O problema se repete por todos os Estados, provavelmente. Talvez São Paulo fuja um pouco à regra, já que possui o interior desenvolvido economicamente e, conseqüentemente, culturalmente. Mas se pode afirmar sem muito erro: o interior do país sofre de uma invisibilidade cultural, quando comparado aos centros, às capitais. Daniel Valentim já tratou do mesmo assunto aqui no Overmundo, quando escreveu a respeito do contexto manaura.
Pessoalmente, eu senti essa diferença por ter nascido e vivido boa parte da minha vida numa cidade do interior. Não tão pequena, é verdade, mas infinitamente menos interessante do ponto de vista de acontecimentos e opções culturais, quando comparada à Belo Horizonte. Itabira, uma cidade localizada à 100 km da capital mineira, mesmo com a proximidade da capital, não goza de uma vida cultural rica, pelo contrário. É a cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade, um dos nossos maiores poetas e, sim, realmente existe uma certa tradição cultural no município. Penso que ouvir um jovem falar “não há nada de muito interessante para se fazer nessa cidade” seja um fato comum a várias cidades do interior desse país.
“Essas cidades (do interior) vivem o problema de isolamento cultural. A produção cultural existente acaba ficando fraca por falta de incentivo e público nos municípios. A cultura, em geral, é relevada a um 2º plano. A necessidade de uma mobilização da cultura no Sul de Minas vai fortalecer nossa identidade, criar a visibilidade para os produtores culturais e nos possibilitar a criação de projetos maiores e ousados”, esse é o retrato que faz Emanoel Gusmão.
Desde o ano passado, ele tem tentado unir forças ao redor do chamado Pacto Cultural do Sul de Minas. O objetivo prático é um: atrair atenção para a região. Mostrar que lá se produz, mas que a necessidade por incentivos é grande. Exemplifica: “Em Ouro Fino, o grupo de teatro ficou ensaiando e montando por 5 meses a peça de teatro ‘O exorcista’, adaptado por Vitor Góes. A peça teve 3 apresentações sucessíveis em Ouro Fino, com grande sucesso e parou por falta de condições de se apresentar em outra cidade (falta de contato, problemas financeiros, etc.). Ou seja, os produtores culturais vão desistindo de seus sonhos e seus projetos.”
O problema de concentração do apoio cultural é tão grande que existe um projeto para que Minas Gerais tenha sua Lei de Incentivo à Cultura regionalizada. O Projeto de Lei nº 2880/05 busca distribuir melhor os recursos financeiros, ao dividir o estado em dez regiões. Com isso pretende-se atingir os projetos de municípios menores, como é o caso de Ouro Fino e a sua companhia de teatro.
Para clarear um pouco mais. Imagine a periferia da periferia. Se podemos considerar Belo Horizonte como a periferia do eixo Rio-São Paulo no que diz respeito aos investimentos culturais (quase 80% se concentram no dois estados), o interior de Minas Gerais é a periferia de Belo Horizonte (a capital mineira chega a concentrar 75% dos investimentos). É a migalha da migalha.
Há algumas explicações, é claro. A primeira delas é que a maior parte das empresas patrocinadoras e participantes da lei de incentivo está na capital e, portanto, acaba procurando apoiar financeiramente os projetos que aqui se encontram. A lógica é: o investimento vai onde está o consumidor.
Mas há outra causa para esse problema apontada pelo texto do Projeto de Lei da Deputada Elisa Costa (PT). “No período de 1998 a 2002, a região Central concentrou 78,5% dos projetos apresentados”. Ou seja, o interior do estado deve demandar mais, apresentar mais propostas. E é nesse sentido que entra o Pacto Cultural: de organizar e coordenar os trabalhos dos produtores culturais do Sul de Minas Gerais e, assim, se tornar mais forte e interessante aos olhos de quem investe em cultura no Brasil.
Entre em contato:
pactodecultura@hotmail.com / mdegusmao@hotmail.com
o texto propõe um debate mais geral para o Overmundo: ainda temos aqui no site uma participação muito maior das capitais - nosso objetivo principal no momento é a interiorização... mas o pessoal do interior tem também que querer tornar suas culturas visíveis, não é? por isso seria bom ver mais colaborações dos municípios do pacto por aqui!
mas quando eu escuto reclamações de falta de apoio e incentivo, sempre me lembro do mangue: todo mundo adorava dizer que no Recife não acontecia nada... a galera se juntou e fez alguma coisa: e deu no que deu...
Olha, muito legal o que seu texto propõe. Entretanto, acho que essa desentralização deva acontecer, também, nas próprias capitais. Moro numa cidade que se orgulha de realizar um dos maiores são joão do mundo.......uma festa enorme com atrações repetidas ano-após-ano, que obriga as pessoas a se deslocarem de suas comunidades, gastos, transporte coletivo..........os "grandes espetáculos" passam por aqui, muito com apoio do Estado, mas os grupos locais! a cultura produzida aqui, na sala, essa, meu querido, está desaparecendo.
Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 16/10/2006 20:45
Tem razão, Hermano. Acho que apesar de tudo e de toda a falta de grana, as coisas continuam acontecendo, o que me faz pensar também que quem se interessa mesmo faz com ou sem recursos. É bom lembrar também que "quem não chora não mama", então é claro que essas reivindicações do interior são mais do que legítimas. Em uma das últimas edições da Carta Capital eu li uma matéria sobre um debate que o Gil participou em que alguns dados sobre investimento em cultura no país foram apresentados: o investimento feito por empresas privadas por meio das leis de incentivo fiscal foi o dobro do que foi feito pelo governo federal (cerca de 600 e 300 milhões de reais respectivamente). Não achei um link para o texto e talvez tenha algum erro nos dados, mas acho que serve para dar uma idéia da importância do investimento privado em cultura hoje no país...
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 17/10/2006 08:36
Acredito que a descentralização da cultura, só será possivel com a união de esforços e principalmente de maior investimento em formação de produtores e apoio financeiro para projetos no interior. Surge então a grande questão: como atrair investimentos para projetos que, inicialmente, não irão gerar grande retorno de midia para os potênciais patrocinadores ?
A resposta talvez se encontre na opção de realização de projetos regionais, que envolveriam algumas cidades vizinhas entre si, aumentando assim sua vizibilidade e consequente aumento de retorno para os patrocinadores.
Existe também o recem lançado Fundo Estadual de Cultura, que promete, em algumas áreas, 70% de investimentos para projetos do interior.
Resta-nos então prosseguir lutando para a implantação do Pacto de Cultura, vizando conseguir uma maior representatividade junto aos órgãos Públicos de Cultura e um maior atrativo em termos de "mercado", para os patrocinadores, sempre levando-se em conta o resgate e a valorização de nossa cultura do interior.
Acaba de entrar na fila de edição do overblog uma colaboração que fala justamente da produção cinematográfica no interior paulista - tá aqui
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 17/10/2006 14:32
A cultura do interior geralmente é uma cultura que fica restrita a própria cidade, sendo muita vezes ignorada pela mídia televisiva e as vezes até massacrada, levando-se inclusive a perda de sua identidade.
O produtor cultural do interior não dispõe de espaço para exposição e realização de suas idéias.
A unica forma de defesa possivel, seria o Pacto de União Cultural, onde várias cidades e seus produtores culturais pudessem trabalhar juntos, criando novos mecanismos de divulgação, expressão e de contato com o público.
mas o Overmundo tem objetivo de ser espaço para "exposição e realização" das idéias de todos os produtores culturais do interior... sei que não se compara ainda à tal mídia televisiva... mas até que estamos crescendo...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/10/2006 18:33
Passei a vida em uma cidade pequena e sei bem como é esse isolamento em relação ao mundo. Se faltam incentivos, a escassez de iniciativas dentro das próprias cidades também preocupa. Ver uma perspectivade mudança é um alento para dias melhores.
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 17/10/2006 20:43
Existe uma proposta do Minc, a ser votada, que destinaria 2% da receita federal à cultura dos estados; por conseguinte, os estados repassariam 1,5% para os municípios e os municípios 0,5% aos fundos de investimentos culturais municipais.
É uma cadeia cultural que já está se estabelecendo aqui em MS.
Os municipios do interior só recebem repasses se tiverem o Fundo de Investimento e o Conselho de Cultura estabelecidos.
Falta que essa iniciativa do Minc tenha êxito!!
