Para ser lido em voz alta

Foto e montagem: Viktor Chagas
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
21/10/2007 · 346 · 31
 

[MÚSICA INCIDENTAL]
OFF:
Um casal apaixonado está fazendo amor. Ela está de costas para ele. Os dois se entreolham e ele a beija no rosto apaixonadamente.

Prendi sua atenção? E quem sabe se eu dissesse:

[MÚSICA INCIDENTAL]
OFF:
Um casal está fazendo sexo intensamente. A mulher está de quatro. Ele a penetra por trás. Os dois se entreolham e o homem lhe dá um beijo no ouvido.

Um pouco mais ousado, mas direto ao ponto. Você já deve até ter a imagem na sua cabeça. Agora, tire a citação à música incidental, o off e substitua por um diálogo:

MULHER: Ai, amor. Vem. Vem.
HOMEM: Fica de quatro.
MULHER: Assim está bom?
HOMEM: Vira pra cá, deixa eu te dar um beijo.
MULHER: Ai, amor, adoro beijo no ouvido.

Mas esta não é uma história de sexo explícito. O exercício acima foi só para prepará-lo para a nossa conversa. E a idéia é mesmo conversar. Trocar idéias, ouvir histórias. O que afinal é cinema para você? Digo, o cinema, como a grande maioria de nós está acostumada a conhecer, é uma sala (ou o ato de entrar nessa sala) escura, cheia de poltronas, com uma tela enooorme, um sistema de som quase ensurdecedor, onde assistimos a um produto audiovisual. Audiovisual, não é?

Carlos Eduardo Pereira, o Cadu – como eu o conheci –, é pesquisador de cinema e programador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), é músico, pianista, e mestrando em etnomusicologia na Escola de Música da UFRJ. Graciela Pozzobon é atriz, premiada nos festivais de Brasília, do Rio e de Gramado pela sua atuação no curta Cão Guia de 1999, dirigido por Gustavo Acioli, entre uma série de outros trabalhos, é formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL) e estuda Artes Cênicas na Unirio.

[Não, eles não são o casal acima! Mais respeito, gente...]

Acontece que Graciela e Cadu atuam em flancos diferentes do front (ou teatro de operações, se preferir) do cinema, e ambos são legítimos representantes de categorias únicas – únicos no Rio e raros no Brasil. Ele é pianista de cinema mudo. Ela, narradora de audiodescrição. A grosso modo: ele executa músicas para filmes sem som e ela narra cenas sem diálogos para deficientes visuais no cinema. Ao meu ver, ele traduz em um som abstrato uma imagem concreta, enquanto ela, em um som concreto uma imagem abstrata. Ou foi mais ou menos assim que eu tentei sempre aproximá-los nas conversas que tive ora com um, ora com outra.

Cadu se remete à História (com agá maiúsculo) do cinema para dizer que “Cinema silencioso praticamente nunca existiu. A primeira exibição pública dos irmãos Lumière, em 1895, teve um pianista acompanhando o filme. Uma das principais razões para que os filmes fossem acompanhados de música era porque os projetores eram muito barulhentos. A música servia para encobrir o ruído.” (Poucos dias antes de entrevistá-lo, eu havia assistido a uma apresentação sua, ao piano, acompanhando uma sessão de lanterna mágica – uma espécie de projetor de slides, precursor do cinema, que surgiu pela metade do século XVII –, antecedida por uma palestra de Hernani Heffner sobre o raríssimo aparelho, e pude comprovar, se não o barulho do projetor ou a monotonia dos slides, ao menos o entreter que a música ajuda a compor na situação de alguém que “expecta” uma série de imagens na parede de uma sala escurecida.)

Nunca foi silencioso, mas é dito mudo. E cinema mudo, hoje, é naturalmente descrito por exclusão (é cinema, mas é cinema mudo: repare aí o adjetivo que qualifica subjetivamente e exclui objetivamente o que é o quê). “O som”, diz Cadu, “redimensiona a imagem. Eu digo alguma coisa que o filme sugere, mas é algo que não está dito propriamente, porque o som constitui na verdade uma outra dimensão daquele objeto fílmico. Eu digo que a visão está muito próxima da razão, porque é através da imagem que você consegue medir, contar, enxergar ou não em três dimensões, é um procedimento muito natural. Já o som pode significar uma coisa para você e outra para mim. Eu até fiz um trabalho em que questionava se o som pode ou não ser considerado uma linguagem, justamente por conta dessa ambigüidade semântica. A música é mais emocional.”

