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Outras Histórias

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Bethânia Zanatta · Santa Maria, RS
24/1/2008 · 25 · 3
 

Ninguém melhor do que quem vive do outro lado da história oficial para contar que o Brasil é feito de muitas outras histórias as quais a mídia e muitas vezes o próprio governo, por interesses econômicos/políticos, não deixam ser escutadas. Reproduzo aqui trecho de entrevista feita durante trabalho de campo, por mim e um colega, em novembro de 2007 com uma senhora que faz parte de uma comunidade quilombola do município de Conceição da Barra, Espírito Santo.

Observações:
Optamos por omitir o nome dos membros da comunidade quilombola citados na entrevista.
Trechos entre [ ] – comentários incluídos durante a transcrição da entrevista;
[?] – indica trechos que não foram entendidos durante a transcrição da entrevista;
[...] – indica supressão proposital de trechos da entrevista;

Bethânia: Conta pra gente de novo como que é essa história das terras aqui de vocês.
Senhora: [risos] Menina, as terras daqui?
Bethânia: É.
Senhora: Quando a gente..., sim, quando eu me entendi por gente, né, eu conheci, que era muita terra assim..., era mata, bem dizer quase virgem, né. Aquelas mata grossa, aquelas madeironas, então, assim. Aí eles iam derrubando, eles derrubaram pra fazer roça. Aí fazia derrubada, aí criava porco, né, aí fazia a cerca assim, né, a cerca que chamava de baga. A cerca, ficava tudo deitada, assim. Aí plantava mandioca, milho, feijão e tudo, dava. E... Aí eles..., e quando queriam fazer outra roça faziam outra derrubada. Como bem aqui onde nós tamos morando era uma matona mesmo virgem e nós fizemos, fizemos a primeira casinha, era lá embaixo, na beirada do córrego, depois que passou praqui. Fez a..., papai fez a casa de farinha, foi derrubando, foi fazendo lugar pra casa, né, pra fazer o barraco e fez a casinha de farinha, e era sempre tudo na base das matas. Tinha as caças, tinha passarinho, né, tinha bastante periquito que tinha umas jaqueiras. Época agora de jaca dava periquito, periquito. Chamava periquito tilinha e periquito terreco. [risos] O tilinha porque falava, né. As meninada botava [?], pegava periquito, fazia aquelas panelada de periquito, ninguém proibia. Caçava, né. Como bem ali naquele grupo ali um enorme pé de [demora para lembrar] de cupuba. Ali papai cansou de matar paca, de armação, né.
Bethânia: Uhum.
Senhora: Ninguém passava nada. Passava ali na beiradinha do [?] e matava paca. Não pra vender, né, mas pro consumo em casa. E, botava mundéu...
Bethânia: O quê?
Senhora: Mundéu.
Bethânia: O que que é mundéu?
Senhora: Mundéu é um pau assim deitado, né, aí cercadinho assim [?]. Eu não sei, não fazia não, mas os homens sabia fazer, né, que eles tinham muitos estudos, né. Quando um paco passava ali matava, comia, e era pro consumo de casa, que ninguém nunca vendeu, né. Mas depois, através da Aracruz... [...].
Bethânia: E aqui não tinha escritura, né?
Senhora: Aí não... Tinha escritura, meu pai tinha escritura!
Bethânia: Ah, tá.
senhora: Velha, do pai dele, né. Por isso que a gente diz que a terra ia daqui da beirada do rio na beirada da linha, da telegráfica ali. Eles chamavam telegráfica, a linha telegráfica, a telegráfica passava aí. Aí, mas e...
Bethânia: Que é onde é a estrada?
Senhora: É, onde é a estrada da rodagem.
Bethânia: De Itaunas.
Senhora: É, de Itaunas.
Bethânia: De Itaunas pra Barra?
Senhora: Uhum. A terra ia até lá, né. Então através desse..., desse..., desse homem que veio medir as terras, cada um queria um pedacinho de terra, né, que todo mundo era assim..., coletiva, né, chegava, plantava, tirava, quando ficava aquele bem tempo ali, ia embora. Não vendia, nada. Se tivesse uma roça de mandioca vendia, né.
[...]
Bethânia: A terra ficava?
Senhora: A terra ficava, pra quem quisesse. Aí outro chegava e fazia casa, tornava a fazer roça, derrubava as matas e fazia roça: “Vou ficar aqui”; “Tá bom, fica”. E, foi assim.
[...]
Senhora: Era assim, era só..., era assim coletiva mesmo, né.
Lyncoln: Pessoal que chegasse, que agradasse...
