Fui finalmente ver "Simonal – ninguém sabe o duro que eu dei". Já tinha ouvido muito falar no filme, primeiro pelo burburinho causado durante a produção, depois pela repercussão nos festivais e, finalmente, pelo boca a boca e pela cobertura da imprensa. A recepção no Rio tem sido boa, com cinema cheio e aplausos no final (na minha sessão foi assim), além da retomada das músicas do rei do suingue nas festinhas descoladas.
Legal. Sinal de que o gênero documentário ainda tem o poder de suscitar discussões e reavivar histórias esquecidas. O filme procura ir fundo nas entrevistas e na pesquisa para explicar a ascensão e queda de Simonal. E tem bastante coisa de tirar o chapéu. Listo algumas:
* As ótimas imagens raras, sobretudo do show que ele fez com Sarah Vaughan. As boas falas dos entrevistados, com as ótimas histórias de Simonal. A colagem dos depoimentos dá uma ótima noção do personagem cheio de contrastes e do crescente incômodo gerado por suas atitudes deslumbradas. Em gente da esquerda e da direita. Como dizia Tom Jobim, fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal. Destaque para a segunda esposa, Sandra, bastante emocionada e contando o final arrasador do cantor, vencido por uma cirrose e uma mágoa infinita. Nas palavras dela, ele sofreu “uma overdose de ostracismoâ€. Não poderia pensar em nenhuma definição melhor...
* A ótima arte nos detalhes do documentário, ilustrando passagens e pintando com cores e formas da época os discos, as coreografias e as frases sarcásticas do Ãdolo de multidões. Bonito de ver.
* A grande cartada do filme: o fato de fazer o que ninguém fez, que eu saiba (e que o documentário dá a entender): entrevistar o contador que foi o responsável, ainda que involuntário, por toda a derrocada da carreira de Simonal. Se você não viu o filme e não conhece a história, melhor parar de ler esse parágrafo por aqui. Mas como a história está aà na internet, nos livros e na memória de muita gente, não me culpo de contar: Simonal foi acusado de mandar dar uma surra no antigo empregado. Daà tudo degringolou: o sujeito acabou torturado no DOPS, Simonal acabou identificado com o Regime Militar e sua carreira de glória foi substituÃda por uns tempos no xadrez e um esquecimento compulsório. Uma bola de neve que se formou a partir de uma atitude estúpida, uma burrada colossal, fruto do deslumbre de poder.
Lembro do impacto que me causou a história do Simonal em 2004, quando fiz uma longa matéria no Jornal do Brasil a respeito da caixa de discos dele, que vinha acompanhada de um livro – por sorte, consegui encontrar a versão online da matéria (parte 1 e parte 2). O relato do biógrafo Ricardo Alexandre era forte e deixava a pulga atrás da orelha. Fiquei encantada com a voz do sujeito e muito intrigada com a história que daria um enredo de ópera.
O livro dava uma versão bem favorável a Simonal, pelo que eu lembre. No documentário, há uma certa rixa de opiniões entre os entrevistados, o que mostra que os diretores Cláudio Manoel (“Casseta e Planetaâ€), Micael Langer e Calvito Leal se preocuparam acertadamente em ir atrás de todas as versões e procuraram não levantar bandeira. De um lado, os filhos, Chico Anysio, Miele, Tony Tornado, Pelé, entre outros. De outro, Ziraldo e Jaguar, membros d'O Pasquim, o jornal que, como o filme dá a entender, foi um dos principais detonadores da pecha de alcaguete que passou a ser a sombra do ex-Ãdolo.
Dá para afirmar que a narrativa é praticamente conduzida por Chico Anysio e Nelson Motta. Este último dispensa explicação para quem conhece sua participação na cobertura da música brasileira, sobretudo daqueles tempos. Mas e Chico Anysio? Fiquei sem entender qual era a relação dele com Simonal. Devia ser muito próxima, porque ele conta vários episódios com detalhes. Da mesma forma que esses dois aparecem à beça, há muitas ausências sentidas (não por culpa dos diretores, que devem ter corrido atrás em vão): Jair Rodrigues (o único músico na foto que aparece do enterro); César Camargo Mariano, Jorge Benjor...