No cinema audiodescrito, são as brechas de música (ou de silêncio) as mais aproveitadas pelo narrador para explicar os detalhes da cena. Quando os personagens falam, é hora de o narrador se calar. No mais das vezes, é no momento em que o cinema se torna “mudo” que a audiodescrição é feita – sempre no intuito de tentar auxiliar o deficiente visual a enxergar a cena da forma como o espectador comum a recebe. “Uma obra cinematográfica é composta de muitos aspectos e você tem que saber julgar quando o diretor está usando de algum recurso que seja fundamental para contar aquela cena. Então é importante ter noção de luz, de posicionamento de câmera... Eu tenho um exemplo de um filme em que a cena é assim: um nadador se atira na piscina de cabeça. E você imagina na sua cabeça essa cena. [Faça o teste!] E se eu te falar que a câmera estava posicionada dentro água? Muda tudo, não é?”
OFF: Eu acenando com a cabeça, embasbacado pela surpreendente obviedade do exemplo.

O que encanta na pergunta implícita nesse breve apanhado sobre as duas profissões é a discussão acerca do estatuto do cinema-que-não-é-exatamente-audiovisual. Pergunto a Graciela se a audiodescrição não faz do filme um livro falado, se a coisa não deixa de ser cinema. A pergunta é dura, e ela sente isso: “É diferente ouvir a história contada. Estar dentro da caixa preta, ouvindo os diálogos originais, o som alto. Não é a mesma coisa que sentar e contar a história a alguém. Provavelmente deve ter começado assim a audiodescrição, com um amigo do lado, que fica falando, atrapalhando o filme dos outros.” Daí concluo que minha concepção de cinema talvez fosse conceitual demais e muito pouco prática. A seqüência da entrevista com Graciela foi uma pááá...
OFF: Faço o gesto de um tapa.
... na cara. Não deve ser mais complicado assistir a um filme confiando só na memória auditiva, que em geral é muito mais curta que a nossa infalível memória visual? Ela faz um gesto de quem não estranha a pergunta, mas sorri: “Uma vez um cego me deu um pááá na cara e disse assim: 'Não adianta querer fazer de conta que é cego e achar que é só fechar o olho. É diferente, entendeu? Porque, não tendo visão, você aguça outros sentidos, você tem um outro caminho. Então, a gente é que é muito prepotente! Um monte de gente vem assistir e diz 'Vou ver como é que é. Vou fechar os olhos'. Aí, primeiro, fica espiando, porque é impossível ficar uma hora e meia de olhos fechados no cinema. E, segundo, não basta isso! É outra compreensão da vida, outra atmosfera.” (Eu, que no dia seguinte assisti a uma sessão do filme Coisa de Mulher, na Mostra de Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito, em cartaz no CCBB-Rio, tive o cuidado de NÃO fechar os olhos para conferir o trabalho de Graciela e achei uma pena que a adesão dos cegos não venha sendo tão alta, como me informou Helena Dale, fonoaudióloga da ARPEF, Associação de Reabilitação e Pesquisa Fonoaudiológica, diretora do CPL, Centro de Produção de Legendas, e curadora da mostra.)

Em momentos – e por que não? –, em climas diferentes, pianista e audiodescritora ressaltaram a importância da sensibilidade, do olhar (!), e dele mesmo: do clima. “Hoje em dia”, Cadu brinca, “as pessoas acham que cinema mudo é filme do Chaplin. Mas não. Vai do melodrama ao cinema instrumental, do documentário ao expressionismo. Cada um desses gêneros pede um tipo de acompanhamento musical diferenciado. A coisa da sonoplastia dentro do desenho animado ou da comédia é algo que cai muito bem, mas dentro dum filme que tenha uma amplitude psicológica um pouco maior já não é tão adequada”. Com sonoplastia, ele quis dizer o traduzir em efeitos sonoros alguma coisa que acontece na tela. Um chaveiro cai [tliiim]. Cadu me explica que no jargão da música para cinema mudo, este tipo de prática ficou conhecida como mickeymousing, justamente porque era muito usada em animações infantis. “O principal é que a música tenha a ver com o clima do filme. Quando o cinema surgiu, não havia salas específicas para as sessões. Elas aconteciam em feiras, circos, cafés, lugares em que já se tinha música. E isso facilitou a junção das duas linguagens. Mas logo de início a música começa a ter funções específicas dentro do cinema, exatamente essa questão da funcionalidade dramática a partir do filme. A música precisa estar de alguma forma relacionada com o clima do filme. De alguma forma, as duas coisas tomam corpo e se juntam para criar um espetáculo, com dimensão maior do que apenas imagens mudas em movimento.”