Senhora: É, que agradasse, fazia casa... Tinha cafezal, por debaixo das jaqueiras, tinha um jaqueiral ali, muito lindo ele. [...] Fizeram plantação, plantaram esses pés de manga, e foram embora, largaram ali. Era assim, era uma terra de passagem, todo mundo chegava, fazia suas casas, sobrevivia do peixe, né, que tinha bastante peixe, caça. Todo mundo caçava, sem proibição nenhuma, né, fazia como esses negócios de mundéu, armação, que era um negócio lá que botava pra matar as caças. No outro dia todo mundo almoçava, jantava, dava uns pedaços pros vizinhos [risos]. E era assim aquela coisa muito bonita, muito gostosa, né. E peixe, dava com fartura nesse rio, tanto fazia de linha, como de rede de bater, de rede de malhá, tudo dava, né. Hoje em dia, acabou-se tudo. Talvez se encontre tem época que dá peixe, de linha, né, e de rede de também de malhá, mas de bater... Vinha gente da Barra...
Bethânia: De bater era como?
Senhora: Era assim um saco, não sabe, aquela rede assim, ficava um do lado lá e outro cá e o outro ficava lá batendo e quando vinha assim era bastante piau, traíra, aqueles piauzão, traíra, tudo, a gente..., era muito farto aqui essa vida. Hoje em dia a gente tá escasseado bastante, né. Aí, aí quando aí se vê esse homem que mediu as terras, né...
Bethânia: A senhora sabe mais ou menos que época esse homem veio medir?
Senhora: É, menina, aí...
Bethânia: A senhora era pequena ainda?
Senhora: Não... não tô..., não vô me lembrar que foi quando, não alembro, não, que...
Lyncoln: Quem é que disse pra senhora que tinha que medir as terras, pros pais da senhora? Quem é que... Que antes não era medido, né?
Senhora: Não era medido! Foi através que botaram na cabeça disso, desses pessoal, né. Chegava, vendia, morava, e ia embora, não vendia né. E depois, o homem lá de baixo, [...] disse que tinha, que o governo tinha que medir as terras, porque se não o governo tomava. É, invenção desses, né...
[...]
Bethânia: E esse homem, como que era o nome dele mesmo? [...] Desse homem que veio medir.
Senhora: Ah, era Maro. O nome dele era Maro, né. Aí todo mundo chamava ele por Nonô, o apelido dele, né. Nonô, Nonô... “Nonô vem aí medir as terras”. Aí ele veio, mediu as terras, tirou esse monte de terra e vendeu pra firma, que ele não tinha precisão, né, vendeu pra firma [a empresa Aracruz Celulose].
[...]
Senhora: Esses aí da beirada do rio eles venderam, né. Agora aquele canto lá das beirada da rodagem, foi o homem que veio aí medir as terras e tirou pra ele. [?] Aí tinha esse tal Valzinho que era fiscal, né, da Aracruz, aí ele falava assim, o pessoal de lá da Aracruz não vinha cá olhar nada não, eles falavam assim "Eles fiquem pra lá, né". Aí eles falavam assim: "Que que vocês, você acha que nós podemos ir pra lá, cortar, derrubar as árvores de lá todinha?". Né, as matona que tinha aí, né. Aí ele disse assim: "Ai, não acho não, lá tem muito morador".
Bethânia: Esse Valzinho?
Senhora: O Valzinho, é. "Não, que tem muito morador", se... "A de lá não dá pra Aracruz entrar não". Aí deixava baixo, né. Aí foi indo, foi indo, Valzinho saiu [que eu não sei o desse Valzinho, né], entrou o xxxxx, ele era daqui mesmo [?], ele era daqui, era gente daqui mesmo, [?] que morava ali, era tio dele, [...], ele entrou de fiscal também.
Bethânia: Conhecia o pessoal todo?
Senhora: Conhecia todo mundo aqui! Aí, ele vinha cá fazer vistoria nas área e tudo, por causa da Aracruz, eles dando dinheiro, né. Aí ele falou assim, aí diz que ele foi e amaziou com uma prima minha, yyyyy. Aí ele, aí o pessoal da Aracruz, chefe dele lá da Aracruz mandavam o Valzinho pegar assinatura das pessoas pra liberar pra derrubar essas terras, né. Aí chegavam: "O que você acha?", e o finado: "Não acho nada, porque lá tá ocupada, tem muita gente trabalhando, eu acho que não dá pra entrar lá não, né". E o infame do xxxxx que que ele fez, aí quando veio, rodou por aqui, ele ganhou um bom dinheiro, que morreu numa disgrama, que morreu na, morreu na pior situação, né. Aí ele veio, o que que ele fez? Pegou essa prima minha e foi morar, ele tinha até um filho com ela, nunca deu pedaço de sabão pra lavar a roupa dele. Aí pegou, né, o que que ele fez: "yyyyy, como é o nome de fulano?", ela dizia que ela não sabia o que que era, né, "Como é o nome de beltrano?", Como é o nome de cicrano?", e ela ia ali dizendo: "Fulano de tal é isso, assim, assim". Ela foi criada junto com nós, né, ela sabia o nome de todo mundo, o sobrenome de todo mundo, mas não sabia pra que era, coitada, né, que ele não ia dizer, né. Chegou lá e entregou. Aí botou assim: "O pessoal liberou as terras". Aí foi aí que a Aracruz veio.
