Papo de bola

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Edson Wander · Goiânia, GO
5/8/2006 · 79 · 3
 

O que há por trás da fala dos jogadores de futebol?

“Sabemos que o adversário é muito difícil, mas vamos dar tudo de si para ajudar nossos companheiros a conseguir a vitória”. Frases como esta viraram chacotas folclóricas no futebol brasileiro e espalharam o senso comum de que todo jogador de futebol fala sempre as mesmas coisas e invariavelmente com um português torto. Mas essas frases são ao mesmo tempo reveladoras de fatos e desveladoras de mitos do que se dá dentro e fora das quatro linhas que demarcam o mais popular esporte no Brasil e no mundo.

Boa parte dos jogadores brasileiros de fato não parecem exibir na língua a mesma habilidade que tem nos pés. Na maioria vindos do andar de baixo da pirâmide social, os jogadores brazucas repetem uma sina secular que os confina numa situação de baixíssima representatividade lingüística que beira um preconceito de classe (e por extensão, linguístico). Ainda que hoje, bem diferente de seus pares do início do jogo no país, sejam ícones midiáticos e encham os bolsos de dólares e euros.

Mas esse repeteco de frases feitas e erradas para o padrão culto da língua, muito mais do que falta de formação, tem lastro no contexto que os cerca. É o que mostra o jornalista Elder Pereira Dias, que se aventurou em fazer análise do discurso de jogadores de futebol para uma dissertação de mestrado no programa de pós-graduação em Letras e Lingüística da UFG. Nesse estudo, concluído em novembro passado, o jornalista põe o dedo na própria ferida. Segundo ele, o próprio repórter que lida constantemente com o jogador ajuda neste confinamento lingüístico de sua fonte. Elder Dias lembrou no estudo uma passagem de um repórter de campo com Sócrates, ex-jogador do Corinthians e da seleção brasileira. O jornalista perguntou a Sócrates por que os jogadores davam sempre as mesmas respostas nas entrevistas. Sócrates devolveu na bucha: “É porque vocês sempre perguntam as mesmas coisas”.

Elder adiciona outros elementos neste papel preponderante da mídia na relação quase sempre passiva que os jogadores com ela mantêm. “O repórter condiciona porque tem uma imagem prévia do jogador, de que ele tem pouco estudo, que não adianta perguntar outras coisas de outra forma porque ele não vai entender. E o jogador condiciona-se a responder obviedades também por precaução: muitas vezes, receia ferir o técnico, o companheiro de equipe ou a torcida”, completa o jornalista. Para ele, há também hierarquias nesta relação. “O repórter trata diferente um Sócrates [que é médico], um Leonardo [ex-Flamengo, jogou fora do Brasil e aprendeu outras línguas] não por causa da escolaridade. Há aí uma relação de poder entre repórter e jogador que faz um Romário, por exemplo, ser entrevistado diferentemente de um jogador comum”, pondera o jornalista-pesquisador. Para ele, há uma diferença também entre ouvir o jogador à beira do gramado e no estúdio da emissoras, nas acaloradas “mesas redondas”.

Na pesquisa “O jogador de futebol diante do microfone: discurso e interdiscurso nas entrevistas esportivas”, Elder Dias recolheu 81 entrevistas gravadas de jogadores de Goiás e outros Estados para emissoras goianas de TV. Nos depoimentos, que bem podem ser comparadas a quaisquer outros Brasil afora, ele destacou seis tipos de discursos freqüentes na fala dos jogadores: o discurso militar, o pedagógico, o familiar, o operário, o religioso e o artístico. Para cada um desses discursos, há motivações subjacentes e pouco perceptíveis aos jogadores, e não só para eles. “Em qualquer discurso, a tendência é a repetição, o que os teóricos da análise do discurso chamam de 'marcas discursivas'. E isso geralmente é imperceptível para o médico, o advogado ou o jornalista. O fato é que o discurso do jogador é mais massificado do que qualquer outro e cercado de preconceitos”, analisa e completa: “Não me parece crível que o discurso de um político ou um economista e seu economês sejam menos repetitivos do que o dos jogadores.”

No capítulo três da dissertação, Elder Dias detalha como se dão estes “(inter)discursos” (grifo do pesquisador). Num resumo rápido, é assim: o discurso militar no futebol é enfatizado o tempo todo no “vamos lutar pela vitória”, frase que remete o esporte à competição como uma “guerra”. O discurso “pedagógico” é aquele em que o jogador vê no técnico a autoria e sapiência de um “professor” (nas entrevistas, não raro, os jogadores tratam assim os seus treinadores). A “grande família” é reforçada nas concentrações em épocas decisivas. Para ilustrar esse discurso, Elder Dias lembrou o episódio da Copa de 2002, que teve a seleção pentacampeã apelidada de “Família Scolari”, termo criado pela própria imprensa em alusão ao fato de o treinador ter levado o grupo, desacreditado no país, a se fechar como uma “família” e ganhar o Mundial.

