PARIKO O SIMBOLO DO PODER E DA BELEZA

JESUS
PARIKO ADORNO DE CABEÇA DOS ÍNDIOS BORORO/MT
1
MERIREU · Cuiabá, MT
20/10/2011 · 1 · 4
 

PARIKO - SÍMBOLO DO PODER E DA BELEZA


Antonio João de Jesus


Cuiabá, Coração da América do Sul

Cuiabá está situada à margem esquerda do rio que lhe dá o nome, sendo o seu principal centro urbano localizado no sopé do Morro da Luz e nas margens do córrego da Prainha, afluente do rio Cuiabá. É o centro geográfico da América do Sul, cujo marco se encontra na praça Moreira Cabral, antigo Campo D’Ourique ou Largo da Forca, onde foi construído o prédio da Assembléia Legislativa do Estado. Suas coordenadas geográficas são: 15º 35’ 36” de latitude Sul e 56º 06’ 01” de longitude Oeste e a 219 metros de altitude (JESUS, 2005).
Sua história está intimamente ligada a dos índios Bororo e, começa com a vinda dos bandeirantes paulistas para esta região.
Segundo alguns cronistas, os primeiros contatos com o povo Bororo ocorreram no século XVII, quando espanhóis e jesuítas, estes, vindo de Belém, adentraram a região da bacia do rio Araguaia e seguiram pelos rios Taquari e São Lourenço, em direção ao rio Paraguai (WÜST, 1990: 91, ENAWURÉU, 1986:7).
Entre 1673 e 1682, Manoel de Campos Bicudo acompanhado do seu filho Antonio Pires de Campos de 14 anos, subiram as cabeceiras do rio Cuiabá, quando buscavam a Mina dos Martírios. No retorno fizeram guerra aos índios Araés, um dos muitos sub-grupos Bororo.
Em 1718, Antonio Pires de Campos retorna a região, em busca de índios para prear, subiu o rio Cuiabá, e na barra do Coxipó, onde se localiza hoje a Vila de São Gonçalo Beira Rio, atacou e destruiu a aldeia dos Bororo Coxipones, fazendo muitos prisioneiros. Tempos depois, ele implantou vários aldeamentos com os sobreviventes desse povo, dentre eles o de Guarinos, entre o rio Aricá e a Serra do Coroado, nas proximidades da Baía do Frade.
Em 1719, Pascoal Moreira Cabral, seguindo as informações de Pires de Campos chegou à região do Coxipó, subiu esse rio, e foi nomeando os seus afluentes de acordo com os fatos ocorridos. No rio dos Peixes, encontrou nas suas margens grande quantidade de peixe, pescado pelos índios Coxipones, secando ao sol. No rio Claro, a cor das águas deu-lhe o nome. No ribeirão Mutuca, sua bandeira foi atacada vorazmente por esses insetos (CORRÊA FILHO, 1994:198).
Entre o Paciência e o Claro está a Salgadeira, esse nome foi dado posteriormente pelos vaqueiros, que nesse local colocavam sal para seus gados (JESUS, 2005).
Entre os rios Peixe e Mutuca, Pascoal Moreira Cabral foi derrotado pelos Coxipones, morrendo “oito homens brancos fora negros” (Termo de 8 de abril). No retorno para a barra do Coxipó encontra ouro e muda o eixo da história da região. Reabriu a vila de São Gonçalo, cuja aldeia foi destruída por Pires de Campos, acrescentando na nominação a palavra Velho, e junto com seus companheiros, no dia 8 de abril de 1719, lavra a Ata de Descoberta da Mina do Cuiabá, conhecida também como a Ata da Fundação de Cuiabá (JESUS, 2005).
Em 1722, Miguel Sutil, bandeirante paulista, natural de Sorocaba, que tinha uma roça com seu companheiro, João Francisco, alcunhado de “Barbado”, na barra do atual córrego do Barbado com o rio Cuiabá, descobriu ouro no córrego da Prainha, o que atraiu as pessoas que se encontravam no Arraial Velho ou Forquilha, fundado por Pascoal Moreira Cabral.
Coube então a Pires de Campos, a honra de ser o primeiro a abrir esse caminho fluvial do Cuiabá para a história do Brasil e, também, de ter dado nome a esse rio; e inclusive Antonio Pires de Campos faz uma minuciosa relação dos povos indígenas por ele encontrados ou que aqui viveram, como: os Araripocones, os Coxicanes, os Cuiabás, os Curianes, os Aricanes, os Pocones e muitos outros de mesma língua e costumes dos Bororo atuais (JESUS, 2005).
No rio Cuiabá Mirim, afluente do rio Cuiabá, nas proximidades da Baía de Siá Mariana, ele relata a presença dos índios Cuiabás, fato não observado por Barbosa de Sá quando cita a relação de Pires de Campos
Segundo o próprio Pires de Campos (1826, p. 437-449):
[ ... ]todos os índios do Cuiabá era dos mesmos hábitos e costumes, iguais nas armas, de arcos, flechas, porretes... Subindo mais para cima vem um rio dar neste do Cuiabá, que lhe chamam Cuiabá-mirim, que nasce de uma baía na qual habitava um lote de gentio chamado Cuiabás. Estes usavam de canoa, e nos trajes, e costumes eram como os acima nomeados.