Acho que os mecanismos governamentais podem ser, sem dúvida, um incentivo para que essa corrente dê certo. Mas é fundamental também que os artistas se organizem, que criem uma cena, para que o dinheiro seja bem investido e não simplesmente desapareça. O espaço cubo é um bom exemplo de organização e investimento.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 19/10/2006 11:20
Oi Sérgio, curioso você ser justamente de Minas. Sou de família mineira e sempre achei o interior do estado riquíssimo culturalmente, em comparação com a capital. Talvez não em termos de produção. Mas pegue o Festival de Inverno de Ouro Preto, festivais em Mariana, Tiradentes. As cidades históricas atraem gente de muitos cantos. Minas é um estado que só pode ser pensado em sua totalidade - sua força não é associada a BH. Acho fundamental o alerta em relação ao destino dos recursos, mas questionaria a questão sobre quão interessante são os acontecimentos culturais das cidades.
Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2006 16:32
Ei Oona. Você tem toda razão. è injustiça minha falar que no interior de MG não tem nada. Tem sim, concordo. Os festivais de inverno são, em boa parte, ricos em atrações e público. Os carnavais também são bem famosos. Mas eu acho que se resume a isso, fora um festival de jazz ali e outro de teatro lá. Tenho amigos nessas cidades históricas todas e todo mundo concorda: o finais de semana "normais" não têm absolutamente nada na cidade. Fica todo mundo aguardando os feriados e férias para que a cidade fique movimentada. Mas aí entra outra coisa que é o fato de que boa parte dos jovens dessas cidades residem em BH, e só voltam para as suas cidades nessas épocas. Não sei se isso pode ser uma relação direta.
Eu acho que cidades como Mariana, Ouro Preto, São João Del-Rei têm a "sorte" de fazerem parte do circuito de cidades históricas. Quem tá fora desse circuito sofre ou sofria de uma invisibilidade tremenda. Tem mudado um pouco com o circuito da Estrada Real que tem levado investimentos a algumas outras cidades. Não tô querendo resumir esse problema a falta de investimento, de jeito nenhum! Eu acho que tem público e que tem lugar para acontecer.
A questão então seria como atrair o financiamento privado (que é mais vasto que o governamental) para produções culturais locais?
Itabira tem a Vale do rio doce. Ela não investe na cultura local?
Não deveria haver uma demanda da população? Há essa demanda?
Acho que, no fim das contas, os primeiros passos devem ser dados pela população mesmo. Responsabilidade social da empresa e aquele papo todo.
Mario, pelo que sei a Vale do Rio Doce preferencialmente contempla projetos a serem desenvolvidos nas cidades onde está instalada uma de suas unidades, ou seja, investe na cultura das regiões onde atua. E os projetos podem ser encaminhados a qualquer época do ano.
Cabe à população, produtores culturais apresentar propostas que visem isso.
Tânia, a CVRD foi fundada em Itabira, em 1942. A mina do cauê era, à época, uma das maiores do mundo. Enfim, tem uma longa história na relação da empresa com a cidade. Uma relação nada fácil, posso dizer porque conheço a história in loco.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 21/10/2006 03:44
Tânia, essa era exatamente meu ponto.
O que falta é iniciativa?
Se Itabira tem uma grande empresa que investe em cultura na sua região de atuação e Itabira tem uma vida cultural ruim, como afirma o Sérgio, a cidade não tem é quem tome a frente dos projetos?
Será que é assim em outras cidades?
Mas o que é cultura?
Tenho 36 anos de interior de Minas e já morei em muitas cidades pequenas no sul de Minas, Vertentes, Centro Oeste, Centro, Zona da Mata, sempre vi o interior esbanjar cultura: artesanato, folias, congados, cantadores, violeiros, contadores...
Falta a classe média e ilustrada valorizar a cultura local, falta recurso e visibilidade e sobra preconceito, e cultura televisiva. Faltam boas escolas, universidades, cinema e teatro, falta cultura erudita e falta princialmente profissionais bem formados que assumam a produção da cultura local, porque todo mundo que tem um "pezinho" vai pra cidade grande, se forma, arruma emprego e não volta, aí, quem fica tem que virar herói porque a demanda e o trabalho é grande, mas tem pouca gente que pega no pesado. Quando a gente faz projeto, e a gente faz e consegue recurso, tem que fazer de tudo: contabilidade, gestão, fotografia, espetáculo, pesquisa, literatura. Pra fazer acontecer temos que carregar caixa de som, apresentar o espetáculo, fazer o espetáculo, fazer a divulgação, fotografar e prestar conta, tudo sozinho (ou com equipes pequenas). A pergunta é: porque os caras bacanas que tem informação e qualificação não se arriscam e voltam para o interior a fim de ajudar e valorizar o local?
existe o preconceito que associa sempre a cultura do interior com a "tradição", sempre com um certo distanciamento do que é "moderno" e está nas capitais. A tradição realmente é bem forte no interior, mas esse preconceito tem que, pelo menos, diminuir.
na própria época do "mangue", choviam bandas que se aproveitavam dessa tal "tradição" pra tentar faturar um pedacinho de fama. Cara metia um tambor na formação e achava que tava "tocando mangue", ou sempre usava um discurso ensaiado de "mistura de ritmos" ou coisa parecida.
