália, onde identificava a contradança, dançada por quatro pessoas. Desta"quadrilha de quatro derivou a "quadrilha geral .

A quadrilha chegou ao Brasil no século XIX, com a vinda da Corte Real portuguesa. Rapidamente essa dança de salão, típica da nobreza, caiu nas graças do nosso povo animado e festeiro. É importante lembrar que a quadrilha é uma dança característica dos caipiras, pessoas que moram na roça e têm costumes muito pitorescos. Em 1952 foram apresentadas, simultaneamente, 20 quadrilhas pelo "Baile do Poço" o que demonstrava o quanto este gênero era apreciado aqui no Brasil. Os compositores brasileiros tomaram gosto pelo gênero e hoje em dia as quadrilhas possuem características bem nacionais.

A quadrilha é dançada em homenagem aos santos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) e para agradecer as boas colheitas na roça. Tal festejo é importante, pois o homem do campo é muito religioso, devoto e respeitoso a Deus. Dançar, comemorar e agradecer. Em quase todo o Brasil, a quadrilha é dançada por um número par de casais e a quantidade de participantes da dança é determinada pelo tamanho do espaço que se tem para dançar. A quadrilha é comandada por um marcador, que orienta os casais, usando palavras afrancesadas e portuguesas. Existem diversas marcações para uma quadrilha e, a cada ano, vão surgindo novos comandos, baseados nos acontecimentos nacionais e na criatividade dos grupos e marcadores.

BALANCÊ (balancer) - Balançar o corpo no ritmo da música, marcando o passo, sem sair do lugar.
E usado como um grito de incentivo e é repetido quase todas as vezes que termina um passo. Quando um comando é dado só
para os cavalheiros, as damas permanecem no BALANCË. E vice-versa,

ANAVAN (en avant) - Avante, caminhar balançando os braços.

RETURNÊ (returner) - Voltar aos seus lugares.

TUR (tour) - Dar uma volta: Com a mão direita, o cavalheiro abraça a cintura da dama. Ela coloca o braço esquerdo no ombro dele e dão um giro completo para a direita.

Para acontecer a Dança é preciso seguir os seguintes Passos:

01. Forma-se uma fileira de damas e outra de cavalheiros. Uma, diante da outra, separadas por uma distância de 2,5m. Cada
cavalheiro fica exatamente em frente à sua dama. Começa a música. BALANCÊ é o primeiro comando.

02. CUMPRIMENTO ÀS DAMAS OU "CAVALHEIROS CUMPRIMENTAR DAMAS"
Os cavalheiros, balançando o corpo, caminham até as damas e cada um cumprimenta a sua parceira, com mesura, quase se ajoelhando em frente a ela.

03. CUMPRIMENTO AOS CAVALHEIROS OU "DAMAS CUMPRIMENTAR CAVALHEIROS"
As damas, balançando o corpo, caminham até aos cavalheiros e cada uma cumprimenta o seu parceiro, com mesura, levantando levemente a barra da saia.

04. DAMAS E CAVALHEIROS TROCAR DE LADO
Os cavalheiros, de mãos dados, dirigem-se para o centro. As damas fazem o mesmo. Ao se aproximarem, todos se soltam.
Com os braços levantados, giram pela direita. Soltam-se as mãos, dirigem-se ao lado oposto. Os cavalheiros, de mãos dados, vão para o lugar antes ocupado pelas damas. E vice-versa,

05. PRIMEIRAS MARCAS AO CENTRO
Antes do início da quadrilha, os pares são marcados pelo no. 1 ou 2. Ao comando "Primeiras marcas ao centro , apenas os
pares de vão ao centro, cumprimentam-se, voltam, os outros fazem o "passo no lugar . Estando no centro, ao ouvir o marcador
pedir balanceio ou giro, executar com o par da fileira oposta. Ouvindo "aos seus lugares , os pares de no. 1 voltam à posição anterior. Ao comando de "Segundas marcas ao centro , os pares de no. 2 fazem o mesmo.

06. GRANDE PASSEIO
As filas giram pela direita, se emendam em um grande círculo. Cada cavalheiro dá a mão direita à sua parceira. Os casais passeiam em um grande círculo, balançando os braços soltos para baixo, no ritmo da música.

07. TROCAR DE DAMA
Cavalheiros à frente, ao lado da dama seguinte. O comando é repetido até que cada cavalheiro tenha passado por todas as damas e retornado para a sua parceira.

