Olha o peixe aí, quem quer peixe?

Aprigio Vilanova
"Galega do peixe" com sua banca armada as margens do AL101 Norte
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Aprígio Vilanova · Maceió, AL
27/2/2007 · 139 · 10
 

Quem mora em Riacho Doce certamente conhece, quem trafega na AL-101 norte já a viu alguma vez, com certeza. No meio da calçada, numa banca improvisada, isopor do lado, balança do outro lado e peixe fresquinho, está a dona Maria ou, como é mais conhecida, “Galega do peixe”, com sua banca armada na margem da rodovia de entrada e saída de Maceió, pelo litoral norte, do Estado de Alagoas.

Típica brasileira, com traços marcantes, fruto da mistura étnica que aconteceu em nosso território, dona Maria é a cabocla e seus traços indígenas são inconfundíveis. A região foi a dominada pelos Tupinambás – Caetés e a “Galega do peixe” traz, em suas marcas e sua coragem, a espírito dos silvícolas – apesar do apelido de “galega”.

Não precisa de grito para convencer a clientela, os peixes expostos à beira da estrada são por si só a maior atração para a venda. A movimentação na estrada é intensa e dona Maria não pára; ora está atendendo a freguesia, ora está tratando os peixes para serem vendidos. As mãos habilidosas deixam evidente a experiência obtida com a prática de vários anos na atividade.

Diz ela: “Graças a Deus, com esses peixes eu criei quatro filhos, já tenho neto e vivo da venda aqui na estrada”.

Trata-se de um desabafo metafísico com todo o saber que é próprio dos nordestinos simples, filhos da miséria e da exploração secular, financiada pela aristocracia rural e promovida pelo Estado brasileiro ao longo de nossa história.

O ambiente é composto de vários outros ambulantes que comercializam também os quitutes de herança indígena e africana à beira da rodovia. Tem “pé-de-moleque”, “beiju”, “tapioca”, “bolo de fubá”, “bolo de macaxeira”, “brasileira”, “grude” e outras iguarias da culinária nordestina com raízes nos povos historicamente explorados - negros e índios.

A região é lindíssima e foi o cenário que inspirou o escritor José Lins do Rego em seu livro “Riacho Doce”. A localidade é histórica e, inicialmente, era habitada pelos tupis. Com a colonização surgiram os primeiros núcleos de povoamento composto por pescadores; o desenvolvimento de Riacho Doce é fortemente marcado pela pesca, que é a principal atividade desenvolvida pelos moradores da região e que se mantém bastante importante ainda hoje.

A região que compreende os distritos de Garça Torta e Riacho Doce, localizados na grande Maceió, também foi palco das primeiras iniciativas de exploração petrolífera no Brasil e, ainda, da primeira vítima na batalha pelo reconhecimento oficial da existência de petróleo em solo brasileiro.

A vítima, o engenheiro alemão José Bach, trabalhava na empresa Andrade Auto & Compainha e foi o primeiro a estudar a região; depois de sustentar a existência e a viabilidade econômica do petróleo alagoano, contrariando os interesses dos Estados Unidos, Bach faleceu em circunstâncias estranhas em 1918 – ele foi encontrado morto.

É nessa região histórica, cortada por rios e limitada pelo mar calmo e cristalino de Maceió, que a “Galega do peixe” escreve sua própria história; ela também é personagem importante do cotidiano de Riacho Doce.

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Arthur Torres
 

Olá Aprígio,
Estou a pouco tempo no OVERMUNDO, mas já foi o bastante para o desencadear de lembranças boas das "Alagoas".
Conheci esta região nos finais dos 70, à caminho de Paripuiera, às vezes parávamos em Riacho Doce para comermos um peixe frito na beira mar. Vejo que a simplicidade cativante deste povo, continua a inspirar a admiração de muita gente.

Arthur Torres · Paraíba do Sul, RJ 24/2/2007 18:12
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Aprígio Vilanova
 

E aí Arthur,
A região deve ter mudado um pouco só da época que vc conheceu, os peixes e frutos do mar são obrigatórios para quem passa pela região e a beira mar, lógico. Obrigado pelo comentário e saudações alagoanas.

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 24/2/2007 22:51
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Egeu Laus
 

Belo texto, Aprígio. Traga mais das Alagoas para cá!
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2007 00:19
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Aprígio Vilanova
 

Olá Ageu,
Valeu pela força e se sempre que puder tentarei publicar textos deste lado do Brasil.
Obrigado pelo comentário e saudações alagoanas!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 27/2/2007 00:25
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Marcelo Perez
 

Valeu, Aprígio!
Adoro ler esses textos em que os personagens principais são pessoas simples, do nosso cotidiano. Essa D. Maria representa um monte de Marias espalhadas por todo o Brasil. Aqui em Boa Vista(RR) exitem algumas.
Abração

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 27/2/2007 04:45
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Aprígio Vilanova
 

Valeu Marcelo,
É verdade. O Brasil está repleto de figuras simples como nossas Marias e Josés, que são agentes ativos da nossa História e que precisam ser reconhecidos como tais...
valeu pelo comentário e saudações alagoanas!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 28/2/2007 01:05
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Marcelo Cabral
 

Massa Aprígio! Ótima descrição do lugar, o Riacho é bom demais mesmo, e essas figuras, principalmente aquelas que vendem beiju, grude, bolo de macaxeira, pé de moleque (acho que aqui é diferente do que é o pé de moleque dos outros lugares) e mais um monte dessas comidas de índio deliciosas. São personagens que eu conheço desde criança, de parar ali com a família, e comprar um monte daquilo que as simpáticas mulheres assam naqueles fornos de quilombo, e com certeza todo mundo deste Maceió de Deus conhece aquelas senhoras ali, personagens importantes da cultura e da preservação dessas iguarias, um pouco que ainda nos resta de nossas heranças étnicas.
Altas informações bacanas também, sobre a história do lugar e sobre o romance de José Lins do Rego.
Valeu cabra, e continue nos brindando com suas valorosas colaborações!
Saudações conterrâneas.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 28/2/2007 18:37
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Erika Morais
 

Oi Aprígio,
beleza de texto rapaz, concordo com todos sobre o que foi dito.
Riacho doce é uma belezura mesmo, assim como seus moradores que mantém viva a cultura vendendo essas delícias.
Concordo também com o Marcelo, bacana trazer essas referências históricas...agora quando passar novamente pelo Riacho (e vai ser muito em breve) vou saber um pouco mais desse lugar lindo.

Erika Morais · São Paulo, SP 2/3/2007 18:27
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Aprígio Vilanova
 

Valeu Marcelo,
Este cenário mexe com imaginário de todos nós que por alí passamos algum dia, o cenário é mágico e as pessoas são de uma simplicidade grandiosa. Valeu pelo comentário sempre...
valeu pelo comentário conterrâneo!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 2/3/2007 22:09
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Aprígio Vilanova
 

Olá Erika,
É mesmo encantador o litoral alagoano, mas o litoral norte tem um quê a mais. Seja muito bem vinda a terrinha!!! e a história tem sempre algo a mais para ser "descoberto"...
valeu pelo comentário e seja bem vinda!!!

Aprígio Vilanova · Maceió, AL 2/3/2007 22:16
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