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“Para falar errado, precisa saber falar certo”

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romulo fróes · São Paulo, SP
26/1/2010 · 38 · 7
 

Artigo escrito para a Folha de São Paulo por ocasião do centenário de Adoniran Barbosa


Dentre suas inúmeras faces, podemos separar o samba em dois sentidos dominantes: o lugar do prazer, da celebração, do ócio e aquele onde a vida é supensa, o lugar dos sambas tristes, para trás. É comum associar Adoniran Barbosa ao primeiro sentido aqui descrito, mas o vejo como um ponto cego entre esses dois lugares.

Lembrado mais por suas letras bem humoradas, suas canções carregam uma melancolia disfarçada. Comicidade e tragédia se misturam em uma mesma canção. Faz graça para fugir do ressentimento de ter sido posto de lado com o surgimento da Jovem Guarda, “(...) e eu que já fui uma brasa,
;se assoprarem posso acender de novo”. Faz soarem engraçadas, histórias trágicas ditas com seu linguajar “errado”, aprendido nas ruas do Brás e do Bexiga, onde, como ele mesmo dizia, “o crioulo e o italiano falam igualzinho” . E alertava, “para falar errado, precisa falar certo”. Vem daí o sorriso no rosto de quem canta, por exemplo, uma estória triste como a que narra “Saudosa Maloca”.

Percorria toda a cidade com sua música. Era um andarilho, como Nelson Cavaquinho. Mas diferente deste, tinha autonomia sobre seu percurso. Conhecia suas ruas, vilas, favelas, bares, seus personagens e suas estórias. Tudo que via, ouvia, transformava em canções. O “Trem das Onze”, o “Vaduto Santa Ifigênia”, o “Torresmo a Milanesa”, a “Saudosa Maloca”. Se comportava como um documentarista. Como Noel Rosa, de quem tomou emprestado “Filosofia”, samba com o qual foi premiado em um concurso de intérpretes e que finalmente lhe abriu as portas do rádio.

Adoniran se tornou dentro do samba uma de suas figuras mais singulares. Muitos motivos devem ter contribuído para a construção de seu gênio, mas acho determinante o fato de ter nascido em São Paulo. A cidade, de extrema importância para a música brasileira no que se refere ao seu adensamento, onde desde sempre os movimentos tomam forma e se propagam para o resto do país, tem em Adoniran um dos raros casos de artistas que poderiam representar uma espécie de escola paulista. O fato de até hoje (menos ainda em sua época) não termos criado uma clara tradição em música popular, pode tê-lo liberado das normas tão rígidas do gênero. Sem ter a quem dar satisfação, sentiu-se livre para suas invenções.

Se o samba é carioca e baiano, São Paulo, acusada tantas vezes por sua falta de ginga, gerou um dos mais originais compositores da música popular brasileira. Adoniran era paulista. E só podia ter sido. No fim de sua vida, reclamava que não encontrava mais São Paulo. “O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado”. Teria reencontrado se tivesse procurado em suas próprias canções.


Romulo Fróes

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herculano alencar
 

Excelente!

herculano alencar · São Paulo, SP 27/1/2010 14:56
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victorvapf
 

Felizes aqueles que teem a percepção do gênio logo no começo...eles aproveitam mais, ao passo que a gente descobre muito tarde, so depois que ele foi...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 27/1/2010 15:38
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Peterson Nogueira
 

Adoniran Brasileiro via a vida e mostrava para a gente. Ah saudade da Maloca.

Peterson Nogueira · Natal, RN 28/1/2010 13:53
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Ale Youssef
 

Parabéns Romulo!

Ale Youssef · São Paulo, SP 29/1/2010 11:38
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victorvapf
 

Acho que faltou um link, me adiscurpe que to colocanu...

http://www.youtube.com/watch?v=ceBdGz3eTFg

victorvapf · Belo Horizonte, MG 29/1/2010 19:20
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Marcelo Cabral
 

Adoniran é gênio total. É a crônica de uma cidade que amo profundamente. De uma lugar e um povo formado de todos os povos e lugares. O verdadeiro coração deste país. Onde caminhos se cruzam. Onde a vida acontece.
Em maio de 2009 estive em Sampa mixando nosso novo disco, em um estúdio na Zona Leste, ia até lá de metrô, e cada estação que passava apertava o play de uma canção do Adoniran no meu juízo.
Demais Romulo, adorei o texto! Saudosa São Paulo! Abraço!

Marcelo Cabral · Maceió, AL 30/1/2010 14:20
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Mahatma
 

Acabei de ler o texto do Skylab onde ele interpreta a sua obra até agora (que, aliás, sem bajulação, eu admiro bastante) e vi lá nos comentários o link pro seu perfil aqui. Decidi entrar e dar uma olhada e me deparo com esse texto seu e penso: Que bacana!
Explico: digo isto por estar absolutamente naquele momento de embriaguês total na obra de um compositor, e este é o Adoniran. Pretendo escrever sobre ele, também, e penso em dar foco a um ponto que você frizou e que me deixa besta sempre que eu o escuto: a maestria com que ele se utilizava do trágico e do cômico, harmonizando essas tensões de forma que ambas se misturam (ou fazem surgir um ponto cego entre, como você diz). E aí é que entra a contribuição dessa obra magnífica e o ponto do qual não podemos nos perder: essa harmonia de tragédia e comédia é algo que está embrenhado na estrutura da vida, e isso não se pode negar. Claro que numa cultura toda fragmentada é difícil harmonizar as tensões contrárias, mas que bom que figuras incríveis como o Adoniran baixaram cá entre nós e nos deram o exemplo perfeito da poesia na vida sem ter se valido de pedantismo filosófico e retórica vazia pra isso.
Abraço!

Mahatma · Mesquita, RJ 12/5/2010 03:47
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