Para não virar suco

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Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ
17/10/2007 · 88 · 2
 

Acaba de estrear no Rio de Janeiro a cópia restaurada do filme "O Homem que virou Suco", de João Batista de Andrade, ex- secretário de cultura do estado de São Paulo.

O trabalho de restauração feito a partir de cópia em 35mm (o filme original em 16mm de 1980 está perdido) traz de volta uma realização cinematográfica essencial para mostrar o choque entre a parte dita moderna do Brasil e os representantes das zonas julgadas atrasadas.

José Dumont, em interpretação brilhante e ganhadora de vários prêmios internacionais, apresenta um "nordestino", tipo pelo qual o ator ficou marcado, tentando viver em São Paulo.

Mas este é um "nordestino" diferente. Deraldo não é um analfabeto, mas um poeta. Ele não acha que vai contribuir para o progresso nacional sendo pedreiro, porteiro, garçom ou outra profissão subalterna que faz dos imigrantes do NE uma versão nacional do que representa os latinos para os Estados Unidos.

A violência está em múltiplos níveis: insultos verbais, perseguição policial e oficial, paternalismo e mesmo comida estragada servida aos peões. Mas a principal ameaça para Deraldo é a internalização do estereótipo, mostrada de maneira belíssima através de uma animação sobre a vida do operário Virgulino, que desperdiça a chance de se civilizar e prefere viver a base da cachaça e da peixeira.

A luta de Deraldo é não se tornar esta imagem miserável que se tem do nordestino, que de "arretado" facilmente vira "canganceiro" no desconhecimento total que as partes mais ricas do país tem da história e da cultura das outras regiões. Luta para não se tornar como o seu duplo, o pobre Severino, cujo drama paralelo presente no filme é digno de João Cabral de Mello Neto.

As passagens em que clássicos musicais da imagem monolítica e arcaica do NE são apresentados - Asa Branca e Mulher Rendeira - são desconcertantes. Estas e outras canções embalam as desventuras de Deraldo, caso exemplar do esforço não reconhecido de pessoas deslocadas de seu lugar de origem para "erguer estranhas catedrais" e desbravar seringais. Uma luta incessante para não virar suco.

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Roberto Maxwell
 

Esse filme é fundamental na filmografia nacional. Uma obra linda e cheia de paixão.

Roberto Maxwell · Japão , WW 14/10/2007 13:15
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Helena Aragão
 

Boa lembrança! Tinha visto o cartaz no cinema mas já tava me esquecendo...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2007 19:08
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