Os Bororo

Os Bororo, povo indígena classificado no tronco lingüístico Macro-Jê, que se autodenomina BOE, originariamente povoou o centro do continente Sul-Americano, ocupando um território de aproximadamente 45 milhões de hectares, indo do triângulo mineiro à Bolívia, no sentido Leste-Oeste e dos Chapadões dos Parecis à Coxim, no sentido Norte-Sul.
A nação Bororo dividia-se em vários grupos, conforme a região ocupada:
1 - Itura-mogorege - os da floresta
2 - Tori okwa-mogorege - os da serra do São Jerônimo
3 - Túgo Kuri-Dóge - os da flecha comprida
4 - Orári Mogo-Dóge - os dos rios do Peixe Pintado
5 - Boku-mogorege - os do cerrado.
Segundo Zago (2005), os Bororo atualmente estão redefinindo essas nomenclaturas:
1 - Pobotadawuge; os Bororo das águas (Pantanal),
2 - Ituratadawuge: os Bororo da mata e rio São Lourenço (baixada cuiabana)
3 - Bokutadawuge ou Toritadawuge: Bororo do cerrado e morro (Poxoréu até o Rio das Mortes.
Dos Coxipones, valente e audaz povo do cerrado do Ikuiapá (Ikuia = flecha arpão e pá = lugar), palavra Bororo que denomina o rio Cuiabá, pouco restou, a não ser o nome do rio Coxipó ou Kujibo (kuje = mutum, bo = água, água dos mutuns) dos Bororo. Dizem os Bororo, que seus antepassados e seus parentes do Ikuiapá, pescavam na foz do córrego da Prainha ou Ikuiébo (Ikuié = estrela, bo = água, água das estrelas) com o rio Cuiabá.
Bororo é um povo do cerrado cuiabano e da região do pantanal, e com representantes na região do rio Araguaia e rio das Mortes. Para eles, as matas, os rios e o céu, são moradas de seres espirituais.
Considerados caçadores e coletores, raríssimas vezes são focados como agricultores, ou com uma relação vegetal mais acentuada. Nos vários estudos empreendidos pelos pesquisadores, o seu grandioso funeral sobrepõe a outros aspectos culturais do grupo. Mas, no transcorrer das cerimônias funerárias o mundo vegetal, principalmente, as palmeiras como a babaçu e buriti, são largamente reverenciadas inclusive com cerimônias específicas sobre elas, chamadas de toro e marido. Ocorre também com as taquaras, onde os Bororo fazem uma representação chamada parabára-dóge aróe, que é um conjunto de taquaras fendidas nas extremidades e que percutidas produzem um som como: parabára, parabára, e que se assemelha ao canto do pássaro irerê, provendo daí a denominação. Também fora do ciclo funerário, manifestações cultuando o mundo vegetal afloram constantemente.
Vale ressaltar que, os Bororo vivem um processo de introjeção entre espírito, homem, animal, vegetal e mineral, sendo essa situação realçada nos ciclos funerários. Cada animal corresponde a um vegetal e cada clã é representante de um animal ou de um vegetal, com exceção dos Baado Jeba do lado Echerae e dos Apiborege dos Tugaregedo que são humanos. (JESUS, 1992)
Viertler (1976), antropóloga que estuda os Bororo por mais de 30 anos diz com muita propriedade,
[ ... ] a florescência das piúvas, rosas, brancas, amarelas e roxas entre os babaçuais oferece um inesquecível espetáculo visual, que por um lado, denota a fertilidade da terra, por outro a cobiça dos regionais. Para estes é impossível conceber terras férteis sem uso. Para os Bororo só é possível conceber a existência preservando essas matas.

Principais topônimos BORORO na microbacia do rio Cuiabá

Rio Kuebó - Kuebó (rio das Jaós)
Rio Piraputanga - Ararébo (rio das piraputangas)
Rio Coxipó Açu - Meriribo (rio dos metais)
Córrego da Prainha - Ikuiebo (rio das águas das estrelas)
Rio Coxipó - Kujibo (rio dos mutuns)
Córrego das Areias - Kugarubo (rio das águas das areias)
Córrego Espinheiro - Cibaibo (rio das araracangas)
Rio Tubonári - Tubonári (rio dos lambaris)
Rio Água Quente - Poúro (rio das água quentes)
Rio São Lourenço - Pogubo Cereu (rio da ave verão)
Rio Pirigára - Tarigara (rio da água do espírito que grita)
Rio Peixe-de-Couro - Akinabo(rio do peixe-de-couro)
Rio Itiquira - Bace E-iao (rio das garças)
Rio Taquari - Kadomogo (rio das taquaras)
Rio Piebaga - Ipiebaga (rio das ariranhas)
Rio Coxim - Koço-i (rio dos cajueiros)
Rio Anhumas - Kugáru Boréu(rio das anhumas)
Rio Poxoréu - Po Cereu (rio das águas escuras)
Rio Tadarimana - Tadari Umana (rio dos carás)
Morro Grande - Kagarári (morro que parece enfeite dos Bororo)
Morro de Santo Antônio - Atruari ou Toroári (morro do gavião)
Morro de São Jerônimo - Bokodóri-ri (morro do tatu canastra)
Morro do Jarudóri - Jarudóri (morro do bagre)
Serra de São Jerônimo - Tori Okwua (serra que está na margem do céu)
Rio Vernelho - Poguba (rio do pássaro verão)
Torixoréu - Tóri Coréu (rio do morro preto)
(JESUS, 2004)

PARIKO - Símbolo do Poder e da Beleza

Os Bororo, depois de mortos, aprisionados e dispersados da região de Cuiabá pelos bandeirantes preadores de índios e pelo povo de Cuiabá, nos séculos XVIII e XIX, concentraram suas aldeias nas regiões das cabeceiras do Rio São Lourenço e em toda “Baixada Cuiabana”. Essas regiões foram denominadas de Serra de São Lourenço e dos Coroados. Também no século XIX, foram organizadas bandeiras, que saiam de Cuiabá para os Sertões dos Coroados, para aniquilamento total dos “temíveis Bororo Coroados”.
COROADOS é uma das denominações utilizadas para classificá-los, devido ao uso do DIADEMA VERTICAL ROTIFORME – nomenclatura utilizada pelos Museus do Brasil e já sendo internacionalizada – nominada pelo povo Bororo de PARIKO.
Dorta (1982), fez um minucioso estudo desse artefato que é assim descrito:
Usado à altura do vértex com os atilhos amarrados no occipício, o pariko Bororo é um diadema vertical, de forma semi-circular , composto, na maioria dos exemplares, de três fieiras de penas sobrepostas, inseridas num suporte flexível de nervuras de palmeira, revestidas por tiras de folíolos da mesma planta.

A vida social dos Bororo é estruturada na dualidade, onde duas metades exogâmicas se dividem em quatro clãs e que subdividem em outros sub-clãs.
Essa divisão criou um estoque de bens materiais e imateriais para cada segmento dessa sociedade. Nessa estrutura social, o Pariko, cuja confecção é de exclusividade masculina, aparece como um artefato identificador do povo Bororo e, conseqüentemente aos seus clãs e sub-clãs que produzem seu próprio Pariko, sendo vedado à manufatura de um determinado estilo ou modelo por outro clã ou sub-clã.
Percebe-se então, nesse universo social, que há dezenas de formas diferentes de manufaturar um Pariko, e neste comentário abordaremos um Pariko genérico sem associá-lo as metades, clãs ou sub-clãs. Seguindo novamente as descrições de Dorta (1982), temos:
Um Pariko pode ser dividido em quatro camadas, sendo:
• A primeira camada é composta de penas retrizes de araras –- podendo também ser inserida retriz de outras aves –- dispostas em semicirculo decrescente e com as pontas aparadas, onde recebem colagem de plumas brancas de pato selvagem. Dizem os Bororo que essa distribuição da armação decrescente das retrizes acompanha a distribuição natural como se encontram nas aves utilizadas. Alguns Parikos não tem as pontas cortadas e nem recebem a emplumação.
• A segunda camada é composta de penas de diversas aves, podendo ser retrizes ou tectrizes aparadas nas pontas e combinadas com outros elementos decorativos como lascas de taquara revestidas de plumas ou de acúleos de ouriço, estiletes de madeira ou nervuras de buriti.
• A terceira camada é formada de penas aparadas na sua parte terminal e recobre os cálamos das outras duas camadas. Alguns Parikos dispensam esta camada.
• A última parte a qual denominaremos de suporte-base é flexível e tem a forma de um arco e é confeccionado com nervuras de babaçu e revestidas com tiras de folíolo de babaçu.
• Os cordéis-atilho são manufaturados de seda de tucum e resinados para maior durabilidade
Como já foi dito, através de um Pariko, pode-se identificar o sub-clã, o clã e a metade do seu usuário. Na sociedade Bororo, essas divisões apropriam de seres espirituais, da fauna, da flora, de objetos minerais, dos mitos, dos pontos geográficos, de corpos celestes e chegando até as minúcias do universo existente.
Baseando nas pesquisas realizadas por Dorta, será feita uma síntese de algumas situações:
• A construção de um Pariko obedece à forma da flora e fauna aquática, tendo no peixe pacu um dos modelos, ou como das folhas-do-brejo e de outras folhas aquáticas. Essa circunstância é identificadora, apesar de não ser a principal.
• Das três camadas, a pesquisadora salienta que é a segunda camada, por possuir um maior numero de matéria-prima, que os códigos identificatórios têm mais realce.
• Também são significativas para a identificação de um Pariko, as cores das penas, suas distribuições e combinações com outros de seus elementos.
• Outro caráter identificador é a colação das plumas no ápice das tectrizes,devendo observar sua distribuição no seu perímetro.
Este é um resumo desse magnífico adorno, que dá ao seu possuidor, status de grandeza, poder e beleza.
Nesses trezentos anos de contato, os Bororo, por serem um dos povos indígenas vivos mais pesquisados, e apesar de toda adversidade vivida com as sociedades de origens européia, africana e asiática, que de uma forma ou de outra, tentaram e tentam esbulhar sua cultura: introduzindo como arma de guerra alambiques de aguardente dentro de suas aldeias, impondo o uso da roupa, coibindo o nomadismo, limitando seu território, suprimindo seu funeral, enfim, procurando desfigurar esses “temíveis e indomáveis Bororos, que infestam nossos sertões”, mesmo assim, eles ainda resistem.
O Pariko - símbolo do poder e da beleza, que adorna a cabeça de um índio Bororo é o segredo da resistência cultural desse povo.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBISETTI, C. & VENTURELLI, A, J. Enciclopédia Bororo. v.1. Campo Grande: Museu Regional Dom Bosco, 1962.

CAMPOS, Antonio Pires. “Breve Notícia Que Dá o Capitão Antonio Pires de Campos do Gentio Que Há na Derrota da Viagem das Minas do Cuyabá e Seu Recôncavo...” Revista Trimestral do Instituto Histórico,Geográfico e Ethnográfico do Brasil.Rio de Janeiro: 1826, p. 437-449.

DORTA, Sonia Ferraro. Pariko - Etnografia de um Artefato Plumário. Coleção do Museu Paulista (Etnologia), v.4. São Paulo.1982.

______. Plumária Bororo. in Ribeiro D. (ed.) e Ribeiro, B.G. (coord.) Suma Etnológica Brasileira, v.2, v.3, p. 227-236.

ENAWURÉU, M. B. Os Bororos na História do Centro Oeste Brasileiro 1716-1986. Campo Grande: CIMI-MT, 1987.

JESUS, Antonio João. Vídeo Bakáru. Cuiabá: UFMT/Museu Rondon, 1992.
______. Principais topônimos BORORO na microbacia do rio Cuiabá. Cuiabá,2004.

______. Coisas da Terra. Cuiabá: UFMT/Museu Rondon, 2005.

RIBEIRO, Berta G. Dicionário do artesanato indígena. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1989.

VIERTLER, R. B. As aldeias Bororo. Alguns aspectos de sua organização social. São Paulo: Edusp, 1976. Coleção Museu Paulista. S. Etnologia.

______ . Aroe J’aro. v. 2. Tese de doutorado. USP. São Paulo. 1982.

ZAGO, Lisandra. Etnoistória Bororo: Organização Sócio-Espacial. (Manuscrito) Dissertação de Mestrado. UFMS. Campo Grande. 2005.

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MERIREU
 

Depois da ocupação de Cuiabá nos anos de 1800 e irradiando por todo Mato Grosso, os Bororo, um povo indígena, na defesa do seu território, sucumbiram as armas de fogo das forças regulares responsáveis pela proteção de seus cidadãos, que começavam a colonizar os vastos sertões do Estado, em busca de ouro, de terras para o plantio e até mesmo, índios para escravizar. Depois de sucessivas batalhas o Governo da Província de Mato Grosso assina um tratado de paz com uma das “repartições” dos Bororo. Assim, passaram a sobreviver em parcelas reduzidas de seu imenso território. Esses desentendimentos ocorriam veladamente e os Bororo do rio São Lourenço, eram vigiados por forças regulares vinda de Cuiabá. Essa sobrevivência ficou insustentável e os padres salesianos foram designados para administrar as colônias militares, mas esse estado de animosidade só foi atenuado quando o Marechal Candido Mariano da Silva Rondon (descendente dos Bororo da região de Mimoso, pantanal do rio Cuiabá) colocou os Bororo sob a sua proteção. Depois de 1910, com a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), colocaram os índios do Brasil sob sua assistência, sendo substituído em 1967 pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Os Bororo se caracterizam pelo rico mosaico cultural, principalmente pelos seus adornos plumários e pelas práticas do seu ritual funerário, consistindo na inumação e exumação do corpo do morto, nesse período são executadas diversas cerimônias que podem durar até 45 dias e são vedadas às mulheres, as quais não podem ver os ossos brancos dos mortos. Depois desses longos dias, no tríduo final do funeral, os ossos são untados com pasta de urucu (Bixa orelana). O crânio é encamado com penas e plumas de arara, e recebe um kiogáro (adorno do occipício) onde realçam as longas penas caudais da arara vermelha. As pinturas do crânio, os mosaicos de plumas e o uso do kiogáro identificam a metade e o clã do morto. Nesses momentos a aldeia susta diversas atividades do cotidiano e todos os esforços são dirigidos para a realização do funeral. Depois do tríduo final o corpo que está acondicionado no "aróe j'áro (um cesto mortuário) será submergido numa lagoa-cemitério. Após essas cerimônias, o morto deverá ser vingado e um animal predador será abatido e suas plumas e/ou pele ficará sob a guarda da família enlutada. O ritual da vingança chama-se "móri". No dia dessa cerimônia os "kukuri" personagens bizarros, maltrapilhos e fedorentos, quase sempre são representados como “homens brancos” que com pênis enorme, rosto barbudo e deformado, com carabinas nas mãos, atacam a aldeia tentando roubar as mulheres e crianças não iniciadas. Também nesse período, os aíjes “montros que habitam as águas pútridas do pantanal” são representados por zunidores, que em rotação alcançam decibéis altíssimo, apavorando a aldeia, principalmente as mulheres e as crianças. Depois de alguns dias desses momentos de terror, a aldeia retorna a normalidade, e um dos parentes do morto ou um índio escolhido por essa família, terá a incumbência de vingar o morto, onde deverá abater um animal predador. Acreditam os Bororo que essa ação retoma o equilíbrio entre os homens e o todo natural. Hoje, ciente de que sem os animais predadores a natureza não tem mais beleza e significância. Assim, os Bororo recebem por doação do IBAMA, peles de onças, jacarés e de outros animais aprendidos de caçadores (autorizados pela justiça), e as penas e plumas que as aves naturalmente soltam, são guardadas e repassadas para os índios pela administração do Zoológico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Assim, essa cooperação possibilita a continuidade da cultura Bororo.

MERIREU · Cuiabá, MT 20/10/2011 20:46
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ayruman
 

O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”
(Cacique Seattle, 1855).


Bom estar aqui! Abraço fraterno. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 22/10/2011 08:55
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MERIREU
 

OBRIGADO AYRUMAN PELA LEMBRANÇA DESSA CARTA DO ÍNDIO AMERICANO ESCRITA EM 1855. INFELIZMENTE ELA CONTINUA ATUAL. POIS, NOSSA SOCIEDADE MOVIDA POR INSTINTO ESTÁ COM MUITA PRESSA. CONSCIENTE DO DEGELO NO NORTE E NO SUL DO PLANETA TERRA. E MUITO PIOR QUE O DEGELO POLAR É A NOSSA PRÒPRIA ESPÉCIE. OS ANIMAIS SELVAGENS PRESENTE ISSO, VOCÊ COMO "PESSOA HUMANA DA CHAPADA" VIVE MOMENTOS DESSE ENGRANDECIMENTO NATURAL, DA PAISAGEM ABERTA E CAPTURADA NAS PONTAS DOS PINCÉIS. INFELIZMENTE NÃO TEREMOS TEMPO PARA CONSERVA-LAS PARA NOSSOS FILHOS. POIS O ÓDIO QUE SENTIMOS PELOS SEMELHANTES PODERÁ ACONTECER OUTRA "HIROSHIMA (Ilha Grande) OU NAGASAKI(?) INFELIZMENTE, SÓ A ARTE EM TODAS ESSAS NUANCES POSSIBILITA MOMENTOS DE EXTREMA BELEZA. ENTÃO VAMOS PINTAR, ESCULPIR, ESCREVER E ATÉ SONHAR.

MERIREU · Cuiabá, MT 23/10/2011 14:18
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MERIREU
 

ESTÁ PERTO O FIM DO GRANDE SOFRIMENTO.
Kadagari um dos mais sábios bari Bororo (pajé) sempre alertava o seu povo:
“Está perto o fim do grande sofrimento.
Não podemos viver sem terra...
Sem buriti, sem babaçu e sem cerrado,
Não podemos viver sem peixe
E principalmente sem onça
Seria uma vida triste e sem cor

MERIREU · Cuiabá, MT 16/11/2011 06:58
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