PARADISO PERDIDO

Paulo Roberto Witols
Fachada do antigo Cine Ritz, hoje Centro Cultural e Social da Catedral
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noitesdecabiria · Florianópolis, SC
19/11/2008 · 147 · 6
 

A HISTÓRIA DOS CINEMAS DE RUA DE FLORIANÓPOLIS É ESQUECIDA COM A MODERNIDADE

Florianópolis não carrega mais o infeliz título de capital brasileira com a menor média de salas de cinema por habitante. Hoje, a cidade abriga 19 salas, 17 em três shoppings, 14 abertas no ano passado. Mas será que a quantidade de salas é sinônimo de programação diversificada e de qualidade? Existe público para essa quantidade de salas?

Com a chegada das salas multiplex na cidade, todo mundo pensou que teria à disposição um cardápio variado de filmes e poderia assistir às estréias ao mesmo tempo que um espectador lá do Rio, por exemplo.

As novas salas vieram com poltronas confortáveis, projetores e som de última geração e ambiente em formato stadium, que permite boa visualização em qualquer assento. E a programação?

Basta dar uma olhada no jornal e ver que os filmes são quase os mesmos em quase todas as salas. São poucas iniciativas que vão além do comercial. O Cinesystem, no Shopping Iguatemi, tem o projeto Um Outro Olhar, destinado às produções independentes e filmes de arte de diversos países. Outra opção é a Sessão Cine Cult, oferecida pelo Cinemark, do Floripa Shopping. Os filmes são exibidos diariamente, às 15h10min, com preços acessíveis, R$ 4(inteira) e R$ 2 (meia).

Para o cineasta Zeca Pires, o que deixa a desejar é a qualidade dos filmes exibidos. Não é nenhuma novidade que o cinema norte-americano tem ocupação maciça nas salas de todo o país, chegando a 90%. A fatia para as outras produções é pequena.

– O que acontece é um fenômeno brasileiro, que só agora observamos aqui na ilha em função do aumento do número de salas. Falo do número excessivo de cópias do mesmo filme, normalmente de origem norte-americana. A França, por exemplo, limitou o número de cópias por filme. Ao meu ver, o problema está no modelo de exibição e distribuição brasileiros que, cultural e economicamente, foi criado em função de Hollywood – diz Zeca Pires.

O GARGALO DA DISTRIBUIÇÃO

O cinema de qualidade não pode ser definido pela bilheteria, justamente porque o gargalo é a própria distribuição. Nessa disputa infiel, o cinema brasileiro é o que mais pena. De acordo com Cláudia Cardenas, da Câmera Olho Filmes e Produções e uma das contempladas no III Prêmio Funcine de Produção Audiovisual, os filmes nacionais praticamente não têm espaço nas salas e, quando vêm, ficam poucos dias em cartaz.

Muitas salas de exibição apenas cumprem a cota de tela, quantidade mínima de títulos e dias que os cinemas devem exibir filmes produzidos no país. A obrigatoriedade de exibição visa promover a auto-sustentabilidade da indústria cinematográfica nacional.

Este desinteresse pelo cinema é uma condição antiga, que se estende para outras áreas da cultura e depende de investimentos na formação de público.

– Em cidades como São Paulo, as salas de cinema com filmes cults estão cheias, por que o contexto cultural é outro. Investe-se em educação, acesso à cultura e produção artística universal, com cinemas e museus gratuitos. É isso que forma o imaginário da platéia. Aqui existe uma espécie de coronelismo que não tem interesse de criar uma política pública de cultura – afirmou Cardenas.

Um dos "vilões" dessa história é o mercado preferencial do cinema, em que Florianópolis não tem uma cadeira reservada. Por exemplo, determinado número de cópias de um filme é distribuído por todo o país. As primeiras vão para SP, Rio, BH e Porto Alegre, que terão estréia simultânea. As cidades que estão fora deste mercado preferencial podem receber os filmes com atraso.

Segundo Carlos Maurício Sabbag, diretor de programação do grupo paranaense Cinesystem, o mercado está muito competitivo e o número de cópias mal atende ao mercado do eixo Rio/São Paulo. A distribuição também depende de outros fatores, como o perfil do mercado, investimentos e mídia adequados. Em alguns casos, como no esperado Ensaio Sobre a Cegueira, a estréia aconteceu simultaneamente em várias capitais. Dessa vez, Florianópolis não ficou de fora.

O tempo do cinema à moda antiga passou.Os arrasa-quarteirão multiplex tomaram conta de praticamente todas as salas. Essa migração dos cinemas para os shoppings é uma tendência mundial.

O formato multiplex surgiu há 20 anos nos EUA, e passou a ser adotado no Brasil no final da década de 1990. De acordo com pesquisas do BNDES, o novo conceito proporcionou um aumento da receita para os exibidores, com crescimento de público e publicidade, além da oferta de serviços de entretenimento e estacionamento.