Bethânia: Ninguém foi lá assinar?
Senhora: Ninguém assinou.
Bethânia: Ele que assinou...
Senhora: Ele que assinou, pegou o nome dos outros escondido, [?]. Aí a ela [a empresa Aracruz Celulose] queria a liberação, né, aí foi aí que ela liberou. Aí veio, com correntão e tudo, ninguém impedia não, se tivesse roça, que deixasse de ter, ela tava derrubando.
[...]
Lyncoln: Trinta e poucos anos que ela..., que ela quem, a Aracruz?
Senhora: Hum?
Lyncoln: Ela quem?
Senhora: A Aracruz.
Lyncoln: A Aracruz...
Senhora: Aqui, aqui, né, em Itaunas, no município de Conceição da Barra, né. Quando eles começaram a passar, parece que o menino aqui tava pequeno, trinta e poucos, o menino aí. Ela sabe mais que ela tem a mente mais melhor do que eu [risos]. Então, aí ela entrou derrotando todo mundo, aí que veio as cercas, foi matando muita caça, né menino, precisava de ver. Tem um pessoal que uma vez nós fomos numa reunião na Barra que falaram que eles ficaram semana queimando aquelas braunona assim, botando óleo, gasolina, pra poder dar conta, pra poder [?]. É muito triste, né. E hoje em dia ninguém pode rancar um pau que..., que os pessoal da..., da ambiental tão em cima, né.
Bethânia: Eles vêm bastante aqui?
Senhora: Hum?
Bethânia: Vêm bastante por aqui?
Senhora: Eles passam aqui, passaram aqui, eu.., um dia eu falei com eles: "Vocês não têm direito de passar aqui dentro de propriedade de ninguém, meu filho, vocês vão me desculpar, heim. Vocês não têm direito, heim. Vocês têm direito de fazer suas vistorias lá por fora, pelos talhão da Aracruz". "É, a senhora tá certa, minha senhora". "Vocês não passem mais aqui não. Vocês vão passar aqui pra fazer o que?".
[...]
Bethânia: Mas o pessoal da ambiental isso?
Senhora: Ambiental. Vieram aqui, meu irmão tinha um gadinho ali, eles vieram aqui, né, eles tavam até onde tá aquele barreiro ali. Aí eles vieram, vinham, faziam as pessoas assinar, [assim era], eu que nunca assinei né. Aí foi que um dia eles veio, aí perguntou por ppppp: "Diz que aquele gadinho que tá ali é de ppppp", "É", "Cadê ele?", "Tá na roça, tá trabalhando, você quer que mande chamar?", "É, quero que mande chamar". Então vamos chamar. Aí veio, "Comadre aaaaa vai lá chamar ppppp que [?] quer falar com ele". Ele veio. Aí ppppp falou assim: "É o que?". Aí: "Ah, é um gado que tá ali". "Eles tão comendo eucalipto?", "Não.", "Eles tão quebrando trem dentro dos eucalipto?", "Não", "Então durante o tempo que eles não comerem os eucalipto, nem quebrar, eu não vou tirar o gado de lá, sabia. Foi eles que saíram, escapuliram, eles tão lá, eu não vou tirar [?]", "Ah, mas...", "Quando é os animais aí dessas pessoas de Itaunas, que além de vir pra, pro eucalipto e vem pra cá comer as roças da gente, ninguém tem..., tem..., ah, pune não. Agora quando é meus gado que vai prá ali. Eu não vou, não vou tirar de jeito nenhum, e nem vou...", aí eles pegaram o papel, "Você vai assinar", "Não vou assinar nada não. E de hoje em diante por favor vocês não passem mais por aqui", "Tá bom", e jogou o papel dentro do carro e foi embora. Também graças a Deus, ele nunca mais ele veio, nunca mais eles vieram. Quando foi o dia, nós tava numa missa ali, naquele galpão [...], nunca mais eles vieram perturbar. Ai, só vivia, só vivia aqui. [...]
Bethânia: Mas era o pessoal da polícia ambiental ou da Visel [empresa que faz vigilância para Aracruz Celulose]?
Senhora: Ah, era Visel. Não é da ambiental, não. É da Visel. A Visel que vinha aqui direto. A ambiental..., difícil eles passar aí, né. Agora a Visel, é, a Visel que ela perturbava.
[...]
Bethânia: [?] contavam histórias da época da escravidão?
Senhora: Contavam, ah...
