No ano de 1938, início da Segunda Guerra Mundial, a região centro-sul do Paraná abrigava imigrantes de diversas nacionalidades, onde descendentes e originários dos países Aliados e do Eixo conviviam em relativa harmonia. Curiosamente, o local foi ponto de partida para dois sobreviventes da guerra, que seguiram até a Europa em busca de trabalho e aventura, levando consigo o patriotismo de suas origens. Acabaram lutando em exércitos opostos, mas sofreram dos mesmos sentimentos e efeitos do conflito. Lembranças e conseqüência de uma guerra sem vencedores, onde o principal objetivo era resistir e tentar voltar para casa.
A cidade de Rio Azul, próxima a Irati, esconde um vilarejo de estranho nome. No Rio Vinagre, distante seis quilômetros do centro, o ex-combatente de guerra Luiz Navacki leva uma vida solitária nos fundos da Igreja que ele mesmo ajudou a construir. Com 94 anos de idade, Navacki passa boa parte do dia descansando na varanda de casa, aguardando a visita dos passarinhos e amigos, que já não aparecem mais com freqüência. Navacki sofre com a visão desgastada e tem dificuldade de andar. “Até hoje faço minha própria comida”, orgulha-se. Lúcido, faz questão de contar com detalhes sua aventura de amor pela pátria polonesa durante a Segunda Guerra. “Quando o Brasil entrou no conflito tentei me alistar no Exército Brasileiro, mas não fui aceito. O país precisa de vocês aqui, disseram”. Quem procurava por voluntários era o Exército Polonês, mas como Navacki nascera em São Mateus do Sul, estava subordinado às ordens do exército nacional. Sua vontade de lutar era tanta que não desistiu facilmente: junto com um amigo foram até Montevidéu, no Uruguai, e se alistaram como voluntários das Forças Armadas Polonesas. Trinta dias depois partiram para a Europa em combate.
Apenas cinqüenta quilômetros separam o município de Rio Azul do distrito de Gonçalves Junior, em Irati. A pequena colônia de imigrantes foi palco para a infância de Paulo Barby, filho de uma tradicional família alemã, donos de um antigo moinho na região. Barby ajudava no que podia dentro do moinho, até seu pai oferecer uma viagem à Alemanha, custeada pelo Governo Alemão, para estudar e aprender uma profissão. “Fui para Curitiba e fiz os dois passaportes, brasileiro e alemão. Mais tarde recebi o aviso para embarcar em Santos (SP)”, relembra Barby, que viajara com apenas 15 anos de idade. Durante o trajeto de navio, que durou cerca de três semanas, ele e mais 123 jovens brasileiros tiveram uma espécie de pré-treinamento militar. “Um xerife chegou e começou a explicar como funcionava o sistema alemão, de higiene, trabalho e ordem”. Todos os dias, os jovens praticavam exercícios físicos pela manhã e a tarde tinham aulas de política. Era uma introdução à educação nazista. A guerra estava preste a começar.
Enquanto Luiz Navacki encontrou a luta armada nas suas batalhas finais, Paulo Barby acompanhou de perto o avanço das tropas alemãs e as diversas faces do conflito. Moageiro aposentado, 84 anos, Barby atualmente mora em Prudentópolis perto da filha. Sua idade é disfarçada pela postura de um homem forte, que nunca teve medo do trabalho pesado e da guerra. Quando chegou na Alemanha, trabalhou como foguista e jardineiro, até ser encaminhado para um moinho em Elsnig, onde poderia exercer o ofício escolhido. "Lá perguntaram se eu era mesmo brasileiro. Espantaram-se porque eu era branco, pois esperavam a vinda de um negro", conta Paulo. No moinho, o rude patrão obrigava Barby a fazer todos os serviços da fazenda. Quando fazia algo de errado, era tratado com violência. Foi um ano de trabalho escravo, até se alistar no exército e ser recrutado para atuar na Luftwaffe, a Força Aérea Alemã.
Viajando num navio mercante, Luiz Navacki chegou a Inglaterra onde recebeu um curto treinamento. Tinha se alistado como voluntário da Marinha Polonesa, que pertencia ao Exército Aliado. “Eu fazia um pouco de tudo lá. Em Londres, estávamos numa casa de pouso, nos preparando para dormir, quando veio o aviso de aviões alemães. Fomos para os abrigos. Só se ouviam os estouros. A cidade estava sendo derrubada”, relata. Nesse tempo, Paris já estava ocupada pelo Eixo. Em terra, localizava-se uma das várias bases da Luftwaffe por toda Europa que passavam instruções aos aviões militares. Lá estava Paulo Barby, trabalhando no painel de controle. “Minha função era marcar num grande mapa os aviões inimigos abatidos”. Com o passar do tempo chegou a ser piloto de avião e metralhador de caça, até ser elevado ao posto de sargento. Barby trabalhou em diversos aeroportos, onde pelo menos três vezes recebeu a visita do general Adolf Hitler. “Era um homem democrata, cumprimentava todo mundo, totalmente diferente daquilo que é escrito sobre ele”, relata o ex-combatente.
