Páginas de lições

http://www.estadao.com.br/arteelazer/tv/noticias/2007/fev/16/226.htm
Clarinha, da novela Páginas da Vida
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Fabinca · Bento Gonçalves, RS
26/2/2007 · 96 · 5
 

Independentemente das pesquisas de audiência da novela “Páginas da vida”, o comentário geral é de que nunca houve novela tão chata como esta. Duvido da afirmação, pois a memória de todos é curta e os fatos são filtrados ao longo do tempo, mas o que chama a atenção nesta novela mais do que em todas as outras é o seu caráter didático. Já faz algum tempo que a Globo tem levado às novelas lições de saúde e comportamento – aprendemos sobre como lavar bebês recém-nascidos, sobre como é importante doar a medula óssea, sobre regras de etiqueta, sobre a importância da leitura e da cultura nacional... Tais ensinamentos, conhecidos como “marketing social”, se contraporiam ao caráter alienante de que as novelas são acusadas. Mas “Páginas da vida” supera todas as possibilidades didáticas, de ensinamento moral e/ou com caráter de auto-ajuda em alta intensidade e nível de explicitação.

Ninguém gosta de lição de moral o tempo todo. Uma obra de ficção não pode ter como função principal ensinar sobre a realidade. O autor de "Páginas da Vida", Manoel Carlos, declara que sua ficção aproxima-se o mais possível da realidade, o que poderia ser um ponto positivo – afinal ver parte do Brasil urbano retratada na tv é, no mínimo, bonito. Dessa forma, há a menina e sua mãe racista e diálogos sobre como isso é uma doença; pobreza na África e violência no Rio e diálogos sobre como isso é injusto; portador do HIV e diálogos sobre a necessidade de aceitar a doença; casal de adolescentes namorando e diálogos sobre...

Na verdade, uma obra de ficção pode ensinar muito mais se der margem para a ambigüidade e interpretação. Por exemplo, a cena em que a megera Marta chega em casa furiosa e ameaça bater em seu neto, Francisco. Não é preciso dizer que é errado bater em criança – basta o olhar de medo e impotência do menino, que possibilita interpretação ao telespectador. Apenas dessa forma a novela pode ensinar alguma coisa. O avô, Alex, chega, impede a violência e convida o menino para o quarto – não há sermões, não há aulinha sobre o respeito às crianças e o dever de protegê-las.

O mesmo ocorre com obras literárias. A função da literatura não é ensinar, embora o faça na dimensão de reflexão sobre a vida e as suas possibilidades. Na escola, contudo, principalmente nas séries iniciais, a “historinha” tem sempre um caráter moral ou didático. Abordar o tema da separação dos pais, da morte, da cooperação; ensinar as cores, as formas, os números. Os professores costumam “matar” os livros literários ao procurarem neles apenas características didáticas. Tal postura se relaciona a uma visão utilitarista e prática da vida e da escola – é preciso “servir” para alguma coisa. Então as crianças acham a escola chata, pois não estão a fim de aprender o tempo todo; os telespectadores mudam de canal e vão ver dramas românticos açucarados, que pelo menos os emocionam e divertem.

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Helena Aragão
 

Legal, Fabinca. Muito bom ver uma colaboração sobre TV por aqui, ainda mais sobre novelas. Ótimo o paralelo entre o didatismo na novela e na escola. De fato essas "aulinhas" nas novelas não são exclusividade do Manoel Carlos, parece até ser uma determinação da emissora. No caso desse autor, o que mais me incomoda é ser sempre novela sobre ricos: alguns mais, outros menos. E um punhado de empregados destes, o mais próximo do que se poderia chamar de pobre. Acho tão estranho...
A novidade desta novela foi o final com um depoimento real de quem está passando de verdade por algum dos mil problemas que a trama aborda. Acho que até há avanço nisso - seguindo uma tendência de valorizar o real que está por toda parte - mas ao mesmo tempo a coisa parece até dirigida: a pessoa expõe seu drama em tempo recorde e acaba tentando passar algum tipo de mensagem positiva, mesmo que o sofrimento do rosto destoe do que está sendo falado. Não sei bem o que pensar disso...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2007 12:18
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Thiago Camelo
 

O Milan Kundera (comecei pedante:)) tem uma interpretação para o termo kitsch. Ele diz que o significado - no extremo - pode sugerir o esvaziamento de tudo o que é "feio" para que só se veja o "belo". Essa postura, segundo Kundera, era tomada inclusive por regimes totalitaristas. É exatamente isso, Helena, que eu acho que fazem com esses depoimentos "reais". Sempre há uma tentantiva para que eles se tornem, de algum maneira, edificantes, belos, "limpos". Tendo a desconfiar de tudo que se esforça para ser edificante.

Ontem, na novela, teve um lance muito estranho: um personagem começou a mostrar os tristes vídeos que fez na África, da miséria e tudo mais, enquanto a turma se reunia na sua casa tomando um vinhozinho e comendo o que há de melhor. Uma pena, porque já vi, ao menos uma vez, essa novela conseguindo tratar de forma menos unilateral um tema. Até escrevi sobre isso no nesse mesmo Overmundo">Overmundo. Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2007 14:03
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Marcos Paulo
 

Se não me engano, não é a primeira vez que a Globo usa essas cenas - ora dor, ora alegria. Já teve o drama do Orestes (aquele que fazia o papel do bêbado) e tantos outros. A maioria quase sempre acaba virando 'pauta' nos seus telejornais.

