Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Palmas para a platéia camaleônica

Pedro Paulo Malta
1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
15/5/2006 · 145 · 3
 

(De Florianópolis) A chuva caía lá fora na noite fria e umas dez pessoas se apertavam na escadaria do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) em vão - as portas já estavam fechadas e os mais de 400 ingressos, esgotados. Ao ver a cena, meu amigo carioca que há anos vive em Floripa emendou: "Deram mole. Projeto Pixinguinha, só comprando com antecedência [como ele, precavido, já tinha feito]. Mesmo sem saber qual é a atração, se tá no projeto, é porque vale a pena ver". Fiquei impressionada, sobretudo porque ao falar isso ele tomou por referência apenas os últimos dois anos, já que o PP foi retomado em 2004. Dificilmente ele sabia do histórico do evento, que antes, de 1977 a 97, lançou artistas e reuniu nomes famosos em palcos de todo o país, de Cartola a Djavan, de João Bosco a Zé Ramalho.

Naquela noite do dia 10 o público catarinense lotou o tradicional teatro para ver artistas que não têm popularidade, digamos, avassaladora - como é bem típico do projeto. Almir Gabriel, compositor do Belém, o carioca instrumental Trio Madeira Brasil e outro trio dedicado à música caipira, formado pelo mineiro Ivan Villela, o brasiliense Lenine Santos e a paulista Suzana Salles.

E o que estava eu, uma legítima representante do Rio de Janeiro, fazendo lá no meio daquelas pessoas claras de olhos azuis? Fui convidada pelo Projeto Pixinguinha e pela Petrobras (patrocinadora do projeto) para escrever trechos do catálogo da série e, de quebra, aproveito para contar as impressões aqui no Overmundo.*

Mas agora, antes de falar do show propriamente dito, queria usar aquele recurso tão comum dos filmes de voltar um pouco no tempo para dar uma amostrinha do dia-a-dia da turma que corre o país fazendo esses shows.

Dez horas antes...

Por sorte, neste caso, o teatro era ao lado do hotel. A produtora Maria do Carmo Ferreira deve ter atravessado a rua umas 20 vezes para resolver pepinos que iam dos detalhes da luz à lista de pagamento ao ECAD. Gugu, o responsável pelo som, praticamente criou raízes nos fundos do teatro para arrumar tudo. Os músicos, que não são de ferro, foram passear naquela tarde chuvosa e fria - para eles, nem tão fria assim, já que estavam vindo de um show em Caxias do Sul. Almir aproveitou para almoçar com o cunhado. Zé Paulo Becker, o violonista do Trio Madeira, se ocupou das entrevistas locais.

E eu, muito por acaso - por encontrar no meio da rua mesmo - acabei acompanhando por Floripa a dupla Lenine e Suzana (apelido dado de brincadeira pelo pessoal da produção, por lembrar a antiga parceria formada pelo homônimo pernambucano e o percussionista Marcos Suzano). Ivan, como bom mineiro, estava mais na dele em algum canto do hotel. Vale contar que a dupla se conheceu cantando uma ópera de Arrigo Barnabé e Tim Rescala (nada mais diferente do que fazem hoje). Chamaram o professor de Itajubá para acompanhar aquilo que antes faziam nos intervalos das apresentações: cantar músicas que ouviam na casa de seus pais e avós.

Demétrio Panarotto, meu colega catarinense que também participa do Overmundo, era o quarto elemento a se juntar à trupe. Fomos a pé ao Mercado Municipal, à feira do livro, a um café charmoso... Era falar qualquer palavra que Lenine e Suzana tiravam uma toada do tempo do onça da cartola e começavam a cantar para nós, no meio da rua. Eu mesma ganhei uma serenata improvisada com uma música que fala de Helena quando me apresentei (não é fofo?). Pois é, tudo andava assim singelo, mas o povo tava ali para trabalhar e então fomos para a passagem de som.

Tá aí, se tem uma coisa que gosto é passagem de som. É aquele momento em que tudo parece caótico, ninguém se entende direito, a viola desafina, e quando você está distraída de repente a coisa se encaixa e começa a funcionar. A do Trio Madeira Brasil deveria ser incluída no pacote do show. Cada hora, um levantava do palco e ia para o meio da platéia opinar no som do outro. Um bonito trabalho de cumplicidade, me parece, que ajuda a explicar por que o grupo está junto há dez anos.

