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Os guerreiros da Bela Vista

Tetê Oliveira
Sangue Rasta em ação
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Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ
14/9/2007 · 172 · 3
 

Sai uma mesa de sinuca, entra uma parafernália musical. O “puxadinho” tem cerca de nove metros quadrados. Apenas uma parede, “emprestada” do imóvel vizinho, e estacas de madeira, que servem de apoio para a cobertura de telhas de amianto. O piso é de cimento e ainda tem um pedacinho de terra batida, que, provisoriamente, fica escondido sob um tapete nem tão novo. No dia-a-dia, um desenho de São Jorge, quase um esboço de uma obra por terminar, reina absoluto na parede. Em noites especialíssimas de sábado, um banner-tributo a Bob Marley e às bandas de reggae da região ocupa um lugar de destaque, de frente para a platéia vip. Assim, o puxadinho na Rua Bela Vista, no bairro Areia Branca, em Belford Roxo, toma ares de palco. E, ali, a banda anfitriã Sangue Rasta comanda a festa e recebe os amigos para um show coletivo, os “Ensaios de Rua”.

Fui parar na Bela Vista no dia 1º de setembro. Era a terceira edição do projeto, em sua nova fase. Soube dos Ensaios após entrar em contato com a Secretaria de Cultura de Belford Roxo e também ao visitar a Casa de Cultura da cidade. Lá trabalha o Vicente Freire, que atua como relações públicas informal da Sangue Rasta e do projeto. E que, pelo que observei nos Ensaios, conhece quase todo mundo no meio cultural da Baixada Fluminense.

Combinei com o Vicente e o Jô Mathias – coordenador do projeto, tecladista da Sangue Rasta, regueiro da primeira geração belforroxense, animador cultural e, não por coincidência, morador do número 301 da Bela Vista, em frente ao palco e a uma amendoeira enorme e maravilhosa – de chegar antes do início da festa, prevista para começar às 17h, para conversarmos.

A Bela Vista é uma rua grande. Não sei precisar o quão. Mas eu caminhei uns 500 metros até chegar ao número 301 (e ainda tinha muito chão pela frente!). É como quase toda rua de bairro residencial no subúrbio: uma fileira de casas, alguns estabelecimentos comerciais pequenos e informais – biroscas, mercearias etc. -, uma ou outra igreja. E parece começar numa linha de trem, que divide os municípios de Belford Roxo e Nova Iguaçu.

À primeira vista, não percebi nenhum movimento diferente. Tanto que passei batida pelo endereço. Liguei para o Mathias, conferi o número e dei meia volta. O pessoal estava começando a transformar o puxadinho num palco e os equipamentos de som eram carregados do estúdio do Mathias – ainda em construção e no emboço, sem revestimento acústico algum, nos fundos do terreno de sua casa - para o palco. Ainda cheguei a tempo de ver a mesa de sinuca ser despejada do lugar.

No estúdio, sentada numa caixa de som antiga, fui apresentada à história dos Ensaios e da Sangue Rasta. O projeto começou em 1998. Quem estava à frente da organização já era o Mathias, ex-banda Negrotú. Belford Roxo tem tradição no reggae no país. Nos anos 90, lá surgiram inúmeras bandas, como a Cidade Negra . A Bela Vista serviu de palco para a 5 Kilates, Belmontan, Rebú, Nocaute, Reggaetot, O Beco, Guetos da Cidade, Belford, Cabeça de Nego, Raiz do Gueto e muitas outras. O projeto cresceu tanto que se tornou inviável para a galera organizá-lo sem patrocínio. E aí os Ensaios não continuaram. A retomada aconteceu em 21 julho passado. Mas devagarzinho. Numa ação cultural entre amigos. E com divulgação através da comunidade do projeto no Orkut, de e-mails disparados pelo Vicente pra sua mailing list poderosa e de muito boca-a-boca, além, é claro, do Overmundo.

A Sangue Rasta nasceu em 2005 e reuniu um grupo de amigos e vizinhos do bairro Piam, perto de Areia Branca. A maioria ainda dividia seu tempo entre as brincadeiras de rua e a escola em 1991, ano em que Jimmy Cliff aportou em Belford Roxo para conhecer, e dar mais gás, à efervescência regueira na cidade. Dessa formação original da banda, ficaram Juninho (voz), Rafael Iguatemy (guitarra), Heliton Sun (percussão), Nalton Ferreira (bateria) e Kim Esgramozino (guitarra). Mathias e Tácio Farias – que manda ver no contrabaixo, e é irmão do Bino (Cidade Negra) e do Lauro (Rappa) – juntaram-se a essa turma em dezembro de 2006 e em abril passado, respectivamente.

Daí, surgiu a idéia de resgatar os Ensaios, em edições quinzenais. Para mostrar o trabalho da Sangue Rasta e de outras bandas. Para trocar energia com a galera. Para criar um espaço cultural no bairro. Para festejar a música – e outras formas de cultura. “O projeto tem como âncora a música, mas não é só o reggae, não. É só a galera chegar com os instrumentos, que o espaço tá garantido. A gente também quer fazer shows interativos com poesia, dança etc.”, disse Vicente.