Digo "preconceito" porque a partir do momento em que as pessoas se distanciam, então a coisa tá formada. E acho que o Pacto pode ajudar nesse sentido, de quebrar essa barreira e dar o devido valor à cultura do interior, de uma forma que não a considere como mais um atrativo "exótico", como muitos projetos fazem.
abraços,
por falar em tradição: como anda o metal lá em Surubim, PE? Alguém pode escrever um texto aqui sobre a cena de lá? Hanagorik!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/10/2006 01:24
Hermano, acho que vc falou muito bem. Eu moro numa cidade no interior do Japao. (Digo interior, mas eh uma capital do porte de Campo Grande, no MS.) Aqui eu sinto muita falta dos acontecimentos possiveis em cidades como Tokyo, Osaka e Nagoya. Obvio que, pela caracteristica da cidade, nao vai haver aqui os mesmos aparelhos culturais que existem nas capitais maiores. No entanto, alguns diferenciais apontam o que pode ser implantado no Brasil (e creio que ja existem experiencias nesse sentido): em primeiro lugar, a escola poderia estar mais abertas a experiencias de producao de arte. Sim, pq nao? Pq a escola ainda limita o papel da educacao artistica a produzir lembrancinha para as maes no Segundo Domingo de Maio? Ou ainda, aquelas que querem parecer mais sofisticadas, ensinam "Historia da Arte", sem discutir qualquer contextualizacao da arte no tempo dos alunos. Outro espaco subutilizado no BRasil eh a Universidade, principalmente as do interior. Na Universidade onde eu estudo, ocorre duas vezes ao ano festivais. Esses festivais servem para que os estudantes e os locais mostrem suas producoes artisticas. Eu mesmo vou organizar uma mostra de curtas brasileiros. E de onde veem as obras que compoem os festivais? Dos Circulos de Atividades que existem aos montes na universidade. Como funcionam? Simples: um aluno quer conhecer outros que praticam a mesma atividade - que pode ser de culinaria a robotica, passando por artes, linguas e discussoes contemporaneas - e, juntos, eles se reunem semanalmente para praticar, criar e fazer amizade. A universidade soh entra com uma colaboracao: um horario em que as atividades de graduacao sao encerradas na maior parte dos departamentos e os alunos podem participar dos Circulos. De resto, tudo o mais eh feito pelos estudantes. Participei do Circulo de Cinema por seis meses e o resultado foi o video "Dekassegui" que esta on line aqui no Overmundo. Ah, por favor, nao pensem que os estudantes japoneses sao ricos e nao trabalham. A Universidade publica eh paga e cara. Apesar de receberem ajuda familiar, os estudantes japoneses costumam ter planejamento de longo prazo e fazem "arubaitos", ou seja, "bicos" o ano todo para custear a vida na nova cidade (muitos deles aproveitam a epoca da faculdade para cortar os lacos familiares) e para os custos pessoais, planos futuros e investimentos. Ou seja, eles reservam tempo para os circulos dentro da agenda super apertada que tem.
Isso nao seria a saida para a fomentar a producao de negocios culturais no interior mas, provavelmente, seria uma semente para o surgimento de cenas, bandas, grupos de danca e teatro.