Em 1944, com o avanço das Tropas Aliadas, a Marinha Polonesa foi chamada para a região da Normandia. Em junho do mesmo ano, Luiz Navacki participou do “Dia D”, a maior invasão da história, tendo seu navio bombardeado por um submarino alemão. Durante a explosão de um ataque, o marinheiro acabou sendo arremessado para longe, só se salvando nas cordas do navio. “Estávamos afundando, mas fomos resgatados pela retaguarda americana. 49 tripulantes daquele navio acabaram morrendo”, relembra seu Luiz. Em algum aeroporto alemão, chegava a notícia de que os franceses penetravam na divisa com a Suíça. Paulo Barby então é transferido para infantaria e obrigado a lutar na fronteira. “Várias vezes pensei em fugir para a Suíça, ir até a embaixada brasileira e pedir para voltar. Mas não era tão covarde assim”. Numa grande ofensiva inimiga, Barby é baleado na perna e vê dois colegas morrerem ao seu lado. Ferido, ele se escondeu num buraco embaixo de montes de lenha, até ser resgatado dias depois pelos colonos da região. “Fui transferido para um hospital na Áustria, mas me recusei a ser operado. Disse que eu era brasileiro e precisava fugir. Tenho a bala até hoje em minha perna”, conta o sobrevivente.
Paulo Barby ficou nove anos na Europa até conseguir voltar para o Brasil. Depois da guerra, ainda trabalhou numa fazenda na Áustria e na Noruega, sendo repatriado em 1947. Na volta para casa, descobriu que seu pai tinha falido. “Minha mãe, orgulhosa de ter um filho lutando pelo seu país, mostrou para todo mundo minha foto fardado. Os clientes do moinho, maioria poloneses e ucranianos, acabaram se afastando. Por minha causa, meu pai ficou meio ano preso em Curitiba”, emociona-se Barby. Já Luiz Navacki, voltou ao Brasil depois de três anos na guerra. Trabalhou na lavoura e também como professor de português até se aposentar, nunca tendo o reconhecimento merecido. Da experiência, ficou uma lição. “A guerra não deveria de existir. Quem está lá não consegue trazer felicidade e liberdade para ninguém”. Para os olhos dos combatentes, uma guerra de difíceis lembranças. Saiba mais na Expedição Carona Estrangeira
Que interessante, Jeferson! Fico curiosa de saber o que te motivou a fazer essa matéria e como encontrou os dois personagens (imagino que não tenha sido tão fácil). Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/3/2007 17:40
Olá Helena! Fiz essa matéria ano passado, participando da Expedição Coração do Paraná. Os nomes dos personagens surgiram por acaso, quando estávamos na região de Irati. Apostamos na idéia e fomos atrás das figuras, na base do boca em boca e faro investigativo. Creio que valeu a pena. Abraços
Jeferson Jess · Curitiba, PR 27/3/2007 00:32Bela história. Interessante e reveladora. Por coincidência, estou preparando uma matéria semelhante. Aqui em Natal reside um ex-combatente que acabou levando a vida tomando conta de um barzinho maltrapilho.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 29/3/2007 14:23
Salve, Jeferson!
A matéria realmente é interessantíssima. Dá vontade de conhecer os dois senhores e conversar mais profundamente sobre as experiências de cada um.
Agora, uma correção: Hitler atingiu o posto de cabo no exército imperial alemão. Ele jamais chegou a sub-oficial, quanto mais a general. Quando foi eleito chanceler da república, Hitler já não era militar havia 14 anos. Ele tornou-se presidente e ditador através de bem armadas manobras políticas e golpes de força bem aplicados, não por sua patente nas forças armadas.
Mas repito: a matéria é muito boa. Se tiver algo mais do gênero gostaria de ler.
Até mais!
Umberto.
Valeu Umberto! Obrigado pela observação. Pena que não posso mais corrigir o texto. Abraços!
Jeferson Jess · Curitiba, PR 30/3/2007 21:02Excelente texto; estas histórias são importantíssimas, precisam ser preservadas e divulgadas.
Marcelo V. · São Paulo, SP 31/3/2007 14:50
Concordo com o Marcelo: histórias são importantíssimas.
Adorei o texto, obrigada por publicar.
Maravilhosa a sua escolha de registrar as memórias de brasileiros envolvidos, neste conflito mundial, gostei do texto intercalado com a vida dos dois senhores, sem maniqueísmos. Você já leu o livro:"Memória e Sociedade - Lembranças de velhos" de Ecléia Bosi? Sua reportagem me permite citá-la, pois o tema é história e memória. Parabéns e meus respeitos aos nossos anciões, que testemunharam a guerra e puderam passar suas experiências de vida. Valeu!!!
cel. · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2007 21:45Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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