Do meio para o fim, entretanto, algo foi me causando estranheza. Parece que falta um pedaço. Vou tentar explicar. Como se esperava, Ziraldo e Jaguar se justificam do jeito que dá, o primeiro ligeiramente constrangido e o segundo tentando fazer piada ao ponto de dar um certo nojinho. Mas do lado de lá, entre os que hoje acham que Simonal foi um injustiçado, não ficou claro como eles agiram na época. Alguns falam com tanta veemência sobre “a cara de pau†de quem o acusava que o mais natural seria ouvi-los respondendo a pergunta óbvia: “E vocês, o que tentaram fazer para ajudá-lo?â€
Não estou querendo dizer com isso que eles necessariamente deveriam ter feito algo. Não entro neste mérito. Como vários entrevistados explicam, eram tempos difÃceis, maniqueÃstas, em que defender ou convidar alguém a subir ao palco poderia render represálias sérias. Ainda assim, senti falta deste questionamento, mesmo que ele seja incômodo e que possa gerar constrangimentos. O único a dar um depoimento completo sobre isso foi, quem diria, Paulo Moura (nunca vi esse sujeito falando tanto!). Ele usou uns 3 ou 4 adjetivos para explicar como agiu (ou não agiu) antes de usar o crucial - “covardeâ€. “Quem sabe fui até um pouco covardeâ€, a frase é algo assim, querendo dizer que acabou não chamando o colega para canjas ou afins por medo da repercussão negativa. Meio triste, mas bem honesto.
Para completar, um encerramento elegante dos filhos, tratando de dizer que não alimentam mágoa, mas que querem ver o renascimento musical do pai, a quem foi negado um capÃtulo na história da música brasileira. Sinal de novos tempos, sem polaridade, com nobreza – e acredito que com sinceridade.
O documentário chega em boa hora. Tempos em que a sociedade brasileira parece mais preparada para separar o artista do homem, a obra das atitudes, e até mesmo para questionar o patrulhamento a que Simonal foi submetido. Mesmo sem fechar a questão.
que relato legal, Helena! minha impressão foi muito próxima da sua.
mas pra além do que você assinala, teve um detalhe que me chamou a atenção: os cartuns do Henfil, que pra mim sempre foi um mártir intocável da liberdade, me causaram enorme desconforto. Que eu lembre são o único momento de escárnio aberto contra o Simonal, e isso com ele já caindo em desgraça. Mas também me pareceram racistas, em sintonia com a visão, apresentada por alguns no filme, de que um negro não poderia jamais fazer tanto sucesso em um paÃs racista, por isso tomou uma rasteira.
eram tempos maniqueÃstas sem dúvida. Da mesma forma que somos obrigados a relativizar a visão sobre o Simonal, o resultado pra mim foi que a imagem do Henfil sofreu uns arranhões.
Que coisa, Felipe... Aqueles cartoons pareceram fortes, é verdade, e entendo você ter parado para relativizar a admiração pelo Henfil. Mas justamente por serem tempos maniqueÃstas, acho que devemos dar um desconto... ou não... O importante é dar chance de admitir o erro, pedir desculpas, se retratar e compensar, né?
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 10/6/2009 20:17
Querida,
Minha vontade de ver este filme é imensa, mas as fraldas e funchicóreas não têm deixado muito tempo livre... AÃ, vou acompanhando a repercussão por textos como o seu.
Não sei bem qual seria o meu veredito dessa história (até hoje estive + antenado com o universo pasquineiro do que com o Nelsomotta e Chico Anysio), e aà é que mora minha curiosidade. Adoro a voz do Simonal, que timbre lindo!, mas nem todos os bebops descem macio.
E, ao mesmo tempo em que surgem "absolvições" e "mea-culpas" (uma uma carta recente do MPB4 Aquiles Rique Reis), há também os que se mantém firmes na opinião que é revista no filme - caso de Paulo Vanzolini.
De qualquer maneira, trazer a discussão à tona e propor que se ouça um artista calado a força já é uma proposta interessante.
Beijos com saudade.
Pepê, que bom te ver por aqui. Acho que a última coisa que devemos fazer é buscar "nosso veredito da história". Pouco adianta olhar pra situação com os olhos de hoje, o natural é achar tudo um tanto absurdo... Minha intenção foi criticar não as pessoas entrevistadas, mas o documentário em si, neste ponto. Achei que faltou fazer essa perguntinha incômoda, questionar o que afinal foi feito ou poderia ter sido feito por ele. Acho que a discussão teria sido mais profunda.
Adorei os links que deu, muito interessante o texto do Aquiles. Mas não consegui ver o vÃdeo do Paulo Vanzolini, que pena!
Salve ela!
Pois é, pois é... Entendo o que você diz quando o veredito é o que menos importa.
