Os índios da minha imaginação não existem mais

Bruna Célia
Índios?????
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Bruna Célia · Goiânia, GO
20/10/2007 · 262 · 24
 

Foi a primeira vez que conheci uma tribo indígena. A ocasião era pertinente, eu estava a serviço do semanário onde trabalho aqui em Palmas. A cidade em questão era Tocantínia, que completava 54 anos de existência.

Localizada a 80 quilômetros da capital do Estado, a cidade foi construída na margem direita do Rio Tocantins e tem sua história baseada nas missões portuguesas de catequização dos índios.

Com aproximadamente seis mil habitantes, mais da metade é indígena e vive em aldeias, mas não é fácil se surpreender com a quantidade de índios que já moram na cidade.

Foi essa a surpresa que tive ao chegar em Tocantínia. Nunca havia visto tantos índios. Quem mora em Palmas já deve ter ouvido a pergunta "você vê muito índio pelas ruas?". E eu sempre respondo " raramente vejo, na universidade tem alguns". Mas o número nem chega perto do tanto que tive a oportunidade de ver.

Passando pela principal avenida da cidade, a avenida Goiás, pude ver dezenas deles. De todas as idades. Crianças, homens, mulheres e idosos. Fiquei feliz diante da possibilidade de conhecê-los, mas aí residia minha preocupação.

Fui conhecer a Aldeia Krité (que no idioma Akwê significa casa grande). Que na ocasião sediava a I Feira de Sementes do Povo Xerente. Distante 12 quilômetros de Tocantínia, fiquei impaciente diante tanto calor que passei. Muito sol, pouco vento.

Pronto. Eu estava dentro de uma aldeia indígena pela primeira vez na minha vida. Isso representava algo que eu contaria para meus filhos e netos.

No entanto, o choque a descer do carro foi maior do que toda minha empolgação. Senti um balde de água fria sendo jogada em minha cabeça depois do que vi. Fechei os olhos e abri outra vez para ter certeza se aquilo era verdade ou não. Era. Era a mais pura verdade. Aqueles índios não eram os índios que eu imaginava. No som de uma casa tocava "quando ela me vê ela mexe, piri, piri, piri, piri, piriguete".

Ninguém estava vestido como os índios que mostram nos livros e na televisão. As roupas eram iguais a que estão na moda das novelas globais. Nada chique, caro, mas tudo com o mesmo design.

Fiz todas as entrevistas necessárias, dei uma volta pela aldeia, que não parecia aldeia. Havia casas simples, de adobe cobertas de palha, todas em formato de círculo, um campo de futebol no meio (campo de terra seca) no meio. Uma casa, onde tocava a música da piriguete, as paredes eram de tijolinho, as janelas eram venezianas, mas para compensar tanto progresso talvez, a cobertura era de palha.

Eu estava triste, desapontada. Ninguém ali estava caracterizado como os índios que a gente imagina. O mais parecido era um senhor que tinha um cocar muito simples em sua cabeça. Só isso.

Aconteceram algumas apresentações de esportes típicos da cultura indígena. Corrida com Tora e cabo de guerra foram os que eu vi. Neste último tive a oportunidade de tirar umas fotos, mas garanto que não pareciam índios.

No fim da manhã, fui falar com uma senhora que me chamava ao saber que eu era jornalista. Reclamou da vida, da seca, da fome. Me pediu ajuda "fala lá para o prefeito, pro governador, eles têm que ajudar nóis".
Enquanto eu ouvi suas preces e sentia meu coração gritar ao ver aquela mulher pedir comida, com os olhos mais cansados que já vi, algumas pessoas tinham seus corpos pintados por outra mulher com a cara mais ranzinza que já vira antes. Pelo menos um traço da cultura deles, a pintura corporal.

Gravei o pedido da senhora, prometi ajudar e fui embora cheia pensamentos tristes na cabeça.




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Sérgio Franck
 

Bruna, você escreve bonito demais. Texto bacanésimo sobre a sua rica experiência.

abço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 20/10/2007 12:40
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Saramar
 

Bruna, realmente, perto dos grandes centros já não há mais índios como os de antigamente, aqueles que nosso imaginário e os livros ajudaram a manter intactos.
No local onde trabalho, eu os vejo todos os dias, de camisa branca e calça social, alguns com pastas de couro (?!), andando em camionetes chiques e caras. Só os cabelos longos os distingue.
À guisa, de protegê-los, a aculturação foi violenta.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 20/10/2007 12:43
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Rangel Castilho
 

Salve, Bruna!!!!
Eu já imaginava sua decepção!
A culpa é nossa, Bruna!
Deixamos nossos irmãos brancos invadirem as aldeias indígenas com suas religiões para catequisar o índio, depois vem a proibição de andar com pouca roupa ou sem, depois vem o dízimo, depois vem o acordo para votar e o cabrestamento de voto pelo capitão da aldeia: sim, é isso! Indio não tem mais cacique, tem capitão!
Depois vem o comércio de roupas, de mantimentos e a principal deas - a cachaça!
Infelizmente o representante da Funai nada faz e até coordena alguns desses aviltamentos em proveito próprio!
Desculp meu longo comentário.
É que fico indignado com tamanha usurpação...

