A cidade de Santos no estado de São Paulo - mundialmente conhecida pelo seu time de futebol - tem também o maior porto da América Latina e junto dele um espaço urbano caracterÃstico das principais cidades litorâneas brasileiras; um conjunto de bairros antigos, originais das primeiras ocupações na então Ilha de Enguaguaçu, casarios da burguesia santista e instalações da Doca de Santos. Com o ritmo intenso da evolução urbana criaram-se novos centros que valorizavam as questões mais sanitaristas, assim estes bairros do centro antigo acabaram se transformando em áreas carentes, decadentes e encortiçadas, tudo o que uma zona portuária de um paÃs terceiro-mundista possui: prostituição, crimes, poluição geral; no entanto a comunidade se articula a cada dia para desenvolver projetos e soluções comunitárias que tenham resultado direto na formação dessas pessoas que lá moram. A entidade que representa essa luta é a ACC (Associação dos Cortiços do Centro de Santos), liderada por sua Presidente Samara Faustino, uma figura Ãmpar, muito envolvida com suas convicções e pensamentos de liderança, já está há cinco anos à frente da associação, conseguindo manter um diálogo permanente com a comunidade, autoridades e forças locais. Essa história até rendeu um vÃdeo-documentário ano passado sobre a vocação cultural dessa gente e seu movimento popular.
Neste mês de janeiro em visita ao Paquetá, bairro que fica junto à zona portuária, estive com Aline Assis, Lineu Pupo, Marcella Lopes e juntamente com um pessoal da ACC, Weskley Faustino, Luciano e Jackson Nunes. Com este grupo fizemos uma intervenção sugestiva e provocativa na comunidade, colagem de "lambe-lambes" (cartazes grandes de papel geralmente usados para publicidade) formados com frases e desenhos que remetem a apropriação de espaços públicos pela população para fins culturais e de cidadania. Estes cartazes foram gentilmente cedidos pelo Coletivo dos artistas da Bijari, premiado grupo que promove ações artÃsticas multimÃdia. O objetivo da ação foi justamente provocar a reflexão sobre a luta sócio-cultural comunitária e seu atual processo.
Um dos jovens que estão à frente deste movimento é Weskley Faustino, que além de filho da Samara é um rapaz atento a todas as questões locais - ele é ator e um dos idealizadores da Cia.Teatral O Cortição. Tive uma conversa com os dois no barracão da Escola de Samba "Unidos dos Morros" no Paquetá. Falamos sobre diversos assuntos, entre eles a ocupação feita pela comunidade nas ruÃnas do bairro para transformá-las em um centro cultural. Também conversamos sobre o impasse para a realização deste sonho, a experiência do documentário, a posição do lÃder comunitário atualmente representado na TV brasileira, o que está rolando no momento como a nova peça da Cia. teatral "O Cortição" e o Carnaval santista da Unidos dos Morros.
Cristiano: Como foi essa ocupação? E agora? Como usar esta estrutura para as atividades?
Samara: Este terreno era um verdadeiro lixão, abandonado há 30 anos, era entulho só, insalubre para a vizinhança, local de uso de drogas, violência... Decidimos que farÃamos uma série de mutirões para a limpeza do terreno, fizemos algumas, mas só conseguimos limpar de fato depois que a "Universidade Aberta de Verão", realizada pelo Instituto Elos, fez uma forte intervenção com trator, carro pipa, pintura e paisagismo com seus alunos, estudantes de várias partes do mundo. A questão agora é que para usar o espaço precisa de uma reforma, autorização da prefeitura e do antigo proprietário... Quanto ao patrocÃnio, acho que a gente consegue com alguma empresa do porto, eles estão querendo ajudar... Enquanto isso estamos trabalhando a possibilidade de ter um Ponto de Cultura aqui, pois a demanda de jovens carentes é muita e eles não querem só as atividades, eles têm sonhos, querem criar, ser reconhecidos, viver em uma habitação digna, longe das drogas e do crime. Falam que nós somos a oposição, mas nós somos a posição certa.