08. TROCAR DE CAVALHEIRO
O mesmo procedimento. Cada dama vai passar portadas os cavalheiros até ficar ao lado do seu parceiro.

09. O TÚNEL
Os casais, de mãos dados, vão andando em fila. Pára o casal da frente, levanta os braços, voltados para dentro, formando um arco. O segundo casal passa por baixo e levanta os braços em arco. O terceiro casal passa pelos dois e faz o mesmo. O procedimento se repete até que todos tenham passado pela ponte.

10. ANAVAN TUR
A doma e o cavalheiro dançam como no Tour(passeio em iportuguês). Após uma volta, a dama passa a dançar com o cavalheiro da frente. O comando é repetido até que cada dama tenha dançado com todos os cavalheiros e alcançado o seu parceiro.


11. CAMINHO DA ROÇA
Damas e cavalheiros formam uma só fila. Cada dama à frente do seu parceiro. Seguem na caminhada, braços livres,balançando. Fazem o BALANCË, andando sempre para a direita.


12. OLHA A COBRA
Damas e cavalheiros, que estavam andando para a direita, voltam-se e caminham em sentido contrário, evitando o perigo.
Vários comandos são usados para este passo: "Olha a chuva , "Olha a inflação , Olha o assalto , "Olha o (cita-se o nome de um político impopular na região). A fileira deve ir deslizando como uma cobra pelo chão.

13. É MENTIRA
Damas e cavalheiros voltam a caminhar para a direita. Já passou o perigo. Era alarme falso.

14. CARACOL
Damas e cavalheiros estão em uma única fileira. Ao ouvir o comando, o primeiro da fila começa a enrolar a fileira, como um caracol.

15. DESVIAR
É o palavra-chave para que o guia procure executar o caracol, ao contrário, até todos estarem em linha reta.

16. A GRANDE RODA
A fila é único agora, saindo do caracol. Forma-se uma roda que se movimenta, sempre de mãos dados, à direita e à esquerdo como for pedido. Neste passo, temos evoluções. Ouvindo "Duas rodas, damas para o centro ; as mulheres vão ao centro, dão as mãos.
Na marcação "Duas rodas, cavalheiros para dentro , acontece o inverso, As rodas obedecem ao comando,movimentando para a direita ou para esquerda. Se o pedido for "Damas à esquerda e "Cavalheiros à direita ou vice-versa, uma roda se desloca em sentido contrário à outra, seguindo o comando.

17. COROAR DAMAS
Volta-se à formação inicial das duas rodas, ficando as damos ao centro. Os cavalheiros, de mãos dados, erguem os braços sobre as cabeças das damas. Abaixam os braços, então, de mãos dados, enlaçando as damas pela cintura. Nesta posição, se deslocam para o lado que o marcador pedir.

18. COROAR CAVALHEIROS
Os cavalheiros erguem os braços e, ao abaixar, soltam as mãos. Passam a manter os braços balançando, junto ao corpo. São as damas agora, que erguem os braços, de mãos dados, sobre a cabeça dos cavalheiros. Abaixam os braços, com as mãos dados, enlaçando os cavalheiros pela cintura. Se deslocam para o lado que o marcador pedir.

19. DUAS RODAS
As damas levantam os braços, abaixando em seguida. Continuam de mãos dados, sem enlaçar os cavalheiros, mantendo a roda. A roda dos cavalheiros é também mantida. São novamente duas rodas, movimentando, os duos, no mesmo sentido ou não, segundo o comando. Até a contra-ordem!

20. REFORMAR A GRANDE RODA
Os cavalheiros caminham de costas, se colocando entre os damas. Todos se dão as mãos. A roda gira para a direita ou para a esquerda, segundo o comando.

21. DESPEDIDA
De um ponto escolhido da roda os pares se formam novamente, Em fila, saem no GALOPE, acenando para o público. A quadrilha está terminada. Nas Festas Juninas Mineiras, após o encerramento da quadrilha, os músicos continuam tocando e o espaço é liberado para os casais que queiram dançar.

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Egeu Laus
 

Beleza, Pedro!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 13/6/2007 23:23
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Tacilda Aquino
 

Interessante.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 14/6/2007 07:40
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jjLeandro
 

Uma aula, ótimo.
Bem, a dança da quadrilha surgiu por lá entre os anglo-saxões, mas veja só: lá a dança era de quadrilha. Aqui no BR o povo dança e a quadrilha assalta.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 14/6/2007 23:22
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linney
 

Gostei de saber!

linney · Canoas, RS 17/6/2007 20:02
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Roberta Tum
 

PEDRO, Pedro... grande texto, bela foto!