Tateando, tateando, descobri que a sonoplastia é também um elo possível com o cinema audiodescrito. Lembrando sempre da importância da acessibilidade, Graciela conta que “Os cegos estão acostumados a assistir a filmes sem audiodescritor, eles têm uma capacidade impressionante de ouvir um barulho e deduzir do que se trata. Então, preciso deixar que eles ouçam ruídos importantes. Eu não preciso dizer que o carro freou e o motorista buzinou. Se o chaveiro cai [tliiim], você não precisa narrar, mas se cai dentro de um bueiro, você precisa dizer que foi num bueiro.” A descrição mais precisa do que é audiodescrição veio em seguida: “Eu, como audiodescritora, sou uma ponte entre o cinema e o cego. Eu não posso interpretar, não posso julgar, não posso explicar. A função da audiodescrição é ser imperceptível. É um trabalho de escolhas, você tem de escolher a melhor palavra para descrever aquilo” E aí, talvez, mais um paralelo: segundo Graciela, na audiodescrição, “Você manipula emoções. Você tem que estar no clima. Você passa de uma emoção a outra com muita rapidez. Então, se você tem esse repertório de emoções, que é com o que o ator trabalha, é muito mais fácil.”

Quem chegou até aqui atraído apenas pelo casal que fazia amor com uma música incidental lá no primeiro parágrafo deve, afinal, ou estar muito decepcionado ou estar no mínimo curioso para saber exatamente como é o trabalho de um pianista de cinema mudo ou de uma audiodescritora. Isso, aos pouquinhos você vai ver. Minha curiosidade inicial ficou por conta da roteirização, o que é e o que não é improviso na dinâmica de ambos. Cadu diz que ele mesmo escolhe as músicas que irá tocar. Já na virada para o século XX, ele conta, Thomas Edison, inventor do cinetoscópio – um projetor de filmes perfurados anterior ao cinematógrafo –, se mostrava bastante preocupado com a adequação das músicas aos filmes. “Em geral, os músicos eram muito criticados pela escolha inadequada de trilhas sonoras. Isso, durante toda a época do cinema mudo.” No Brasil, o cinema foi uma escola e uma oportunidade de trabalho para músicos amadores e mesmo grandes compositores. Ele cita Villa-Lobos e Radamés Gnatalli, entre os músicos eruditos. Pixinguinha e Benedito Lacerda, entre os populares. “Alguns filmes, especialmente grandes produções, tinham a música pronta ou uma indicação de tudo o que acontecia na tela, tipo um roteiro, em que eles indicavam a música ou como a música deveria ser. Mas na maioria das vezes não era isso que acontecia. Acontecia que a música chegava aqui atrasada ou não chegava. Era raro você ter – e hoje em dia são pouquíssimas – partituras de época. A gente tem algumas aqui [na Cinemateca], mas que, na verdade, foram compiladas mais tarde por outros músicos. Então, eu não me sinto obrigado a tocar uma partitura compilada por outra pessoa e que não é da época. Assim, basicamente, sou eu que escolho as músicas e também improviso um pouco na hora, até para me ajustar ao filme”, diz.

Na voz de Graciela, “O estudo é assim: eu recebo uma cópia do filme com o timecode aparente e vou assistindo e marcando o tempo. Quais são os buracos em que tenho tempo para falar, quando tenho uma informação importante a dizer. Eu construo um roteiro em cima disso e vou para o estúdio criar arquivos de som para esses intervalos. Por exemplo, eu sei que, no minuto 30'8'', eu tenho dez segundos para falar. Então, crio esses arquivos de som, que depois serão mixados ao som original do filme.”

Aí, uma pausa: Graciela atua como audiodescritora sobretudo em dois eventos distintos: a Mostra de Cinema Nacional Legendado, que já contava com sistema de closed caption e a partir deste ano inclui também o “e Audiodescrito” no título, a fim de contemplar os deficientes visuais; e o Festival Assim Vivemos, de filmes sobre deficiência em geral. Os dois são abertos ao grande público, mas Graciela conta que, no festival, concentrado em duas semanas, ela recebe turmas de portadores de síndrome de down, por exemplo, que enxergam, mas têm dificuldade de ler as legendas. O que os audiodescritores fazem, nesses casos, é uma leitura de legenda, através do mesmo sistema de audiodescrição. O sistema em questão é uma cabine acústica, como as de tradução simultânea, em que o audiodescritor – geralmente eles trabalham em pares, para facilitar uma pré-divisão dos diálogos, “Graças a Deus!” – narra as cenas, enquanto o público ouve tudo por meio de fones de ouvido. A audiodescrição lá é feita ao vivo. “Ao vivo é uma loucura. Este ano, por exemplo, de 36 filmes, só seis são brasileiros, então, com os estrangeiros a gente tem de fazer uma espécie de dublagem. Eu dizia: 'A mulher entrou no quarto, acendeu um cigarro, sentou, olhou pela janela. Ela está vestindo um sobretudo rosa. Oi, fulano, tudo bem?' Uma pauleira!” A Mostra de Cinema Legendado e Audiodescrito também utiliza um sistema de fones de ouvido, mas a audiodescrição é pré-gravada, por meio de um programa desenvolvido pela equipe de Helena. Durante a sessão a que assisti, os fones sem fio sofreram por diversas vezes uma interrupção que me obrigava a apertar um botão para mudar de canal. É mais ou menos como acontece com as linhas cruzadas de telefone sem fio. A freqüência usada pelos fones é a mesma de rádios locais e, como a sala não era blindada, há uma série de interferências no decorrer do filme. A blindagem, mencionada por Helena, me remeteu diretamente ao inglês blind (“cego”) e fiquei pensando se o objetivo da sala escura do cinema não é “cegar” o expectador para o que está ao seu redor, como na metáfora da caverna, de Platão.

Cadu me confessa que geralmente não faz um ensaio geral. “Eu vejo o filme uns dois dias antes.” Na sessão a que assisti, de lanterna mágica – o que é naturalmente bem diferente de uma sessão de cinema mudo –, havia um pequeno complicador: a narração de Reynaldo Roels Jr., curador do MAM, de algumas cenas projetadas nos “slides”. (Na verdade, era a historinha de A Bela e a Fera.) Por causa disso, “Além de me preocupar com a imagem, eu tinha que tocar e sincronizar com a fala, sem me sobrepor. Eram três elementos diferentes”, o que justificou um ensaio, durante a tarde. Mesmo assim, como o ensaio foi no claro, e na hora da exibição Cadu conta apenas com uma lanterninha para iluminar partitura e teclado, ele diz que estranhou um pouco. Eu, humilde mortal, não consigo conceber alguém que toque ao piano apenas com aquela luzinha, mas Cadu relata duas histórias curiosas. A primeira foi de uma vez em que tocava com uma lanterna à pilha (“Hoje em dia estou usando uma lâmpada de geladeira”) e a pilha acabou no meio do filme. “Eu tive que continuar no escuro total, só com a luminosidade da tela.” A segunda história foi de quando ele havia ido tocar em Angra dos Reis (RJ), em um projeto em parceria com o Cineduc. “A gente levou um grupo de crianças para fazer brincadeiras óticas e eu fiz uma sessão de curtas mudos num cinema que tinha um piano. O problema é que eu cheguei lá no dia – a gente, claro, não tinha como ir antes para ver o espaço – e o que aconteceu foi que o piano ficava na coxia e não se tinha como trazê-lo para o palco. Não tinha ângulo ou demandaria que dez pessoas o carregassem.” De onde estava o piano, Cadu não conseguia ver a tela. Mas conhecia os filmes, pois já havia tocado algumas vezes acompanhando-os. “Daí eu coloquei um amigo na porta da coxia para ficar olhando o que acontecia na tela. Como eu sabia mais ou menos que música usar em cada trecho, eu disse a ele assim: 'Quando estiver acontecendo tal coisa, você me avisa, dá um sinal. E avisa quando o filme acaba.' Eu fiquei tocando e olhando para ele.”

Se Cadu já tocou às cegas, Graciela diz que um dos maiores erros em audiodescrição é narrar antevendo o que acontece na tela. “Porque depois que você já viu o filme 300 vezes, você sabe que aquela senhora que está entrando é a mãe do cara, mas você só soube disso por causa dos diálogos. Então, tem que ter o maior cuidado pra não dizer: 'Agora entrou a mãe do cara.' 'Como assim a mãe do cara?'” Ver o filme como se fosse a primeira vez: isso é o mais importante. E sensibilidade para perceber os ritmos: “Num filme do Bergman, por exemplo, os silêncios são fundamentais. Se eu não perceber isso e ficar tagarelando, dizendo 'Oba! Que bom que tem um tempo enooorme' e ficar descrevendo tudo, falando da cortina... Se não deixar o cara receber aquele silêncio também... eu estou indo contra a obra.”