Mas não se trata de um julgamento, pesando prós e contras e chegando-se a uma conclusão. O que tentei dizer foi "o que meu coração vai sentir ao se deparar com essa história", com mais fatos e argumentos do que sei até hoje... Mais ou menos isso.
E segue minha curiosidade!
Beijão,
PP
PS: O que houve com o vÃdeo do Vanzolini? Não carregou aÃ?
Helena,
Bem bacana e supimpamente escrita esta tua resenha. Me lembro bem do fato na época e mesmo ficando revoltado ('alcaguete merece cacete' se dizia na época) com a suposta atitude do cara , nunca deixei de admirar o músico fantástico que ele foi.
A intelectualidade de esquerda na época do incidente tinha bem este comportamento arrogante e inquisitorial - bem odioso aliás - que alguém (não sei se foi o Cacá Diegues) chamou a certa altura de 'Patrulha Ideológica' (pimenta nos olhos dos outros...).
O tema chegou até a ser amplamente debatido mais adiante, servindo de base para o conceito 'Assassinato Cultural' (uma pressão pública de um certo grupo sobre um indivÃduo tido como praticante de atos polÃticamente incorretos, leva o cara ao ostracismo e por fim á morte aparentemente natural ou acidental) que é de certo modo o que fizeram com o Simonal'
Como não vi o filme ainda (mesmo já tendo sido quase intimado a ver por alguns amigos) depois te ler você decido: Vou correndo assistir.
Abs
Pois é, Pepê, é por aà mesmo. O coração diz algo quando se ouve essa história, difÃcil ficar indiferente. Não sei pq não consigo ver o vÃdeo, estranho... Fiquei curiosa para ver o Vanzolini falar disso.
Legal, SpÃrito, vá ver sim e depois conte o que achou. Sinto mesmo que não faz sentido ficar culpando um ou outro por isso tudo ter acontecido, foi um resultado de um conjunto de fatores. Mas que dá um nervoso em pensar que um monte de torturador foi anistiado e ele se ferrou totalmente, ah isso dá... É, mesmo, uma história que dá um filme.
O filme ainda não chegou por aqui. Mas estou curiosÃssima! A música do Simonal tem muito a ver com minha infância. Ele sumiu de tal maneira que fiquei muito surpresa quando soube de sua morte (eu achava que ele tinha morrido há anos!). Achei ótimo que o documentário trouxesse novamente à tona a figura de Simonal, que eu gosto muito. Assim que passar aqui vou correndo ver (se passar, né?).
Como não vi, não dá pra saber se concordo ou não com o que vc apontou como falha do documentário. A princÃpio, acho que qualquer documentário é, diferentemente do jornalismo, uma versão da história. O documentarista, por mais que assuma uma aparente posição de isenção jornalÃstica, recorta da história o que lhe interessa. Se ocorreu ou não essa falha (não terem feito a perguntinha incômoda), isso deve ser uma dica para o espectador interpretar a visão narrativa dos diretores. Nesse caso, me parece que, assim como os entrevistados no filme, os diretores também encontraram uma forma de fugir do incômodo que foi a ausência de defensores do Simonal, que contribuiu para o ostracismo do cara.
Parabéns pela crÃtica.
Ilha,
Convenhamos que, por mais isentos que sejamos, fica também o gosto amargo de saber que a omissão de uma maioria silenciosa de 'talvez meio covardes' (como Paulo Moura ao que parece se declara), talvez tenha sido o fator determinante para a 'overdose de ostracismo' que vitimou o Simonal.
Sei que é difÃcil, mas devÃamos todos evitar este tipo de comportamento omisso e 'em cima do muro' tão nocivo e tão...brasileiro.
Tão bonzinho o Simonal, não é? Tão simpático, humilde, nem um pouco arrogante. O único "deslize" do moço - que até mesmo o documentário tendencioso reconhece - foi mandar uns mastrodontes da pólÃcia dar uma surra no seu contador, que quase morreu. Coisa pouca, imagine se um artista fizesse uma delicadeza dessas hoje em dia - conservaria a admiração do seu público, não é mesmo? A culpa pelo ostracismo do moço é, evidentemente, da esquerda, desses jornalistas e cartunistas malvados que insistiam em combater a ditadura (mesmo sabendo que poderiam ser - como o foram - presos, correndo o risco de serem torturados pelos afáveis torturadores amiguinhos do doce Simonal).
Overdose de revisionismo conservador de um documentário preguiçoso em documentar as facilmente encontráveis fontes que provam sua colaboração, na nobre condição de dedo-duro, com um regime ditatorial sangrento, isso sim!
