Pacote de Shows Cancelados em São Luís

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Eduardo Júlio · São Luís, MA
18/8/2007 · 109 · 3
 

Uma misteriosa e desagradável prática tem ocorrido com uma certa freqüência na vida cultural de São Luís. Nos últimos dois anos vários shows foram anunciados e “na hora h” cancelados, por motivos diversos, geralmente não cumprimento do contrato pelos produtores locais. A maioria das apresentações foi de rock e reggae, de renomados artistas nacionais e estrangeiros. Só nos últimos nove meses foram quatro: Nação Zumbi (novembro), Ponto de Equilíbrio (janeiro), Eric Donaldson (julho) e Andrew Tosh (julho). Os dois últimos não aconteceram por absoluta falta de público, apesar da cidade ser considerada a “Jamaica Brasileira”.

Por este motivo, a credibilidade do público em relação às produções de eventos do gênero em São Luís vem sendo abalada. Mas o problema não é de hoje, não somente cancelamentos como produções mal realizadas têm sido constantes. Eu mesmo testemunhei várias apresentações “inacreditáveis”. Por isso, fiz um levantamento histórico dos principais shows que não deram certo, por uma razão ou outra nas últimas décadas, na capital maranhense. Amadorismo, falta de profissionalismo ou puro azar. Tire as conclusões. Os nomes dos produtores foram omitidos para evitar conflitos. A idéia foi relatar os fatos, sob o ponto de vista da história cultural.

ANOS 80

O primeiro importante show cancelado em São Luís, que eu consigo lembrar, aconteceu na década de 80. Em meados de 1988, o cantor Cazuza se apresentaria no galpão do Espaço Cultural, na época, o principal espaço de shows da cidade. Ele tinha lançado o disco “Ideologia” e estava no auge da carreira. No entanto, o país ainda não sabia que o poeta do rock estava com a saúde muito debilitada em decorrência da AIDS.

O cancelamento da apresentação foi anunciado com uma semana de antecedência, numa chamada televisiva feita pela produção local. Naquela mesma fatídica semana, o cantor “revelaria” ao Brasil - com direito à apresentação no Fantástico ao lado de Sandra de Sá - que estava bastante doente. O motivo do cancelamento do show de Cazuza, portanto, foi justo, apesar de uma legião de fãs ter ficado “a ver navios” para sempre. É importante lembrar que a única vez que ele esteve em São Luís foi em 1984, ainda com o Barão Vermelho, dos tempos de “Pro Dia Nascer Feliz”.

90
Nos anos 90, com a definitiva ascensão do reggae em São Luís, tendo a cidade passado a ser conhecida como “Jamaica brasileira”, apresentações de antigos astros jamaicanos na ilha se tornaram rotineiras, mas ao mesmo tempo viraram sinônimo de shows mal produzidos e duvidosos. Alguns chegavam a atrasar mais de cinco horas ou simplesmente não aconteciam.

O primeiro evento do gênero foi logo apresentando inúmeros problemas de organização. A história toda renderia um livro ou um longa metragem. Mas como o nosso espaço precisa de limite, vamos resumir o episódio. Em 1991, subiu ao palco do Estádio Nhozinho Santos (o segundo da cidade, que estava completamente lotado), o cantor Gregory Isaccs, com direito a um atraso de mais de três horas e playback de fita K7.

O cantor foi trazido da Jamaica para São Luís num jatinho fretado especialmente para este fim. Chegou de madrugada, quando o horário do show já estava extrapolado, tendo seguido direto para o estádio. Como o cantor não trouxe os integrantes de sua banda, no local, os produtores armaram um verdadeiro disfarce teatral, digno das piores comédias. Ele subiu no palco com integrantes de uma obscura banda de reggae da Guiana, Universal Youth - que na época passava uma temporada em São Luís - para simular uma performance, sob uma forte fumaça de gelo seco.