“O andamento musical”, diz Cadu, “não está muito ligado com a sincronia, mas com um timing de ação, de cena.” Palavra de quem também compõe para cinema. Ele certa vez foi convidado pela Funarte para compor uma trilha para orquestra. “A Funarte queria um filme mudo brasileiro que tivesse trilha. Daí eles me ligaram para saber se tinha. Não tinha. Eles então propuseram de eu fazer uma trilha. A gente escolheu Brasa Dormida, do Humberto Mauro, um filme importante, sofisticado. E foi um trabalho canino! Eu tive que fazer tudo à moda dos antigos compositores de cinema clássico. Cronometrava todas as cenas, para saber o tempo. Usava um metrônomo para saber o andamento e poder colocar na partitura o que coubesse naquele trecho. Foram 500 páginas de música orquestrada, e nunca foi tocada.” Acontece que, além de problemas de politicagem e patrocínio, orquestra é uma coisa caríssima. “Acho que só cinema mesmo pode ser mais caro que uma apresentação de orquestra, que é uma coisa inacreditável de complexa.”

Graciela conta que audiodescrição, em comparação com preços de equipamentos em geral, mão-de-obra etc, é algo relativamente barato, sobretudo no caso de se inserir um áudio a mais nos DVDs. O sistema seria muito próximo do que é a tecla SAP hoje, você poderia acionar ou não para ouvir a narração. No Brasil, apenas um DVD conta com isso. Pasmem! O filme do Padre Marcelo Rossi. E assim mesmo só pela insistência do audiodescritor, que gravou quase que por conta própria, para mostrar que não era algo tão complexo. Graciela não entende exatamente por que as empresas não investem no mercado. “São cinco milhões de cegos no Brasil. A audiodescrição representara uma oportunidade incrível de vender um produto para este público”, lembra. Mas ela acredita que assim que a coisa for descoberta, vai virar moda. “E, aí, vai ficar feio para quem não der acessibilidade.”

A entrada de Graciela no mundo da audiodescrição (“da áudio”, como ela chama, intimamente) é uma aventura à parte. Ela foi chamada, em 2003, para o Assim Vivemos, por conta de seu trabalho como intérprete de uma moça cega no curta Cão Guia. Na época, para viver uma deficiente visual, ela fez o curso de reabilitação do Instituto Benjamin Constant. “Eu ganhei minha bengala, saí, peguei ônibus...” Quando recebeu o convite para narrar os filmes, ela, então, pesquisou e teve grande dificuldade para encontrar material. Até que começou a se comunicar com Marie-Luce Plumauzille, que há já 15 anos é o nome da audiodescrição na França.

Cadu é formado em cinema pela UFF. Havia trabalhado no MAM como estagiário e prestador de serviços. Como também era músico, o pessoal do RioCine o convidou para acompanhar um filme, “Uma coisa esporádica”, ele lembra. Certa vez, o ex-diretor da Cinemateca, Cosme Alves Neto, lhe disse que tinha o grande sonho de fazer sessões de filmes mudos com acompanhamento de música. Em 1987, houve uma reforma no auditório da Cinemateca e o sonho começou a se tornar realidade.

Realidade me parece ser algo muito subjetivo para o universo auditivo de uma audiodescritora e um pianista de cinema mudo. O grande mestre Niemeyer já dizia que, antes de esboçar o desenho de suas obras, ele tenta descrevê-las em palavras. Você, que chegou ao fim da minha longa história, iniciada há mais de 20 mil caracteres com uma cena de sexo explícito, deve se perguntar, onde diabos a fala de Niemeyer se encaixa entre Cadu e Graciela. A ligação, o fio da meada – sutil ou não – está na narrativa. Uma narra com a voz, outro com a música, e eu, aqui, me recolho às letras.

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Lara Pozzobon
 

Sensacional essa entrevista! Parabéns pelo tema, abordagem, tom do texto, tudo. Excelente!

Lara Pozzobon · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 13:51
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Fabiana Mesquita
 

Eu achei fascinante, Viktor! Tenho uma amiga que ficou praticamente cega por um tempo, mas, felizmente, uma cirurgia a fez recuperar quase 100% da visão. Ainda hoje ela reconhece minhas alterações de humor pelo modo como respiro ou pelo "tipo" de silêncio que faço numa conversa por telefone, diz que o silêncio nunca é igual...
Acho que a sensibilidade da Graciela é bem maior e mais refinada do que a de pessoas como eu, que podem contar com todos os sentidos. Eu nunca tentei entender as coisas pela perspectiva de um deficiente visual, por exemplo. Vendo o vídeo com a audiodescrição percepi como pequenas coisas fazem muita diferença na hora de compor uma cena na nossa cabeça "o portão do prédio abre, ele cumprimenta o porteiro e entra levemente cambaleante" - sutil e discreta.
Espero que a adesão da audiodescrição em produções nacionais aconteça logo.

