Para contar história e construir memória

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Marcus Vinicius Paiva · Vitória, ES
27/11/2007 · 86 · 4
 

Os livros do Projeto Comunicação Capixaba (Coca) são um esforço de reportagem, como se diz nas redações. É um trabalho profissional de quem ainda é aluno. É obra da conjunção de esforços que ultrapassam os limites do campus universitário.

Recém-empossado como professor do Departamento de Comunicação da UFES, em maio de 2004, foi-me destinada a disciplina de Administração e Mercadologia em Jornalismo, cujo objetivo é preparar os alunos para enfrentar o mercado de trabalho. Saído exatamente do mercado, trazia comigo a consciência de uma de suas maiores demandas: a produção de publicações institucionais. Por que não ensinar os alunos a fazer livros, da idéia inicial à edição final?

Mas sobre o que escrever? A comunicação capixaba padece de falta de memória. Muito do que se construiu no século XX está se perdendo por inexistência de registros e pelo desaparecimento das fontes que guardam nos corações e mentes o passado que viveram. Numa conversa com a jornalista, cineasta e ex-professora da UFES Glecy Coutinho, ela alertava-me sobre a necessidade de se registrar essa memória.

Mas não bastam boas idéias e disposição para fazer - um projeto não se realiza sem recursos. Ao governador Paulo Hartung e ao então superintendente de Comunicação do Governo do Estado do Espírito Santo, Tião Barbosa, não faltou sensibilidade para a importância da iniciativa - a Imprensa Oficial se responsabilizou pela impressão do livro, que é distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas públicas, núcleos de pesquisa e veículos de comunicação.

Durante as aulas, metade do tempo é dedicado à discussão da comunicação, do capitalismo e do mercado de trabalho contemporâneos. No segundo tempo, dedicamo-nos ao planejamento e à execução dos livros. Os escritores são agrupados em duplas ou trios, que assinam os capítulos elaborados segundo pauta decidida coletivamente, mas com plena autonomia discursiva.

E aqui cabe uma abordagem acerca da importância da memória. O passado pode ser observado e narrado de diferenciadas formas. Um fato concreto pode suscitar, pois, diversas memórias. Depende de como foi registrado no tempo próximo de seu acontecimento e, principalmente, do tempo de quem o relembra, de quem o relê e o reconta. Memória não é passado, é leitura presente do que passou com vistas a um futuro desejado.

E por que a memória é importante? Importa pelo fato de ela ser a principal referência para a constituição de nossa identidade. Entendendo-se identidade como o autoconhecimento e a diferenciação em relação ao outro, a memória é o que nos dá elementos para nos conhecermos e demarcarmos nossas peculiaridades no mundo.

A comunicação capixaba, como de resto o Estado do Espírito Santo, carece de memória. Sem sabermos o que fomos, sem conhecermos nossa caminhada, falta-nos algo essencial na construção de um futuro melhor e com maior autonomia social, cultural, política e econômica: falta-nos uma identidade concreta e objetiva. E identidade é memória em ato.

O passado sempre teve um futuro. E o futuro não prescinde do passado. Somos aquilo que lembramos, mas também o que esquecemos. Memória é consciência e inconsciência; similaridade e diferença; lembrança e esquecimento; busca, invenção e reinvenção; crença. E como exercício, memória não é algo que se completa ou termina; permanece. Como a vida, e sendo elemento primordial da Humanidade, é algo sempre incompleto. Obra coletiva, é projeto que se faz e refaz ao longo das existências. É pegada e caminho; sonho e horizonte.

José Antonio Martinuzzo
Professor organizador e editor do Projeto CoCa



Biblioteca Virtual do Projeto Coca

O site do Projeto CoCa foi criado para atender a uma dupla finalidade. A primeira, disponibilizar os livros do projeto a um número maior de pessoas, visto que a tiragem dos volumes é reduzida e a aquisição restrita ao dia do lançamento. Com os livros digitais (e-books), não só os capixabas, mas pessoas de todo mundo poderão ter acesso irrestrito a esse benefício. A outra finalidade é demonstrar o potencial das bibliotecas virtuais como uma possibilidade viável e barata de difundir livros e conhecimento. Acompanhando uma tendência mundial, desejamos abrir as discussões acerca do tema na Universidade Federal do Espírito Santo, aliando debates sobre a nova mídia, formas alternativas de apropriação dos bens culturais e ações práticas.
Para demonstrar o processo adotado em todo o mundo para digitalização de livros, os arquivos aqui disponíveis foram totalmente produzidos a partir de originais impressos, com a ajuda de um escaner e um programa de reconhecimento ótico de caracteres (OCR). Através desse método, outras universidades do país, como a USP, já mantêm suas bibliotecas virtuais há alguns anos e no exterior a prática já é conhecida de longa data. As vantagens são indiscutíveis. O custo de aquisição de um livro digital é zero, seu potencial de propagação é enorme, eles são imunes à ação do tempo e não dependem de enormes áreas físicas.

Todos os livros do CoCa estão disponíveis no Balcão de Cultura do Overmundo, assim como no site do projeto: www.comunicacaocapixaba.com.br

Livros já Lançados:

- Rádio Club Espírito Santo – Memórias da Voz de Canaã;
- Balzaquiano – Trinta anos do Curso de Comunicação Social da Ufes;
- Diário Capixaba – 115 anos da Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo;
- Impressões Capixabas – 165 anos de jornalismo no Espírito Santo.
- Roda VT! - A Televisão Capixaba em Panorâmica
- Comunicação Organizacional - Um Século de História no Mundo e 50 anos no Espírito Santo

Marcus Vinicius Jacob Paiva
Idealizador do Coca On-line

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Ilhandarilha
 

Parabéns ao Martinuzzo e aos alunos da Comunicação pelo projeto, de fundamental importância para a memória da comunicação capixaba. Você poderia colocar aqui os links do projeto no banco de cultura?

Ilhandarilha · Vitória, ES 27/11/2007 08:27
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Ana Murta
 

Este projeto é de inestimável importância. Parabéns a todos!

Ana Murta · Vitória, ES 9/1/2009 11:20
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