Oi Mauricio, tudo bem?
Então, como falei aà em cima, minha intenção ao escrever este texto não é tomar partido nessa discussão não. Nem tenho como fazer isso, porque não vivi aquela época. Minha intenção foi discutir o documentário mesmo e, inevitavelmente, ver a história com os olhos de hoje. Concordo que o documentário não é perfeito, tanto que escrevi o texto para falar isso. Mas, como diz a Ilha aà em cima, documentário não deixa de ser uma versão dos fatos. Quem sabe pinta outro contando a coisa de outra forma - e tomara mesmo que encontre provas, porque até agora essas provas não apareceram, pelo que dizem...
De qualquer forma, não vi ninguém sair do cinema achando o Simonal bonzinho não. Só vi gente amarradona com a bela voz que ele tinha e debatendo fortemente a história toda. Abraço
Relendo meu comentário, queria reescrever uma frase, que pode dar margem a interpretação errada: quando disse "tomara mesmo que encontre provas", quis dizer que as acusações sejam feitas com base em provas, e não apenas em suposições.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 12/6/2009 16:04
Oi, Helena,
Eu não quis de modo algum criticar o seu ótimo e equilibrado texto, mas o documentário.
O problema é que, num cinema relativamente pobre em recursos econômicos como o brasileiro - em que se contam nos dedos personagens que foram retratados em mais de um doc -, não é sempre que um documentário é "apenas uma versão dos fatos" - e este do Simonal particularmente não tem sido. E não tem sido porque a "grande mÃdia" - Rede Globo à frente - o tem instrumentalizado para uma campanha revisionista do perÃodo ditatorial.
Dela resulta um discurso que tem encontrado campo fértil junto à s novas gerações que desconhecem em detalhes o que ocorreu durante o perÃodo militar e que tem sido açulado e reproduzido, em diversos formatos e produtos, por uma mÃdia marcadamente conservadora (entre os inúmeros exemplos dessa operação incluem-se, por exemplo, o recente doc sobre Boilesen, a divulgação de ficha policial falsa de Dilma Roussef e o ataque aos professores Konder Comparato e Maria VCictoria Benevides pela Folha de São Paulo, etc.). Não se trata, evidentemente, de uma “coincidência†– há um objetivo polÃtico óbvio por trás disso, que é desconstruir a imagem heróica dos que lutaram contra a ditadura como forma de criar condições para enfraquecer e tornar mais crÃveis os ataques à candidatura das forças de esquerda na próxima eleição presidencial.
Veja bem, não estou insinuando com isso que o doc sobre Simonal foi feito com essa intenção – embora, sem a informação essencial sobre de onde vêm os recursos que o financiaram seja uma hipótese a considerar -; mas sim que ele está sendo utilizado, instrumentalizado para tais fins (Caso você tenha oportunidade e interesse, sugiro que leia a repercussão do doc sobre Simonal junto aos blogs e revistas associados à mÃdia corporativa e assista, por exemplo, ao programa “Saia Justa†que entrevistou o diretor para tomar contato com exemplos claros do que falo).
Quanto à s provas, elas existem, sim - e podem ser colhidas em diversas fontes e em órgãos públicos abertos ao público, o diretor do doc é que não quis mostrá-las. Vou dar apenas um exemplo - na minha opinião, o melhor disponÃvel sobre o assunto -, que contém em si várias referências sobre onde achar e quem entrevistar para obter as tais provas: trata-se de uma longa matéria investigativa, muito bem documentada, assinada pelo repórter Mario Magalhães (que tem em seu currÃculo a honra de ter sido defenestrado do cargo de ombudsman da Folha de São Paulo por conta de sua independência crÃtica). Intitula-se ""Juiz apontou cantor como informante" e foi publicada pela Folha de São Paulo em 26/06/2000, na pág. C7 (pode ser acessada por assinantes UOL ou Folha que se utilizem da ferramenta de busca de edições anteriores).
De qualquer modo - e independentemente de ele ter sido delator ou não, gostaria de registrar que, como cristão que sou e em nome dos filhos de Simonal - que são músicos criativos e gente boa - acho sinceramente que todos têm direito ao perdão, inclusive Simonal. Que os discos dele voltem a ser vendidos, que lancem filmes, livros e tudo o mais sobre ele, tudo bem.
O que me parece inaceitável é a instrumentalização (polÃtica, racial, historiográfica) que fazem do caso, a tentativa de utilizar a tragédia pessoal de Simonal para, de forma indisfarçável, reescrever a história colando a pecha de patrulheiros na esquerda, no afã de transformá-la em vilã do perÃodo ditatorial - operação esta que, como o demonstram alguns comentários ao seu texto, vem sendo parcialmente bem-sucedida.
Um abraço,
MaurÃcio.
Oi MaurÃcio,
Valeu pelo comentário e por compartilhar essa preocupação. Acho que isso deve ser discutido sim. Várias opiniões bem relevantes têm sido levantadas desde que o filme foi lançado (esta da Joyce, por exemplo). Só fico preocupada de acabarmos polarizando a conversa exatamente do jeito que era feito (me parece) décadas atrás... Tomara que isso não aconteça. Abraço!
Helena bom dia! Fiquei curiosa para ver o filme... E no final vc dá uma bela filosafada:
Tempos em que a sociedade brasileira parece mais preparada para separar o artista do homem, a obra das atitudes, e até mesmo para questionar ...
parabens
beijos
sinva
Cada cabeça uma sentença, dois pesos, duas medidas, firmeza de opinião porém com ponderação, é o que deve predominar sempre. Afirmar verdades absolutas dá sempre em erro crasso e arrependimento.
Algumas verdades, mesmo sendo relativas, precisam ser ditas, claro. Afinal é preciso contar com bons parâmetros para se ter opinião. Omissão e lei do silêncio sufoca e mata qualquer sociedade. O que não vale é tentar colocar panos quentes, nem à esquerda nem à direita.
Afinal, o que era a esquerda de ontem bem pode ser direita de hoje (embora eu desconfie que a direita de ontem continue a mesma de sempre, ocupando o mesmo lugar)
Helena, não và o documentário, mas já là e ouvi sobre ele, por isso não posso comentá-lo. Eu, particularmente, gostava muito do Simonal cantor, de suas músicas, de seu suing, mas abominava o Simonal como pessoa arrogante e pedante e esta minha aversão não tem nada a ver com ser negro ou quase negro ou lá que colorido seja. Eu preferia ouvÃ-lo, mas não vê-lo cantar na TV ou em shows.
Sobre o caso com o contador, já là e ouvi várias versões, prós e contra e não consegui formar uma opinião a respeito, exatamente pelas dificuldades que aquele tempo nos impingia. Assim, não acredito que esta pendência vá se resolver nunca, mas, sinceramente, torço para que isso possa acontecer. Imagino como deve ser difÃcil para a famÃlia dele viver com este peso ou pesadelo. Parabéns pelo texto.
Ivette G M
Todos nós achamos errados taÃs atitudes porem na vida fazemos escolhas entre elas boas e ruins, não importa, o que realmente relevante é o final de tudo..
Guilherme | Mudanças
Felipe Vaz,
Tinha lido no embalo, mas, só agora me dei conta daquela sua impressão ("...um negro não poderia jamais fazer tanto sucesso em um paÃs racista..") sobre o conteúdo racista dos cartoons do Henfil sobre o cara.
Realmente a impressão de que a nossa 'inteligentsia' era (ou é ainda?) racista foi muito ventilada no meio do movimento negro na ocasião. O papo estava no contexto do tal 'assassinato cultural' a que me referi lá em cima e se embasava na realidade norte americana na qual - é só a gente se lembrar - até a bem pouco tempo (até Michael Jackson, mais precisamente), super stars negros eram enxovalhados pela mÃdia até pirarem e irem quase à morte (em alguns casos à tiros).
Sim, eu acho que ocorreu também isto no caso do Simonal (embora isto não justifique suas eventuais más atitudes).
O epÃteto 'arrogante', neste e noutros casos, muitas vezes vem com esta antipatia racial embutida, (como naquela história que criminaliza o preto que 'não sabe onde é o seu lugar').
Tomara que tenha passado esta fase estúpida por aqui.
Helena, o teu artigo sobre o Simonal é muito bom, mas não irei ver o filme. Acho que o melhor tÃtulo pra ele seria: "Ninguém sabe o dedo-duro que dei". Não estou sendo original. A turma do Pasquim afirmou isto.
Mas e o Vanzolini, colocaram-no pra falar também? Sim, porque andou dizendo que o Simonal realmente se gabava de ter "entregue" alguém. A verdade é que o tÃtulo de um dos LP de Simonal me intrigava muito: "Quem não tem swing acaba com a boca cheia de formiga". Isso em 1968 dava pano pras mangas, não? Esse swing não seria a intimidade com o pessoal da repressão, já que se tratava de um ex-militar?
Artisticamente, eu não gostava do Simonal. Cantava pra aparecer e não pra interpretar com sentimento uma música. O EmÃlio Santiago, que tem o timbre de voz parecido, é bem melhor do que ele!
Como é que eu vou cobrar uma dÃvida de um particular e chamo logo agentes da repressão pra me ajudar? Pra fazer isso tem que ser Ãntimo, não?
pessoalmente, penso que ele não servia á ditadura
uma vez que ele não foi salvaguardado por ela quando houve
a denúncia. ao contrário, o regime, que proibia qualquer divulgação das práticas de tortura pela imprensa,
mostrou-se deveras interessado em expor simonal como detrator
e colaborddor da ditadura.
parece-me bem plausÃvel que o fator preponderante qual motivara esta ação dos milicos contra o artista tenha sido
o fato de que uma pessoa de origem humilde e negra
haja se tornado o cantor mais rico e popular do brasil em sua época, logo não puderam suportar tal fato.
parabéns por sua matéria, helena. gostei muito de como vc abordou o assunto a bem da verdade.
Salve, salve.
Completando uma postagem do MaurÃcio Caleiro, a esta altura alguns comentários acima, o jornalista Mário Magalhães fez nova matéria sobre o tema e publicou na Folha de ontem (21/06/09), intitulada "Simonal 3.540/72", linkado aqui, mas tem que ter senha (!!!).
O tÃtulo da matéria faz alusão ao número do processo no qual há a transcrição de um depoimento de Simonal ao Dops, no qual ele diz "cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artÃstico".
Sigo curioso para assistir ao documentário.
Abraços.
Caraca! Panos para mangas esta história do Simonal. São estes eventos que fazem a gente ficar com vontade de ser eterno, só pra ver qual versão da história prevaleceu e se tornou oficial.
Me ocorreu a história do cabo Calabar que ficou com o filme queimado em nossa história (oficial) porque se aliou aos holandeses traindo os...brasilerios. Ora, grande balela. Não éramos brasileireiros ainda. Portugal era sim o invasor da nossa terra, de certo modo o inimigo colonizador. Calabar (como a Rainha Jinga em Angola (mal comparando) teria feito uma opção estratégica, mas quem entende a coisa assim hoje em dia?
...Isto é, certo de que ninguém está aqui, ingenuamente relacionando "inimigo colonialista' do seculo 17 com ditadura militar do século 20, certo?
SpÃrito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2009 14:47Seguindo as trilhas dos links: Claudio Manoel comenta a reportagem da Folha.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2009 16:10
Guardando as devidas proporções, é irresistÃvel para mim a associação da morte de Michael Jackson com a história do Simonal. Vendo agora a cobertura na TV fico um pouco constrangido com a maneira como os feitos artÃsticos fantásticos desta artista absolutamente genial e único, vão sendo ofuscados, de forma bem mesquinha e sensacionalista, para os aspectos polêmicos de sua vida pessoal, a suposta pedofilia, as operações plásticas e, principalmente o seu desejo paranóico de se tornar branco. Ninguém parece se dar conta da pressão enorme que ele suportou desde a infância para, mesmo sendo negro - uma condição pessoal irreparável a qual ele jamais negou na prática - para mesmo assim, mover a tão voraz máquina da música mundial com tanta qualidade e personalidade. Acho que sua morte tão jovem - suicÃdio ou assassinato cultural, posto que as razões de todo o seu drama pessoal, direta ou indiretamente emergiram do racismo de nossa sociedade - é com certeza fruto desta pressão.
Dia triste para a cultura do mundo o de hoje.
SpÃrito, não sei se você se deu conta (talvez sim) que eles morreram no mesmo dia. Que coisa...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/6/2009 12:36
Oi pessoal, assisti ao filme apenas ontem e, ainda que extemporaneamente, venho deixar minha contribuição.
Primeiro, parabéns a Helena pelo artigo e a todos pela discussão. Salvo um ou outro destempero que é normal em paÃses sem tradição democrática, a discussão é de alto nÃvel. Legal, :-)
Deixo o link para ajudar a responder qual era a relação entre o Chico e o Simonal
http://www.nossajovemguarda.com.br/2013/05/simonal-e-chico-anysio-uma-dupla-que.html.
E observo que, não sei exatamente em quais circunstâncias, o cantor Belo amargou alguns anos na cadeia recentemente e continua bombado. Do que concluo que o Simonal pisou na bola e alguém (ou melhor, uma galera), pisou nele.
Hasta pronto!
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