Valeu a espera pelo texto...

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 19/10/2007 16:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Viktor Chagas
 

Oi, pessoal,
Lara, obrigado pelas palavras. Uma pena eu não ter tido tempo de conhecê-la pessoalmente, nem espaço para citá-la nominalmente na matéria (para quem não sabe, a Lara é produtora executiva do festival Assim Vivemos!), mas fica aí a menção ao belíssimo trabalho que você faz!
Fabiana, faço minhas as suas palavras. Valeu!

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 17:41
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Graciela Pozzobon
 

Viktor, obrigada pela matéria. Você captou tudo com muita sensibilidade, humor e inteligência. Abraço, Graciela.

Graciela Pozzobon · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 17:50
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Viktor Chagas
 

Oi, Graciela, reafirmando o que já comentei antes: foi um enorme prazer conversar com você e com o Cadu. A matéria só foi possível pelo carinho com que me receberam e pelo quanto de interessante há no que fazem!

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 18:13
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Bruno Ribeiro
 

Parabéns pela narrativa e pela bela escolha dos personagens, em especial a Graciela, que está desbravando um campo novo com categoria e sensibilidade.

Bruno Ribeiro · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 00:31
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victorvapf
 

Grande conhecimento!Glauber Rocha nao morreu!!!

victorvapf · Belo Horizonte, MG 21/10/2007 07:55
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victorvapf
 

Mas ha de convir, que a "isca" usada e boa tambem...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 21/10/2007 07:57
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Marcos Paulo Carlito
 

Seu trabalho é inteligente Viktor.

Bom o seu "menage"

Votado.

Marcos Paulo Carlito · , MS 21/10/2007 19:23
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Marcelo V.
 

Excelente.

Marcelo V. · São Paulo, SP 21/10/2007 19:45
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Carla Garcia
 

Adorei a entrevista! Parabéns Graciela pelo trabalho com a audiodescrição, por emprestar teu "olhar", voz e sensibilidade para que os cidadãos portadores de necessidades especiais tenham o direito não só de trabalhar e pagar impostos...mas tbem ter acesso e poder usufruir a arte e cultura.

Carla Garcia · Porto Alegre, RS 21/10/2007 21:25
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Ilhandarilha
 

Excelente, Viktor Chagas!

Ilhandarilha · Vitória, ES 21/10/2007 21:31
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Mansur
 

Belíssima matéria Vitor. Fica fácil de ler por conta do humor. Realmente é um nicho de mercado a audio-descrição (um nicho bem grande) e principalmente uma necessidade social, os cegos têm direito de "ver" os filmes. Essa matéria deve ajudar a "abrir os olhos" para o fato.
Grande abraço

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 21/10/2007 21:40
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Adroaldo Bauer
 

Viktor,
1. Teu apelo de abertura por pouco não me perde para outras leituras, que poderei fazer poucas antes de recolher-me às 23horas ao repouso necessário, iniciadas apenas logo após o chocolate rubro-negro carioca sobre os tricolores gaúchos.
Ia já passando de linque, mas resolvi dar o clique para abrir o postado e, sim, ver até onde ias e, raios, por qual razão.
Pela imagem é que fui ganho para a leitura, acreditas?
2. E que belo texto constróis a seguir mesclando as falas dele e dela (descritas por tua câmera-sentenças e interpretadas por Graciela e Cadu, com momentos dignos de primeiro prêmio em Oscar ou em festivais até mais inteligentes de cinema, Berlim, Cannes, por exemplo).
Parabéns!

3. Eu não vou querer jamais descer as ladeiras de San Francisco ou atravessar de carro a Golden Gate, porque o cinema as transformou em ícones geográficos e não quero desiludir-me. Também penso que não me darão o visto de entrada. E não iria gastar meu pouco dinheiro, se o tivesse, logo lá.

4. Esse negócio de ouvir a cena, ou ver sem enxergar é verdadeiro. É fato, pelo menos.
Pessoa vidente (como os cegos aqui chamam as que ainda enxergam) não vêem do mesmo modo que cegos apenas por fecharem os olhos.
Aqui no meu trabalho, minha colega Janete Schneider, que é cega, e eu fizemos o curso de monitor para virtual vision (um programa leitor de telas de computador).
Ela dá as aulas, eu (ela me apelidou de ceguinho fingido) a socorro em acidentes de percurso dos alunos cegos que teclem algo que acione dispositivo na tela que o programa não leia.
Os próprios cegos permitem mais ambiente de aprendizado do que videntes não preparados (ou mesmo de algum modo tosco, como eu, preparados). Os videntes falam muito sobre coisas outras, sim, que não carecem de compor a cena.

