O tráfico é a faísca acesa no morro de pólvora. Favela cor de canela, também manca das pernas básicas de educação e cultura - estrutura. Neste labirinto de barracos quase nunca visitado pelos telespectadores assustados, que formam sua opinião pelo esvaziado jornal diário, o jovem branco de classe média pode entrar pra fazer qualquer coisa, inclusive aprender.
Se surpreender com os lados de algo mais além da moeda. Perceber que a bomba que explode a cada momento é sim da guerra civil, deixada de lado pelo estado, mas é também de criatividade, de uma ação bem particular que circula nas mãos dos jovens de lá.
Alguns filmes se encarregaram bem de registrar e revelar as mazelas do crime. Alguns projetos sociais vêm superar o estigma do assistencialismo, mesmo sendo a maioria ainda gerenciada por instituições do centro da cidade em mais um dos empreendimentos de altos investimentos e baixos resultados.
Essa atenção recente e cada vez mais crescente às favelas ainda tem mantido o problema no mesmo lugar. Mesmo assim, aos poucos e cada vez mais, essa mudança de contexto tem estimulado a articulação de jovens que estão vivenciando experiências artísticas e culturais e dando vazão às suas inquietações através de iniciativas próprias e promissoras.
Reunindo os fragmentos vindos da mídia e vivenciando gradualmente a vida em comunidades é possível descobrir uma realidade paralela fundada em práticas comunitárias, em uma recriação de valores que são próprios desse lugar e se incrementados, podem sugerir saídas adequadas à realidade do Brasil.
O centro perdeu algo que ainda se mantém na periferia. Em que resulta o encontro de jovens neste contexto? O saber vindo da universidade, das vivências do lado mais estruturado da sociedade, sempre tende a se colocar superior. A lógica de um jovem de classe média que sobe a favela, pra ele e pra sociedade, é de que ele vai lá para ensinar, para suprir o que falta. Isso acontece até se perceber a impotência diante de uma realidade que é própria, “nem melhor, nem pior, apenas diferente”, aproveitando o verso do rapper Black Alien.
As diferenças acabam fortalecendo a parceria e o processo fica lento até que a conexão de saberes começa a se estabelecer, avança em meio a tropeços e aprendizados, mas acontece. Como aconteceu com o projeto RedeMUIM de Arte e Cultura, pelo segundo ano realizado pelo Criarte – Comunidade Reivindicando e Interagindo com Arte do Aglomerado da Serra, Belo Horizonte, em parceria com jovens da No Ato Cultural e Ora Boa Arte e Comunicação Social.
Voltado para a formação individual de agentes, produtores e grupos culturais, a primeira edição do RedeMUIM em 2006 introduziu os jovens nos conceitos de gestão e produção cultural. Montou-se um curso de três meses de duração e aulas ministradas por profissionais renomados que tiveram o desafio de transmitir conhecimentos geralmente restrito às universidades, para jovens de baixa escolaridade e experiência prática nos mercados mais diversos, além dos grupos culturais em que estão envolvidos.
Da primeira etapa teórica, muitos princípios ficaram marcados e especialmente a referência dos profissionais que ministraram as aulas e apresentaram aos jovens as diversas áreas de atuação no mundo do trabalho artístico e cultural. Para selar o início dessa formação e o fim dessa primeira etapa, um evento para aplicar os conhecimentos de produção e comunicação. No dia 10 de setembro de 2006 aconteceu a primeira edição do ‘Aglomere-se – Mostra RedeMUIM de Arte e Cultura’. O evento foi realizado “no ponto”, entre as ruas Alípio Goulart e Capivari, a divisa geográfica entre o morro e o asfalto. O momento era de violência e conflito, o Aglomere-se aconteceu fora do morro, mas nesse dia não houve nenhuma morte.
Em 2007 o projeto se ampliou e na proposta de fortalecer a rede cultural do Aglomerado da Serra, o RedeMUIM ofereceu formação e buscou a participação ativa dos jovens. No caminho dessa meta novos desafios de mobilização, de entendimento conjunto da proposta, de infra-estrutura e preparação técnica.
A mobilização se efetiva basicamente a partir do entendimento da proposta e depois com a disposição e dedicação dos envolvidos para realizar esse ideal. No primeiro caso o RedeMUIM era uma novidade, que atraía pela oportunidade – curso gratuito realizado dentro da comunidade – mas tratava de um universo profissional e de aparatos tecnológicos desconhecidos da maioria dos jovens.
A falta de acesso se revelou um fato. E iniciar os participantes no universo da tecnologia e internet também se tornou um objetivo do projeto, pra driblar a inexperiência dos alunos, principalmente no manejo de softwares de design e site e ao mesmo tempo buscar realizar a demanda do projeto: realizar novas edições do evento Aglomere-se, criar as peças gráficas de divulgação e construir o site do Projeto e o jornal que foi intitulado “Entre Becos e Vielas”.
Em suma, manter equipes de comunicação e produção trabalhando de maneira integrada, realizando ações culturais na comunidade, participando de uma capacitação em processo.
Envolvidos nessa missão estavam os membros do Criarte, que firmaram parceria com a produtora No Ato Cultural para assumir a coordenação de produção e a Ora Boa Arte e Comunicação Social para a coordenação de comunicação, ambas constituídas por recém-formados no curso de Comunicação Integrada na PUC Minas. Uma união de diferentes, atuando juntos e de maneira complementar num projeto que exigiu conhecimentos técnicos trazidos pelos jovens universitários e a criatividade e a experiência coletiva e comunitária vindo com os jovens do aglomerado.
No andar da carruagem, percebeu-se que a capacitação em processo envolvia os participantes, e também os coordenadores, sem exceção. Em cada reunião de definição dos eventos, das pautas do jornal, do conteúdo do site surgia uma surpresa, uma proposta ou uma ação inusitada que revelava o conhecimento e a intenção dos jovens na sua comunidade, mostrava as particularidades e a identidade daquele local.
Foi necessário e imprescindível experienciar os fatos e perceber as manifestações das potencialidades. O pensamento se ajusta, se amplia e se direciona quando é colocado à prova. Realizar o projeto RedeMUIM de Arte e Cultura, unindo saberes, buscando compartilhar técnicas e infra-estrutura, é um aprendizado contínuo, uma experiência satisfatória de perceber aos poucos que a realidade social do asfalto não é a única possibilidade. Outras podem estar em processo de construção.
É curioso como as favelas em Belo Horizonte sempre estiveram distantes, quase invisíveis dos olhos de quem circula dentro da Contorno ou no eixo Zona Sul - Condomínios de Nova Lima. Projetos como esse apontam para outros centros de produção cultural, criam um contra-centro e que possam assim oxigenar as vias interrompidas das cidade.
Forte abraço
Prezada Ludmila: Este desbravar de possibilidades é que nos enche de esperanças. Avante!!!
ARY CARLOS · Palmas, TO 18/1/2008 22:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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