Lá longe, bem longe de tudo, depois de horas de rio, fica uma comunidade. Ela tem farinha, borracha e madeira, moeda de troca de uma antiga prática comercial típica da região amazônica: o regatão, barco que transporta bens de todas as espécies a esses locais mais remotos e os troca por produtos como os mencionados anteriormente. Também lá longe, bem longe de todos os recursos públicos, depois de apenas alguns minutos de carro, ficam as comunidades da periferia manauara. Elas têm artistas desconhecidos, acesso à arte ou à formação artística, especificidades culturais? É isso que o Regatão Cultural quer descobrir... e fomentar.
O Conselho Municipal de Cultura foi criado em 2003 e efetivado realmente em 2004, com o objetivo de gerir o Fundo Municipal de Cultura e de ser o cérebro de políticas culturais para o município. Era uma reivindicação antiga do movimento artístico organizado da cidade (ligada ao modelo do Fundo), que descentralizaria o acesso dos artistas aos recursos públicos e possibilitaria uma participação maior do movimento nas ações culturais da prefeitura, pois ele é formado majoritariamente por representantes eleitos de cada segmento artístico. O restante das vagas é preenchido pelos indicados por alguns órgãos municipais, responsáveis pelas pastas de Educação, Turismo e Esportes e Lazer.
O Regatão Cultural é fruto dessa iniciativa, e foi proposto pelo Conselho à Fundação Villa-Lobos (FVL), braço cultural da prefeitura que está em período de transição para se tornar a Secretaria Municipal de Cultura, como forma de começar a corrigir o abismo entre a periferia e o centro manauara, que abriga a quase totalidade de teatros e espaços culturais da cidade, todos mantidos pelo Estado. As comunidades não conhecem seus próprios valores e inclinações artísticas, não sabem de seus talentos ou vocações; não há palco nem escola.
Formação
De acordo com o escritor Aníbal Beça, atual presidente do Conselho e um dos mentores do Regatão, o projeto seria tocado em parceria com as associações de bairro, escolas da rede pública e núcleos paroquiais, que, devidamente assessorados, seriam responsáveis pelas inscrições e seleção de artistas para o Regatão, que contará com uma espécie de ônibus-palco para a realização dos eventos. Esse é o embrião do projeto, a primeira fase, limitada a levar um artista de renome do Estado para se apresentar ao lado do pessoal dessas comunidades, só para movimentá-las mesmo, despertar o interesse. A partir desse ponto, o Regatão pretende auxiliar no “mapeamento cultural” da cidade, para então chegar na parte principal do projeto, que é levar a formação artística a esses locais a partir de suas próprias especificidades.
“Não pode ficar só no evento, senão seria mais um ‘Praça Iluminada’”, argumenta Aníbal, referindo-se ao projeto da Rede Amazônica de Televisão que há duas décadas leva shows gratuitos de artistas da região a logradouros públicos dos bairros mais distantes de Manaus. A formação artística é o foco principal do Regatão, pois no entender do Conselho – e de qualquer pessoa que se interessa por arte em Manaus – esse é o ponto fraco quando o assunto é cultura na região. Política cultural no Amazonas é sinônimo de produção de eventos, pois o interesse real do poder público sempre foi a mera propaganda. Essas são as entrelinhas mais óbvias da história.
Para se ter uma idéia da situação, a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) possui uma extensa programação cultural em seus espaços, de maio a dezembro, com um sem número de peças e espetáculos de dança, por exemplo, sendo que a maioria dos grupos nem sabe o que está fazendo. No fim das contas, o Estado tem um número excelente para o balanço do governo, três mil espetáculos disso, quatro mil daquilo, os artistas recebem um cachê bacana por cada apresentação, e todo mundo fica feliz. E estagnado.
Na parte de formação, a SEC possui o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS), com diversos núcleos e cursos de teatro, dança, música e artes plásticas, mas a política é a mesma: números. Não importa que um jovem que estude violino, por exemplo, só possa passar quinze minutos por semana com o instrumento na mão, devido à demanda. O importante é anunciar que o CCCS possui não sei quantos milhares de alunos matriculados.
Quando o assunto é a Cultura do município, a situação é pior, porque quase não há números para anunciar. Até o início deste milênio, não havia um órgão específico da prefeitura dedicado à Cultura: ela ficava dividida entre a Secretaria de Educação e a de Turismo, que faziam projetos de arte-escola no ensino fundamental e eventos como o Boi Manaus, uma micareta ao som do bumbá que parece axé. A FVL, que agora se transforma em Secretaria Municipal de Cultura, foi criada na transição dos anos 80 para os 90, mas só de 2000 pra cá foi responsável por ações culturais do município. O carro-chefe foi o projeto Valores da Terra, que lançou disco de todo mundo (novamente os números) entre 2001 e 2003.
Mapeamento
O mapeamento mencionado no tópico anterior servirá de complemento a um outro projeto do Conselho, que está sendo realizado em parceria com o departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas. O trabalho consiste em formar uma espécie de “censo” sócio-econômico cultural de Manaus com o objetivo de detectar nos bairros a incidência de artistas, espaços culturais, e possíveis vocações para determinados tipos de arte nessas localidades. O estudo serviria de base para as futuras ações da Secretaria Municipal de Cultura. No papel, uma nova maneira de se encarar a arte na região; mas repetindo: por enquanto... é só papel. Ainda é preciso esperar pela vontade política da Secretaria, cuja primeira administração começa a trabalhar no próximo mês.
Maravilha Daniel!!! Um excelente panorama da política cultural do nosso Estado. Faço coro a sua análise. Parabéns!!!
Yusseff Abrahim · Manaus, AM 20/4/2006 17:24
Daniel, você conseguiu, num texto conciso, dar conta de um tema complexo, que é a economia da cultura e a real dimensão dos números que são apresentados na febre de estatísticas. Por outro lado, como você conta, ainda falta muito para se fazer uma base de dados (números) consistente e constantemente revisada. E, claro, não só no Amazonas, no Brasil inteiro. Acho que esse é um dos principais desafios das secretarias de cultura - a maioria delas parece nem ter se dado conta disso, ou não querer se dar conta. Afinal, o que importa é mostrar números na campanha para a próxima eleição...
Vamos torcer pro Regatão sair do papel. Fica de olho por aí e conte aí no Overmundo quando isso acontecer!
Em proporção menor, estamos vivenciando tudo isso aqui em Anastácio, MS, estamos no caminho certo, porém, temos a certeza, que assim como voce, a luta não será fácil...
Parabéns, pela iniciativa!!!
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