Cristiano: O que significou a experiência de participar de um vÃdeo e ver a comunidade no cinema?
Samara: Foi uma experiência que significou a realização de um sonho e um direito de estar nas telas do cinema não só como "documentado", mas por meio de algo que ajudamos a realizar também. O cinema pra nós é um lindo instrumento de comunicação, para mostrar a nossa cara, o nosso jeito de ver as coisas e a realidade de parte do povo brasileiro que se encontra morando em cortiços. Nossa área já foi mostrada em tantos filmes e novelas mas nunca com a nossa participação, a não ser na ocasião das filmagens e oficinas para o filme "Querô", que animou e resgatou esse sonho na comunidade, o sonho de se comunicar através do cinema e da arte. Os garotos não pensam em parar por aqui, depois dessa oportunidade os "djow djow" (grupo de jovens da comunidade) e o MHM ( Movimento Hip Hop do Mercado) estão trabalhando na criação do seu próprio roteiro.
Cristiano: E como despertou esse sonho?
Samara: O sonho de ter um espaço criativo começou há muito tempo com crianças da comunidade que hoje são adultos e desejavam um espaço criativo. Outras crianças da cidade têm a oportunidade de frequentar o SESC (Serviço Social do Comércio) e o cinema de arte na região da praia, aqui todo mundo cresceu jogando bola na rua e brincando em terrenos abandonados que dividiam com usuários de drogas. Desde então sentimos a necessidade de proporcionar a comunidade acesso à arte e à cultura, mas no meio do caminho descobrimos que não dá mais tempo pra se fazer de vÃtima do sistema, temos sim que criar formas de expressar nossa cultura, nossa arte. Os jovens se libertam hoje através do grafite, do hip-hop, do teatro, do samba, da dança, isso já é uma vitória. Em 2006, lideranças da região organizaram um encontro dos Djow Djow com o grupo Arte no Dique, encontramos com a Soninha, vereadora da cidade de SP, e o Elvio Tamoio, na ocasião diretor de Programas Integrados da FUNARTE, onde nos situamos frente aos programas de fomento à expressão cultural no Brasil e aos movimentos de ocupação de locais para realização de Cultura. Como o exemplo dado pela Soninha do Tendal da Lapa, a partir daà os jovens se uniram com força para continuar se expressando, desde então nosso lema virou MUDAR SEM SE MUDAR, pois queremos mudar a visão de que somos apenas uma comunidade carente que precisa ter acesso a um equipamento cultural distante do nosso local, quando podemos desconstruir essa visão sem negar nossa história e nossas origens.
Cristiano: Como está o grupo de teatro?
Weskley: É a Cia. Teatral Cortição, já está com dois anos, é formada por jovens moradores da região do Paquetá, Vila Nova e Vila Mathias, que se juntaram pela necessidade comum de expressar suas visões de mundo, medos, angústias sociais, sonhos e esperanças; toda essa realidade que enfrentamos, não como vÃtimas mas como sujeitos crÃticos e transformadores. Ao mesmo tempo, a gente sente muito a necessidade de um aprimoramento técnico-poético sobre a linguagem teatral. O primeiro espetáculo cômico, "As Controvérsias de um Cotidiano", falava da realidade periférica da sociedade brasileira, em especÃfico a da Baixada Santista. O texto foi criado pelos próprios integrantes do grupo. Essa peça teve sua estréia em 2005, quando foi apresentada para mais de 1.000 pessoas dos bairros do Paquetá, Vila Nova, Valongo, Vila Matias, Centro e Zona Noroeste. A nova peça agora se chama "Retalhos de um Poeta", diferente da primeira que possui uma linha mais narrativa, propõe uma sucessão de poemas lançados à platéia a fim de causar uma reflexão sobre os sentimentos amorosos humanos...
Samara:Tem também o MHM - Movimento Hip Hop do Mercado, dança, rap e gafritagem, já ganharam até alguns troféus, participam meninos a partir de 4 anos de idade.