Rangel Castilho · Anastácio, MS 20/10/2007 12:44
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Benny Franklin
 

Bruna, belo e apropriado texto!

Como você, a minha decepção é do tamanho da nossa falha: excluímos estes seres de seu habitat: escravizamos, usurpamos, e matamos a identidade cultural e religiosa dessa gente... O que pode esperar destes esquecidos que o tempo teima em excluir?

Aqui mesmo no Pará, a coisa corre à rédea frouxa: os madereiros invadem suas terras, roubam suas riquezas e matam-lhes para deles se livrarem...

O que podemos esperar desses povos se deles são arrancados as mais sublimes necessidades ?

Abraços,

Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 20/10/2007 12:59
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azuirfilho
 

Uma Obra de Arte.
Trabalho magnífico no devido seu lugar.
O Trabalho precisa ficar pelo bem do nosso povo.
Pra iluminar e diminuir a ignoráncia.
Maior alegria ver um trabalho desses.
Maior orgulho da Bruna Célia.
Parabéns Bruna Célia Você merece.
Quero neste momento estar inaugurando com Você,
uma fraterna Amizade.
Merece todo m[erito por qualidadena confecção.
Maior orgulho votar num trablho desse porte.
Maior orgulho de confiar no nosso povo

azuirfilho · Campinas, SP 20/10/2007 13:01
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Lobodomar
 

Bruna, texto excelente, que bem mostra o que se tem feito com os índios brasileiros: ao invés de se buscar respeitar suas origens e costumes, acabou-se por induzi-los a adotarem o modo de vida do dito 'homem civilizado', o que nem sei dizer se é vantagem. Voto carimbado. Grande abraço, Poetisa!

Lobodomar · Guarapari, ES 20/10/2007 14:30
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Marcos Paulo Carlito
 

Bruna,

Bem vinda à História do Processo Civilizatório.

Abraços

Marcos Paulo Carlito · , MS 20/10/2007 14:34
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Rubenio Marcelo
 

Bruna, adorei a leitura e este seu documento. Belo trabalho. Parabéns sinceros. Votei, com louvor - 8 pontos a mais pra vc.

abraços,

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 20/10/2007 15:09
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Andre Pessego
 

Menina Bonita de Palmas,
Ah! Bruna, a verdade deste Pais, desta Nação. Na década de 60 final, visitei algumas aldeias no entorno de Brasil, do que havia restado, não existem mais. E já era desolador.
Do teu texto, fantástico, bem colocado, parabéns, andre.


Andre Pessego · São Paulo, SP 20/10/2007 15:11
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Mansur
 

Não fique triste Bruna. Segundo um especialista, há pelo menos 40 tribos no Brasil que ainda não tiveram contato com a civilização. Elas ficam em pontos da Amazônia de dificílimo acesso. Nesses "pontos" não há como chegar sem passar por perigos imprevisíveis e doenças inimagináveis. Isso mesmo, 40 TRIBOS. Não nos aventuremos, deixemos eles lá...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 16:32
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Sander
 

Bruna que coincidência!!!!!!!!!
Acabei de compor uma música com essa temática.
Inspirado em uma viajem à cidade de Dourados, onde deparei-me com índios mendigando pelas ruas, os índios que vc encontrou ainda tem um nível de vida razoavel, mas a minha reação foi a mesma com que você se expressa nesse texto.
Parabéns pela matéria.
Abçs.
Sander

Sander · Cassilândia, MS 20/10/2007 16:54
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Nydia Bonetti
 

Bruna,
Gosto muito de uma citação de Décio de Mello uq diz: "Corremos o risco de ver o índio como vítima, como coitado cujo mundo despedaçou-se frente a uma civilização superior. Mas a base do mundo indígena está calcada em valores que eles têm e que nos fazem muitísssima falta: senso de coletividade, ausência de hierarquia, vida voltada para vida, para alegria. Precisamos do índio muito mais que ele de nós; presisamos de sua alma, sob o risco de os extintos sermos nós." - Fantástico, não é?
Abraços,
Nydia

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 20/10/2007 17:08
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AZnº 666
 

