A "Carta Aberta" transcrita abaixo, embora datada de cerca de um ano e três meses atrás (agosto de 2006), é auto-esplicativa e mantém toda a sua atualidade até acrescida, eu diria, visto que, depois dela, os Congos de Oeiras já se apresentaram mais duas vezes (42ª/2006 e na 43ª/2007 versões) naquele Festival de Folclore de Olímpia sendo que aquilo que eu chamei, naquela oportunidade, de "Efeito Olímpia" se confirmou e consolidou de forma bastante acentuada.
Ao comemorar 60 anos de vida, no último dia 1º de novembro, os "Congos de Oeiras" enquanto grupo, deliberou prestar uma homenagem a mim, comparecendo em peso ao meu aniversário e me dando de presente um delicado bonequinho vestido a caráter e representando os conguinhos, isto é, a nova geração de Congos de Oeiras (criança de 5 a 8 anos) que está sendo preparada no Rosário, fato que estou relatando em outro postado meu que se encontra em edição em uma espécie de prestação de contas do que ocorreu no meu aniversário. Acho desnecessário dizer que fiquei emocionado.
Carta Aberta aos organizadores dos Festivais de Folclore de Olímpia-SP
Com cópia para o grupo folclórico “Congos de Oeiras”
“Em Olímpia nos sentimos como se todo mundo já nos conhecesse há muito tempo”
ass: Os Congos de Oeiras
Queridos Amigos:
Meu nome é Joca Oeiras. Sou amigo do Vivaldo Mendes, pessoa que, acredito, dispensa maiores apresentações. Foi por minha indicação, quando ainda residia em São Paulo, que o grupo folclórico “Congos de Oeiras” recebeu um convite para participar, no ano passado, do 41º Festival Nacional de Folclore de Olímpia, capital brasileira do folclore. Por esta indicação que tive a felicidade de poder fazer, sinto um certo orgulho pela responsabilidade ou, como queiram, uma responsabilidade da qual posso me orgulhar.
Por isto são várias as minhas intenções ao dar este depoimento. Em primeiro lugar, quero, com ele, ajudar os amigos realizadores dos Festivais de Olímpia a terem uma mais exata dimensão da importância social e humana do trabalho que realizam. Aos Congos, dizer da minha satisfação pelo altíssimo astral vivido, neste momento, pelo grupo e buscar contribuir para ajudá-los a compreenderem como e por que se deu este processo para que possam usufruir ao máximo deste momento. E quem me conhece, sabe o meu empenho e minha luta pela elevação da auto-estima do povo do Piauí: por isto o objetivo central deste depoimento é mostrar a todos, mas principalmente aos piauienses, através do exemplo dos Congos, que é possível ir-se de encontro à auto-estima e o quanto ela poder modificar um grupo de pessoas no sentido da superação de si mesmas.
MEU DEPOIMENTO
Residindo atualmente em Oeiras-Pi, acompanhei, no último domingo, dia 23 os “Congos de Oeiras” na viagem que fizeram a Teresina para se apresentarem no Teatro-Escola João Paulo II, a convite do jovem e dinâmico diretor daquele teatro, o bailarino e coreógrafo Marcelo Evelin.
Às oito e meia daquele domingo, tão ensolarado quanto hoje, acordei sonado e de ressaca. Tinha estado, até altas horas da madrugada, participando da noite de estréia do 3° Zooeira Festival: o rock no berço do Piauí ...e ponham participação nisto! Como tenho só 58 anos...
Esta minha “pouca” idade, que me “permitiu” viver a fase mais negra da ditadura militar fez com que, irremediavelmente, eu acredite em horários marcados enquanto todo mundo já sabe, faz tempo, que Papai Noel não existe.Por isto, às dez horas em pontinho eu estava chegando no Largo do Rosário, local indicado para o embarque no ônibus que nos levaria a Teresina.
Como já devem ter imaginado, às dez horas da manhã daquele domingo ensolarado não havia ali nem Congos nem ônibus. Apenas no bar defronte à Praça algumas pessoas tomando cerveja e jogando conversa fora. Sem ter comido nada, cai na asneira de confraternizar e como quase não bebo cerveja, lá se foi um Montila que aqui no Piauí é bebida bastante popular.
Tão logo soube que os “Conguinhos” estavam ensaiando ali perto, na sede do Ponto de Cultura “Quilombo do Rosário” me dirigi para lá. Os meninos, cerca de oito, com idades que variam de cinco a nove anos, ensaiando há menos de dois meses, já sabem de cor todas as letras de louvor aos santos e ensaiam, com dedicação, os passos da dança. Muito legal!
Mas o que realmente me emocionou foi o muito jovem professor, que em dupla com outra moça, orientava os passos dos meninos. Só lastimo não saber o nome dele, mas os leitores terão que se acostumar com estas minhas falhas: o fato é que este jovem, ex-integrante dos Congos, na queda de uma moto – um perigo danado!– como dizia, com razão, a minha mãe, fraturou, de forma irreparável, uma das pernas, sem chances de voltar a apresentar-se com o grupo. Os futuros congos ganharam um professor dedicado que, assim, encontrou um jeito de continuar contribuindo. Como disse, repito: fiquei emocionado.
