OS ARREPIOS DE FEBRE DA POETA

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Edevaldo Leal Costav · Ananindeua, PA
25/1/2015 · 2 · 0
 

OS ARREPIOS DE FEBRE DA POETA
Edevaldo Leal Costav
No primeiro dia, vem devagar. Desejo solitário, calafrio discreto. Depois, a cada três dias, arrepiando ossos. É a febre terçã. A boca arde. A palavra queima na memória dos dias. Acomoda-se nas entranhas. Nesse estado – e nesses dias – Vássia transfere certas incomodações para o seu “Febre Terçã” ” (1ª ed. Paraty, RJ: Selo Off Flip,2013, ilustração da autora). Bem que tenta esconder-se , fugir. Descobrir saídas. Encontrar uma brecha para desviar o curso da febre (“Eu queria fugir para a mata e descobrir/os buracos de onde brotam as águas”).Não consegue. Tem sede, sede da palavra silenciosa. Inquieta, princípio de aflição, cisco nos olhos , amedronta-se com sombras. Confessa: demônios a assustam. Os demônios das histórias de pequenos mundos que migram para seus poemas . Experimenta dormir. Desiste. Arrepios a confundem. Febre alta, o cérebro lateja. Não, “ não é o mundo quem está de cabeça para baixo”, afirma. Ensaia um grito. As palavras procuram desvios improváveis. Às vezes, para ter certeza de que está viva, estala o dedão do pé. Finge, então, ser tronco de árvore largado na correnteza. Ou pedra sem explicação de origem(“Sou uma pedra agora,[.....]/nem tampouco sei dizer de meu lugar de origem”). Experimenta dormir. Boca aberta, engole maresia e vento, restos de gozo escarrado. A palavra sem disfarces gesta prazeres e agonia. Juro: está tudo lá, no “Febre”, onde a autora se despe à meia- luz, para quem se aventura na leitura de seus versos.


No segundo dia, febre irrompe em calafrios que a atormentam. ”Tentativa inútil de esconder a submissão ”, senta-se na “cadeira do canto da sala ” e pressente, na “luz tíbia, o roçar suave de mãos”. Quando “o vento rompe a janela/ estilhaçando antigos suspiros/guardados em armadura de bronze”, a poeta, tempestade em fúria, voa para abismos. É lá, no caos, nesse abismo pessoal e solitário, que ecoam os sons da vida em ebulição e onde ela ouve “o assobio do espanto”. Murmúrios de ondas e cheiros de maresia se misturam na memória. Um anjo vem em seu socorro ( sempre tem um anjo por perto, ainda bem). Restaurada de súbita transformação, retorna em silêncio à superfície do mundo. Para observar as cores. O vento. Os crepúsculos. As nuvens escuras. As reticências da vida. Tão bem guardados, segredos acabam visíveis, na curva de seus versos . Para chegar perto deles e vê-la “rodopiar nas intempéries”, é preciso ler seus poemas. Melancólica, desassossegada, furiosa, terna e sutil, para compreender as vibrações mais íntimas, o sentido oculto desse canto é preciso prestar atenção na febril inflexão de sua voz. Ainda assim, Vássia conhece bem as cartas. Finge medos. Inventa. Morde e beija. Surpreende.


No terceiro dia, em silêncio se debate, se arrasta. Esforça-se mas não consegue espantar fantasmas: a dor, a nostalgia, a gargalhada perdida. Labaredas de medo queimam-lhe as entranhas. Sobressaltada, não se recorda de cheiros. E descobre que “... o silêncio/ – não aquele das palavras caladas,/mas o da existência das coisas –/foi o que restou”.


Vássia Silveira traduz, com olhar tenso e preciso, os arrepios de sua febre. Sem aridez, ou pedantismo, a palavra navega em movimento perfeito na harmonia do poema.


Inquieta, ousada, a autora se entrega liberta dos excessos da aventura poética, longe de acentos enfadonhos na escrita. Suporta as convulsões do verbo. Evita os falsetes da linguagem. E, como propunha Pound,desvia-se dos sacolejos bruscos na linha do poema. Neste seu “Febre Terçã” , “[...]um poema arranhando os pelos finos da mão”, ”[...] há uma melancolia/ respirando/nas palavras./E no coração,/um sobressalto/em notas de saudade/uma fúria adormecida/nas entrelinhas /dos verbos – dor ancestral/que acalanta o susto/da flor aberta no jardim”.

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CINCO POEMAS DE VÁSSIA SILVEIRA

PERGUNTAS
Tu me perguntas, e eu digo sim.
Não precisas gritar às flores
nem acordar a vizinhança
pois é na tua quietude
que repousam meus sonhos.
Deixemos, portanto, que esse orvalho
molhe em silêncio as nossas peles e
que o frescor da aurora embale as almas

(não precisamos mais que isso).
Tu me perguntas, e eu digo sim:
minha casa é tua,
na medida em que entras devagarinho.

NUDEZ
Despi-me das roupas sujas
e arranquei da pele as nódoas
– Sim, podes brincar em meus
campos: voltei a ser menina.

A FOME
A fome calou o cão que lambe
o rastro de vômito e a última
gota de bile, enquanto acendo
o trigésimo cigarro e deixo
queimá-lo entre os dedos.
Ao redor, os pedaços da xícara,
do relógio, do porta-retratos que
guardava tua fotografia – agora
manchada pelo café frio e amargo.
Na vitrola e na tela do computador,
o silêncio imprime a nostalgia de outrora:
Um barco sem destino singra as poças.

NESSA INSIGNIFICÂNCIA
Nessa insignificância
– Que é a vida–,
Restou-me o chicote
Das palavras.
E elas me ferem
me rasgam
me cortam e
me cospem a cara
antes de me largarem,
vazia, no chão.

O CAÇADOR

Teus olhos espreitam
o salto incerto
da presa – que escapa.
Mas a noite é sempre
promessa.
E as mãos preparam
nova armadilha:
Não há fome
nem fúria,
só desejo.
E a presa calada,
quieta:
tudo em um dia
é espera.

Vássia Silveira é jornalista, contista e cronista. Nasceu em Belém (PA). Cresceu no Acre e no Amapá . Vive em Florianópolis(SC).
Para pedidos do livro, entre em contato com a autora - vassia@uol.com.br).

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