Os 12 Trabalhos

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Jean Faustino · Campinas, SP
5/5/2007 · 209 · 3
 

Quando fui assistir ao filme "Os Doze Trabalhos", numa quarta-feira, a platéia do cinema se compunha de apenas quatro pessoas. E isto já contando comigo e com um amigo que me acompanhava.

A princípio, fiquei indignado com o fato de um filme nacional de boa ter um público assim tão reduzido. Depois, no entanto, refletindo sobre o conteúdo do filme compreendi melhor o que havia acontecido.

"Os Doze Trabalhos" conta a história de um jovem, ex-detento da Febem, que com a ajuda de seu primo consegue um emprego de motoboy. Ou melhor, vislumbra este trabalho como perspectiva para fugir do movimento cíclico que tende a lançar ex-detentos novamente no mundo da criminalidade. O enredo, então, corresponde à narrativa desse primeiro dia de trabalho no qual o protagonista precisa cumprir a meta de realizar doze entregas com sucesso.

Sim, há uma alusão aos "doze trabalhos de Hércules". Inclusive, o nome do protagonista é uma referência ao mito grego. Mas, nesse aspecto, o filme surpreende o espectador que inicialmente pôde ter sua expectativa norteada pela analogia com a mitologia grega.

E além desse fator surpresa, o filme também possui uma tensão, um suspense bastante original que advém da incerteza de que o ex-detento irá conseguir realizar seus doze trabalhos ou irá, a qualquer momento, dar vazão à violência latente que traz contida num olhar demasiadamente sério para um jovem da sua idade.

Nesse sentido, o filme parece cumprir o seu papel artístico junto ao espectador que passa não somente a olhar o ex-detento com certa desconfiança como, também, a duvidar que ele será capaz de cumprir suas tarefas. Porém, mais que isso, a julgar pelo pequeno público que estava presente à sessão de cinema e ao pouco tempo que o filme ficou em cartaz, sou levado a concluir que ele conseguiu também, nisso, realizar seu propósito estético: o de passar despercebido, assim como a profissão de motoboy que ele se dispôs a retratar.

Convenhamos: embora os motoboys desempenhem um papel importante, economizando o tempo de muita gente, o fato é que ninguém deseja essa profissão para si. Até mesmo porque, como mostra o filme, nos meios profissionais em que circula, o motoboy é quase como uma espécie de entidade, um ser invisível e, não raro, indesejado quando ousa sair da sua invisibilidade para interagir com os "humanos" ocupadíssimos.

E essa mesma perspectiva social parece se refletir na sua atuação no trânsito, onde se movem rompendo as limitações normais impostas aos demais veículos. E assim se movem também como entidades, invisíveis e, não raro, indesejadas quando interferem no campo de visão dos "humanos" estressados, apressados e ocupadíssimos.

No entanto, se por um lado os motoboys passam por seres invisíveis, cuja profissão, eles, abraçam diante da falta de perspectivas no mercado de trabalho, por outro lado eles estão cada vez mais presentes na cidade de São Paulo. E o filme menciona isso, assim como o fato dos inúmeros acidentes e mortes muito comuns nesta profissão que se caracteriza, por um lado, pela invisibilidade social e, por outro, pela precariedade de condições.

Mas, apesar do filme mostrar o dia a dia da profissão de motoboy, esse não é o único tema e nem talvez o principal, pois, através da narração do protagonista, vemos uma série de destinos pessoais bastante interessantes e complexos que estão para além das entregas.

Mas, pela variedade de destinos que são narrados, entre uma entrega e outra, o espectador pode ficar com a impressão de que o tratamento dado a esses temas foi superficial.

No entanto, a meu ver, trata-se de uma coerência estética com o tema do filme. Afinal de contas, o motoboy está ali apenas para entregar de modo que o seu encontro com “o outro” se dá por pequenos instantes. Assim, o que ele vê dessas outras vidas (e o que nós vemos através do seu olhar) são apenas lampejos de uma história maior que ele não irá efetivamente tomar parte. E, nisso, possivelmente nossa sina se encontra com a dele.

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Leca Perrechil
 

Olá, Jean. Fiquei curiosa para saber que horas você assistiu ao filme, porque às vezes vou ao cinema em certos horários que tem apenas eu e mais dois na platéia. Abraços.

Leca Perrechil · São Paulo, SP 4/5/2007 20:44
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Juliaura
 

Assim ó:
A primeira vez que entrei na internet achei o máximo.
Tava eu toda besta com aquilo acontecendo.
Aí uma pessoa passou uma vassoura na sala.
Aí eu não consegui mais conectar.
Aí eu chamei a engenharia, os cabeção da rua, os helpidésquis.
Aí eu achei que era a máquina que tinha queimado.
Aí eu fui na parede e vi um fiozinho de cobre exposto pra fora.
Aí eu liguei o fio de novo.
Aí deu linha no telefone e eu voltei pro mundo.
A gente pode escolher se o centro da história é o fio, o aí ou quem assiste (nos dois sentidos).
Os esquentadores de cervejas e esfriadores de pizzas são trabalhadores, fios condutores, sem quisermos.

Juliaura · Porto Alegre, RS 5/5/2007 19:31
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Henderson Moret
 

Aqui fala o amigo que assistiu ao filme contigo...
Jean, parabéns pelo texto, muito bom...
Relances da vida alheia... adorei esta ponte!!!
abraço mano

Henderson Moret · Campinas, SP 10/5/2007 11:32
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