Por volta do meio dia, eu já como estômago nas costas, o nosso transporte finalmente partiu.
Não vou contar como foi a viagem, apenas dizer que sentei na poltrona e dormi até a única parada, em Valença do Piauí, e que os meus companheiros de viagem devem ter-se entre divertido e incomodado com os meus altos roncos.
Quando o ônibus parou defronte ao Teatro, às cinco e meia da tarde, o Diretor Marcelo Evelin já aguardava, de pé, na calçada. Demonstrava preocupação com o horário pois, como ficamos sabendo, havia programado um work shop envolvendo a delegação dos Congos, alunos do teatro e alguns convidados, inclusive duas loiras holandesas que nem uma palavra de português falavam.
Fomos encaminhados ao palco onde nos sentamos todos: os Congos e seu agregado (o escriba que vos fala), o anfitrião Marcelo e os demais convidados.
A conversa que se seguiu, com o auxílio de dois microfones sem fio, foi, para mim a confirmação cabal do que eu já intuía: Os Congos de Oeiras, entendidos enquanto um grupo social inserido na sociedade oeirense e brasileira, vivem um período de grande valorização social, o que se reflete de maneira altamente positiva inclusive nas apresentações do grupo folclórico propriamente dito.
AUTO ESTIMA EM ALTA
As provas e indícios que fortaleciam aquela intuição eu vinha recebendo a cada nova visita das que venho fazendo, no último mês, ao Rosário. A última, ainda fresca em minha memória, tinha sido a visão do ensaio, pela manhã, dos conguinhos e de seu dedicado professor. A primeira não proveio de uma visita, mas de uma mancada: eu havia prometido a um deles que iria participar de uma de suas reuniões que ocorrem às terças feiras e não fui, fiquei dormindo, na verdade, e “esqueci de me lembrar” como dizia uma empregada doméstica que trabalhou um tempo na casa da minha mãe. Nos dias seguintes, em horários dias e locais diferentes, tive cobrada a minha ausência por três diferentes integrantes do grupo, nenhum deles a pessoa com quem havia me comprometido. Pude perceber, então, que a minha ausência havia sido colocada em pauta e o quanto era séria e importante para eles a reunião das terças-feiras.
Chamo a atenção dos leitores menos avisados que estamos falando de um grupo folclórico totalmente amador, não de uma banda de Forró destas que estão animando o Forró Folia neste fim de semana, e de mês, aqui em Oeiras. Minha amiga Manuela me falou que uma banda destas chega a cobrar R$ 50 mil por uma apresentação. Mas eu posso garantir que muito poucos integrantes destas bandas milionárias se levam tão a sério como os Congos de Oeiras que, para viajarem, precisam apelar para a prefeitura e ainda passar um livro de ouro para arrecadar fundos junto ao comércio local.
Mas houve também o espetáculo, para mim empolgante, que foi a eleição da primeira diretoria da entidade. Se as eleições oficiais fossem realizadas com tamanho espírito cívico o Brasil certamente seria outro país. Uma pena que eu tenha sido a única testemunha além dos eleitores...
O “EFEITO OLÍMPIA”
Todos os acontecimentos acima relatados ocorreram há menos de um mês. Mesmo a “Escola dos Conguinhos” não tem dois meses de funcionamento. E foi neste mesmo período que ficou definitivamente confirmada a nova viagem dos Congos para participarem do 42º Festival de Folclore de Olímpia. Estou convencido de que não se trata de uma coincidência: para mim os Congos de Oeiras estão vivenciando, talvez inspirados pelos Deuses do Olimpo o que, por falta de outro nome, resolvi chamar de “Efeito Olímpia”.
“Para nós, que estávamos na platéia, foi demais emocionante. Chorei, aliás, choramos por que eles estavam ali, e nós, em nossos corações, com eles, fazendo o belíssimo espetáculo naquele enorme palco para onde convergia toda a atenção da enorme platéia que não parava de aplaudir. Se não tivesse estado lá, acho que não acreditaria! Isso passou para nós mulheres uma energia, uma alegria tão grande que resolvemos fazer uma festa surpresa, em homenagem a eles, no dia dos pais. Eles, que tinham representado tão bem Oeiras e o Piauí em São Paulo bem que mereciam. Enquanto preparávamos a festa eu, a Meire, a Branca e a Maria Eulália, minha prima Maria de Deus, que mora em Osasco e veio a Olímpia especialmente para vê-los dançar. saiu com eles para que pudéssemos melhor preparar a surpresa. Quando viram o que tínhamos feito todos choraram, de tão emocionados. Foram lindos aqueles momentos!”
(Depoimento de Maria das Graças Mendes da Costa ( a Gá) durante o workshop ocorrido no Teatro João Paulo II no dia 23 de julho de 2006).