Bethânia: Que que eles contavam?
Senhora: Eles contavam, minha filha, que era muito martirizado, né. As mulher que tinha filho eles botavam pra torrar farinha.
[...]
Senhora: [...] lá pra banda de lá, do Barão de Timbuí. [...] largavam o prato e iam carregar o prato na cabeça, coitadinhos. Eles fizeram até um sobradinho, minha mãe ainda estudou nesse sobradinho que tinha lá. Agora hoje em dia tá lá tudo devastado, é uns italianos que moram lá.
[...]
Senhora: É, do outro lado de lá do rio de Itaunas. O povo daqui diz que sofria muito, apanhava. Era martirizado, era..., os filhos não tinham...
[...]
Senhora: As mulheres não tinham direito, iam torrar farinha e os filhos não tinham direito de mamar, se mamavam diz que matavam. Diz que faziam muita coisa assim errada, né. Naquele tempo era muito sério, muito mesmo, apanhavam, botavam no tronco, né. [...] Então, era daquele jeito assim, o senhor era carregado nas redes... Então aí diz que traveiz teve um [?] desse Trancoso com um tal de... [demora pra lembrar], Tomé. Então, diz que ele foi em Itaunas, né, diz que chegou diz que lá topou um homem barbudo aí, diz que ele assim "Gente, você quer trabalhar na minha fazenda?". [?] "Na minha fazenda...", [...] aí disse que queria. Aí quando ele chegou diz que ele falou assim: "Olha, negro, aqui ninguém usa barba, não. Aqui só quem usa barba grande...", que era barbudão, diz que ele era barbudão, né, papai que contava, né, que o avô dele contava. "Agora você, fulano!" que era outro escravo lá, "Pega um facão bem cego que eu vou tirar a barba desse negro". Aí diz que tirou a barba...
Bethânia: Do Tomé?
Senhora: Do Tomé. Aí tirou a barba dele, cortada de facão, diz que cortou assim a garganta dele até. "Você me aguarde", aí, "Você me aguarde que...", tem até a volta do Tomé, né, [?]. Aí diz que quando foi um belo dia ele se arrumou, e mandou esse homem botá..., encher as canoas de farinha, e ele ficou lá..., na proa lá, na proa, bem lá, na popa, é popa... É na proa, é na proa, que a popa é atrás, né, onde os canoeiros ficavam remando, né. Aí diz que quando ele chegou nessa volta, menino, esse cara pegou uma arma ficou lá esperando, o Tomé, né. Aí diz que quando chegou na volta ele deitou fogo no... Aí ele disse assim "Volta, volta, que eu já sei quem foi, Tomé!". Aí Tomé..., aí diz que voltaram para casa e ele morreu, dizem, papai que contava assim, né!, não sei se era verdade. Aí ele morreu, aí ele..., botou as outras negrada em cima dele, né. Aí diz que ele correu, correu, chegou lá num oco, dizem, não sei não!, direito né, até que [?]. Aí chegou num oco e diz que ele entrou, aí fizeram assim, tinha um capitão-do-mato, né, como fala, né, "Ele entrou aqui, vamos botar o fogo [?]". Matou o senhor mas morreu.
Bethânia: E, mas esse Tomé era escravo também?
Senhora: O Tomé?
Bethânia: É.
Senhora: Era escravo! É, só que ele veio fugido de outro canto, né, [?], andá pelo mato, né, aí fazia um monte de dia que ele não fazia a barba dele né, aí ele ficou com aquele barbão, né, aí ele engraçou nele de trazer ele praí, praqui. Aí chegou aí ele disse "É, aqui negro não fica de barba grande, não. Quem fica de barba grande é só o senhor", que era ele, ele era o senhor, né. Aí diz que cortou com um facão cego que tá cortando o negro tá saindo água do olho, chorando, chorando, chorando. Também ele [?].
Bethânia: E eles contam..., contavam muita história de fuga de escravos?
[...]
Bethânia: E a senhora tava falando assim, que o pessoal saía de lá e vinha descansar nesses lados.
Senhora: Diz que era.
Bethânia: Como é que era?
Senhora: É que quando eles se viam apertado, atravessava o rio e vinha embora pra cá, pro..., pro..., por aqui, por tudo esses matos, né, só nos matos, né.
Bethânia: Quem?
Senhora: Os escravos. Os escravos, né, que vinham aqui descansar... Aí por isso que diz que é quilombo, porque aqui, atravessa aqui o..., a rodagem, aí essa estrada, né, até por lá diz que tinha [?].
[...]
Bethânia: E aqui vocês lavavam louça no córrego?
Senhora: É, tudo. Nós fazia tudo no córrego. E era uma água boa, menina. A gente pegava água até pra beber. Que era aquela água..., agora não! Agora tá aquela água assim poluída, aquela água feiosa. Até que esses dias aí pra trás tava bonito, tava clarinha, tava correndo, mas agora..., com essa seca..., tá uma água assim barrenta, aquela água feiosa, né. Aquela água linda, assim limpinha, corria direto, aquela água chegava, era amarelinha assim, vermelhinha assim, toda limpinha, né. Esses tempos depois do eucalipto danou tudo, secou rio, é cai esse..., aquela resina dos remédio que eles botam ai. Era só colocar. Ah, a Disa, a Disa soltou vinhoto né, soltou bastante, matou peixe, fez uma perdição nesse rio. Mas também a Aracruz ela só..., aqueles eucalipto ali quando tava pequenininho, ela botava veneno, pra matar, né, pra matar pra poder plantar outro, aí chovia, quando chovia o rio ficava com aquela nata feia assim, matava até os capim-açu, pocava aqueles capim-açu, atingia até os capim-açu, na beirada do rio, né, aqueles capim-açu, atingia tudinho. Aí dizia assim: "Não, isso não é só a Disa, não". É duas firmas que tá matando o rio: é a Disa, porque é a Disa que vinha aqueles fedor, vinha aqueles troço, fedor...
Bethânia: Aqui chegava o cheiro?
Senhora: Chegava. E matava os peixes. Aí os peixes morriam, aquele monte de peixe...
Lyncoln: Mas o cheiro vinha do rio?
Senhora: Vinha do rio! Vinha do rio aqui.
Lyncoln: Jogava lá em cima...
Senhora: Jogava lá em cima.
Lyncoln: E vinha descendo...
Senhora: Quando passava aí era um fedor. Aquele fedor lá da Disa passava aqui. Agora depois de muita reclamação, as pessoas falando, falando, só agora [?], é difícil, difícil mesmo jogar lá no rio...
Bethânia: Mas eles ainda jogam?
Senhora: Tanta reclamação, tanta reclamação. Minha irmã foi lá e brigou mais o prefeito, foi aquela brigaiada danada. E um bocado de gente brigou, faziam reclamação lá no parque, [...], eles pegavam a água e faziam análise e diz que não dava nada, mas era comprado por dinheiro, né, era ruim deles dizer, heim. Mas era a Disa mesmo, a Disa e a Aracruz, matavam era peixe, menina, peixe tanto... Cabô aquela vida boa, todo mundo tomava banho no rio. Uma vez a água ficou branquinha, branquinha, branquinha, branquinha, branquinha..., que você ficava apavorado que chegava no rio e você..., você via lá o meio do rio, ó, a gente ficava até com medo de vir um troço de lá, um peixe brabo de lá, [?] a gente ficava morrendo de medo. Aí, depois..., ficava aquela água escura, escura, escura, escura, escura, escura, escura... negro, chegava a ficar que parecia um café ralo. Agora, graças a Deus, faz um tempo, também com essa seca, né, eles podem até jogar veneno lá no..., não tá correndo, não tá correndo né, se chover aí vai tudo no rio... Aí depois já tava dando..., aí pra cima diz que tava dando até cegueira nas pessoas de tomar banho no rio. Aí nós dizia; "Não toma banho no rio, não, heim"...
Bethânia: Que que dizia?
Senhora: Cegueira.
Bethânia: Ah, cegueira.
Senhora: Cegueira. Então, dá, diz que deu cegueira nuns meninos aí, que foi a água do córrego, que tava afetada...
[...]
Senhora: É, não dá pra... Ficava aquele..., "Que negócio é esse?". Ainda bem que apareceu negócio de energia, né, aí puxa, aí fez poço, puxa água e a gente lava roupa aqui. Mas agora até que a gente tá lavando roupa, a água do rio tá suja, mas não tá assim não.
Bethânia: Tem gente que tá lavando no rio?
Senhora: Tem gente que tá lavando roupa direto por causo, né, dessa seca e a gente tá vendo que tá sem água, né. Aquele homem ali pra cima, eles tão lavando direto, louça. Eu também tava lavando louça. Aí a gente lavava louça e as louças ficava tudo assim, o bombril não corria não, sabe, aquele bombril ficava assim, pegando nas louças, não sei que produto eles botavam na água, na água lá do troço lá, que saía na... Aí agora, até que agora tá demorando a sair esses troço aí no rio. Aí a gente ia lavar roupa, mas passa uma água em casa, né, pra tirar aquele amarelão e..., a gente lava roupa, lava louça, as louças também não ficam bom, fica, não fica ótimo de ariar. E é assim, essa Aracruz trouxe tanto problema, a Aracruz e a Disa, tanto problema pra esse pessoal daqui, só Deus que botou nós pra resistir aqui.
[...]