O indio Brasileiro é um Consumidor, raramente planta, ai uma boa dezena de indios caçando diariamente acabam com a fauna adjacente, passam a vender a própia floresta para as madeireiras.
Ai sem as florestas, vendem a sua dignidade e oque mais tiver.
Tudo molhado a cachaça, afinal o alcool é o combustivel do futuro, e que futuro!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 18:43
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Lígia Saavedra
 

Bruna, é a realidade aqui no Pará também é assim. Como a Amazônia é enorme creio que ainda deva existir alguma tribo com costumes e hábitos naturais e primitivos. O homem "branco" entrou na floresta levou o progresso e a Cultura mas matou a pureza indígena. O caminho é sem volta e a dizimação total é só uma questão de tempo. Guarde suas fotos em cofre com chave de ouro pois talvez seus netos precisem recorrer ao dicionário para saber o que significa a palavra "Índio".
Um grande abraço

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 20/10/2007 19:10
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Rynaldo Papoy
 

Também conheci tribos aí no Tocantins, depois conto como foi.

Rynaldo Papoy · Guarulhos, SP 20/10/2007 20:51
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Alê Barreto
 

Bruna, já visitei um reserva de Guaranis aqui em Porto Alegre e não foi muito diferente. Aliás, aqui encontrei miséria grande. O teu relato é importante para que as pessoas reflitam sobre um problema social que a maior parte ignora ou não quer ver.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 21:28
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dudavalle
 

E o Mengão presente !!!!
Jah estive com alguns índios "isolados" em Cananéia (SP) , hoje abri uma revista e li uma entrevista com a Gisele Bundchen, dizendo ter sido batizada e feliz por ter um nome indígena.

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 22:51
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Noelio Mello
 

Bruna.
Belíssimo texto, bem divido, claro, exato. Na verdade , primoroso.
Quanto á sua decepção, Bruna, é natural que ocorresse pois com a integração das aldeias à sociedade os índios começaram a sentir o gosto pelas coisas reais das grandes cidades e que jamais, em muito tempo atrás, poderiam sonhar um dia estarem perto dos seus olhos e das suas mãos.
Na verdade é muito pobre a politica do governo para preservação dos espaços indigenas. Sua cultura, rica, farta. A Funai sempre se preocupou mais em cuidar da saude desse povo do que conservar sua originalidade.
A modernidade chega a todos os lugares e, muitas vezes, de maneira equivocada em muitos lugares.
belo trabalho, Bruna.
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 20/10/2007 23:37
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Cintia Thome
 

Bruna, sim onde o homem explora não existe mais...Já falaram tudo acima, mas me fez lembrar no desmatamento, nas árvores de mogno que tombam e de alguns índios já tão "homens" hoje, rs. Voto. E desculpe, cheguei agora, mas feliz que a votação foi muito boa, pois é um tema bem escolhido, basta ver os comentários tão bons.bj

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/10/2007 23:55
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Adroaldo Bauer
 

A natureza humana se expressa em qualquer sociedade a qualquer época, seja o território que for, já o sabemos Bruna. O teu singelo, sincero e bom texto diz exatamente issso.
E é imemorial a tensão entre o altruísmo, que vai carregar tintas fortes no coletivismo e na preservação e o egoísmo, que acentua o famigerado farinha pouca meu pirão primeiro, passo inicial para o individualismo se impor e iniciar a reprodução da competição, já não pelo saber mas pela esperteza.
A tua idéia do índio foi desfeita pelas circunstâncias já fundeadas aqui pelas caravelas de Cabral e as gentes outras que impuseram pela cruz, a espada e a pólvora uma outra existência real.
Dali às periguetes são passos de afirmação da exploração do outro, da expropriação das riquezas coletivas e de promoção da cupidez (o egoísmo - é primo-irmão de objetivos dela), de que a posse vale mais que vida e de que a vida mesma valeria nada.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 21/10/2007 11:04
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Candice Gonçalves
 

muito bom o seu texto. senti a sua decepção, e me comovi com o reu relato bastante apropriado. gostei principalmente da forma como descreves a sua chegada à aldeia e as percepções imediatas. acho até que se os índios tivessem tido mais oportunidades e fossem tratados com respeito, não teriam tanta vontade de tornarem-se "homens brancos". Abraços e beijos queridas! Votadíssimo!

Candice Gonçalves · Crato, CE 21/10/2007 12:34
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Adriana Costa
 

Excelente texto, Bruna! Votado!

Flores sempre @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 22/10/2007 19:43
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Ana Júlia Cysne
 

Lindo texto, Bruna!
Parabéns!

Votado!

Beijos

Ana Júlia Cysne · Fortaleza, CE 23/10/2007 01:01
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José Braga
 

Gostei bastante, mais um bom texto seu, Bruna!!

José Braga · Brasília, DF 20/9/2008 17:24
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