Como este, eu poderia me dispor a colher dezenas de outros depoimentos dos participantes da primeira incursão de um grupo folclórico do Piauí nos Festivais de Folclore de Olímpia. Talvez não fossem tão emocionantes, nem tão ricos em detalhes quanto este, mas todos seriam marcados pelo mesmo entusiasmo, contagiante eu diria, em relação às recordações da viagem à Capital do Folclore Brasileiro.
Como disse no início, um dos objetivos desta carta era mostrar a importância do trabalho de vocês promotores, organizando, ano após ano, estes Festivais, já se vão mais de quatro décadas. Espero que ele tenha sido atingido. Tenho certeza, por outro lado, que este artigo ajuda os Congos no trabalho contínuo de auto-avaliação e superação dos problemas que sempre existirão, principalmente para quem deseja fazer cultura neste país. Quanto ao objetivo maior, o de mostrar, com o exemplo dos Congos, o caminho da auto-estima para os piauienses, acho que isto só o tempo dirá!
Beijos e abraços
Do Joca Oeiras, o anjo andarilho.
Queridos amigos:
Eu havia postado uma outra contribuição dando conta do que se passou no meu aniversário, mas uma conversa franca de um amigo overmano me convenceu de que o meu postado estava fora de lugar, de forma que ele foi descartado do site com a minha inteira concordância. Acontece que, nesta contribuição sobre os Congos de Oeiras que julgo, esta sim, ter tudo a ver com o Overblog, criei um link com aquela colaboração já ejetada onde havia referências a uma homenagem prestada a mim pelos Congos de Oeiras e como, ao que me consta, não há comentários fora de lugar (não diria felizmente) no overmundo, vou dar contas rapidamente a vcs de como se desenrolou o meu aniversário mormente no que tange o ambiente – o Restaurante da Gracinha, no bairro do Rosário, é um ambiente pra lá de especial "Aberto 24 horas mesmo quando está fechado" onde é servida a melhor comida típica de Oeiras – como no que tange a singela e empolgante homenagem que recebi do grupo, o boneco "Conguinho" que se pode ver sobre o meu bolo de aniversário (foto nº3) e na montagem que fiz da "dança dos Congos (foto nº 1). Quero também convidar todos para verem as fotos tiradas naquele evento, para mim, inesquecível.
beijos e abraços,
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Sobre a Gracinha vou preparar, proximamente, uma colaboração a ser postada no Guia. Aguardem!
Joca,
Desconhecia sua luta pelo desenvolvimento de um povo através do resgate de sua História, da valorização de sua identidade cultural e de sua alto (auto) estima (porque você faz isso quando se pré-dispõe a participar e divulgar. Parabéns meu caro, você está entre aqueles que realmente merecem os parabéns do povo brasileiro...
Vi as fotos e notei que algumas legendas se referem em Osasco. Sou natural de Osasco, coincidência boba...
Obs.: fiquei grandemente interessado em saber os detalhes de sua festa de aniversário. Vou ser sincero, não é pelos aspectos culturais do lugar, mas sim para saber como é um pouco do universo ao teu redor, o que você cria e em meio a que vive. Aliás, você está se tornando uma figura deverás interessante. Ops, melhor tirar o deverás senão você vai começar com aquele papo de que não gosta de elogios. rsrsrs
Abraço Guaicuru!!!
Joca, admiro esse trabalho, é o que tento fazer por aqui. Meu grupo chama-se Grupo de Folclore Serra da Mesa. Só quem participa mesmo de perto para sentir a emoçao desse povo quando é reconhecido.
Valeu a postagem e continue mostrando mais detalhes de Oeiras.
bjs
sinvaline
Muito bom mesmo.
É uma maneira de mantermos viva nossa cultura.
Joca, meu querido anjo andarilho,
não me estranha seu engajamento na preservação da cultura brasileira, em especial a do Piauí e, ainda mais específicamente, a de Oeiras, primeira capital brasileira e terra que você adotou, ao que parece. É emocionante ver a maneira intensa com que você se dispõe a construir com a população local alternativas para a auto-afirmação da cultura regional. Pelo que vi e li, o Congo de Oeiras - a exemplo de inúmeras outras manfestações congêneres Brasil adentro - sobrevive com dificuldades e, por isso, depende sobremaneira de pessoas como você. O Brasil agradece e os Congos de Oeiras reconheceram com justiça sua luta, congraçando-se com você nos seus ainda joviais 60 anos. De minha parte, resta-me aplaudi-lo aqui d'alhures e torcer para que continue por pelo menos outros 60 anos defendendo a cultura popular brasileira, especialmente do nossso charmoso Piauí. Seu depoimento é emocionante. Parabéns.
Um abraço
Grupos culturais amadores muitas vezes não têm nada a dever em relação a profissionais. Sobretudo em força de vontade.
Se houver algum vídeo no youtube ou em outro site com alguma amostra da apresentação do grupo, pode valer a pena postar nos comentários para termos uma idéia do trabalho. Abraço
Querida Helena
Quem possui o registro fonográfico dos "Congos de Oeiras", e isso muito antes de existir o overmundo é o Hermano Vianna.Pergunte a ele senãopé verdade.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
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