Outro fenômeno é a modificação dos cinemas de rua em igrejas, quando não se transformam em bingos, boates ou estacionamentos. Desde a metade dos anos 1990 os últimos cinemas, que ocupavam edificações antigas e prédios tombados, foram desativados e sucateados, dando espaço para templos religiosos.

TEMPOS ÁUREOS

A lanterna mágica chegou pelas bandas catarinenses no início do século passado. As primeiras projeções foram realizadas por cinematógrafos ambulantes, que também apresentavam espetáculos de hipnotismo e números com animais amestrados.

Nas décadas de 1940 e 1950, o programa cultural da sociedade florianopolitana eram as sessões de cinema, e o Centro de Florianópolis era uma espaço de sociabilidade. As pequenas salas atraíam multidões, desde os fãs da sétima arte até os adeptos do modismo, todos fascinados com a nova opção de lazer e entretenimento. A indústria da diversão era muito lucrativa na época.

O movimento nas redondezas da Praça XV começava depois do meio dia, quando uma legião de garotos juntava-se para o comercializar revista em quadrinho e figurinhas. A sessão tão esperada era o seriado do Flash Gordon. O ponto de encontro era o Cine Ritz, na Arcipreste Paiva. Nascido como Cine Rex, a casa de espetáculo foi batizada de Ritz nos anos 1940, e ali passaram grandes sucessos de bilheteria. Nas terças-feiras tinha a sessão das moças, uma matinê com ingressos mais baratos. Lá, muitos casais se formaram, incentivados pelos filmes românticos. As moças suspiravam com as estrelas e galãs da época, e escolhiam seus melhores trajes e penteados.

– As pessoas colocavam "a roupa de domingo", enfrentavam filas enormes, mesmo com vento sul, para fazer parte do acontecimento social – relembra Norberto Depizzolatti, cineasta, pesquisador e técnico conservador do acervo da Casa da Memória.

Os filmes épicos e western também faziam muito sucesso, principalmente com os rapazes. O Cine Imperial, na Rua João Pinto, fez muito sucesso nos anos 1940 com os bang-bangs. Durante a ditadura, as pornochanchadas foram exibidas em várias salas, por não ter nenhum apelo político, sinalizando a decadência do cinema na cidade.

O FIM DOS CINEMAS DE RUA


As filas ficaram menores, diminuiu o fluxo de espectadores e as salas começaram a fechar. No final dos anos 1970 e início de 1980 o setor já estava enfraquecido. Os cinemas não resistiram ao crescimento imobiliário, às mudanças de comportamento da população e às transformações tecnológicas. Aos poucos foram fechando, um a um.

Para Depizzolatti, a decadência começou com o abandono do centro histórico e o crescimento da cidade, que tornou-se polinucleada. As ruas foram asfaltadas e o Centro virou um lugar de passagem, abrigando bancos e comércio, carente de equipamentos culturais.

Atualmente, os únicos cinemas que não estão dentro de shopping são o Cineclube Nossa Senhora do Desterro, no Centro Integrado de Cultura, e o Cineclube Sol da Terra, na Lagoa. De acordo com Gilberto Gerlach, o mentor do Nossa Senhora do Desterro e do recém-extinto Cine York, o público diminuiu muito ao logo dos anos 1990, com o surgimento de novas mídias, mudanças no ritmo de vida e falta de interesse da nova geração por filmes de reflexão. Apesar de haver algumas salas em shoppings com uma programação além-Hollywood, o público não é o mesmo do cineclube.

Para Gerlach, quem assistia um filme em uma sala de cinema tradicional tinha uma relação e sensação totalmente diferente de quem vai hoje ao shopping. No lugar de cartazes de filmes e divas, um luminoso com promoção de coca-cola e pizza. Na maior parte das antigas salas era proibido comer e beber. No CIC ainda é assim.

O fundador do Cine Art 7, Darci Costa, lamenta que o cinema seja visto como um mero passatempo.
–Atualmente os cinemas se confundem com circo, a platéia com enormes sacos de pipoca e uma programação sem qualidade – comenta Costa.

O cineasta Zeca Pires relembra com romantismo o ritual de anos atrás, mas acredita que as transformações podem ser vistas sob um olhar otimista.
– O cinema nasceu coma revolução industrial e está intimamente ligado aos avanços tecnológicos no seu processo de realização e exibição. Algumas mudanças da película para o digital são inevitáveis e podem popularizar o acesso da população à produção audiovisual, se houver mobilização da sociedade e vontade política do governo.