O quarto discurso mais recorrente no “corpus” da pesquisa de Elder Dias foi o do futebol “operário”, aquele em que o jogador conjuga o verbo “trabalhar” e suas variantes para referir-se à sua atividade (“estamos trabalhando duro para conseguir os três pontos”). O pesquisador chama atenção aqui a outro aspecto histórico importante do jogo. “O futebol, assim como as modalidades artísticas, sempre tiveram uma resistência social para ser reconhecido como profissão. Ainda hoje é comum ouvir das famílias para seus filhos coisas como 'quando você vai largar esse violão ou essa bola e arranjar um trabalho'?”, disse o jornalista. O quinto discurso tem a ver com religiosidade, outro tema de forte ascendência sobre os jogadores. O imponderável do jogo, o “Sobrenatural de Almeida”, personagem sensacional criado por Nelson Rodrigues, explicaria esse apego dos jogadores ao discurso religioso na hora do gol ou da vitória. Assim, tudo aconteceria de bom ao artilheiro ou ao time “graças a Deus”. Elder Dias lembra neste aspecto a predominância da tradição católica brasileira, mas bem que poderia lembrar também que até no futebol houve uma contra-reforma com os chamados “Atletas de Cristo”.

O sexto (não o último) discurso mais encontrado foi o discurso artístico, ou seja, o estádio como palco de “espetáculo”. “Como o ator diante da platéia, o músico no palco e o bailarino no tablado, o jogador de futebol vê, a seu modo, também a sua atividade com uma arte”, anotou o jornalista-pesquisador. Elder Dias se valeu de horas de fita VHS gravadas dos jogadores goianos entre o segundo semestre de 2003 e o primeiro de 2004, abordando tanto o Campeonato Goiano, quanto a participação de clubes goianos em campeonatos nacionais.

Na pesquisa, Elder Dias lembra o tempo todo de livros e autores fundamentais para a compreensão da história do futebol no pais, com maioria de autores brasileiros que não são da academia e têm publicações recentíssimas – de 2000 para cá (a exceção são os autores que embasaram especificamente a Análise do Discurso, teoria em que se fundamentou o trabalho, como Michel Foucault e Michel Pêcheux, entre outros). E aí, o jornalista faz uma observação que bem serviria de mea culpa à universidade. Em pese o futebol ter se tornado um grupo lingüístico importantíssimo para o País, não existem estudos de fôlego sobre ele fora campos da sociologia e antropologia. “Durante as leituras, descobri um fato interessante sobre a negligência nacional com a pesquisa do futebol: um escritor e jornalista inglês, Alex Bellos, observou que o único livro publicado sobre a seleção brasileira tricampeã mundial de 1970 foi escrito por um britânico e ainda não está disponível no Brasil”, anotou o jornalista no rodapé da introdução da pesquisa. Enfim, o estudo de Elder Dias mereceria virar livro. Além dos momentos saborosos, lembra que nem todo papo de bola é o que parece ser. Aqui “treino é treino e jogo é jogo”, parafreseando o impagável ídolo Didi (do Botafogo e seleção brasileira dos anos 50 e 60).

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Cesar Oliveira
 

Nesse "impagável" aí de cima, só não vale a terceira acepção do Houaiss, porque Valdir Pereira era um jogadoraço, um gentleman e um lord.

Cesar Oliveira · Rio das Ostras, RJ 3/5/2007 16:19
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Cesar Oliveira
 

Gostaria que você, Edson, pedisse ao Elder Dias que entrasse em contato comigo através do site www.livrosdefutebol.com. Tenho interesse em transformar o trabalho acadêmico dele num livro.

Cesar Oliveira · Rio das Ostras, RJ 3/5/2007 16:22
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tasm
 

Mto interessante o assunto descrito, pois é a realidade de nosso país e, consequentemente do nosso jogadores de futebol.
Tirando por conclusao minha propria monografia sobre o sonho do jovem em se tornar jogador de futebol, percebe-se que a maioria dos mesmos que desejam se tornar jogadores de futebol algum dia sao de classes mais carentes, com o grau de escolaridade de sua familia baixo.
Enfim, parabens!

tasm · Cuiabá, MT 23/10/2007 11:29
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