Oi Sérgio, conheço Itabira, morei em Ouro Preto e Mariana e hoje estou em Belo Horizonte. Esse circuito cultural pelo interior de Minas é fundamental não só para os moradores de cada uma dessas cidades, mas para quem está na capital também. Na verdade um depende do outro. Várias dessas cidades inclusive estão implementando suas próprias leis de incentivo, muitas delas criando um fundo. Além disso tem a lei estadual de incentivo à cultura, que além do incentivo fiscal criou este ano um fundo, que pode beneficiar qualquer pessoa residente em qualquer parte do estado. Não por acaso a palavra de ordem da atual gestão é também interiorização. Claro que não dá pra depender das leis, mas ignorá-las é tolice, porque podem funcionar como uma alavanca para o desenvolvimento de projetos e carreiras é é dinheiro público, portanto é nosso também. Além disso tem um movimento legal de articulação dos artistas em várias partes do estado em torno de discussões de políticas públicas para a cultura. Aqui em BH os músicos nos juntamos e criamos a SIM (sociedade independente da música). Agora estamos trabalhando no projeto de uma distribuidora. Faço parte também de um coletivo de rádio livre que funciona dentro da UFMG, a Radiola. São ações muito pontuais, como o Espaço Cubo de Cuiabá que você cita, mas aos poucos os links vão sendo feitos. A propósito, está na fila de edição um texto sobre os programas de governo para a área de cultura. Vai lá: http://www.overmundo.com.br/overblog/sala_edicao.php?em_edicao=2228
Abraços
E aí,
Confesso que não li os comentários na íntegra, apesar de achar o texto e essa discussão fundamentais. Cá deixo a sugestão: os colaboradores (e os potenciais colaboradores, como eu) deveriam voltar seus olhares ao interior com mais freqüência, quando da oportunidade de cada um. Pauta de comportamento, costumes, ícones mesmo. De cidades, cantinhos onde sequer há tradição de cultura popular, mas em que se faz história ao modo de quem vive por lá mesmo, sem uma definição mastigadinha... Que tal? Fica aí a sugestão, caso já não tenham proposto.
PS: Coincidentemente andei pensando em uma pauta assim há pouco, pegando um trecho do litoral aqui do Ceará. Devo correr atrás.
Gostei muito do texto e da discussão mais ainda... Bem, como o meu amigo de infânica Sérgio, também sou de Itabira e estamos cansados de ver uma cidade que só tem como eixo de cultura o nosso grande Poeta Carlos Drummond de Andrade, não que não goste dele, tenho ele como inspiração, mas vivemos num local onde temos um berço de cultura inestimável e que as iniciativas daqui nem se quer dão bola e quando os próprios artistas tentam sair do casulo não se vê apoio nenhum, a não ser para um festival de inverno, que valoriza as culturas de fora e dão pouco apoio aos que já existem na cidade, isso sem considerar a politicagem envolvida. O que é mais impressionante é que Itabira é a cidade berço de Carlos Drummond e da Companhia Vale do Rio Doce e quando os turistas vem aqui, não ficam nem dois dias porque não tem nenhum atrativo para eles, uma por parte da cultura local e outra por parte da secretaria de cultura da cidade... ops já ia esquecendo, Itabira não tem secretaria de cultura... mas o problema é que aqui, os políticos e as empresas já se acostumaram a achar que por Drummond ser conhecido no mundo todo, todos conhecem Itabira e na verdade muitas pessoas pelo qual já conversei quando se fala de Drummond a referência é Rio de Janeiro primeiro e aqueles que tiveram um pouco mais de curiosidade sabem que ele nasceu em Itabira. Só para vocês terem idéia, ano após ano, tenho visto os eventos que ocorrem na cidade e tenho amigos que tentaram fazer festivais aqui e que ficaram totalmente desmotivados após anos de luta, e o mais engraçado de tudo que se nota no caso de Itabira é que tem público, tem os caras que como já disseram, “fazem a contabilidade, gestão, fotografia, espetáculo, pesquisa, literatura, que carregam caixa de som, apresentam o espetáculo, fazem o espetáculo, fazem a divulgação, fotografam e prestam conta, tudo sozinho (ou com equipes pequenas)” e mesmo tendo êxito em todos estes requisitos não se vê o incentivo por simplismente não quererem apoiar o próximo passo que é o lance de ser mais ousado. Itabira tem um berço cultural inestimável, muita história para contar, muita cultura de buteco, muito músico, pintor, escultor e como o Sérgio bem sabe um nixo folclórico de personalidades insetimável, mas que infelizmente as gestões preferem direcionar os investimentos e valorizar apenas o passado no presente, esquecendo que vida está continuando e o que se tem de bom está sendo perdido.
E só mais uma coisa.... aproveitando o gancho do primeiro comentário do Hemano, se o overmundo tem como um de seus objetivos a interiorização, porque não realizar festivais nas cidades do interior como forma de divulgação do Overmundo e ao mesmo tempo divulgação das culturas locais?