De volta

Bom, voltamos ao ponto em que estávamos. Teatro lotado e show começando. Almir Gabriel é bom de esquentar platéia. Faz o estilo figuraça, é falante, simpático, e faz aquele som que, segundo ele, mistura carimbó, reggae e guitarrada do Pará - pombas, que vontade de conhecer o Pará ao ver um show de gente de lá! Não sei qual foi a mágica, mas já na primeira música o povo já estava cantando o refrão. Mesmo no refrão de "Homem-bomba", que não era assim chiclete para o povo aprender de cara, ele deu um jeito de dividir a platéia em dois grupos à la Simonal e botou o povo para cantar do jeito que deu.

Difícil falar da qualidade do som. Porque não tenho intimidade mesmo com o estilo. O show é simpático - muito também pela participação do guitarrista Davi Amorim. Chutaria dizer que ele é um autêntico representante da guitarrada (que levada que eles têm!). Mas Almir ganha a platéia muito pelo lado showman. O ápice foi quando falou mal da Globo, do Fantástico e do escambau e disse que seu sonho era instituir, como no caso de certas religiões, um dia do jejum, só que do consumo. A platéia veio abaixo.

E essa mesma platéia que cantou refrões se silenciou respeitosamente para ouvir o Trio Madeira Brasil. Era, digamos, o oposto do paraense - José Paulo Becker, Marcelo Gonçalves e Ronaldo do Bandolim são de falar pouco no palco e impressionam pela execução. Começaram com choro, uma boa forma de atrair o público, que só saía da hipnose para explodir em palmas no fim das músicas. Vamos dizer que os rapazes sabem escolher repertório: emendaram "Agüenta seu Fulgêncio" (Jacob do Bandolim e L. Lamartine) com "Santa Morena" (só Jacob) - esta última, uma espécie de "hit number 1" dos regionais de choro de hoje. Os arranjos do grupo são primorosos - o destaque é o de "Assanhado", extremamente original -, seja para a música brasileira ou para o que veio em seguida: "Danza de La Vida Breve" (Manuel de Falla) e "Fuga e Mistério" (Piazzola). Zé, Marcelo e Ronaldo têm a preocupação de encontrar peças que representem os países e que se encaixem bem à formação tão peculiar violão-violão7cordas-bandolim.

Para acabar, foi a vez de nossos recém-melhores-amigos da música caipira tradicional. Mais um choque de estilos. Do instrumental elegante para as vozes cadenciadas e a viola límpida do novo trio, que começou a trabalhar junto em 2003. O repertório sentimental arrebatou o público - e olha que a maioria dele era bem jovem. Teve de "Índia" (Guerreiro/Fortuna/Flores) e "Meu primeiro amor" (a dupla anterior + Pinheirinho Jr). E todo mundo cantou junto!

De certa forma, pode-se dizer que a estrela da noite foi a platéia camaleônica, que soube se transformar e absorver tudo de bom e diferente que saiu do palco. O que é fundamental no Pixinguinha. Neste show específico, os estilos dos artistas eram realmente bem diferentes, como não deixa de ser a proposta do projeto. Imagino que muitas vezes não funcione tão bem. Mas ali funcionou que foi uma beleza.

Deu até para fazer o bis típico do Pixinga, que junta todos os artistas no palco. Em certa altura do show, achei que aquilo seria inimaginável. Soube até que eles tentaram outros formatos nos shows anteriores da turnê e que nem tudo deu certo. Do processo tentativa/erro saíram os definitivos "Trenzinho caipira", de Villa-Lobos (uma boa sacada, que remete ao percurso do Pixinguinha) - e teve até solo de guitarra do Davi Amorim - e, claro, "Carinhoso". Este sim deve ser o maior-hit-de-todos-os-tempos para homenagear o autor, que leva o nome do evento. Mas ali tava valendo. E a platéia catarinense foi embora feliz, com discos autografados embaixo do braço e a sensação de que melodia nos faz muito, muito bem. Venha ela do Rio, de Belém ou de São Paulo.

* Daqui a alguns dias escrevo do Rio Grande do Norte contando como foi a vida da caravana que está por lá.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Gabi Almeida
 

Helena, lindo relato! Também estive presente em outra apresentação dessa caravana, em Criciúma, dois dias depois da de Floripa que você relatou, e fiquei super feliz com o que vi. Um projeto emocionante, múltiplo, genuinamente brasileiro; uma equipe super eficiente e músicos que merecem todos os aplausos que receberam. Um abraço, Gabriela (Sandes)

Gabi Almeida · Rio de Janeiro, RJ 16/5/2006 15:02
sua opinião: subir
Ronaldo Pelli
 

Muito bom o texto. Principalmente o flashback. Fiquei com vontade de saber mais sobre o Projeto.

bjs

Ronaldo Pelli · Rio de Janeiro, RJ 17/5/2006 19:37
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Pode deixar que vou contar mais sobre o projeto já já, em outro texto! Valeu!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2006 14:11
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados