Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
Pancadão Pop
Jones Rossi · São Paulo (SP) · 1/7/2006 13:24 · 84 votos · 4 comentários ·  
 
1
overponto
Rafael Hupsel

Funkeiros que falam "papai do céu". Funkeiras que não rebolam. A nova geração do funk carioca está deixando para trás seu lado "proibidão" e apostando em uma face mais pop para sair do gueto. "A gente quer pegar o mundo todo, quer o público infantil, quer tocar na novela", afirma Vagner Rodrigues da Fonseca, o Vaguinho, de 27 anos, um dos quatro integrantes do grupo Os Caçadores.

Embalados pelo sucesso da música Dona Gigi, fizeram o show que abriu neste domingo o 1º Mega Pancadão no Via Funchal - uma extensão do Pancadão, noite dedicada ao funk na casa noturna Lov.e, em São Paulo. Como Backstreet Boys do funk, Vaguinho, Lekinho, Lekão e Léo se revezam cantando e dançando. A preocupação em ser pop se estende às coreografias, fáceis do público seguir, com poucos passos. As músicas têm o mesmo padrão: letras alegres e refrões simples.

Em breve, vão estrear um videoclipe no canal Multishow. Para atingir a criançada, será um desenho animado. "Áudio e visual têm que ser gratificantes para o público", teoriza Vaguinho. A mistura de funk e pop tem agradado. Suas músicas já tocaram na novela América, Caldeirão do Huck, Faustão e até no Casseta & Planeta. Fazem de seis a 12 shows a cada final de semana, com cachês que podem chegar a R$ 10 mil por apresentação. "Graças a papai do céu", exulta o católico Lekinho, que criou o grupo há oito anos no bairro do Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Prova maior que o funk está caminhando em direção ao pop é MC Perlla. Aos 17 anos, Perla da Silva Fernandes é uma espécie de Sandy do funk. Evangélica, usa roupas comportadíssimas sobre o palco e não rebola. O máximo a que se permite é balançar o corpo, de leve, para um lado e para o outro. Neste domingo, na Via Funchal, usava botas, calça jeans comprida e uma blusa que não deixa nada à mostra. Funk com letra sexual nem pensar. Cantou Ela Só Pensa em Beijar, sucesso de MC Leozinho; Glamurosa, de MC Marcinho; e até um reggae em versão funk. Aposta do DJ Marlboro, Perlla está sendo moldada para o sucesso. Sua gravadora é a mesma da cantora Pitty, e o produtor é o mesmo de Marcelo D2. "A primeira coisa que fizeram foram tirar ela do morro", conta Anna Penteado, que está dirigindo um documentário sobre o movimento funk.

O espetáculo do funk bem comportado só foi interrompido pelo show do MC Bola de Fogo, aquela da música Atoladinha. "Um cara que nunca poderia ser fabricado", diz Anna. Bola de Fogo também é pop, mas de um modo mais bruto. Tirou seu nome artístico de um dragão - que obviamente cuspia fogo - do desenho japonês Digimon. Não canta proibidão. "Só putaria", diz.

Com o ingresso mais barato a R$ 80, pouco mais de 500 pessoas rebolavam no Via Funchal quase vazio quando DJ Marlboro - maior entusiasta da popularização do funk no Brasil - apareceu para encerrar o Mega Pancadão. Tocou como se houvesse milhares. Tudo pelo pop.

tags: São Paulo SP musica


 
canto_esquerdo comentários rss postar novo comentário canto_direito
 
Bem bom jones o texto. Acho que é isso mesmo, quanto mais um gênero se consome e é consumido pelo mercado existem algumas adequações e a tendência é do conceito se diluir e prevacer alguma coisa da nova estética.

wado · Maceió (AL) · 2/7/2006 14:01 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Passo aqui para deixar meus sinceros agradecimentos ao jonesrossi que nas últimas semanas se tornou um dos colaboradores mais ativos no Overmundo. Do pop católico ao pancadão, do samba a Zé do Caixão (rimou!), o cara manda bem em todas as frentes - e o melhor: ele vai mesmo ver o que está acontecendo nessas frentes, não fica só opinando de longe. Mas para conversar sobre o assunto deste texto: não sei se o bom comportamento pop é uma característica geral, ou mesmo dominante, na "nova geração do funk carioca". Certamente é uma tendência, mas uma entre várias outras. O jonesrossi fala do show do Bola de Fogo - a performance das suas dançarinas tem alguns dos rebolados menos comportados que já vi nos bailes. E o show d'Os Caçadores também não é exatamente uma aula de catecismo. E no mundo pop não necessariamente os que rebolam menos fazem mais sucesso: fiquei pensando nisso vendo Mick Jagger aqui na praia de Copacabana: rebolando muito, cantando louvores ao lado negro da força (Sympathy for the Devil) e ao Brown Sugar, com todos os patrocínios (inclusive governamentais) daqueles que dizem combater (e combatem) o proibidão...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 2/7/2006 17:47 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Obrigado, Hermano. No caso do Pancadão Pop, eu até coloquei o depoimento da Anna, que conhece bem mais do mundo funk do que eu, dizendo que o Bola de Fogo "não pode ser fabricado". Ele é o contraponto ao lado pop bonzinho, embora ele também seja pop à sua maneira. Os Caçadores cantam palavrões, mas se percebe um esforço - nas coreografias, na produção, nos videoclipes - para se tornarem "mais palatáveis" ao novo público que desejam alcançar. Mas, enfim, se eu tive que explicar nos comentários é sinal que não deixei o texto bastante claro. Prometo melhorar no próximo. Obrigado pelas correções, sempre são muito utéis. Este é o motivo de colocar meus textos aqui. Abraços.
Jones Rossi · São Paulo (SP) · 2/7/2006 21:23 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Jones: não eram correções não. Era apenas uma nova conversa a partir do seu texto, que é muito bom e me fez pensar nessas coisas. Abraço!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 2/7/2006 22:42 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito