Os Novos Pessoais do Ceará

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m.maia · São Paulo, SP
13/11/2006 · 153 · 7
 

São mais de 35 anos de 70 pra cá. Século passado, milênio passado. Outras distâncias, mais dificuldades. Sem internet, aviões caros, tudo diferente. Mas foi nessa década que Fagner, Belchior, Ednardo e o Pessoal do Ceará se aventuraram na descida pro sudeste do país. E bons frutos apareceram (alguns nem tanto). O fato é que vieram, fizeram, voltaram, revoltaram.

Hoje a configuração da cena independente no Ceará, em particular Fortaleza, lembra um pouco a década efervescente de 1970. A diferença está justamente na operacionalização da coisa, que enumerei algumas linhas atrás. Agora é século XXI, tudo está mais perto, a internet é o fino da comunicação, as passagens estão mais baratas, tudo é mais fácil. Mas na prática mesmo, realmente, nem tudo são flores. A periferia cultural do país ainda é bem distante do paraíso das oportunidades que é São Paulo (talvez porque nem o nordeste é tão periferia assim, nem Sampa é esse balaio todo de prosperidade).

No caso específico do Ceará (Pernambuco teve o caldeirão de Chico e Bahia pensa que é sudeste) muito está se fazendo pra encurtar de fato as distâncias culturais dentro do Brasil. Há tempos que Fernando Catatau, junto com sua instigação, deixou Fortaleza pra trazer o cidadão pra São Paulo. Soulzé em 2003 fez a primeira chegada pela Paulista. Depois vieram Montage e muitos outros, sejam bandas ou músicos solo. E tem uma penca de artistas cearenses que está planejando dar adeus à Praça do Ferreira rumo a terra da garoa. Alguns até já vieram dar o ar da graça em curtas temporadas, como Levant e Macula (que entraram na coletânea Misturada, pra janeiro de 2007), Cacau Brasil, Karine Alexandrino, Switch Stance, Pádua Pires, Fossil, Dr. Raiz e Dona Zefinha.

Algumas iniciativas vêm sendo tomadas em Fortaleza, tanto pelo poder público quanto por particulares, abnegados uns e outros na disseminação da cultura. Vide a recente mostra de música que movimentou a capital cearense algumas semanas atrás, onde, em ato inédito, música ao vivo e de qualidade foi apresentada nos confins das periferias, tipo Bom Jardim, José Walter e Conjunto Esperança. Isso foi da Prefeitura.

Tem também o Ponto.CE, que é o festival mais promissor dentro da capital, tomando ares de se tornar o modelo cearense do Abril Pro Rock, sem exageros. Já rolou um e vai rolar outro no começo do ano que vem. Esse é de iniciativa privada.

A espiral está rodando, o caldo está engrossando, coisas acontecendo, mas na real ficamos sem saber o que é certo, se há algo certo: sair de lá pra vir pra cá; ou ficar lá e vir cá de vez em quando; ou nunca vir pra cá e ficar sempre lá... As questões estão bem acima da busca do sucesso, da fama, da grana, que todo artista, seja músico, escultor ou poeta, no seu âmago almeja. A questão relevante mesmo é a que discute a política cultural voltada pro cenário independente dentro do Brasil. Sim, pois o ideal é que se consiga fazer o que se deseja dentro de sua área cultural, sem que pra isso seja preciso deixar a terra natal, certo? Sim, mas o enriquecimento do artista como verdadeiro artista necessita de outras experiências, outros lugares, outros públicos, certo? Certo, mas independente, underground, por-conta-própria, sempre sofre muito pra conseguir fazer isso: ficar porque quer, sair quando quer. É aí que entram as iniciativas de política cultural decente, pra incentivar que esses artistas super-independentes possam ir e vir pra mostrar sua arte, seja pra São Paulo, Rio, Curitiba ou sei lá mais onde. Até porque os outros também têm o direito de saber o que se produz lá por cima, invertendo um pouco a visão do problema.

Os dilemas estão todos nas nossas fuças. Alguns tentam resolver. Muitos querem atrapalhar. Mas o caminho sempre começa pela discussão, pelo debate, até que as principais e mais viáveis idéias se concretizem e o negócio ande com as próprias pernas.

Como diria Neo Pineo: se todo mundo empurrar, com certeza a rural vai desatolar.

Se a gente arruma a mala depois, aí é decisão pessoal.

M.maia é arquiteto, poeta, contista e baterista das bandas Soulzé, Quarto Elemento, Unit e Ovnil, além de produtor cultural pelo Coletivo Supernova

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Verônica R.
 

A discussão sempre é válida, sim. Uma crescente leva de bandas independentes surge a cada dia no Estado, contribuindo para a multiplicidade de sons e melodias produzidos por aqui. Grupos como O Quarto das Cinzas e 2Fuzz são a prova da universalidade e da criatividade que existe na capital cearense. As apresentações desses grupos os firmam no atual cenário musical de qualidade que a cidade vive atualmente. Daí a importância do incentivo, para que essa produçã possa se expandir para outros locais e sedimentar cada vez mais a música do Ceará.

Abraços.

Verônica R. · Fortaleza, CE 17/11/2006 12:38
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Coletivo Itinerante
 

Bacana Marcos Maia, a reflexão sobre "onde está o pote de ouro", será mesmo nesses grandes centros? O importante é que o tema foi lançado e nós queremos mesmo é estar, lá ou aqui... fazer parte.

Tb me considero um "novo pessoal" ... não sei bem se só do ceará... essa coisa de estarmos lincados com o planeta todo é maior. Estou na corrida pra divulgar o Documentário que fizemos aqui no Cariri e que já rodou por lá(RIO/São Paulo/Curitiba/Brasília) ... tô na Rural!

Abraço!

Coletivo Itinerante · Crato, CE 17/11/2006 13:24
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Coletivo Itinerante
 

O Documentário se chama:

Também sou teu povo

Coletivo Itinerante · Crato, CE 17/11/2006 13:25
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Felipe Gurgel
 

E aí, Marcos =) Teu texto tá bem bacana. Resume legal um panorama nem tão simples. Eu tinha feito uma reportagem para o jornal (O Povo) em agosto, pontuando (antes que alguém possa insinuar a paternalidade de algo aqui - não falo no sentido de que "inventaram a roda", a matéria não tinha esse raciocínio) que a movimentação da música independente no Ceará hoje tem essa diferença. Aliás, quanto ao título "Pessoal do Ceará", esse pessoal tá mais para de quaisquer cantos... A referência do Estado hoje para os artistas, de Fortaleza, sobretudo, é mera geografia. A diversidade, que a Verônica sublinhou, já aponta pra isso. Também acredito que o ideal seria não ter a necessidade de sair da terra. Que a visão do sul maravilha e próspero para alguns ainda é muito ingênua, romântica por parte de quem mal sequer se deu o trabalho de "descer" para ver como o meio alternativo funciona pelo eixo. Estou no Rio e, se você pega no ponto de abertura (falo de abertura mesmo, espaço para produzir, não espaço para tocar simplesmente) para bandas independentes fazerem shows, a coisa não anda tão bem assim... Sem querer dizer que um é melhor que o outro. Mas Fortaleza hoje, surpreendentemente (diria por estalo e atitude mesmo) tem colocado vários espaços para as bandas. O próprio Teatro da Boca Rica, que quase fechou recentemente, hoje tá aí. A fim das bandas, desses projetos.

Que é importante descer, que o intercâmbio é fundamental, acho que isso é indiscutível. Tanto que se a gente for esperar que a cidade banque sozinha a vida de artista autoral, vejo que não faz sentido. Há quem se magoe com Fortaleza pela cidade não dar oportunidade para a pessoa viver de música autoral. Eu acho que essa perspectiva tinha que ser complementar. No sentido da cidade consolidar um circuito que possa dar oportunidade de viajar também, mostrar seu trabalho fora, fruir de outros ares, e assim "interar" - como a gente diz no Ceará - sua demanda profissional. Ou seja, a "cena" tem de se mostrar referência para outras praias. Acho que é preciso, então, trabalhar a credibilidade dela. Só largar a banana pra cidade e descer para o eixo, depreciando a falta de oportunidade concreta e colocando uma culpa quase que determinista no lugar, não é legal... É até certo ponto colonialismo. Nada contra quem sai, quem já saiu, como o Montage fez e bem. Mas para quem fica acho que tem de ficar esse pensamento, não só a expectativa do "sonho" de se quando colocar os pezinhos em SP, tudo vai mudar. Enfim, acho que o estreitamento dos laços entre os dois lados é fundamental. Um reconhecimento mútuo de credibilidade. Fortaleza teria de ser, assim, uma puta referência, diga-se, já que todos têm alguma noção de que de lá para cá (Rio-SP) é um tantim caro. Mérito artístico para isso tem. Existem muitos indicativos disso hoje. Falta se organizar mais e se levar um pouco mais a sério também. O próprio artista acreditar, não só no oba oba do sonho. Ou seja, se encorajar para investir nas bandas, em todos sentidos - seja de grana ou não.

É uma visão meio idealista, mas vejo por aí... Abraços =)

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 18/11/2006 01:54
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Felipe Gurgel
 

Porra de cara verborrágico... eu, heheh

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 18/11/2006 01:56
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Márcia Zolda
 

Lutar por esses ideais não é uma tarefa das mais fáceis. Lutar por cultura requer um exercício de no mínimo paciência e muita vontade.
Batalhas sem luta não tem sabor nem valor. Por isso que essa guerra por espaço, incentivo e reconhecimento de longe está perto de acabar... aliás, se depender do mundo alternativo e undergrounde não acaba nunca. Está na nossa frente que cada vez mais surgem bandas e artistas de todos os meios que estão aí, dando a cara para bater só para ter oportunidade e chance de mostrar seu trabalho.
Esses "pessoais" são pessoas que acima de tudo acreditam no que fazem e sabem muito bem o que estão fazendo.
Se São Paulo é um pólo, digamos assim, com mais espaço físico para essas bandas, então temos que aproveitar o embalo e disseminar essa cultura Cearense que para alguns é novidade. Fugindo do tradicionalismo(nada contra ele, afinal tradição é cultura) e metendo as caras no alternativo.

Faço parte do Coletivo Supernova e apoio totalmente a cultura aqui, alí ou acolá!!!

Márcia Zolda · São Paulo, SP 21/11/2006 01:42
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galo blind
 

Achei uma leitura perfeita da cena cearense, por que mesmo com a maior expressão do eixo-rio-sp-mg, sempre se vê a cara de outros brasis como o celeiro de brasilia (80), o manifesto do mangue beach em recife (90), o Ceará é uma nova e saudavel efervecência cultural e que promete sim, alcançar outras regiões cada um de sua forma, os que vão daqui pra lá mostrar o que tá sendo feito aqui, os vem e vão trazendo novas experiências de lá, e os que não vão mais estão nos sites de musica, nos blogs, no orkut da vida tudo é válido quando a alma não é pequena, acho que frase era assim OU NÃO ? RSRSRS lindo artigo irmão, massa mesmo parabens. Galo bind baterista da The Good Gardem.

galo blind · Fortaleza, CE 13/2/2007 20:52
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