Os misticismos da Chapada dos Veadeiros

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Paulo José · Alto Paraíso de Goiás, GO
1/10/2006 · 105 · 4
 

A maioria das pessoas que ouvem falar da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a relacionam automaticamente com o misticismo. Elas estão certas, mas a realidade é relativa. O que temos são misticismos. Eles são muitos, plurais e algumas das experiências aparecem e desaparecem em passe de mágica. O ponto de partida é que tudo pode ser místico, esotérico e holístico – expressões amadas nesta região – desde que se abandone o “sistema cartesiano-ocidental” ou se alinhe com aqueles que o criticam.

A fuga do Ocidente é uma necessidade, porque ele esgotou-se, é um mundo egoísta, destruidor, consumista e cada vez mais longe de Deus. A proposta é transformá-lo em uma sociedade igualitária e diversificada e o perfil médio do cidadão que deve habitá-la começa com a exigência mínima de saber o signo zodiacal, seguida por respeitar e se relacionar com a natureza, acreditar na teoria de Gaia e em coisas sobrenaturais, sentir a energia vibrando, comer de preferência vegetais, ouvir música new age, participar de fogueiras, fazer ioga, meditar, dispensar o relógio, usar de medicina alternativa, fazer um mapa astral e ser bonzinho.

É assim que orientais, ameríndios, celtas, cristãos místicos e alternativos passam a ser vistos como modelos a serem seguidos. Quando tudo isso pode ser praticado em lugar especial, está criado um movimento – é o que acontece aqui.

Buda e William Brake, Lao Tsé e John Lennon, Allan Kardec e Carlos Castañeda, Chico Xavier e Jack Kerouac, Helena Bravatsky e Bob Marley, Khalil Gibran e Leonardo da Vinci, Krishna e Raul Seixas são alguns dos famosos que tem acolhida, fãs e adoradores nestas paragens. A lista é imensa e mostra que o misticismo é feito de mundos paralelos, convivências antagônicas e uma ordem-desordem quântica.

De um primeiro ponto de vista, as explicações mais utilizadas indicam que a aura mística da Chapada é enquadrada por uma natureza exuberante e montanhosa, cortada pelo paralelo 14 (o mesmo de Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, no Peru), assentada em cristal de rocha (o que a tornaria brilhante quando vista do espaço), antenada para energia cósmica e ligada em discos voadores (existam ou não); por isso, estaria destinada a receber os seres artífices da Era de Aquário (seja lá quem forem).

Com tais características não é difícil entender por que místicos, seitas e religiões foram desembarcar aqui às dezenas, nas últimas décadas, e tornar a cidade de Alto Paraíso “a capital do misticismo no Brasil” - ainda que outros locais, como São Tomé das Letras (MG), também reivindiquem o título.

Esse desembarque ocorre de duas formas. Em uma, grupos com raízes internacionais, como os seguidores de Osho, e confrarias de amigos e famílias tendem a permanecer, pois têm dinheiro, adquirem terras e terras e consolidam-se. Em outra, entidades, grupos e seitas pequenos acabam funcionando como microempresa e podem ou não dar certo. E na mesma velocidade que abrem, podem fechar.

Desavenças internas, competição predatória e desilusões pessoais explicam os porquês. A Cavaleiros de Maitreya, por exemplo, de seguidores do Conde de Saint-Germain (o Cristo deste milênio), foi uma das mais renomadas e influentes da Chapada dos Veadeiros, mas só deixou lembranças, como as casas em forma de gota. A concorrência é grande e uma iniciativa que não conquiste a clientela que precisa acaba indo à falência.

Falidos, o mestre, a wicca e o neo-religioso vão criar uma nova empresa ou retirar-se para fundar a mesma em outro local. É assim porque o misticismo, como as grandes religiões, não sobrevive só de boa vontade, rituais e energia espiritual, mas principalmente de dinheiro – o que, neste caso, traz muita felicidade.

Há ainda a tendência de que nenhum místico reconheça o outro como místico, bem ao estilo “eu sou o verdadeiro, o outro é o farsante, charlatão”. E assim, numa terra que deveria ser de paz, as pendegas acontecem justamente com aqueles que dizem defender a espiritualidade e a plenitude como meios de ascese.

E que diabos é esse tal de misticismo, que a todos atendem? Essencialmente, é qualquer prática espiritual de oração, ritual ou meditação que dispense intermediários e ligue o praticante (ou místico) diretamente a Deus ou o Absoluto, formando a Grande Unidade. Na Chapada dos Veadeiros, este conceito genérico é ainda mais amplo.

