Ondas comunitárias MHz: MT chama!

A primeira transmissão radiofônica no Brasil aconteceu em 7 de setembro de 1922
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
1/2/2007 · 219 · 5
 

O ar é para todos. Essa é a premissa da radiodifusão livre. A história das rádios comunitárias carrega em seu percurso uma relação direta com as lutas políticas, sejam revolucionárias (a exemplo de Che Guevara, que utilizou esse tipo de frequência na guerrilha) ou de resistência democrática. É uma conquista recente (a Lei nº 9.612, é de 1998), oriunda dos anseios pela democratização das ondas radiofônicas, pela liberdade de expressão e difusão de idéias, informações, prestação de serviços, enfim, uma luta pelo direito de aproximar as comunidades de sua própria realidade através desse instrumento de comunicação social. Refletir sobre seus problemas, conectar pessoas de uma mesma abrangência geográfica em torno de suas necessidades, desejos e condições específicas.

As rádios comunitárias vêm se difundindo por todo o país, estima-se que existam dez mil no Brasil, e têm como prerrogativa exibir programação com conteúdo de qualidade, cultural, educativo, informativo e de prestação de serviço. Mas, será que isso está acontecendo? Como fiscalizar e obrigar essas rádios a cumprirem suas funções fundamentais de atender às comunidades para as quais são destinadas? A entidade responsável pela Rádio Comunitária do CPA, FM 105.9, a Associação Movimento Comunitário Rádio Educativa FM de Cuiabá, uma Ong sem fins lucrativos fundada por dirigentes sindicais, da CUT, Sindicato dos Motoristas, Sindicato dos Bancários, Trabalhadores da Informática e Professores da Rede Privada, é comandada por Geremias dos Santos, que afirma ser outro o problema: “O maior problema que vejo aí é a burocracia do Ministério das Comunicações. Por exemplo, estamos no ar há 7 anos e há apenas um ano estamos legalizados. Nesse tempo de luta pela liberação tivemos um episódio em que tivemos todo o nosso equipamento tomado pela Anatel, numa ação da Polícia Federal, no ano de 2005. Mas de nada adiantou, juntamos as entidades novamente, fizemos cota, readquirimos equipamentos novos e continuamos no ar.”

A história das comunitárias carrega na bagagem vários focos de resistência política e cultural. É uma reivindicação da sociedade democrática e, arrisco dizer, consequência do princípio das rádios livres com suas ações transgressoras, questionando o controle do ar e desafiando as normas reguladoras das concessões. Por ser um instrumento poderoso na formação de opinião, o mau uso que políticos e religiosos fazem é um risco constante, pois usam das facilidades que têm para conseguir concessões e abusam do poder comercial que o instrumento lhes confere.

Geremias admite que as rádios ainda estão bem longe do formato ideal: “As rádios comunitárias no Brasil ainda estão em busca de seus espaços próprios, definindo seus perfis e formatos, em suma, é uma busca constante de aperfeiçoamento para uma maior interação com a comunidade. O modelo da maioria das rádios comunitárias ainda se espelha nas rádios comerciais, é uma questão cultural. Queremos envolver mais a comunidade, queremos conscientizar as pessoas dos seus próprios problemas, precisamos interagir.”

Em Cuiabá, alguns exemplos têm demonstrado a importância desse tipo de comunicação, pois vêm obtendo grande receptividade em suas áreas de abrangência e é flagrante (apesar da falta de pesquisas) o crescimento da audiência e maior participação da comunidade. Existe uma grande procura para divulgar eventos dos bairros do CPA, ligações telefônicas com pedidos de músicas e aspirações aos prêmios oferecidos pelos programas. A Rádio Comunitária do CPA tem forte influência na vida da comunidade e isso fica bastante perceptível no orgulho e carinho que alguns moradores demonstram em relação ao veículo que se situa tão próximo de suas vidas.