Roberta Tum · Palmas, TO 18/6/2007 08:26
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente post. Quem nunca dançou quadrilha na escola não é mesmo?

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 18/6/2007 08:56
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Pedro Vianna
 

Obrigado Overmanos...

Pedro Vianna · Belém, PA 18/6/2007 08:56
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Guilherme Mattoso
 

caramba! nao sabia da origem inglesa! achava que tinha nascido na frança. mto legal o texto! faltou o "anarriê" no glossário!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 18/6/2007 10:26
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CCorrales
 

Pedro, adorei o "curso" de quadrilha.
Vou divulgar sua colaboração no meu blog, tudo bem?
A propósito, publiquei na Agenda um calendário de festas juninas na periferia de São Paulo (extra-escolas).
Abraços

CCorrales · São Paulo, SP 18/6/2007 10:31
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André Gonçalves
 

gostosa matéria, com cheiro de quentão.

André Gonçalves · Teresina, PI 18/6/2007 14:26
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CCorrales
 

Pedro, obrigada pelo OK. Segue o link de onde publiquei: http://brincando-no-parquinho.blogspot.com/
Abraços
Cíntia

CCorrales · São Paulo, SP 18/6/2007 16:03
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Carlos Correia
 

muito bom o texto. olha, que nem eu que vi ensaios de quadrilhas desde pequenino, sabia de tanta coisa a respeito dessa tradição tão brasileira. abraços, parabéns pelo texto.

Carlos Correia · União dos Palmares, AL 18/6/2007 18:58
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Marcela Fells
 

OK, a história da quadrilha que eu sempre ouvi é que a dançada no Brasil tem origem Francesa e a daçanda na América do norte tem, origem Inglesa, mamãe me contou isso, de qlqr forma, quadrilha só tem graça quando as crianças do maternal dançam,. o artigo ficou interessante. bjão

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 18/6/2007 20:52
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Thiago Paulino
 

Pedro gostei muito do seu texto.. rico em informações históricas, inclusive trazendo informações dobre os passos básicos..

Apenas não gostei de duas coisas: uma quando vc classifica que a quadrilha como sendo "uma dança característica dos caipiras, pessoas que moram na roça e têm costumes muito pitorescos." em algumas cidades do nordeste onde passei a quadrilha parece ter um sentido mais profundo ligada a uma identidade comunitária muito forte... pessoas chegam a torcer muito para quadrilhas do bairro ou do do seu colégio como se fossem times, além de um sentido lúdico de integração... a outra é que não gosto quando vc define como costumes muito pitorescos. Mas aí são opiniões minhas..

É interesante como alguns passo da quadrilha de origem de origem européia, incorporou ao chegar no Brasil passo completamnte diferentes. Ela se adequou a vida social do homem do campo brasileiro.. aqui por exemplo existe um passo chamado "quebrar o carangueijo" (uma inguaroa muito degustada em Aracaju)... e também é claro temos o exemplo do xaxado que imita o movimento da enxada no chão...

No mais parabéns pela riqueza de informações.
Abraço.

Thiago Paulino · Aracaju, SE 19/6/2007 10:39
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Fê Pavanello
 

Muito bom, Pedro!!

Fê Pavanello · Brasília, DF 19/6/2007 14:52
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Marluce Freire Nascasbez
 

Pedro,

Desculpe-me o atraso para vir ver teu trabalho, que belo trabalho, lindo Pedro! E essa foto então, um luxo de bela!

Parabéns, Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 19/6/2007 18:38
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Pedro Vianna
 

Agradeço todos os comentários...

Pedro Vianna · Belém, PA 20/6/2007 15:45
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FILIPE MAMEDE
 

Pedro, estava pesquisando sobre outro assunto quando me deparei com o mestre Câmara Cascudo, grande historiador e folclorista da minha terra. Sobre as quadrilhas, o mestre diz o seguinte: ''Grande dança palaciana do século XIX, protocolar, abrindo os bailes da corte em qualquer país europeu ou americano, tornada preferida pela sociedade inteira, popularizada sem que se perdesse o prestígio aristocrático, vivida, transformada pelo povo, que lhe deu novas figuras e comando inesperados''... Por aí vai...
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 22/6/2007 09:20
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