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Zezito de Oliveira
 

Bethânia,
O tema é bastante pertinente e a forma como foi abordado também. o que faltou para ser melhor foram as fotos.

Abraços,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 26/1/2008 10:06
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Ilhandarilha
 

Só agora, entrando no seu perfil, é que vi isso aqui. Como é que isso passou batido?? Documento fantástico Bethânia! Acho que vale publicar novamente, heim.
beijos

Ilhandarilha · Vitória, ES 9/11/2008 23:16
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Spírito Santo
 

Bethânia,

Fantástico e raro documento. Você tem que publicar novamente e, como aqui ultimamente está sendo um sítio de gente bem distraída (destas coisas que você fala, pelo menos) convida um monte de gente pra votar. Eu até ajudo a convidar, se você quiser.
É revoltante que estas coisas aconteçam assim, sem que ninguém se importe muito. O Brasil tem sido uma terra de gente bem estúpida, ultimamente.
Na parte final me ocorreu uma analogia dramática: Você sabia que que aqueles personagens típicos dos cantadores de blues do sul dos Estados Unidos (o Ray Charles inclusive) são fruto da poluição do Rio Missisipe, logo depois do fim da escravidão? Foram milhares e milhares de meninos que ficaram cegos na época. A história é igualzinha!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 10/11/2008 07:18
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