PARA ATUALIZAR A HISTÓRIA *

ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA - CONTEÚDO & IMAGEM
Registro feito em 2007 da festa em homenagem à Abolição realizada pelos Arturos
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Liliane Pelegrini · Belo Horizonte, MG
3/5/2008 · 180 · 8
 

Amanhã começa mais um maio, mês que tradicionalmente é marcado pelas celebrações e pelas discussões acerca da questão da negritude, muito por conta de ser celebrada, em seu dia 13, a Abolição da Escravatura. Este mês de maio, especialmente, vai concentrar ainda mais festas e discussões em torno do tema, afinal, completam-se nada menos que 120 anos desde que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no país.
O mais peculiar é que, mesmo depois de tanto tempo e de estar em todos os livros escolares de história, na mídia e nas discussões socioculturais das mais diversas esferas, a Abolição da Escravatura no Brasil ainda é uma incógnita para a grande maioria da população brasileira. A impressão geral é que o marco histórico se sucedeu de forma repentina e por iniciativa exclusiva da então princesa. E mais: há uma certa lenda de que, assinada a Lei Áurea, os negros até então escravos foram relegados a uma subvida social, em que não sabiam nem conseguiam se realocar na sociedade como seres libertos.
Todas essas leituras, porém, fazem parte do “imaginário do tronco”, expressão que o professor Eduardo França Paiva, do departamento de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) utiliza para definir a visão que a grande maioria das pessoas tem da Abolição.
Especialista em escravidão no Brasil e autor de diversos livros, entre eles “Escravidão e Universo Cultural na Colônia” (Editora UFMG, 2001, 285 págs., R$ 32,30), Paiva explica que “a história da Abolição ainda é muito mal conhecida e muito mal contada”. “A história da escravidão e da Abolição no Brasil é até hoje muito imbuída de abolicionismo. Continuamos olhando para esse passado segundo interpretações e fontes do século XIX. Nesse caso se repete um maniqueísmo em que há o herói, a vítima e o algoz, mas as coisas nem sempre são assim. É uma crueldade historiográfica destituir os negros do papel ativo e fundamental que tiveram para que a Abolição acontecesse”, afirma o professor.
PARA ENTENDER. Eduardo França Paiva não quer dizer, claro, que os livros que estudamos nas escolas estão mentindo. “A história não é um objeto pronto. É um organismo vivo, por isso é necessário que ela seja pensada e repensada com as perspectivas que vão surgindo. É importante entender que houve um tempo em que era conveniente escrever a História dessa forma que a maioria das pessoas conhece”, diz Paiva.
Deixando, então, de lado, o modelo propalado e nem um pouco correto sobre a Abolição da Escravatura no Brasil, vamos aos fatos: “Quando, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada, ela libertou todos os negros que eram escravos no Brasil, mas o número de escravos era muito inferior nessa época, em relação aos séculos XVII e XVIII”, explica Paiva, botando por terra o clichê que faz crer que milhões de negros foram libertos a partir da Lei Áurea. “Já havia no Brasil e em outras áreas escravistas uma longa tradição de alforrias, que eram, na maior parte, compradas pelos escravos. Esse número era imenso, a ponto de já no século XVIII a população de forros e de filhos de ex-escravos suplantar a população escrava”, conta Paiva.
Não há censo oficial, mas estimativas apontam que na então capitania de Minas Gerais (“a mais populosa, mais rica e mais importante, portanto um bom sumário para se falar de Brasil”), havia 130 mil forros e descendentes de primeira geração, enquanto a população escrava atingia os 110 mil e os brancos, 80 mil – um marco importante para essa reviravolta é o ano 1850, em que o tráfico de escravos da África foi proibido. “A Lei Áurea foi apenas o reconhecimento de uma realidade que já existia. O negro teve participação direta em sua própria libertação”, conclui o professor, reiterando, então, que a história real não condiz com a imagem de que a Abolição da Escravatura no Brasil foi um ato de benevolência dos brancos. Do mesmo modo, é leviano afirmar que os negros ficaram relegados a uma subvida após a Lei Áurea. “Eles não precisaram se integrar porque já estavam integrados social e culturalmente”, afirma Eduardo França Paiva.



COMUNIDADE DOS ARTUROS SIMULA 13 DE MAIO DE 1888
Prestes a completar 120 anos, a assinatura da Lei Áurea é comemorada por comunidades e por órgãos que se relacionam diretamente com a herança africana no Brasil. Diversos são os eventos festivos e reflexivos ligados ao significado do 13 de maio.
Em Minas, uma das mais tradicionais celebrações é a festa promovida pela comunidade dos Arturos, grupo de quilombolas descendentes do escravo alforriado Artur Camilo Silvério que fica em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte – este ano, a celebração será no dia 11. “A festa, para nós, é uma das formas de tentar manter a nossa cultura e a nossa tradição. Começamos na matina, com a procissão e as bençãos a partir das 5h da manhã. Depois, o pessoal todo se uniformiza, toma café e sai o cortejo até o espaço popular da Igreja Matriz do centro de Contagem. Lá, cantamos, dançamos a nossa tradição, recebemos as guardas convidadas e simulamos o 13 de maio de 1888 com a leitura da Lei Áurea”, explica Geraldo Bonifácio da Luz, um dos Arturos. “Eu acredito que, hoje, ainda sofremos preconceitos, mas o negro está conquistando o seu espaço. Para melhorar isso, eu acho que a tradição é importante”, completa.
OUTRA ESCRAVATURA. O ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), diz que a escravidão no sentido trabalhista foi abolida, mas perdura uma outra forma de escravatura. “Perdemos quase cem anos escondendo nossos preconceitos sob o mito da igualdade racial que veio pós 13 de maio de 1888. Com isso, os negros foram prejudicados no acesso à educação, ao mercado de trabalho etc. Já passou da hora da questão dos preconceitos deixar de ser velada e passar a ser discutida amplamente, só assim podemos estabelecer igualdade no Brasil”, avalia Edson Santos.
“Apesar de recente, a Seppir tem estado próxima dos movimentos e tentamos sempre lutar para erradicar o preconceito. Temos dado bons passos. Podemos dizer que o acesso à universidade pelos negros já melhorou, com o sistema de cotas. E acredito que esses jovens negros que estão nas universidades vão naturalmente fazer uma pressão positiva e o mercado não vai ter como ignorar essa massa inteligente”, acrescenta o ministro..
Para o dia 13 de maio, a Seppir vai realizar seção solene em Brasília, em que vai lançar o Mapa da Desigualdade Racial no Brasil, elaborado pelo IBGE.


ALGUNS EVENTOS ACERCA DOS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO
2 a 4/5
Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, em Salvador
7/5
I Seminário de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em Brasília
9/5
Fórum Interinstitucional de Gestores e Comunidades Quilombolas, no Rio de Janeiro
11/5
Festa da Abolição com a comunidade dos Arturos, no Espaço Público da Igreja Matriz do centro de Contagem
13/5
Sessão Solene em comemoração aos 120 anos da abolição da escravatura no Brasil, no Senado Federal, em Brasília
Manifestação da Federação Mineira das Comunidades Quilombolas em frente ao Palácio da Liberdade, Belo Horizonte
18/5
Apresentação da Cia. Baobá de Cultura africana na praça da Estação
23 a 25/5
Encontro Lapinha Museu Vivo no Mês da Abolição, na Gruta da Lapinha


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* MATÉRIA PUBLICADA EM 30.4.2008 NO JORNAL O TEMPO - www.OTEMPO.COM.BR

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LAILTON ARAÚJO
 


CARA LILIANE


O que devemos comemorar? A liberdade dos negros? Somos livres... E daí? Igualdade racial existe... Podemos andar por aí! E financeiramente? Ainda dependemos de cotas universitárias! A igualdade social ainda é coisa de poucos para muitos... Uma viagem pelos confins do Brasil, subida aos morros cariocas, turismo nas periferias das grandes cidades brasileiras e leitura de links como o publicado abaixo, dão parâmetros para "livros e livros". E daí? Qual serão os benefícios sociais para os descendentes dos povos da África?

As "Tropas de Elites" não são os novos exterminadores dos velhos "Zumbis", que ainda teimam em assustar os governos do Rio de Janeiro?

Leia como a história se repete:

http://www.overmundo.com.br/forum/caros-overmanos-e-overmanas-e-grave

O texto é válido pela discussão...

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 3/5/2008 16:42
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LAILTON ARAÚJO
 


corrigindo a digitação:

E daí? Quais serão os benefícios sociais para os descendentes dos povos da África?

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 3/5/2008 16:45
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Liliane Pelegrini
 

Ei, Lailton, o propósito da matéria era exatamente gerar discussão. Por isso fui procurar o professor Eduardo França Paiva, que, na minha opinião, acerta muito ao dizer que “a história da Abolição ainda é muito mal conhecida e muito mal contada”. Abraços!

Liliane Pelegrini · Belo Horizonte, MG 3/5/2008 17:18
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Spírito Santo
 