5. Janete ouviu no virtual vision o texto da novela que escrevi. Imprimiu em braile e voltou um dia dizendo que para ela era outro livro, que a leitura tátil lhe permite criar o ambiente, viajar nas cenas, retornar nas páginas, tudo o que um vidente faz com os olhos.
(Quem sabe a narração dos filmes possa também ser acompanhada de descrição impressa em braile?)

Fico por aqui, Vicktor, saudando tua bela contribuição à informação geral sobre acessibilidade, nichos inexplorados de conteúdos de mercado, divulgação das proezas e aventuras belas das vidas de trabalho de Cadu e Graciela, de quem, aqui com teu texto lençol fosse alcoviteiro a partir dessa abertura a la Luta Democrática ou The Sun.
Terno abraço.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 21/10/2007 22:37
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Ériton Berçaco
 

Viktor com K,
pegando carona no comentário incial do Adroaldo, dig-lhe que, além da imagem, o texto da cena de sexo chamou-me, sim, a atenção. Pensei: "Q legal um texto escrachado, sem vergonha, provocante aqui no Over!".
Felizmente a matéria também é tão provocante quanto à imagem e a descrição inicial. Parabéns!

Ériton Berçaco · Muqui, ES 22/10/2007 00:28
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Saramar
 

Aprendi coisas que nem imaginava existir neste magnifício texto.
Fiquei encantada com a audescrição e imaginando que dons superiores há de precisar a pessoa para conter em si a sensibilidade de descrever cenas para que outros as "enxerguem".
Um trabalho-arte maravilhoso.
Obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 22/10/2007 06:54
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Cintia Thome
 

Viktor

excelente colaboração e texti e tema desconhecido para mim. Encantada e viva os direitos! Abçs. Voto.

Cintia Thome · São Paulo, SP 22/10/2007 10:35
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Lehmanns
 

Maravilhosa matéria!!!
Parabéns ao escritor e principalmente à Dati (Graciela para os não íntimos!!) por nos proporcionar mais essa "surpresa". Tua amiga aqui era totalmente "analfabeta" quanto a este assunto!
Mais uma vez, parabéns amiga!!!!!!!
Bjs.

Lehmanns · Suíça , WW 22/10/2007 15:11
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romeu
 

Victor e Graciela,

Como deficiente visual e apaixonado pela audiodescrição, quero agradecer a vocês por esta excelente reportagem.

Finalmente a audiodescrição chegou no Brasil!

Paulo Romeu

romeu · São Paulo, SP 22/10/2007 20:29
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crispinga
 

Original, como sempre, pega o leitor na primeira linha! Uma aula de bom jornalismo, moderno, informativo e cultural!
BJS
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 23/10/2007 09:06
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Laercio Santana
 

Olá Viktor,

É a primeira vez que visito este espaço, e como fui feliz... a matéria e muito legal! Achei muito criativa a "tática" empregada para contar o que é um pouco do mundo da audiodescrição.
Realmente você foi muito feliz em tudo que escreveu. Esta matéria, em minha opinião, teve muita sensibilidade!
O único inconveniente é que, para um cego, é impossível postar comentário no site. Ele tem aquele recurso de segurança chamado "capcha" que pede para que digitemos os números da imagem no campo abaixo. Como a Graciela não está ao meu lado para fazer a descrição da imagem é impossível saber quais os números a serem digitados.
Alguém poderia perguntar:
Então, como é que você está postando este comentário se não pode ler o capcha?
É que, além de audiodescritora, a Graciela também quebra os galhos da gente. Eu comentei com ela que gostaria de postar um comentário, mas a acessibilidade do site me dificultava. Então ela gentilmente criou meu cadastro, por isso, eu posso também dar minha "contribuição".
Tive o privilégio de fazer parte de uma das mesas do festival Assim Vivemos em Brasília, e só foi possível eu trocar idéias e comentar sobre os filmes apresentados, graças à descrição feita pelo Ricardo e pela Graciela. Gostaria de dizer a todos que, para um cego, a áudiodescrição é muito mais do que ter aceso aos detalhes do filme, é uma questão de estar e participar no mundo com mais igualdade, e isso não tem palavras que consegue exprimir.
Parabéns pela matéria e por ter regado um pouco mais esta sementinha da audiodescrição, que tenho certeza ainda dará muitos frutos bons.

Laercio Santana · São Paulo, SP 23/10/2007 14:05
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Elizabet Dias de Sá
 

Parabenizo pela entrevista sobre áudio-descrição que ficou ótima. Sou cega e este recurso é fundamental para nossa compreensão e apreciação. Por outro lado, lamento que o site seja restritivo para os deficientes visuais usuários de leitores de tela. Isso porque não podemos fazer o cadastro de forma autônoma uma vez que a verificação é uma imagem e não há alternativa sonora para o acesso ao código de validação. Assim, as pessoas cegas terão dificuldade para votar ou inserir comentários. Neste sentido, sugiro que sejam tomadas providências para que o site seja plenamente acessível, o que será um ganho de qualidade e um respeito às diferenças.
Elizabet Sá / Psicóloga e Educadora

Elizabet Dias de Sá · Belo Horizonte, MG 23/10/2007 14:08
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Elizabet Dias de Sá
 

Elizabet Dias de Sá · Belo Horizonte, MG 23/10/2007 14:18
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indigitavel
 

A certeza de encontrar, no overblog, linhas que me valem a leitura, venceu com folga o receio qua a introdução da tua entrevista sugeria aos meus critérios de relevância.

E, quem sabe, se tivesses ido direto ao assunto, talvez eu tivesse perdido essa matéria tão pertinente e bem conduzida.

Não tenho dúvidas que iniciaste e concluíste muito bem teu texto. E que o entremeio demonstra além de habilidade, muita delicadeza de sentidos.

Aliás, sentidos que, como os d-eficientes nos lembram, estão sujeitos à adestramentos. Vislumbre que falta à muitos expectadores que não possuem nenhuma inópia aparente de recursos sensoriais.

Eu, que nunca me dei por satisfeita em apenas ter os órgãos sensitivos à funcionar, procuro aguçar a compreensão e tirar do mundo um proveito mais expressivo, e até mais artístico, contando sempre com a comtribuição de amigos e desconhecidos de sensores afiados.

Por conta disso, me sinto muito grata quando descubro em pessoas - como tu, a Graciela e o Cadu - disposição para adicionar maior percepção às carências alheias, sejam elas quais forem.

Minhas saudações e meu agradecimento,
Lisa

indigitavel · Brasília, DF 23/10/2007 17:32
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Helena Aragão
 

Elizabet, Laercio: a questão que vocês colocam é importante. Sugiro que conversemos sobre ela no post que criei no Observatório (que é o lugar onde discutimos os rumos do site). Convido todo mundo a participar. É possível chegar lá pela home, no link Observatório, ou diretamente por este link. Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2007 12:15
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ReginaFreitas
 

ReginaFreitas · Santa Cruz do Sul, RS 25/10/2007 10:02
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ReginaFreitas
 

Excelente materia. Parabens Viktor! Esse trabalho da Graciela,
a Dati, pura arte e sensibilidade, eh fantastico. Creio que a
audiodescriçao abre novas fronteiras, quando tanto se fala em
inclusao social nesse Pais. Saudaçoes
ReginaFreitas

ReginaFreitas · Santa Cruz do Sul, RS 25/10/2007 10:43
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caco baptista
 

Muito boa a matéria. Recebi um link de uma amiga e já estou espalhando-o para outros amigos. A Dati eu já conhecia das telas de cinema, é uma grande atriz e agora, com certeza, uma grande audiodescritora.
caco baptista

caco baptista · Santa Cruz do Sul, RS 25/10/2007 12:36
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Viktor Chagas
 

Oi, Pessoal,

Depois de algum tempo, é bom dar uma passadinha para atualizar as novidades. Esta semana saiu publicada uma matéria no caderno de informática do jornal O Globo indicando um novo site especializado em streaming de vídeos com audiodescrição, o BlindTube.

Dei uma rápida navegada por lá e a idéia é realmente genial. Parabéns aos realizadores.

Quem ficar curioso com a atuação da Graciela no curta Cão Guia, pode assisti-lo clicando aqui.

Abraços

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 25/11/2008 13:10
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L.Claudio
 

Boa Viktor. Ótimo texto.

L.Claudio · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2009 10:47
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Marília Cabral
 

Viktor, hoje tive a feliz oportunidade de ler a sua matéria! ADOREI. Eu nem sabia que existia essa profissão de audiodescritor. Acho até que daria uma boa pauta para o meu blog, que é sobre cinema e som. Gostei de mais do seu texto também!
beijos

Marília Cabral · Viçosa, MG 20/11/2009 12:36
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