A maioria dos casos, ao meu ver, mostra apenas um lado da história, que quase sempre é dramático e longe de uma solução na vida real. Parece que a vida é só horror...

Não será fácil demais mostrar um portador do vírus HIV relatando sua história, a mostrar o combate e maneiras de prevenir?

Mas, eu bem posso estar enganado...

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2007 19:36
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Viktor Chagas
 

Quando fui ao GT de Comunicação e Política da Compós, o trabalho que eu, uma mestranda e nossa orientadora deveríamos relatar tratava justamente do conceito de Kitsch na política. Nesse trabalho, do professor Luís Felipe Miguel (UnB), ficava claro como a noção de Kitsch (essa mesma que o Thiago atribuíu ao Kundera) poderia ser interpretada como uma idéia de "purismo". A política de Garotinho, o jingle de Eymael (Ey-ey-eymael...), o "meu nome ÉÉneas", do próprio eram exemplos óbvios de como a política também pode ter uma estética kitsch.

Lá me disseram, e eu continuo discordando, que o kitsch é diferente do brega. Mas isso não vem bem ao caso.

A questão aqui é que o Marketing Social da TV Globo, de fato, procura manter um discurso Kitsch. (Thiago, concordei com você.) Mas o Kitsch das novelas da Globo é um Kitsch conservador. Um Kitsch que se prende à moral e aos bons costumes. Porque, sim, é possível ser Kitsch e ser inovador, como o é o próprio Kundera, ou o brega Falcão. O Kitsch da Globo é um discurso purista e reacinário. Mas o mais curioso em toda essa estratégia é a disparidade que venho notando agora com as cenas da novela das 22h, o Big Brother Brasil.

O Big Brother, novela por excelência, tem recebido uma edição cuidadosamente reforçada para se tornar a cada dia mais picante. Mais picante para o telespectador. Um triângulo amoroso (como o das novelas, só que real e explícito), pessoas que ficam peladas e fazem sexo de verdade (sem aqueles beijos melosos e românticos da tevê), vilões sem caráter (de carne e osso), e por aí vai. Fica para mim que além de discutir o Kitsch na novela das Oito, seria legal também discutirmos a catarse na novela das Dez. Será que o Big Brother não está se tornando uma válvula de escape para a dramaturgia engessada e restrita pelos padrões do Marketing Social?

Em tempo, em um dos trabalhos de escola, na faculdade, fomos entrevistar os responsáveis pela CGCOM (Central Globo de Comunicação), e, de fato, o Marketing Social tem se tornado uma exigência do Departamento de Responsabilidade Social da emissora. Geralmente, o autor escreve sobre um drama e leva ao departamento para lá receber o auxílio dos pesquisadores e do diretor de núcleo para ter a melhor forma de explorar aquele drama na novela. O próprio conceito de Marketing Social, eles alegam, foi criado pela Rede Globo, e tem, também para eles, o caráter de "prestação de contas". É isso.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2007 15:10
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Fabinca
 

Além de ter de fazer marketing social, a novela agora tem de prestar contas ao Ministério Público quanto a “distorções da realidade”. Conforme notícia de sexta-feira passada, http://conjur.estadao.com.br/static/text/53102,1, o Ministério Público recomendou ao diretor de “Páginas da Vida” a exibir antes do fim da novela cenas que mostrem punição às escolas que recusarem a matrícula de crianças com deficiências. Caso a novela não coloque as cenas, deverá exibir “por três dias, junto aos créditos finais da novela, um texto esclarecendo que crianças e adolescentes com deficiência também têm direito inalienável de acesso às classes e escolas comuns da rede regular de ensino e que é dever dos pais e de seus responsáveis exigirem o cumprimento desse direito".

A justificativa do MP para tal intervenção é a de que

“— o art. 221, da Constituição brasileira, dispõe que a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender aos princípios da preferência por finalidade educativas, informativas, de respeito aos valores éticos sociais da pessoa e da família, entre outros, assim, não poderia adotar abordagens que induzem a erro o telespectador sobre os direitos de crianças e adolescentes com deficiência;”

e

“— as emissoras de televisão são concessionárias de um serviço público federal, cabendo ao Ministério Público Federal, nos termos dos artigos 5º e 39 da Lei complementar 75//93 , “zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos da União, dos serviços de relevância pública e dos meios de comunicação social aos princípios, garantias, condições, direitos, deveres e vedações previstos na Constituição Federal e na lei, relativos à comunicação social”, bem como “exercer a defesa dos direitos constitucionais do cidadão, sempre que se cuidar de garantir-lhes o respeito pelos concessionários e permissionários de serviço público federal”. (Conforme está no site http://conjur.estadao.com.br/static/text/53102,1).

Agora pergunto:

Quando um vilão não for preso ou não morrer, também terá de haver um alerta nos créditos de que os crimes cometidos por eles estão sujeitos à punição e que cabe aos cidadãos reivindicarem o direito (ou dever?) da sociedade de que sejam punidos?

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 25/2/2007 16:22
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