Os anos 80 e a música em Campo Grande
Tive meu primeiro contato com a música sul-mato-grossense assim que cheguei em Campo Grande no ano de 1980. Lá em Recife, onde morei de 1970 a 1979, tomei gosto pelo violão e aprendi a tocá-lo sozinho. Ao entrar na faculdade de arquitetura em 1975, vários grupos musicais embalavam as nossas festas – como a Banda de Pau e Corda, muito conhecida na época- ou o Aratanha Azul, Ave Sangria, dentre outros e no meio desse caldeirão musical nordestino, duas pessoas começam a se despontar no cenário local: Zé Rocha e Lenine, sim Lenine, esse hoje grande músico brasileiro.
Tocar com Lenine e Zé Rocha era sagrado, toda quinta-feira em Olinda no Cantinho da Sé e ai se juntavam Sérgio Lobo, Caca, Mário Lobo e tantos outros. Teve um dia que tinham mais de 10 violões e foi uma noite de grande e rara beleza musical. Em outra noite, Wagner Tiso, Ivan Lins ficavam com a gente depois de terem dado seus shows pela cidade. Tocar violão e conhecer música passou a ser, para mim, a maior das paixões nos anos 70 e 80 e com essa paixão carreguei na mala, junto com meu violão para Campo Grande quando aqui cheguei.
A pacata cidade, recém-transformada em capital de um novo e próspero estado, estava em ebulição musical, com diversos músicos chegando de todos os lados do país e alguns já despontavam. Os Espíndolas e o Grupo Acaba eram os mais conhecidos mas havia no Bar da Tia, sempre aos domingos a tarde, um encontro que reunia Zé Pretinho, Paulinho Simões, Almir Sater, Claúdio Prates, entre tantos e dele música até a noite ficar calma. Lá estava sempre ouvindo atentamente aqueles novos ritmos musicais, tipicamente regionais, levadas e batidas diferentes e a música Trem do Pantanal sempre arrancava aplausos de todos.
Em março de 1980, passei a freqüentar um local inusitado: a Panificadora Carícia, onde tocava Willian Portella em seu piano, o homem orquestra. Era sempre ao cair da tarde onde rolavam as polcas e com muito sucesso, a Mercedita. Poucas semanas depois o Reinaldo, que era sócio do Iram Sardinha na Matriz Propaganda, abriu o Café Socaite, uns poucos metros abaixo na Rua 13 de Maio e lá funcionava um local primoroso, com bar, café, lanches, etc e tudo quanto era equipamento musical e quem quisesse começava sua canja.
Todos os músicos, poetas, artistas e compositores baixavam por lá e eram noites de muita alegria e uma das mais vibrantes foi quando Almir Sater levou uma fita cassete com as músicas de seu primeiro disco. O Café Socaite me fazia sair de casa, na Cabreúva em noites de chuva e calor, frias ou normais, para me juntar aquele grupo de pessoas que passei a gozar da amizade de vários deles até os dias de hoje e com eles passei a admirar a música de Mato Grosso do Sul que considero, hoje, uma das cinco melhores do país. Aqui em Mato Grosso do Sul estamos produzindo o que há de melhor na música brasileira há anos.
Mas voltando ao Café Socaite, como tudo aqui que abre fecha muito rápido, com a novidade, veio o Bar Caras e Bocas, na esquina das ruas 15 de Novembro com a Rui Barbosa e esse novo ponto, trouxe a novidade da música ao vivo e do cinema, em pequenas apresentações, quase um Cine Clube.
Naquele bar, a cidade estava em ebulição cultural e musical e abrigava músicos que vinham dar shows na cidade, como Tim Maia, Fagner, dentre outros que me lembro que por lá passaram para dar uma palhinha. Isso era em 1980, quando a cidade ainda não tinha seu shopping center, apenas duas trasmissoras de TV – a Globo e o SBT, uma rádio FM, a Canarinho e ums 300 mil habitantes residentes mais um monte de gente chegando para trabalhar.
A música em Mato Grosso do Sul sempre me atraiu, pela sua qualidade e musicalidade. Seus músicos, com os destaques conhecidos, estão despontando em nivel nacional, pois a escola local é muito boa. Viva a música de Mato Grosso do Sul. Semana que vem volto.
A música de MS é de fato, de muita qualidade.
Arquiteto Ângelo Arruda · Campo Grande, MS 1/3/2007 15:15
Angelo,
Que tal umas linhas em branco entre parágrafos pra dar uma arejada na matéria?
Abraço!
Grande resgate, Angelo!!
Bela iniciativa!
Adorei o texto. Além de trazer preciosas informações é também um relato apaionado de alguém que viveu essa realidade. Parabéns!
Pedro Vianna · Belém, PA 5/3/2007 17:45
Pauta de música
Grande Angelo. Ótimo que você tenha rememorado todas essas coisas. Esta é uma grande pauta musical. Penso que muitos de nós deveríamos fazer anamnéses semelhantes, escrevê-las e publicá-la. Acabaríamos por criar um grande painel, talvez um mosaico, da música em Campo Grande na segunda metade do século XX. Um grande abraço.
Luca Maribondo
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