Sob seu guarda-chuva democrático cabem gurus, adivinhos, mestres, bruxas, vegetarianos, macrobióticos, astrólogos, ufologistas, mães de santo, xamanistas, religiosos seculares e até artesãos-hippies. Hippie é místico? Vegetariano é místico? Aqui acaba sendo. Até mesmo o empresário que batizar sua pousada com um nome a caráter vai ficar próximo do místico.

Esses nomes ajudam a criar o clima: Renascer da Luz, Alfa e Ômega, Anos Luz, Aquarius, Recanto da Grande Paz, Jardim do Éden, Camelot. Essa última, um hotel que imita um castelo medieval, afirma, em seu site, que, há alguns séculos, “os Templários estiveram na região da Chapada em busca de uma gruta perto do paralelo 14, ligada aos mundos subterrâneos, e o Santo Graal, na esperança de uma nova visão de humanidade para os anos vindouros” e o dono do hotel e alguns conhecidos, garante o texto, têm guardado o desdobramento desse segredo.

Fantasioso ou não, este é o lado “real”, dos que acreditam no que fazem. Mas chegar aqui e procurar seitas místicas não é tão simples. Como seitas, para serem seitas, precisam ser fechadas e secretas, aparece, então, uma grande contradição, porque elas não podem fazer parte de propostas abertas e acessíveis. Em geral, é preciso ganhar confiança ou ser apresentado por alguém que já integra o grupo.

No caso do turismo, a solução não inclui rituais, mas visitas aos templos e inúmeros serviços prestados na área holística, esotérica e de medicina alternativa. Eis o cardápio: horóscopo maia, mapa astral, feng shui, radiestesia, reiki, terapia de vidas passadas, acupuntura auricular, terapia abissal, cristalterapia, cromoterapia, florais, massagem ayurvédica e uma infinidade de opções batizadas com verdadeiros trava-línguas, sempre trazendo expressões indianas e chinesas. As seitas e organizações acompanham o clima: Osho Lua, Centro de Terapia Holística, Fraternidade Branca, Ordem Mística Iniciática Bramânica, Sociedade Maria-Rosa Mística e assim vai.

Mas quando começa toda essa história? Por incrível que pareça, vai ser a dois mil quilômetros daqui, no Recife. Era 1957, quando um grupo de pernambucanos, em uma “missão espiritual”, se dirige ao centro do País, em busca de um lugar especial para criar uma escola filantrópica. O local eleito fica sendo a Chapada dos Veadeiros, onde fundam a Fazenda Bona Espero, uma escola inovadora que vai ensinar, entre outras coisas, esperanto aos jovens sertanejos. À primeira vista, esperanto nada tem de místico, mas sua proposta universal o consolida assim com o tempo.

Em 1963, acontece o segundo passo, também vindo de fora. Agora, são os mineiros da Oscal, uma entidade kardecista de Belo Horizonte, que vai fundar aqui a Cidade da Fraternidade, prevista para abrigar 30 mil pessoas. A experiência trouxe gente de vários locais do Brasil, mas não somou mais que 400 idealistas. Estes e as sementes da vida comunitária e alternativa, contudo, permaneceram.

Em 1980, é dado o terceiro passo, também vindo de fora. Em Mauá, no Rio de Janeiro, acontece o Encontro Nacional de Comunidades Rurais e, nele, Alto Paraíso é eleita uma espécie de sede permanente dessas organizações. Ao mesmo tempo, é lançado o Projeto Rumo ao Sol, uma proposta holística para expandir a Nova Consciência. E mais gente – desta vez, uma mistura de intelectuais, discípulos de Khalil Gibran e bichos-grilos – vai chegar à Chapada.

A partir daí, a consolidação da “aura mística” está feita. E como uma respiração, muitos vão e muitos vêm. No início dos anos 1990, grupos autoproclamados “místicos” e “esotéricos” começam a chegar, adquirir grandes propriedades, mas longe de propostas comunitárias, a prática é essencialmente sectária. No mesmo ritmo, inúmeras organizações não-governamentais vão se instalar aqui, em nome da defesa da natureza e do Cerrado. E muitas delas, como tudo aqui, vão ser enquadradas como “místicas”.