No dia 1º de setembro, a festa começou às 18h15. A galera foi chegando meio devagar. Meio na dúvida se o projeto ia rolar ou não. Afinal, duas semanas antes o projeto fora cancelado em cima da hora, porque um dos integrantes da Sangue Rasta estava doente. Quem abriu o show foi a banda Zero Grau. No início, a platéia se resumia aos moradores de casas vizinhas, e músicos de diferentes grupos. Cerca de meia hora depois, o reggae deu lugar ao rock. Pipo, vocalista da Pânico no Útero, assumiu o microfone. – a banda não estava lá, mas, com a ajuda de um baterista amigo, ele deu uma palinha para a galera.

O show rolava e o clima naquele pedaço da Bela Vista – uns 50 metros - era de confraternização entre vizinhos e amigos. Nas proximidades do palco, crianças e adolescentes circulavam pelo meio da rua de velotrol e bicicletas. Uma senhora saiu de casa com uma bacia cheia de pipoca, ainda quentinha, e distribuiu pros filhos e amigos. Jovens comiam cachorro-quente sentados no meio-fio. Nas mesinhas e cadeiras do bar-mercearia São Jorge (mais conhecido como Bar da Amendoeira), a que pertence o puxadinho/palco, a galera assistia ao show, regado com muita cerveja gelada. Do outro lado, os salgadinhos e bebidas à venda numa tendinha (ou uma birosca) também faziam as vezes de couvert. No restante da rua, a vida parecia seguir seu ritmo normal, inclusive numa igreja evangélica pertinho dali (onde o culto teve de ser feito a portas fechadas, por causa do som dos Ensaios). Ninguém apareceu para reclamar do “barulho”.

Na seqüência da festa, os anfitriões subiram ao palco. Mais cedo eu perguntara a Mathias, Juninho, Rafael e Heliton qual o tipo de som da Sangue Rasta. “É bem eclético. Reggae roots... rock com afoxé, percussão, maracatu, bossa nova”, responderam. Pelo que vi nos Ensaios, essa mistura dá certo.

Vicente me apresentou ao pessoal que ia chegando - e ajudou a divulgar o Overmundo. Nomes como Roger Hitz, da banda Caô de Raiz; Carolina Matielo, produtora cultural; Carlos Guena e Maninho, da banda Shakra; Eduardo Rasta, da Casa de Aniê, uma ONG que promove oficinas culturais, e Dida Nascimento, um dos precursores do reggae em Belford Roxo. “A história do reggae em Belford Roxo começou com o Dida”, falou Vicente.

Os Ensaios não têm uma ordem rígida para apresentação dos shows. Se uma banda tem show agendado em outro lugar, por exemplo, sobe primeiro ao palco. Se chega um artista para prestigiar o evento, é logo convidado a fazer uma performance. Foi assim com o Renato Bigulí, do Monobloco e Cabeça de Nego. Ele chegou e não se fez de rogado. De quebra, ainda convocou o Dida Nascimento, que acabara de chegar na festa. Um dueto e tanto!

Naquela noite, ainda teve o som das bandas Derek e Caramujos, mas não pude ficar pra ver. Na descida da rua, quase vazia a uns 200m do palco, fui abordada por um rapaz: "Oi, lembra de mim?" Não, eu não lembrava. Era um rapaz que eu conhecera no dia em que fui de trem da Central do Brasil (centro do Rio) a Japeri (Baixada Fluminense) ? para percorrer o ramal ferroviário mais famoso do Estado do Rio (essa aventura eu conto outro dia!). Ele mora numa rua perpendicular à Bela Vista. ?Conheço essa galera toda. O Bino, do Rappa, tá sempre por aqui. E, ali na frente, mora um pessoal do grupo de pagode 100%, sabe qual é??, emendou. Conversamos um pouco mais antes de nos despedir. Antes de dobrar na esquina, olhei pra trás e vi a amendoeira. Mas já não ouvi mais o som do ?reggae gostoso, com letra e crítica? do Sangue Rasta, como definiu Waldomiro Freitas, o dono do bar São Jorge. A Rua Bela Vista tem um pessoal guerreiro mesmo!

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FILIPE MAMEDE
 

Excelente iniciativa essa de resgatar os Ensaios... Realmente, Belford Roxo, assim como São Luís do Maranhão, devem ser condiderar verdadeiros celeiros do reggae não é mesmo?
"Reggae Roots..."
Um abraço Tetê.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/9/2007 10:04
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Helena Aragão
 

Coisa mais importante é esse tipo de sarau informal, não é mesmo? Pelo visto foi isso que fez Belford Roxo manter sua tradição no reggae. Adorei o relato, ainda mais a parte da pipoca e do cachorro-quente, parece coisa de quermesse. Tomara que esse povo continue a contar sobre os próximos encontro aqui no Overmundo!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/9/2007 13:33
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Tetê Oliveira
 

Filipe, Belford Roxo e São Luís "disputam" o título de Jamaica brasileira - ou pelo menos disputaram nos anos 90. Lá nos Ensaios mesmo o Vicente defendeu que o ritmo surgiu na Baixada primeiro, e só depois foi pro Maranhão. É uma disputa boa, né? Cultural!!!
Helena, realmente o clima na vizinhança me encantou. A "platéia" vip, formada pelos moradores, davam um colorido todo especial à festa. Sabe aquela coisa de subúrbio mesmo? Uns colocavam cadeiras na frente do portão de casa e assistiam dali. Crianças faziam o lanche da noite na calçada. A bacia de pipoca, a criançada brincando, os pais tomando uma vervejinha. Tudo na maior paz! Muito legal mesmo.
Abraços.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 12/9/2007 20:57
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