Aqui no Ceará houve um projeto interessante da atual gestão do governo do Estado. Chama-se Secult Itinerante. É um projeto de mapeamento e circulação das manifestações culturais do Estado, de interiorização da cultura. Pelo fim de novembro/ início de Dez. eles devem publicar esse mapeamento. Estão prometendo um "guia cultural". Sem discurso chapa branca, mas é um lance bem bacana. Pelo que vi e conheci, apesar de falhas eventuais. Além disso, hoje há uma série de festivais, alguns em parceria com o Sesc, por exemplo, promovidos pelo interior do Estado. O calendário passa pelo Festival de Música da Ibiapaba, Festival de Circo, Bonecos e Artes de Rua do Sertão dos Inhamuns, Festival de Música de Câmara do Vale do Salgado, Encontro dos Mestres do Mundo na região de Limoeiro do Norte. Agora (já vi aqui pelo Overmundo) vai ter a Mostra Cariri das Artes. Esse ano, cobri a Ibiapaba e os Inhamuns. Achei positivo. Aliás, ouvi "maldizerem" apenas do Festival de Música de Câmara, dentre os que eu citei. Parece que não funcionou bem. No mais, acho que a coisa eventual não resolve todos os "dramas" em si, mas movimenta. O que já é algo. Estimula quem produz cultura na região, inclusive. Nos Inhamuns vi muito disso pelas entrevistas que eu fiz.
Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 24/10/2006 16:33
a idéia dos festivais é interessante - mas deveria ser uma tarefa/mutirão coletivo (em todos os sentidos: conseguir as verbas, produzir, escolher cidades e atrações etc etc) - o Overmundo somos todos nós, é descentralizado - nenhuma entidade pode sair do "centro" e propor as soluções pelo "interior": o "interior" deve deixar de ficar esperando que a salvação venha do centro, não deve?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 25/10/2006 14:09
Uma moça, acompanhada do "Maníaco do Parque" em uma excursão amorosa disse a seu companheiro: Está ficando escuro e eu estou ficando com mêdo. O rapaz (assassino em série), olha para ela e diz: O pior é para mim que vou ter que "voltar sozinho".
O pior para nós, produtores culturais do interior, é que estamos sozinhos, que perdemos nossa identidade, que temos pouquíssima verba, que somos desacreditados, que dificilmente conseguimos apresentar e divulgar nossas criações.
O pior é a falta de motivação, de crença, e de vontade. O pior é para nós que estamos submetidos a um sistema de midia que nos destroi que nos tira a coragem e nos deixa impotentes face ao sistema. O pior é para nós que não conseguimos nos unir para nos defender criando uma força paralela e mudando as regras do jogo.
O "Pacto de Cultura", que a mais de um ano tento fazer, é isto:
Através das Secretarias e Coodenadoriarias de cultura, unir os produtores culturais, criando uma associação independente, estabelecendo discussões identitárias e desenvolvendo projetos comuns.
O sul de Minas tem l58 cidades, sairíamos de um publico alvo possivel de cada cidade ( Ouro Fino 35.000 habitantes) para quase 2.000.000 de pessoas e centenas de emprezas capazes de nos apoiar.
Simples como o Bom dia, dificil de realização tal como curar doença ruim.
Maneco de Gusmão. Coordenador de Cultura e Turismo do Municipio de Ouro Fino
Essa discussão sobre a distribuição democrática da cultura é antiga, mas eu acho que o overmundo é o tipo de coisa que pode ter vindo solucionar isso! Não é preciso ir longe pra ver que a cultura é centralizada. Não é só no interior do país, nem só o interior dos Estados... aqui no Rio os teatros e bibliotecas estão todos concentrados na Zona Sul e no Centro. Eu, que moro na Zona Norte, preciso viajar quase duas horas de ônibus pra ir a uma exposição ou alguma coisa do tipo.
Maringá · Rio de Janeiro, RJ 13/5/2007 13:12Acredito que o fomento a projetos do interior, das regiões diversas do Estado de Minas Gerais traria grandes benefícios sociais. O problema é lidar com o complexo circuito das decisões administrativas que , alheios ao que acontece nas cidades menores, priorizam projetos com perspectivas de retorno político mais arrojadas e retorno de mídia para este fim. Se, no entanto, não cairmos no desestímulo e perseverarmos na discussão do tema, podemos convencer o poder público da relevância desta distribuição de subsídios culturais para a dinamização social e, por que não dizer, do grande benefício que é de ter a imagem da administração como grande parceira na inclusão do interior no circuito nacional da cultura. Tenho dito!
Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 31/3/2009 13:18Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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