Bem, chegamos ao Terceiro Milênio, estamos na Era de Aquário e, agora, na Chapada dos Veadeiros temos uma certeza: misticismo pouco é bobagem. Por sinal, você já beijou seu gnomo hoje? Dá tchau pro ET, dá!

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Viktor Chagas
 

Olá, Paulo. Acho que sua matéria tem pontos positivos e pontos negativos. Em primeiro lugar, a sua "tese" parece ir de encontro a essas seitas e escolas, mas, ao menos pelo que você aponta, não fica claro o que há de ruim nelas além do tal misticismo.
Depois, você parece misturar esoterismo a exoterismo, termos que - como estória e história - são muito próximos e muitos distantes entre si. Estória, obviamente, já saiu de uso, mas exoterismo e esoterismo ainda têm suas diferenças.
Das ordens que você cita, a única que conheço é a do pessoal da Fazenda Bona Espero. Nunca visitei a fazenda, não faço parte da Sociedade Teosófica, nem tenho nenhuma ligação com o esperanto. Entrei em contato com a Boa Esperança pelo meu interesse em conhecer o projeto "Cidadãos do Mundo", cujo único escritório no Brasil fica no Vale do Alto Paraíso.
Não conheço Alto Paraíso, e não terei base maior do que a sua para tratar do assunto, mas entendo que o seu ponto de discordância possa estar no modo de vida pregado por essas ordens, e nesse caso sua posição seria apenas lateralizada.
Sobre a questão do Ocidente e do Oriente que você coloca, acho que vale distinguir novamente aspectos exotéricos dos esotéricos, pois o grande objetivo dessas seitas, me parece, não é de fugir do Ocidente, mas de trazer o Oriente ao Ocidente, como na máxima maçônica (também não pertenço à Maçonaria, nem tenho nenhum contato com ela) Ex Ocidente Lux.
Como você aponta, há "misticismos" e não apenas "misticismo" na Chapada dos Veadeiros. São, de fato, plurais, e, portanto, não podem ser generalizados.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 28/9/2006 13:45
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Paulo José
 

Agradeço os comentários de Viktor. As questões são as seguintes: abranger o misticismo da Chapada dos Veadeiros exige um livro, portanto é preciso ser genérico e selecionar pontos de abordagens. Sobre as seitas não se trata de uma posição minha, mas de uma realidade constatável. Boa parte delas tem um rosto, contribuem com a comunidade e são reconhecidas. Assim, não aponto "o que há ruim nelas" - para usar sua expressão - porque seria um julgamento superficial e a principal caracteristica de parte delas é a dubiedade.
Do ponto de vista do turismo, elas e a atmosfera mística que ajudam a criar são ótimas, ajudam a dar identidade à região. Uma parte, contudo, não existe se integra, acha que o nativo é o que é o estranho e mantêm projetos egoístas. Como o propósito deste texto não é discutir a natureza das seitas, excluí essa abordagem.
Sobre o esoterismo e o exoterismo, acredito que o esoterismo já inclui o exoterismo, do mesmo jeito que a história-estória. No caso da Chapada, o exoterismo não aparece porque não é comum o uso da palavra exotérico por aqui (nem yôga no lugar de yoga).
Sobre o ocidente, fazemos uma brincandeira, colocando sobre a cabeça do ocidental e dizendo:
-Sai, Ocidente! Sai, que este corpo não te pertence!

Paulo José · Alto Paraíso de Goiás, GO 29/9/2006 10:31
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Viktor Chagas
 

Então, Paulo... Acho que selecionar pontos de abordagens e ser genérico são opostos completos. Você diz que se trata de "uma realidade constatável", mas não aponta exatamente o que se constata. Como eu não vivencio a situação, continuo sem conhecer "o que há de ruim nelas".
E, por fim, quanto ao esoterismo e ao exoterismo, acho que talvez seja o contrário do que você diz aí em cima. O exoterismo inclui o esoterismo, já que um é o círculo mais abrangente, e outro o mais restrito. Entendo que o termo não seja usado freqüentemente por aí, mas quis ressaltar a diferença de sentido, que é importante, quando tratamos o nosso objeto com esse viés crítico.
No mais, não entenda mal as minhas críticas. Acho o seu ponto de vista válido, só gostaria de ouvir melhor os seus argumentos... Abraço.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 29/9/2006 13:07
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Far
 

Pergunto: Como é a vida real em Nova Esperança na Chapada dos Veadeiros?

Far · Rio de Janeiro, RJ 27/8/2009 21:44
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