Quando fui até a sede da comunitária do CPA para escrever esse artigo, logo na entrada, encontrei uma senhora que abordei e fui logo perguntando se ouvia a FM 105.9. Acompanhada da filha pequena, Valdirene Monteiro, dona-de-casa,38 anos, pele curtida de sol, entusiasmada com a FM 105.9, disse, em alto e bom som: “Vim buscar meu CD. Ganhei no programa do DJ Claiton 7. Ele coloca boas músicas pra gente ouvir. Todo dia ouço a Comunitária, a 105.” Ao indagar sobre a audiência no bairro onde mora, o Altos da Glória –que está dentro do Grande CPA (conjunto de bairros com cerca de 200 mil pessoas), ela dá uma bela gargalhada e tasca: “Pelo menos a maioria da minha rua ouve, pois coloco o som bem alto! E olha que ouço o dia inteiro...!” Sai, rindo, puxando a pequena filha pela mão. O ônibus que a levará até aos Altos da Glória está partindo. Entro no pequeno prédio onde funciona a rádio comunitária por uma escada apertada que vai dar direto no estúdio. Para o alto!

Alguns programas voltados para o público jovem têm sido importantes para a difusão da cultura hip hop no Grande CPA, como o “Versão Hip Hop Brasil”, o “Soul Gueto” e o “Direção Hip Hop”. Um programa híbrido que mistura pop, dance, eletrônico e rap, o “Top Dance”, comandado pelo DJ Claiton 7, também tem se destacado com boa audiência e participação da comunidade na seleção musical. A música alternativa roqueira tem seu lugar na 105.9 com o programa “Vitrine do Rock”, que veicula músicas de bandas locais, realiza entrevistas e acompanha os movimentos culturais jovens da cidade.

Além desses programas culturais mais alternativos, abrem muitos espaços em sua grade para programas de entrevistas e debates de questões de interesse público. Sábado é o dia de maior audiência.

A Rádio Comunitária Pedra 90, é outro canal que tem valorizado a cultura local e obtido boa resposta da comunidade. O produtor cultural, Anselmo Parabá, do Instituto Cultural Mandala, que atua na região, está animado com a repercussão: “Algumas bandas locais têm se destacado e é muito grande o número de pessoas pedindo para tocar as músicas dessas bandas.” É outra emissora que tem programas voltados para o hip hop e o rock alternativo em sua grade.

O rádio tem características muito interessantes que o torna um veículo poderoso, seja pela agilidade, baixo custo operacional, equipamentos acessíveis, audiência cativa e participativa (quando provocada), é um meio muito bacana para a interação das pessoas com seus próprios ambientes de vivência. Uma possibilidade concreta de ouvir outras vozes.

Vida longa às rádios comunitárias espalhadas por esse Brasil de tantas vozes e sons.


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Higor Assis
 

A história do rádio no Brasil é muito confusa e a data mencionada talvez não seja a certa.

Só não entendi a discussão se é pela democratização das rádios comunitárias ou um texto contanto a história das rádios comunitárias existentes em MT.

Higor Assis · São Paulo, SP 2/2/2007 08:38
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eduardo ferreira
 

a primeira transmissão oficial aconteceu em 1922. discurso do então presidente da república epitácio pessoa. transmissor de 500 watts (westinghouse). do altos do corcovado.

a instalação de fato ocorreu em 20 de abril de 1923 com roquete pinto e henry morize e o programa "rádio sociedade do rio de janeiro" - totalmente dirigido para as elites.

higor. tem história aí, tem ponto de vista, tem mato grosso, tem cpa, 105.9, tem rádio, tem gente, tem sangue, tem onda: frequência modulada: muito pano pra manga: gosto de coisas soltas: pra alinhavar: constelações de abismos: nada pronto nem acabado.
grande abraço.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 2/2/2007 12:07
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Marcelo Rangel
 

Edu, como sou meio suspeito pra falar, dada minha admiração pelo que vc escreve e pela nossa parceria/sintonia radiofônica-fraterna-filosófica, transcrevo o comentário do Dioclécio Luz, um estudioso e guerreiro da batalha das rádios comunitárias, que escreveu "Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como fazer Rádios Comunitárias, na intenção de mudar o mundo", edição de 2004, copyleft, a quem mandei um link para este texto:
li a matéria.
muito bem feita.
é a realidade das rádios que tenho visto - teu amigo foi fiel na descrição.

Saudações overradiofônicas!!!

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 2/2/2007 12:32
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eduardo ferreira
 

valeu marcelo. a discussão é boa. meus heróis são esses guerreiros que nunca perdem o humor diante das mais trágicas batalhas!
cumplicidades se estabelecem como pontes para a construção de um mundo melhor.
as ondas do rádio unem ilhas de solidão.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 2/2/2007 13:57
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Mecenas
 

OK, PARABÉNS! A TODOS!

Mecenas · São Mateus, ES 11/4/2007 16:00
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