Liliane,

Muito bom o seu post.
As colocações do França Paiva também, principalmente, por serem tão discutíveis (no corte que você faz, pelo menos) quando, aparentemente, afirmam a possibilidade de ter havido uma suposta integração do negro na sociedade brasileira antes ou depois da Abolição. Esta afirmação é polêmica porque, se ao pé da letra modo entendida (ou oportunisticamente distorcida por avenureiros), pode vir a servir como argumento para desclassificar políticas atuais de ação afirmativa ou atenuar às denúncias que se faz hoje sobre a chaga do racismo à brasileira, enquanto eficiente e explícito mecanismo de exclusão social (claramente, o contrário de 'integração', neste caso) criado, exatamente, após a abolição como forma de perpetuar um modêlo de sociedade (o escravismo reciclado) onde ao negro foi reservado o lugar de classe subalterna, até hoje.
Gostaria de conhecer a tese por inteiro, imagino que ela não seja assim tão simplista, como fica parecendo numa leitura tão a priori como esta que eu faço. Achei muito instigante também o dado (paraestatístico) informado sobre a demografia de Minas Gerais um pouco antes de 1850 ("...Minas é o Beco do Mota...Brasil é o beco do Mota. Viva meu país!"..).
Sem maiores aprofundamentos, o dado poderia nos levar à conclusões diametralmente opostas às que o historiador chegou como, por exemplo:
Se 130 mil escravos +110 mil forros e descendentes de primeira geração (negros indiscutíveis, portanto) perfazia uma população negra três vezes maior que a branca (80 mil), onde foram parar os mestiços desta história? Pode-se concluir que existia zero de miscigenação na época (o que isto poderia significar para a hipótese de 'integração' natural).
Outra: Se havia mesmo esta alegada integração (enquanto um processo natural, ao longo do tempo, claro) na extratificação daquela sociedade (apenas 'meio-escrava', se conclue pelo dado) qual seria a posição dos 130 mil forros? Tinham emprego (ou haveriam negros de ganho entre eles), tinham moradia, acesso irrestrito a educação, praticavam algum tipo de indústria própria ou comércio? Ao contrário do que a tese parece sugerir, parece que não. Para se saber isto, só mesmo lendo a tese por completo.

Enfim. O livro “Escravidão e Universo Cultural na Colônia” daria um bom papo, nesta época em que, impelidos não se sabe por que receios, um número considerável de pessoas autodenominadas 'intelectuais e professores' se mobilzam contra qualquer ação que vise, mesmo de leve, corrigir a enormes desigualdades socio raciais no Brasil que, segundo elas, rigorosamente, nunca existiu.
Se você pudesse fazer mais artigos sobre este livro, contribuitria mais ainda para esta discussão.

Abs.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 3/5/2008 17:56
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Spírito Santo
 

(..."que, segundo elas, rigorosamente, nunca existiram".)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 3/5/2008 17:59
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Spírito Santo
 

Aliás, falando em 'integração' socio racial, 'Integracionismo' é um dos conceitos mais caros às idéias de Gilberto Freire (década de 1940), corrente de pensamento que, como já afirmei em vários posts por aqui, serviu de base à politicas oficiais neo colonialistas (governo Salazar) de extratificação social (como era o Apartheid Sulafricano) em Angola, Moçambique, Guiné Bissau e, quem sabe? até no Brasil.
Apenas como hipótese: Seriam estas apenas inofensivas teses?

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 3/5/2008 18:08
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Andre Pessego
 

Há dois paralelos terríveis no Brasil, nos últimos 120 # 100 anos.
a) A Imigração japonesa cantada em prosa e verso, a segunda mais nociva atitude tomada na República;
b) O desfecho e o antes Lei Áurea. Por duas razões:
b.1 - Em não criando a figura punitiva para quem a desrespeitasse
a Lei Áurea, perpetua a escravidão. Ainda hoje há focos de escravos, escravos mesmo, no Brasil. Como não figura punição, e como a ANTERIORIDADE é principio uno da Doutrina do Direito no Brasil. O escravisador não pode ser punido. Nunca foi punido, nem um. A escravidão continua cláusula pétrea do Direito Brasileiro. Não pode ser punido. Se vira o neguinho que cair nas carras.
b.2 - Como não criou mecanismo de amparo, o negro foi largado
com o fardo de 4 séculos de trabalho perdido. E assim
"O negro continua vítima da sociedade que ajudou a construir como ninguém".
E por fim, no mundo se discute a imigração japonesa, no Brasil, como sendo a única imigração tutelada do
mundo
,
Mas gostei do teu artigo, penso apenas em complementar
um beijão
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/5/2008 21:28
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Andre Pessego
 

Liliane,
- Há tres ou quatro "japoneses", descendentes de, que vem discutindo, vem pesquisando seriamente este assunto; Em são Paulo eles são encabeçados pela Profa. Celia Sakurai, do Dep.
de Estudos Avançados da USP. Veja o que ela diz
"Ao longo desses 90 anos, os imigrantes japoneses sempre tiveram a sua identidade marcada por suas diferenças com a sociedade brasileira"
Sabe que ela diz sobre o negro: Nada. Nada.

- O Fernando Moraes andou inserindo alguma coisas;
- O prof. Roberto Darzan tem alguma coisa.
Só. Nós os descentes de europeus, nos calamos, entorpecidos
pela corrupção dos tantos, notadamente na imprensa, que se eempanzinam com o dinheiro da corrupção ativa/passiva há extamente a um séculos.
E o Valdir Nyemeir que analisa do ponto de vista economico.
Nós, o negro, coitados não temos voz, nem vez. A meia duzia que têm são monitorados pelas Forças Armadas Brasileiras, a segunda maior desgraça do negro brasileiro.
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/5/2008 21:38
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