Os Campuseiros estão chegando

astangl
Campus ciber floridos
1
andre stangl · Salvador, BA
9/2/2010 · 44 · 3
 

Preâmbulo
Os Alquimistas (hackers, geeks, nerds) estão chegando. Estão chegando os Alquimistas (idem). Oh! Oh! Oh! Oh! (ooooooooooOOOOOOoooo). Eles são discretos e silenciosos (esses nem tanto...). Moram bem longe dos homens (ou no quarto, bem longe dos pais...). Escolhem com carinho a hora e o tempo do seu precioso trabalho (as madrugadas...). São pacientes, assíduos e perseverantes (já tentou programar?). Executam, segundo as regras herméticas, desde a trituração, a fixação, a destilação e a coagulação (ripar, taguiar, remixar e distribuir). Trazem consigo cadinhos, vasos de vidro, potes de louça, todos bem iluminados (laps, PCs, celulares, etc.). Evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido (ou pelo menos evitavam...).*

A Jornada
Uma Campus Party é como uma jornada iniciática, um rito de passagem, ou uma odisséia. Como os heróis nos games, múltiplos são os desafios para quem se joga nesse mar de informações, relações, palestras, atividades e diversões. É interessante olhar a história da CP para entender como esse caos se organiza. (Admito que é difícil perceber as nuances e a riqueza do evento, em meio ao tsunami, sem saber onde fixar o olhar. Foi interessante deixar passar alguns dias para digerir e refletir). Em uma entrevista Paco Ragageles, conta como a ideia nasceu, em 1996, remixando o conceito de LAN-Party. Segundo ele: “As LAN Parties da época duravam três dias, eram específicas sobre uma área da tecnologia. Eram meras reuniões, sem muitas opções educativas. Nós mudamos radicalmente o formato. Passamos a uma semana, introduzimos muitos conteúdos diferentes como robótica ou astronomia, e baseamos o evento no aprendizado”. Hoje esse perfil se desenvolveu, ganhando características novas, pois, com a internacionalização do evento, novas tonalidades foram sendo acrescentadas de acordo com o país onde o evento é realizado.
Atualmente a CP acontece na Espanha, no México, na Colômbia e no Brasil. A vinda para o Brasil partiu de um convite da Telefônica, que é um parceiro estratégico e o principal financiador do evento. Essa é, por sinal, uma das características mais interessantes da CP: a disposição para o diálogo entre setores diversos, como empresas, usuários, ativistas, desenvolvedores e governo. Em uma coletiva de imprensa, que por sinal está disponível on-line, Marcelo Branco, um dos responsáveis pela organização do evento no Brasil, apresentou a proposta do 3º CP no Brasil. É significativo que um evento complexo como a CP deixe on-line praticamente tudo o que acontece, absorvendo também a produção dos campuseiros. Tudo pode ser acessado através do uso da tag #cpartybr no twitter, youtube, flickr, blogs, etc. Fica patente a dificuldade da grande mídia frente a um evento que subverte a sua exclusividade. Ela não tem nem a velocidade, nem a liberdade, às vezes nem o interesse ou, quem sabe, nem a capacidade de retratar de forma satisfatória a diversidade de possibilidades interpretativas de um evento como a CP.
Mais de 500 horas de atividades - entre palestras, workshops, debates, oficinas, concursos, etc. - divididas em quatro áreas temáticas (ciência, entretenimento digital, criatividade e inovação). Com a novidade de abrir um espaço específico para debates estratégicos no Campus Forum, onde se discutiu Plano Nacional de Banda Larga, Marco Civil de direitos na Internet, Reforma do direito autoral e Direitos Humanos na Internet. Essa, inclusive, é uma grande sacada da CP: entender que o fenômeno das redes digitais não tem só o aspecto instrumental e técnico, pois também é a revolução das práticas sociais e políticas. Não é um acaso Sergio Amadeu ser o responsável pela articulação dos debates e conteúdos.
Confesso que, acostumado com a apatia da maioria dos eventos acadêmicos de cultura digital, estranhei o caos da CP, quase sentindo saudades das salinhas onde doutores e pesquisadores digladiam seus egos. Mas a ficha (me permitam a analogia analógica) caiu: na CP não estamos separados do objeto. No centro da CP estão os campuseiros e suas práticas e, na periferia, os especialistas e teóricos. É uma inversão histórica, o objetivo é estimular a troca de uma forma mais lúdica e relaxada. É possível transitar de um debate a outro, sentar numa bancada, baixar um filme, trocar uma ideia com o vizinho, assistir um streaming de um debate que está acontecendo a poucos metros, tuitar, ler tuites, participar de uma flashmob, assinar uma petição importantíssima, assinar uma petição legal (por que tinha uma galera legal convidando), sair correndo para ganhar um pendrive, xavecar, xavecar e baixar um outro filme (dessa vez um pouco mais sórdido...).

Navegações
A CP tem um clima de acampamento de férias. No orkut, na comunidade oficial da CP, o tópico mais ativo é justamente “Se encontrar la na CP 2010 rola de ficar?”, com 2192 posts. É, parece que as trocas analógicas ainda têm seu lugar... A cultura digital é essencialmente juvenil, rejuvenescedora e sexual. Todo gadget tem um sex-appeal, já dizia Mario Perniola (a relação entre hormônios e bytes ainda está para ser estudada). Na CP, chamam a atenção as recriações analógicas de fenômenos da rede: as ondas de ooooooOOOO (seria uma alusão às ondas na rede, como as correntes, o google wave, os trending topics, etc.?), a flashmob do Pacman, os trenzinhos de seguidores (trem-uiter...?!), o game das cadeiras, um desafio de dança (uma DDR?). As meninas, por sinal, são as grandes estrelas da CP, como se pode ver no vídeo da dança, e a participação delas, cerca de 25%, tende a crescer nas próximas edições. Na CP, até Geyse seria aclamada.
Passeando pelas bancadas, tive a impressão de que um dos baratos da CP é que lá vc pode levar seu quarto para passear com os amigos. Temos a tendência a pensar na CP como uma grande Lan-house, mas, além do caráter educativo de algumas atividades, outra grande diferença é o fato de cada um poder levar a sua máquina, com todas as personalizações de hardware e software imagináveis. Por isso, sem dúvida, um dos pontos altos da festa é o compartilhamento de arquivos, via rede interna (DC++). Nessa rede, podemos passear pelos hds dos campuseiros. São coleções completas de seriados, filmes diversos (impressiona a quantidade de pornôs), games, softwares e até alguns mp3s...

EncruZilhadas
Um evento como a CP é tudo, menos inocente. Seria um equívoco desconsiderar o viés politico e mercadológico do evento. Um indicativo da importância política da CP é que esse ano até algumas presidenciáveis passearam por lá. Alguns temas debatidos, por si só, já denunciam um diferencial fundamental entre a CP e as tradicionais feiras de tecnologia. Mas o hibridismo conceitual da CP borra as suas fronteiras e confunde o nosso olhar. O que às vezes pode inspirar desconfianças, afinal, o que levaria uma empresa de consultoria como a espanhola Futura Networks a arregimentar 54 patrocinadores e um total de mais de 7 milhões de investimentos diretos e 5 milhões indiretos (tendo como parceiros principais a Telefônica, a prefeitura e o governo de SP e MinC), sem, segundo eles, visar lucro direto, uma vez que os investimentos são aplicados na infra-estrutura?
Uma hipótese parece óbvia: a CP é um maravilhoso laboratório com 6.000 usuários de TI com suas máquinas e práticas digitais ali, na nossa frente, para empresas e pesquisadores observarem. Mas como a Futura transforma isso em ouro? Imagine o banco de dados precioso que esses 6.000 campuseiros cadastrados podem gerar... Eles mesmos assumem que são uma empresa com a expertise de aproximar as empresas dos usuários de TI. E não há nada de condenável nisso, é a mesma lógica de sustentabilidade da rede, que nos oferece diversos serviços free, mas lucra indiretamente, com publicidade, consultoria, suporte, ou venda de serviços premium.
O pulo do gato dos organizadores da CP é conseguir mobilizar a atenção da sociedade e linkar isso tudo com algumas das mais nobres bandeiras da cultura digital. Um fruto recente, logo após a CP, foram as conversas com Lula sobre o plano nacional de Banda Larga. Que, Oxalá, vingue e sobreviva aos ataques da mídia agonizante.

Campuseiros do mundo, uni-vos!

PS: Algumas modestas sugestões: 1º- no sentido do amadurecimento político da CP, que tal divulgar o balanço financeiro do evento? 2º – aproveitando a visita de Lessig, q tal repensar o licenciamento do conteúdo q está no site da CP? 3º – já pensaram em fazer a CP simultaneamente em vários países com diversas atividades e xavecos via rede?

* Letra e música by Jorge Ben

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Viktor Chagas
 

Excelente texto, André! ((E as fotos, realmente, são do jardim de Pandora!))

Eu particularmente acho que a Campus Party devia de ter uma cara mais "Cow Parade", com a possibilidade de que esbarrássemos numa cibervaquinha ultra-tecnologica-e-customizada em cada esquina durante uns seis meses. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 9/2/2010 17:14
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Bia Redko
 

Amei o texto, André!
Diz muito de você.
Beijo
Bia

Bia Redko · São Paulo, SP 10/2/2010 22:15
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Oona Castro
 

muito bom! o texto respondeu algumas das perguntas que me vinha me fazendo...

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 11/2/2010 12:13
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