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Onde está a honestidade?

Fotomontagem: Delfin
O centenário de Noel Rosa se aproxima. E os oportunistas de plantão? Hmmm...
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Delfin · São Paulo, SP
26/2/2007 · 106 · 2
 

No último dia 11 de dezembro eu estive em Vila Isabel. Meu objetivo era ver como o bairro onde viveu Noel Rosa homenageava os 95 anos de seu nascimento. Peguei o ônibus, num domingo sem sol, chato e um pouco nublado, e segui para a Vila. Algumas tristezas no caminho: o povo sem cara de alegria na rua, quase tudo fechado, um Maracanã fechado para reformas e com uma aparência tristemente decadente. Foi neste clima que eu cheguei até o Petisco da Vila, local tradicional do bairro, cujo nome é uma alusão a um dos grandes sucessos de Noel. De acordo com a Prefeitura do Rio, haveria interdição de uma rua para uma grande comemoração ao poeta e compositor.

Quando cheguei, lá pelas quatro da tarde, havia quatro mesas verdes de metal impedindo o acesso a um trecho de rua. Era a esquina das ruas Torres Homem com Visconde de Abaeté. Nos bares, nenhuma movimentação especial ou diferenciada. Havia três: o Zeca's Vila, o Bar do Costa e um terceiro inomidado, além da Confeitaria Abaeté. Porém, no Bar do Costa, algumas pessoas trajavam um mesmo modelo de camisa amarela. Tomando isso como outra alusão a um sucesso de Noel, escolhi uma mesa na calçada e lá fiquei, esperando. Começava a garoar e o clima começava a ficar muito parecido com o de São Paulo nessa época do ano: não muito quente, com uma chuvinha fina, rala e constante.

Eu já me decepcionava e achava que havia mesmo um grande desrespeito à memória musical do Brasil quando, irrompendo pela rua, um pequeno grupo chegava, gritando e cantando. Não eram mais do que quinze pessoas, todas trajando a mesma camisa amarela que eu vira naquele bar. Eu estava, afinal, no lugar certo. Mas aquilo era muito diferente de uma massa humana que prometia, segundo faixas colocadas próximas ao local, fazer uma passetada da estátua de Noel Rosa àquele ponto. Então, começam a entoar um parabéns a você. Antes que eu pudesse virar mais um gole de cerveja, o parabéns termina com o inesperado coro de 'Noel! Noel!", fazendo com que eu repare um pouco melhor.

Havia, no fim das contas, dois blocos distintos. O da camisa amarela, chamado Eu sou eu, jacaré é bicho d'água, e um de camisas pretas e chapéus com fitas azuis, chamado Saco do Noel. De repente, comecei a me sentir mais em casa, trajado com minha bela camisa pirata da seleção da Nigéria (que é verde, para quem não sabe) e um guarda-chuva antigo. As pessoas começaram a interagir e eu percebi que, mesmo com pouca gente, algo iria rolar.

Tiro e queda: próximo às mesas verdes que impediam o acesso à rua, colocaram uma espécie de toldo branco, que, minutos depois, suficiente para abrigar um conjunto, chamado Grupo Caviúna, que começou, por volta das cinco da tarde, a tocar grandes sucessos de Noel. Bem na hora em que a chuva começou a apertar um pouco mais.

Conversando com algumas pessoas, descobri que aquela comemoração ao Poeta da Vila tinha começado apenas em 2004. Era, portanto, uma tradição recente. Isso poderia explicar a pouca participação popular, mas o que me deixou inquieto foi o homem que celebrizou aquele bairro ter ficado esquecido por tanto tempo das comemorações populares. Que, aliás, só ocorreram por iniciativa própria dos dois blocos citados, pois, pela Prefeitura, acho que nada estaria acontecendo. Para você ter uma idéia, apenas estava por lá um solitário homem da Guarda Municipal, com uma cara de tédio indisfarçável. E a rua que foi fechada, sinceramente, não teria mesmo um grande fluxo de carros naquele dia.

A música, que estava realmente boa e animada, alegrou os foliões, que, no entanto, decidiram se manter abrigados abaixo de marquise a ir dançar no meio da rua, na chuva. Os consumidores dos outros bares estavam, em sua maioria, impassíveis, assistindo a um jogo do recém-campeão Corinthians contra uma Seleção do Campeonato Brasileiro. Estavam pouco ligando para um repertório que destacou, entre diversas canções, as parcerias de Noel com Ismael Silva, Orestes Barbosa e as pouco conhecidas músicas compostas por um emergente Cartola. E que durou horas.

No meio desta seleção, estava Onde está a honestidade?, antecipada por um discurso-clichê que refletiu o que a mídia tem imposto desde o início das declarações duvidosas de Roberto Jefferson. No entanto, o que veio ao meu pensamento é que, daqui a cinco anos, vão aparecer oportunistas de plantão na Vila tomando para si os louros das homenagens ao vindouro centenário do Noel. Que vão aparecer livros, CDs, discos, homenagens e diversos outros caça-níqueis para capitalizar em cima de um dos primeiros grandes nomes da MPB e, por que não dizer?, do samba 'branco'. E que, provavelmente, quase ninguém vai se lembrar do que houve naquele longíquo 11 de dezembro de 2005, quando um bom grupo cantou em meio à chuva grandes sucessos de Noel para um público pequeno, mas fiel. Vão, sim, se lembrar de pseudo-grandes nomes que vão se aproveitar da ocasião para aparecer em mídia, coisa que os blocos do Jacaré e do Saco não conseguiram anos antes.

E então será a hora de perguntar, verdadeiramente, onde está a honestidade.



Nota complementar:
Em 2006, no Festival de Cinema do Rio, o filme Noel: Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen, foi exibido pela primeira vez. No elenco, Rafael Raposo, Camila Pitanga e Paulo César Pereio. As homenagens não precisam esperar um centenário. Mas pode ter certeza que, em 2010, vai passar na tevê.

Nota pessoal:
Esta matéria é a última da minha chamada 'gaveta' do Overmundo. Curiosamente, foi a primeira a ser produzida e, por conta da data, nunca foi publicada. Era 2005 e a armação política iniciada com Mr. Bob Jeff estava a mil. Era um dia nublado e, quando saí da Gávea, me senti feliz, porque, afinal, eu iria trabalhar numa matéria, coisa que eu fiz muito pouco no Rio em 2005. Era um dia de folga meu e de Gabriela, mas não a vi o dia todo: quando acordei, ela não estava lá, tinha saído com o Tom. Foi assim que parti para a Vila Isabel: quieto, ansioso e sozinho. Uma das coisas mais tristes, no entanto, é lembrar que, exatamente um ano depois, ela escolheu exatamente esta data para pôr fim a uma chance de uma vida a dois, ao menos neste momento. Sinto falta dela e do meu menino. E pensei na pergunta que dá título, desde sempre, a esta matéria. A resposta é fácil: ela está aqui, comigo, e olha firme nos olhos de quem não crê e apenas pergunta, sem tergiversações, o porquê de uma traição sem sentido.

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Moysés Lopes
 

Delfin:

Beleza de texto, meu velho, ficou muito legal. Muito dolorida tua nota pessoal, tem que ter coragem para postar algo assim...

Aproveitando este momento de edição quero te dizer que tem uma frase no texto a qual não consigo perceber claramente o sentido. Ela diz:

"(...) fazendo com que eu repare um pouco mais."

Este repare está correto? Talvez seja interessante revisar esta frase.

Obrigado pela atenção. Um abraço,

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 24/2/2007 18:33
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Delfin
 

Reparado :)

Delfin · São Paulo, SP 24/2/2007 20:55
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