Pires lembra ainda que quando morava no Centro, seu pai tinha conta no armazém do seu Berka. Muitas vezes ele não tinha dinheiro para o ingresso do cinema, então pedia para anotar que tinha comprado um produto com o valor próximo ao do ingresso e ele lhe dava o dinheiro ao invés do produto.

–Acho que o pai nunca ficou sabendo disso. Se soubesse, ele iria admirar ainda mais o dono do armazém.


Adriana Maria
Matéria publicada no Diário Catarinense em 26 de setembro de 2008

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Jorge Daher
 

Gostei muito!
Leia o meu também por favor!

Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 16/11/2008 14:39
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Andre Luiz Mazzaropi
 

Tambem gostei. Pessoal de Santa Catarina, emboraseu estado é um dois que mais diversidadescultural tem neste pais devisdo a sua colonozação nas decadas de 60 e 70 nós os caipiras com meu pai o Mazzaropi fizemos ai grande sucesso enchendo salas e mais salas de exibiçaõ em nossos filmes; o Casinha Pequenina e o Jeca Macumbeiro e por ultimo Jecão Um Fofoqueiro no Céu é dos filmes que mais publico em cinema tiveram no Estado de Santa Catarina ; porem aos pouco no inicio dos anos80 meu pai foi embora e os cinema aos poucos foram fechando. Isto não só aconteceu ai em Santa Cataria como em todo o Brasil. De 1.961 a 1.980 meu pai o Mazzaropi produziu com recursos próprios 24 filmes dos quais 18 estão entre os filmes mais assistidos do cinema nacional. 06 são recordista de publico e o filmes Jeca Macumbeiro é o maior recordista de publico e renda da historia do cinema nacional colocou em 4 semanas de lançamento 16.800.000 pessoas pagantes em 4 semanas de exibição, igualando ao maior recordista mundial de publico, que é o filmes O Tubarão no Brasil colocou 16.600.000 nas mesmas 4 semanas todos em 1.975.
Em nossos cardex, (PAM FILMES)- (Controle de exibição -Praça-Publico e renda) - o filmes Casinha Pequenina colocou de seu lançamento 1.963 á 1.983 - quando a Pam Filmes fechou, 93.867.000 de pessoas - equivalente a toda a população do Pais). sem contar os outros filmes que atingiram neste periodo 178.779.300-) .
Em Julho de 1.981 - um mes da morte de Mazzaropi no cardez da Pam Filmes existiam cadastrados 11.648 salas de exibição no Brasil, sendo que apenas 48 cinemas tinha mais de uma sala, com média de 800 lugares. Havia naquela época cinemas com salas entre 500 e 3.000 - caso do Penharama-SP com 5.000.
Bom, tudo isto pra contar um pouco da minha história, é claro do nosso saudoso Amácio Mazzaropi-.
Hoje ninguem sabe ao certo quantas salas existem; extima-se em torno de 1.500 salas entre 150 e 500 lugares.
Nada foi feito pelo poder publico nestes 27 anos sem Mazzaropi para preservar sua história; algumas ações feitas ainda são muito pouco, eu André Luiz Mazzaropi, Hotel Fazenda Mazzaropi em Taubaté-SP, Santiago, Carlos Garcia, Hebe, Ratinho e o Rau Gil, ainda fazemos algumas ações.
Para revertermos esta falta de cinema (salas de exibição) no Brasil é preciso fazer o b; a; ba - levar o cinema nas escolas de ensino fundamental exibindo em seus patios filmes nacional de todos os tempos da Vera Cruz aos Dois Filho de Francisco e outros muitos boms filmes quem vem vindo por ai.
Eu tenho um projeto cultural que levo pelo Brasil a fora a Mostra de Cinema Mazzaropi onde exibo, em média 10 filmes do Mazzaropi alias sempre os 04 que participei como O Filho do Jeca. Raramente tem ajuda das Prefeituras. Mais ainda é muito pouco.
No seu estado Santa Catarina não será difente e com poucas ações será possivel rever em algum tempo o cinema de Rua novamente. Abraços e sucesso este Estada maravilhoso.
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br


Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 17/11/2008 14:59
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
R.MENEZES
 

Excelente texto!!! Serve como raio x de uma realidade que assola muitas e muitas cidades nesse país imenso!!!

Se possível dê uma olhada no meu também!!!

votado!!!

R.MENEZES · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2008 09:20
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Lustato Tenterrara
 

Muito bom mesmo.

Parabéns.

Abraço.

Lustato

Lustato Tenterrara · Teresina, PI 19/11/2008 02:35
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Phelipe Janning
 

Parabéns pelo texto Adri!
Muito bom!

Phelipe Janning · Florianópolis, SC 19/11/2008 11:29
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Bruno Resende Ramos
 

Gostei do que li e me motivei a desenvolver algo dentro do quadraudiovisual. Valeu a matéria!

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 27/12/2008 22:42
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