Em Cametá, Toni Soares grava na casa de Dona Yolanda, uma das últimas cantoras de samba do cacete da região do Tocantins
Músico, compositor, DJ de reggae e radialista... Depois de passar pelos mais diversos ramos da música, Toni Soares encara agora o seu maior desafio: o mapeamento da produção musical do Estado do Pará, que será transformado em uma série de livros e CDs. Dividido por regiões, ele pretende registrar manifestações culturais que permanecem distantes do grande público, confinadas a sua região de origem e condenadas a desaparecer à medida que os seus criadores envelhecem ou morrem.
Um projeto ambicioso, cuja origem remonta ao trabalho de Toni Soares como produtor da rádio Cultura FM. Segundo ele, foi em um especial de música junina de Belém do Pará que ele teve a idéia de estender o projetos para outros gêneros e outras regiões do estado. "Eu comecei fazendo isso com os grupos de bois-bumbás de Belém e distritos mais próximos, para abastecer o programa Baque Solto, produzido e apresentado por mim na Cultura FM. Esses grupos se reúnem apenas em maio para compor toadas para a quadra junina. Com o surgimento do Baque Solto eles começaram a compor com mais freqüência porque passaram a ter onde divulgar a sua produção. O ritmo foi ficando mais intenso e acabei chegando a conclusão que estender as gravações para o interior do estado era um passo natural", explica Toni.
Como se sabe nem sempre tudo o que é de raiz é, necessariamente, bom. E o erro está em romantizar demais o que é produzido no Brasil Profundo. Em meio à quantidade avassaladora de ritmos, folguedos e manifestações culturais paraenses, Toni revela que, ao escolher quem iria participar do projeto, tentou conciliar a qualidade musical com a urgência do registro de grupos em pior situação. "Eu pesquiso quais as regiões que possuem uma maior riqueza cultural e vou até lá com um estúdio móvel. Não penso no artista, penso no tesouro musical esquecido: um rabequeiro, um tocador de banjo sem grupo, um tocador de bandurra que mora numa comunidade na beira do rio, penso no samba de cacete, no bangüê, naquele compositor de carimbó que já gravou vários discos e hoje está na miséria esquecido lá no meio do mato. O meu gosto como músico e produtor não interfere em nada nesse processo de escolha de sonoridades. A prioridade é pra quem está na 'UTI' quase morrendo esquecido", conta.
E foi nessas andanças pelo interior do estado que Toni revela ter se deparado com surpresas bastante agradáveis. Algumas, inclusive, surgidas de sessões de gravação que, aparentemente, deram errado. Como a orquestra de carimbó de Santarém Novo, nascida de um desentrosamento musical do grupo Trinca Ferro. Como seus integrantes não conseguiam gravar junto com os sopros sem perder o tempo, Toni gravou o grupo sem os metais. Em seguida, ao entrevistar os garotos da sessão de metais, pediu q tocassem junto com a base rítmica do Trinca Ferro. Segundo o produtor, dessa experiência surgiu a idéia de se fazer uma orquestra de carimbó, que já se prepara para fazer as suas primeiras apresentações.
Além da preocupação de, como produtor, não interferir na música que está sendo gravada, "um crime", segundo Toni, ele descarta a possibilidade de trazer os grupos do interior do estado para gravar em estúdio. Para o produtor, registrar essas manifestações em seu estado natural é uma das principais preocupações do projeto, o que torna a sua execução um pouco difícil dadas as dificuldades em se locomover por certas regiões do Pará. Toni conta, em um primeiro momento, grupos como o Bambaê do Rosário, da Vila do Juaba, no município de Cametá, chegaram a gravar em estúdio. No entanto, foi ao registrar os músicos ao vivo durante uma festa em sua cidade natal que Toni Soares percebeu como deveria proceder durante todo o projeto. "Imaginei que essa sonoridade na localidade deles, que é a Vila de Juaba, poderia ser diferente da que obtivemos em estúdio. E nisso eu acertei. Gravamos o grupo durante uma apresentação pela comunidade. Fomos até uma casa onde a festa estava acontecendo e penduramos microfones por todo o salão. Como o bambaê é um grande coro popular cantado por todos da cidade, deixei um microfone para a voz do canto principal e outro para os tambores. Essa gravação ficou muito melhor do que a feita no estúdio", afirma.
Até o momento, o projeto já registrou os grupos de boi-bumbá da região metropolitana de Belém em um CD duplo com 20 artistas. Em seguida foi a vez de Santarém Novo, com nove manifestações diferentes; e Cametá, onde Toni gravou o samba de cacete, o bambaê e o bangüê (a música das comunidades quilombolas da região). Depois foi a vez de Marapanim, ocasião em que o produtor explorou todas as manifestações musicais da região em busca da origem do carimbó. Desde de fevereiro de 2006, Toni vem visitando as cidades de Ourém, Óbidos, Abaetetuba, Baião e Cametá, para então dar meia volta rumo ao sul do Pará. Uma jornada intensa guiada pelas brincadeiras e pelos folguedos que ajudaram a construir a identidade cultural do homem amazônico.
Em 1968, Vicente Salles fez (com toda a precariedade da época) os primeiros registros sonoros do carimbó (da Tia Pê) e há nessas gravações um "frescor" que não se reproduziria nunca em estúdio, apesar de serem toscos comparado aos padrões atuais. Com a tecnologia mais acessível é possível fazer bons registros in loco.
Essas gravações do Toni Soares são necessárias, ainda mais nesse nosso Pará tão maltrado. Por nós mesmos.
Boa Vlad.
Vladimir, gostei do que você chama de Samba do Cacete! O Toni é muito bom. Abçs. Benny Franklin
Benny Franklin · Belém, PA 10/6/2007 12:59Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!