Openbusiness: um condomínio virtual

Foto de satélite da Cooperativa Digital no Pirambu.
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Pedro Rocha · Fortaleza, CE
22/7/2007 · 270 · 5
 

Um frigobar revestido de folhas de jornal posta-se no canto da sala da Cooperativa Pirambu Digital. Recortes de revistas com expressões como: “Mais uma oportunidade para você estudar”, “Produzindo”, “Avança Brasil”, “Suas Idéias”, “Inovando”, “Salvem o Planeta”. O frigobar é a “Sorveteria Zé de William”, lá você pode pegar seu sorvete, refrigerante, achocolatado e, sem ninguém para cobrar, depositar um real na caixinha acima. A idéia e o nome vêm de seu fundador no Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefet-CE). Um empreendimento que não tinha nenhuma pretensão de dar lucros, mas apenas de transformar uma geladeira em um símbolo de honestidade e cooperação. Os jovens que agora geram a Cooperativa trouxeram essa idéia lá do Cefet-CE, além de um conhecimento apurado no desenvolvimento de softwares. Trouxeram de lá para o Pirambu.

Jovens do Pirambu irão programar software

Daqui, a vista é uma das mais belas e simbólicas da cidade de Fortaleza. Ao fundo, os luxuosos condomínios e hotéis da Beira Mar, um dos principais pontos turísticos da cidade. Aqui perto, a Leste Oeste, praia conhecida por ser mais “popular”, nos termos grosseiros: “canelau”. Estamos no Pirambu, um dos maiores bairros de Fortaleza com aproximadamente 350 mil habitantes. É batata o “Pirambas” aparecer nos programas policiais. O bairro traz na história o estigma de ser local violento, perigoso, principalmente para os moradores da Aldeota e afins - parte reservada a gente rica de Fortaleza – que daquele espaço muitas vezes só tem idéias televisivas.

Foi aqui que a gigante LG chegou em 2003 querendo investir R$2.600.000,00 (dois milhões e seiscentos mil reais) na formação de 120 jovens no desenvolvimento de software. A multinacional entrava com o dinheiro e o Cefet-CE com a estrutura e corpo docente. Mas como restringir o curso de uma instituição pública a jovens de um determinado bairro?

Há cinco anos já existia uma “filial” do Cefet no Pirambu. A saída foi colocar no edital do concurso que as inscrições deveriam ser feitas no Cefet-Pirambu e que, talvez, as primeiras aulas acontecessem por lá também. “O estigma do bairro foi a favor dele nesse momento: 99% dos alunos inscritos eram do Pirambu, poucos – por questão do preconceito e do estigma – vieram pro Pirambu para poder fazer a inscrição e a prova”, conta Bruno Queiroz, de 21 anos, à epoca um dos 120 alunos do curso.

O curso durou dois anos. No segundo semestre de 2005, vários já estavam em estágios ou mesmo efetivados em algumas empresas, quando o então diretor do Cefet-CE, Mauro Oliveira, chegou com uma idéia para os 120: montar um empresa de desenvolvimento de software no próprio Pirambu. A intenção era não deixar o bairro perder o conhecimento que esses jovens tinham adquirido.

Dos 120, 52 toparam. “Quem não veio estava em outro estágio e teve medo dessa iniciativa empreendedora. É difícil você deixar um emprego, um estágio que é certo, pra apostar numa coisa que está no zero ainda. Na época, eu estagiava, estava quase me efetivando, ganhava meu dinheiro no fim do mês, não tinha nenhuma preocupação. As pessoas que queriam dirigir a cooperativa teriam que se dedicar 8 horas integrais e teriam que abrir mão de ter esse dinheiro no bolso, porque veja que todos esse 52 técnicos eram os donos da cooperativa, não tinha quem fosse nos pagar, nós éramos nossos próprios patrões, o dinheiro no fim do mês dependia de nosso próprio esforço”, diz, com gestos organizados de gente de negócios, Bruno, atual diretor-comercial da cooperativa.

Em uma sala no segundo andar da sede do Cefet-Pirambu, eles começaram a se reunir e planejar a formação do Podes (Pólo de Desenvolvimento de Software). Mauro Oliveira dava palestras e sugeria quais caminhos tomar. De setembro a dezembro foi assim, até que em 12 de janeiro de 2006 estava inagurada a Cooperativa Pirambu Digital, no prédio do Emaús, ong católica que atua no bairro. Além do Emaús, a cooperativa teve o apoio do Cefet-Pirambu e uma ajuda inesperada de um português (que pediu aos diretores para não ser identificado), que investiu 20 mil reais na estruturação da Pirambu Digital.

Logo no começo da Cooperativa, as demandas do mercado fizeram com que mais três empresas fossem criadas e viessem se juntar ao Podes: Fácil (Fábrica de Computadores com Inteligência Local), Trevo (Treinamentos e Eventos) e Nega (Negócios e Administração). Essas empresas dariam a autosustentabilidade da Cooperativa que partiria para uma série de projetos sociais direcionados à comunidade do Pirambu. Entre eles: Casa do Saber (reforço escolar), Pirambu Business School (onde funciona o Clec – Centro de Línguas Estrangeiras do Cefet), Universidade do Trabalho (cursos preparatórios para os vestibulares de ensino médio e técnico do Cefet) e...

...o Condomínio Virtual.

A idéia era disponibilizar internet a preços baixos à comunidade do Pirambu. Em parceria com o provedor Fortalnet e com uma antena de alcance de 2 km de raio, a cooperativa conseguiu retransmitir a preço de custo internet banda larga para o bairro. Preços imbatíveis! Por apenas R$20,00 reais você pode ter internet em casa!

A idéia era: alguns vizinhos se reuniriam, dividiriam os custos da antena que retransmitiria o sinal vindo da Cooperativa e, através de uma rede, compartilhariam a internet. Então, estava criado o Condomínio Virtual. Mas... “Já tinhamos a internet, beleza, mas e as máquinas? A gente fez uma pesquisa no começo do ano passado e vimos que tinha meio computador por quarteirão no Pirambu. Então não tinha como ter a internet e não ter o computador”, relembra Joviniano Junior, 23 anos, diretor-presidente da cooperativa. A solução foi restaurar computadores doados – 40 deles doados pela rede de farmácias Pague Menos – e disponibilizá-los aos condôminos. R$ 10,00 reais por mês, depois de 10 meses, e o computador é seu!

Um síndico organizaria o condomínio, desde o convencimento das pessoas sobre a importância de adquirir internet, até a resolução de problemas de inadimplência. “O síndico é aquela figura política do Condomínio Virtual, é aquela pessoa que vai chamar o seu Zé, a dona Maria para participar do Condomínio Virtual. Entre a casa do seu João e do seu Zé tem a dona Maria. O seu João quer internet e seu Zé também, mas a dona Maria não quer o Condomínio Virtual. Como a gente tem que fazer uma rede para que todos os computadores tenham acesso a internet, a gente tem que passar o cabo pela casa da dona Maria. Vai que a dona Maria não permite. Então o síndico é aquela pessoa que conhece a dona Maria. ‘Dona Maria, o seu Zé tem um filho que faz faculdade, é importante a internet pra ele, a senhora vai estar ajudando o filho dele a se formar, porque ele precisa fazer pesquisa. A senhora vai estar contribuindo para o crescimento tecnológico do bairro’. Dessa forma a gente cria um cenário político muito bacana entre os condôminos”, explicita Bruno. Assim foram criados três condomínios, dois no Pirambu - um com quatro e outro com seis condôminos - e outro no Álvaro Weyne, bairro próximo, com nove condôminos.

Desde março do ano passado, após a implantação desses três condomínios, a capacidade de expansão do projeto está esgotada, pelo menos em termo de oferta, porque a demanda está contabilizada em uma lista com quase 100 pessoas na fila de espera. Os principais problemas para a ampliação do número de condomínios, segundo os diretores da cooperativa, são os computadores – as doações são poucas e muitas vezes as máquinas chegam avariadas – e os custos de administração e suporte, como os treinamentos ofertados pela Trevo, empresa de treinamento da cooperativa, e os agentes digitais que são técnicos da ou formados pela cooperativa que dão suporte personalizado aos condôminos.

Outra dificuldade são os desníveis do Pirambu, um bairro costeiro. Isso dificulta a transmissão do sinal que para acontecer precisa de “visada”, ou seja, a antena no alto da cooperativa precisa estar “vendo” a antena no alto da casa do síndico. Não havendo visada é necessária a compra de mais uma antena que ficará entre as duas outras e possibilitará que o sinal chegue à casa dos condôminos.

“Se a gente não conseguir alguma entidade que nos apoie, a gente vai passar a comercializar internet. A idéia é, numa parceria com a Fortalnet, comercializar internet no bairro pra quem pode pagar e aí a gente custeia o Condomínio Virtual”, diz Joviniano Junior. Ele ainda enfatiza que o Condomínio Virtual é um projeto-piloto que só se efetivará com a parceria de alguma entidade que possa inclusive replicar a experiência em outros locais.

Os condôminos.

Um dos três condomínios fica na Avenida Pasteur, uma das maiores do Pirambu. Uma das condôminas é Angelita Gonçalvez, de 33 anos, dona de um bar. Participa do condomínio desde o surgimento e está prestes a adquirir o computador. Entrou no condomínio pensando principalmente no futuro dos filhos. “Eu só vejo mesmo o site do Padre Marcelo Rossi e do Reginaldo Manzotti”. O filho Samuel (18) e as filhas Edwirges (14) e Rita (12) são os que mais desfrutam das benesses do condomínio.

A Edwirges usa o computador numa média de três a cinco vezes por semana. Antes, ia a uma lan house, uma vez por mês. Na internet, faz pesquisas da escola, busca saber a biografia de escritores e dados históricos. Joga muito também e adora os sites IGuinho e o Portal da Turma da Mônica .

Rita usa basicamente MSN e Orkut. A mãe fica preocupada com o conteúdo que a filha acessa. Por isso fica sempre próxima para acompanhar a navegação. Angelita deseja fazer um curso de digitação e saber como pode utilizar o computador para ter um maior gerenciamento sobre o seu bar. “Eu não uso mais o computador porque não tenho instrução sobre ele. A gente só se acostuma rápido com bate-papo, mas coisa boa demora”. Nenhuma delas teve treinamento, não conseguiram marcar agenda com o agente digital. Dona Angelita espera que seja em breve.

Este condomínio em particular está sem síndico temporariamente. Carlinhos, o antigo síndico, era técnico da cooperativa, mas se mudou para trabalhar em São Paulo. A internet também vivia caindo lá por problemas no sinal. Hoje, os condôminos estão, como solução temporária, dividindo a Velox da casa do Carlinhos.

Outro condômino, Auricélio Correia, de 57 anos, comprou o computador há 3 meses, julgando ser essencial para o controle de estoque e de finanças de seu depósito, mas quando o adquiriu, descobriu que não era simplesmente comprá-lo, precisaria de outros programas.

A sobrinha de seu Auricélio, Gerusa Correia (23), é quem mais usa o computador. O depósito possui um e-mail (dpcorreia@bol.com.br), mas ninguém o acessa: “Nunca chega e-mail”, explica. Ainda não foi capacitada pelo agente digital já que não dá para receber o agente no depósito. O trabalho atrapalha o aprendizado. Vai tentar agora ter a capacitação na própria cooperativa.

Os condomínios em geral enfrentam problemas desse tipo. Outro, também no Pirambu, está sem internet, porque uma árvore cresceu e está atrapalhando o sinal da antena. Apenas o do Álvaro Weyne funciona normalmente, segundo os diretores da cooperativa.

A tecnologia e o software livre

Os computadores, em sua maioria, saem da cooperativa com uma versão do Linux e com o OpenOffice instalados. Alguns não podem sair com softwares livres, porque sua configuração – muitos são feitos a partir de outros pcs inutilizados – não suporta os programas. Mas a grande maioria dos condôminos muda o sistema operacional. “A maioria muda. A gente não pode dizer, né? ‘Você não pode mudar, vai ter que ser Linux’. Existe o treinamento, o agente digital que vai lá tem conhecimento em software livre, só que esse morador já deve ter rodado por algumas lan houses e todas têm Windows, o colega dele que tem computador em casa tem Windows. Fica difícil você dar toda a assistência para o camarada ter Linux; se nós tivéssemos isso como foco, se tivéssemos condições de gastar tempo e formação para que todos fossem em software livre, com certeza estariam”, explica Junior. Marcos Devaner, gerente de treinamento, diz que após a capacitação dos condôminos, os computadores migrarão para o Linux novamente.

A cooperativa nasceu com o intuito de difundir a tecnologia da informação no bairro, mas isso depende da sustentabilidade financeira das quatro empresas que rendem os lucros da cooperativa, hoje, com 30 técnicos – mais 22 que trabalham dependendo da demanda – e uma folha de pagamento que varia entre 10 mil e 15 mil reais.

No início, pensou-se no desenvolvimento pelo Podes do “Helena”, um software livre que seria comercializado a preços baixos aos muitos salões de beleza do Pirambu como ferramenta de gerenciamento dos estabelecimentos, mas há algum tempo ele está parado devido à prioridade dada aos serviços remunerados que dão sustentabilidade à Cooperativa. Mesmo assim, Junior verbaliza o ideal: “Quando você prende – o direito sobre o uso do software -, você exclui, naturalmente você exclui a comunidade ou quem quer que seja daquilo que você criou e aí quando você exclui você deixa de fazer inclusão digital, deixa de promover um desenvolvimento tecnológico e intelectual das pessoas”, diz Junior.

A sustentabilidade

Os faturamentos mensais indicam que a cooperativa caminha para uma sustentabilidade. Apesar de uma instabilidade na receita (em setembro faturou R$ 2.360,00 e em outubro R$ 23.414,00), hoje os 30 técnicos recebem R$ 500,00 mensais e os projetos não param de surgir, como uma universidade à distância em parceria com a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), conversas com a Prefeitura de Fortaleza, a implantação de um laboratório para a formação de 50 jovens em parceria com a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação), a aprovação em um edital do Ministro do Desenvolvimento Social no ano passado que ajudou na estruturação do laboratório de desenvolvimento de software e que tem a segunda parcela dos R$ 200.000,00 liberada agora.

“O condomínio virtual não existe sem a cooperativa. O essencial aqui é o fato de nós que nos formamos não termos ido trabalhar na Aldeota ou em outros bairros chiques de Fortaleza e sermos felizes individualmente. O diferencial é reunir todas essas cabeças pensantes para que no bairro elas possam criar projetos sociais, tecnológicos, econômicos, que beneficiem a si mesmos e a comunidade”, conclui Junior.

Por lá, as mudanças acontecem rápido, entre os dois dias de apuração, um laboratório inteiro foi desmontado e deslocado para outra parte do prédio, no espaço agora vazio, mais um laboratório de formação começava a ser montado, enquanto a antena da Unopar passava sendo carregada pelo corredor da Cooperativa

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Hermano Vianna
 

este projeto é realmente incrível - todos mundo deveria conhecer, para entender o que está acontecendo de importante no Brasil hoje - o país todo tem muito o que apreender com o que acontece por lá!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/7/2007 03:04
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Roberta Tum
 

Pedro,
fiquei de cara, com o projeto, muito bem contado na sua matéria. Uma super iniciativa que mostra que está na mão das comunidades as soluções para os seus problemas. Com uma dose de persistência!
Parabéns!

Roberta Tum · Palmas, TO 23/7/2007 17:05
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André Gonçalves
 

excelentes, o texto e o projeto.

André Gonçalves · Teresina, PI 23/7/2007 17:36
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Ricardo Sabóia
 

ótimo relato, Pedro! O projeto é fantástico.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 23/7/2007 20:07
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Bruno Queiroz
 

Grande Pedro! Mais uma vez nossa gratidão pelo trabalho que você realizou nessa matéria. Muita coisa já mudou e evoluiu desde o dia que tivemos o prazer de recebê-lo na Cooperativa. Esperamos contar com todos que vislumbram no empreendimento relatado, um modelo social, econômico e tecnológico replicável em qualquer lugar que seja necessário dar um novo futuro pra juventude.
Obrigado a todos!

www.pirambudigital.com
bruno@pirambudigital.com

Bruno Queiroz · Fortaleza, CE 3/9/2007 13:25
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