Cristiano: Todo mundo sabe que existe um padrão de comportamento visto na TV, mas alguma parte talvez questione. Qual é a sua opinião sobre a forma que está sendo retratada a liderança comunitária na novela da Rede Globo Duas Caras, protagonizada por Antônio Fagundes?
Weskley: Mostrar uma liderança comunitária e a luta das favelas na novela é um ponto positivo, pois realmente existe a pressão de grandes empresas e das classes superiores, existe o preconceito. Porém o Juvenal Antena é uma liderança paternalista, e às vezes autoritária, o que não acontece aqui no Paquetá onde a comunidade participa através das assembléias e decidem o futuro dos projetos e da própria Associação.
Samara: O mesmo problema que na ficção os moradores da Portelinha enfrentam com a fábrica de cimento que quer se instalar na comunidade nós enfrentamos com o porto que cada vez mais influencia na vida da cidade, de formas boas e ruins. O Juvenal é legal porque ele é guerreiro, justo, só que tem uma coisa, ele não dá liberdade pra comunidade decidir sobre os rumos da Portelinha, não chama ninguém para uma reunião pra saber o que o povo quer fazer... Ele não respeita alguns princÃpios de respeito na comunidade, tanto que na trama ele cobiça a mulher do amigo.
Cristiano: Este ano vocês estão empolgados com o carnaval, como será?
Samara: A Escola de Samba "Unidos dos Morros" está incentivando os meninos da comunidade para trabalhar nos preparativos para o carnaval 2008, grafiteiros e cerca de 30 pessoas da comunidade estão trabalhando diretamente nos preparativos do carnaval, os carros alegóricos vão ser confeccionados com a reutilização de materiais recicláveis como sacos de cimento, garrafas pet, jornal... A escola traz um samba-enredo sobre a inclusão social, quer ultrapassar as barreiras do preconceito unindo as periferias da cidade através do samba. O Daniel é da Escola de Samba, o mestre de bateria, ele vai falar...
Daniel Correia (Mestre de bateria): O samba-enredo foi proposto pelo carnavalesco Roberto Peres, que trabalhou o tema exclusão social, pretende mostrar as formas de exclusão, pedindo pra sociedade uma mudança do problema atual da exclusão dos pobres, negros, homossexuais. A partir daà saÃmos dos morros indo buscar pessoas deste contexto aqui no Paquetá e Vila Mathias...Quem faz a escola é a comunidade, então estamos unidos nessa para ganhar o nosso primeiro tÃtulo no primeiro grupo das Escolas de Samba de Santos. Os ensaios acontecem segundas, quartas e sexta na quadra da escola no morro da Nova Cintra.
Oi, Cristiano! Vc não quer publicar este texto no portal de cultura?
Cristiane Carvalho · Santos, SP 18/2/2008 15:59Portal de Santos?Interessante!Porém este texto foi feito especialmente para o overmundo mesmo, valeu.
Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 18/2/2008 16:24
Cristiano, parabéns pela reportagem. O texto está muito bem elaborado, os fatos bem apresentados e é notório o dinamismo e a fluência de sua linha de pensamento. A entrevista está excelente, com destaque para quando traça um paralelo da realidade com a visão romântica da vida sugerida - e imposta - diariamente pela teledramaturgia. E você ainda conseguiu esclarecer ao leitor que a imagem de pobres marginalizados ignorantes e de braços cruzados esperando os governos se mobilizarem por eles, como a manipuladora mÃdia local faz parecer, é pura tolice e ignorância em si.
Um abraço,
Mau
Muito obrigado Mau, ótima a sua leitura sobre a matéria, captou o espÃrito e conhece de fato a realidade da Baixada e do Brasyl!
abração
Santos é mesmo um berço de talentos... cheguei meio tarde aqui mas quero deixar registrado os parabéns pela entrevista...
Alexandre Cortez · Santos, SP 5/2/2009 11:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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