O problema foi que a fita K7 do playback tinha sido gravada especialmente para as radiolas (os sound systems locais) e estava cheia das famosas paradinhas “toca de novo”. Não houve tumulto, mas ao perceber a farsa, o público começou a vaiar incessantemente o cantor. Na terceira música com a paradinha que entregava o “crime”, não deu mais para continuar.

Gregory Isaccs ainda permaneceu em São Luís por mais alguns dias, tendo realizado mais dois shows. Somente o terceiro deu certo. No intervalo dos eventos, chegou a ser preso pela Polícia Federal, acusado de forma injusta, de que não teria pago o hotel onde estava hospedado. Mais tarde, o cantor jamaicano ainda voltaria a São Luís em outras ocasiões. Inclusive, no último mês de julho ele se apresentou por aqui com total sucesso.

Dois anos depois, outra das lendas do reggae, Dennis Brown, hoje falecido, estava em turnê no Brasil, tendo passado de forma pomposa por Curitiba e São Paulo. Aproveitando a estadia no país, ele se apresentou na cidade numa noite de sábado, no Espaço Cultural. O show estava marcado para às 21h, mas o cantor foi subir somente às 4h da madrugada, para um público de pouco mais de 50 pessoas. Aliás, naquela altura o portão já estava liberado. Eu fui um dos poucos resistentes que testemunhou o cantor executar nove músicas.

Outro evento fracassado com astros do ritmo jamaicano foi o show de Julian Marley, um dos filhos de Bob Marley, que aconteceria em 1994, num ensolarado domingo, numa arena na Praia do Calhau, uma das mais movimentadas de São Luís. A festa estava marcada para começar às 17h. Por volta das 21h foi anunciado ao público jovem e bronzeado, que o cantor não se apresentaria mais. Eu estava lá também. Detalhe: quem comprou o ingresso teve o dinheiro devolvido. O motivo da ausência de Julian Marley nunca foi revelado.

2000
A mais recente onda de shows cancelados sem aviso prévio começou de fato com a lendária apresentação da banda de rock Sepultura, que aconteceria na Associação Atlética do Banco do Brasil, localizada no bairro da Ponta do Farol, na área litorânea de São Luís. O ano era 1999 e o show foi marcado para uma noite de sábado. Por falta de pagamento de uma mesa de som adequada para a grandiosa sonoridade da banda, o grupo seguiu para Belém, onde se apresentaria no dia seguinte.

O anúncio do cancelamento “em cima da hora” rendeu matéria numa TV local. No entanto, centenas de jovens desavisados, religiosamente vestidos com camisetas pretas, tomaram as redondezas da Ponta do Farol, desde o período da tarde. A loja, que era ponto de venda dos ingressos, devolveu o dinheiro de quem comprou o bilhete. O nome do produtor ficaria muito conhecido posteriormente, por causa dos shows anunciados que não deram certo.

Seis anos depois, como principal atração de uma festa rave, a banda Nação Zumbi tocaria pela primeira vez em São Luís, oito anos após a morte de Chico Science. A data era 3 de dezembro de 2005, mas o grupo nem chegou à cidade. Quem comprou o ingresso teve que se satisfazer com a festa eletrônica e com uma atração local.
Não houve desconto no valor do bilhete, apesar da ausência da principal atração. Segundo a produção local, a banda pernambucana, de quilate internacional, teria perdido o avião... Um ano depois, a produtora da Nação Zumbi informou que a organização local nunca comprou as passagens, apesar de ter pago o cachê, o que impossibilitou a vinda do grupo.

No mês de abril de 2006, o cantor de reggae Alpha Blondy, apresentou-se em São Luís, no espaço intitulado Arena Roots, no Calhau. Além do africano, subiram ao palco a banda paulista Planta e Raiz, o cearense Andread Jó e o grupo Kazamata, de São Luís. Anunciado para as 23h, o show da atração principal só foi começar às 4h da madrugada, sob um forte temporal. O público exausto e encharcado teve que se contentar com a execução de apenas seis músicas do artista da Costa do Marfim. É importante lembrar que este evento foi um dos vários shows de reggae realizados ano passado, na época das fortes chuvas, em espaços descobertos. E São Pedro não colaborou em nenhum deles.

Outro exemplo de produção fracassada foi o show da banda Tribo de Jah, que tocaria na Arena de Beach Soccer, da Lagoa da Jansen, num domingo, no final do mês de julho. Por falta de um documento que liberaria o local do show para o evento, o começo da apresentação foi atrasado por várias horas, o que culminou com a desistência da banda. O grande público que compareceu ao local só foi saber da ausência da Tribo de Jah por volta da meia-noite. A produção devolveu os ingressos.

Ainda em 2006, no mês de setembro teve a dobradinha da banda Sepultura, que foi anunciada novamente para um evento batizado de Sepulfest que aconteceria num grande espaço, no bairro do Cohafuma. Organizada pela mesma produção do show anterior da banda e pela apresentação da Nação Zumbi, o evento que aconteceria na mesma semana em Teresina, São Luís e Belém foi abortado. Vale ressaltar que a mesma produção era responsável pelas apresentações nas três capitais. Segundo testemunhas, o ingresso que custou R$ 25 nunca foi devolvido para quem comprou de forma antecipada.

Para fechar o ano, no dia 3 de novembro, teve outra dobradinha, desta vez do grupo Nação Zumbi, também sob a responsabilidade da produção anterior. A banda novamente nem aportou na capital maranhense, pela mesma razão anterior: não foram compradas as passagens do grupo. Para piorar, o cancelamento não foi informado de forma prévia e muita gente se deslocou até a área do evento, que aconteceria no espaço de uma associação, no bairro litorâneo da Ponta D’Areia. Segundo testemunhas, somente aqueles que foram prestar queixa na delegacia central da cidade tiveram o valor do ingresso ressarcido pela organização.

Fora desse contexto, como exemplo de imprevisto e de boa conduta da produção local, vale lembrar do cancelamento do show da cantora Maria Rita, filha de Elis Regina, que se apresentaria em São Luís, em 2004, como parte da turnê do primeiro disco dela. Um dia antes do evento, Maria Rita, que estava grávida, apresentou problemas de saúde e não pode chegar a São Luís. A notícia pegou de surpresa o produtor, que foi pessoalmente para a porta do ginásio prestar esclarecimentos ao público. O dinheiro de quem comprou o ingresso antecipado foi devolvido.

ANOS 70
Mas há registros de shows cancelados também nos longínquos anos 70. A informação veio através do cantor e compositor Chico Saldanha, 59, que faz parte da geração de artistas locais que despontou naquela década. Portanto, não é de hoje que alguns eventos de música deixam de acontecer “na hora h” ou carecem de comprometimento e responsabilidade.

O primeiro episódio que ele lembrou foi uma apresentação de Caetano Veloso, marcada para uma certa noite de sábado, entre o final dos anos 60 ou começo dos 70, no Ginásio Charles Moritz, do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Praça Deodoro, área central de São Luís.

Na época, o movimento tropicalista estava no auge e Caetano Veloso era um dos responsáveis pela transformação que ocorria na musicalidade brasileira. Ele já tinha alcançado fama em todo o país também porque participava de um programa de TV chamado “Esta Noite se Improvisa”, no qual sempre ganhava a disputa com outros artistas.

Segundo Chico Saldanha, o ginásio estava completamente lotado e a expectativa do público era grande para ver um dos articuladores da Tropicália cantar “Alegria, Alegria”. “De repente apareceu um cidadão no palco, informando o cancelamento do show, porque Caetano Veloso teria passado mal, estando internado naquele momento no Hospital Português”, lembrou Saldanha.

Ele acrescentou que o público ficou perplexo e de certo modo comovido com a situação do artista, o que encobriu temporariamente a má fé da produção. No entanto, um dia depois, o produtor teria sido preso no município de Bacabal, interior do Maranhão, com uma mala cheia de dinheiro. Mesmo assim, ninguém teve o ingresso ressarcido. “Sabe-se que Caetano Veloso estava, de fato, em São Luís. Mas a verdade nunca veio à tona. Os jornais chegaram a divulgar o ocorrido, mas logo este episódio caiu no esquecimento”, completou.

Caetano Veloso voltou a São Luís outras vezes, com absoluto sucesso. Inclusive, a mais recente vinda do baiano por aqui aconteceu em abril deste ano.

Outro caso famoso foi o show de Milton Nascimento que ocorreria no Teatro Arthur Azevedo, numa sexta-feira do ano de 1978. O cantor mineiro estava em turnê pelo Brasil, divulgando o antológico disco “Clube da Esquina nº 2”, considerado um dos melhores registros da carreira dele. O público também depositava expectativa na banda do artista que devia contar com nomes como Wagner Tiso, Toninho Horta, entre outros. “Desta vez o público foi informado do cancelamento ainda no horário da tarde e o dinheiro dos ingressos, pelo menos, foi devolvido”, afirmou Chico Saldanha.
No entanto, como sempre acontece, a verdadeira razão do cancelamento nunca foi explicada. Para piorar, Milton Nascimento jamais voltou a se apresentar em São Luís.

Por último tem uma curiosa performance protagonizada pelo pianista erudito Arthur Moreira Lima, no Teatro Arthur Azevedo, principal de São Luís. A data é incerta, mas sabe-se que ocorreu nos idos dos anos 80. Naquele momento perdido na história, estava marcado um concerto solo do músico no TAA, mas por razoes nunca explicadas, na hora da apresentação, Arthur Moreira Lima subiu no palco com uma bandeira do Brasil. Sentou no piano e tocou somente alguns acordes do Hino Nacional, retirando-se em seguida, não retornando mais. “Provavelmente deve ter ocorrido um desacordo de contrato”, observou Saldanha.



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collapse
 

Bom, para aqueles que lerem esse comentário...
O produtor dos shows da Nação Zumbi cancelados em São Luís é um funcionário de uma TV Local, tem um bar ou casa de shows para o público Underground próximo à REFFSA e quando o vi, saindo de seu bar durante o dia, estava em uma S10 cabine dupla, pelo que entendi ao ver, completa...
Quando aos ingressos não reembolsados na último show cancelado da banda é a mais pura verdade, inclusive os meus andam dentro da minha carteira para que eu possa esfregar na cara do referido safado e exigir o seu pagamento.

Existe um outro show agendado para o mês de outubro aqui em São Luís e espero eu que não seja do mesmo, pois acredito que as pessoas lembrarão do episódio em que houve a chegada de uma viatura policial depois de um início de quebra-quebra na associação onde iria acontecer o evento, que diga-se de passagem: o irresponsável não fez contrato com o presidente da associação ou demais membros da administração da mesma e sim com o caseiro que não avisou nada aos patrões e teve a sua demissão assinada na mesma madrugada.

Espero, como consumidor local e da música que nos oferecem e não entregam, que não haja mais eventos aqui desenvolvidos pelo mesmo referido e inescrupuloso produtor, pois incitarei todos a fazerem uso de seu bem mais precioso, a sua honra, para não prestigiar quem não nos honra em nada.

collapse · São Luís, MA 1/10/2007 13:10
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Natacha Maranhão
 

Eduardo, o cancelamento do show do Sepultura deixou desapontados não só os headbangers de São Luís. Daqui de Teresina saíram dois ou três ônibus fretados, e muita, muita gente foi de carro também.
A (ex) banda do meu marido ia abrir o show e foi uma grande decepção pra todo mundo.
Gostei do seu texto...

Natacha Maranhão · Teresina, PI 26/1/2008 12:02
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Eduardo Júlio
 

Olá Natacha,

Soube disso também, mas como não tinha detalhes, evitei colocar no texto. No mais, obrigado pelo comentário.

Abraços,

Eduardo

Eduardo Júlio · São Luís, MA 27/1/2008 16:50
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